Dia Mundial Dos Pobres

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17 de novembro de 2017

Era domingo. Uma a uma, as meninas saíam do banheiro com a roupa da missa. Ao todo, na casa, eram oito meninas, tímidas e risonhas. Depois, começaram a aparecer os meninos. Eram quatro. Mais ligeiros, os pequenos corriam de um lado para outro enquanto esperavam que elas se aprontassem. “Cuidado para não se sujarem”, repetia a mãe, Maria da Silva dos Santos, que mora na cidade de Jenipapo de Minas, na região mais pobre do Estado de Minas Gerais. Mãe e filhos iriam a pé para a celebração, numa caminhada de mais de uma hora. 

“A casa não é minha, mas o fazendeiro, que é o dono, deixa que vivamos aqui”, disse Maria. Seu olhar, com frequência, dirigia-se a uma das filhas que, a essa altura, se sentou no único banco de madeira, no meio na sala, onde estava também a mesinha com uma televisão. Havia mais três quartos pequenos, onde meninos e meninas se dividiam. O banheiro e a cozinha ficavam fora da casa. A mãe, orgulhosa, fez questão de mostrar os azulejos do banheiro, comprados pela filha mais velha, de 17 anos, que ali colocou o que ganhou com seu trabalho no Rio de Janeiro. Ela foi trabalhar em outro estado depois da morte do pai, quando a situação da família ficou ainda mais complicada e ela se viu obrigada a deixar os estudos para trabalhar. 

Em 2015, 40,2% da população brasileira compreendida entre zero e 14 anos  estava em situação de pobreza. O percentual corresponde a mais de 17,3 milhões de jovens pobres no Brasil. O levantamento foi feito pela Fundação Abrinq. São consideradas pobres as famílias com renda de até meio salário mínimo mensal per capita, ou seja, por pessoa. 

A pobreza extrema afetará, até o final de 2017, de 2,5 milhões a 3,6 milhões de pessoas no Brasil. A estimativa foi divulgada pelo Banco Mundial em fevereiro de 2017 e aponta um aumento real do número dos que vivem em situação de miséria, ou seja, daqueles que ganham menos de R$ 70,00 por mês. 

 

Dia Mundial dos Pobres 

Em todo o mundo, há realidades de pobreza e pessoas que não têm nem o mínimo necessário para viver. E, diferentemente do que se imagina, até mesmo em países considerados desenvolvidos, como a Itália ou a Irlanda, existem pessoas que morrem de fome e não conseguem manter-se sem ajuda do governo, de instituições de caridade ou de familiares e amigos.

Para recordar a situação de pobreza no mundo e chamar todos à solidariedade, o Papa Francisco instituiu, no fim do Ano da Misericórdia, em 20 de novembro de 2016, o Dia Mundial dos Pobres, que será celebrado pela primeira vez no domingo, 19 de novembro. 

Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo , no dia 8 de julho deste ano, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, recordou que essa data será comemorada como um momento de tomada de consciência. “Comemorar é trazer à memória, à recordação. Gostamos de comemorar coisas boas, como aniversários e outros momentos marcantes; comemoramos pessoas ilustres, heróis nacionais e seus feitos, artistas célebres e suas obras, fatos importantes, como a abolição da escravatura ou a independência do país. Comemorar pode ser motivo de festa, mas também ocasião para a tomada de consciência, ou para a advertência, para que fatos terríveis não sejam esquecidos e não voltem a se repetir. A comemoração ajuda a formar o senso ético e a cultura”, afirmou Dom Odilo em seu artigo. 

No texto, ele recorda, também, que só em São Paulo existem mais de 20 mil pessoas em situação de rua. “Conhecemos sua real situação, seus dramas e necessidades? E os numerosíssimos pobres das periferias e dos cortiços de nossas cidades, que formam cidades invisíveis e só aparecem nas estatísticas dos problemas urbanos, mas são esquecidos e descartados pela sociedade e pelas administrações públicas!”.

Mas, quem é o pobre? Dom Odilo continua afirmando que “pobres são aqueles que não possuem a renda ordinária suficiente para o sustento digno de si mesmos e de seus dependentes; por outro critério, são pobres aqueles que carecem de alimento suficiente, moradia minimamente digna, acesso aos cuidados da saúde, à educação, oportunidades de trabalho e renda e do reconhecimento de sua dignidade. Pobres, geralmente, não classificados como tais, são também os que vivem sem esperança, afundados nos vícios, sem afeto, sem lar, sem pátria, sem motivos para viver. Os pobres, entre nós, ainda são muitos, muitíssimos!”. 

Na mensagem do Papa Francisco, que pode ser lida na íntegra no site www.arquisp.org.br, o Pontífice afirma que houve momentos em que os cristãos não escutaram profundamente o apelo de Jesus de estar no meio dos pobres, mas que, por outro lado, o Espírito Santo fez surgir ao longo da história pessoas que ofereceram a própria vida no serviço aos pobres. “Dentre todos, destaca-se o exemplo de Francisco de Assis, que foi seguido por tantos outros homens e mulheres santos, ao longo dos séculos”, recordou o Papa. 

“Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Essas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a conversão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e serenidade de espírito, porque se toca com as mãos a carne de Cristo. Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia”, escreveu Francisco. 

O Pontífice procura ainda falar sobre os rostos da pobreza e como há diversos fatores associados a ela. “Conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E, todavia, esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da 
miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!” 

Por fim, o Papa convida a construir uma nova visão da vida e da sociedade, em que não haja tanta desigualdade e injustiça. “Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes setores da sociedade no mundo inteiro. Perante esse cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando, assim, o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade”, convida o Papa, na sua mensagem.

 

A força transformadora da acolhida

Anderson nasceu numa família simples e pobre, mas além disso, cresceu vendo o pai que estava constantemente alcoolizado. E por isso ele, ainda adolescente, viu-se seguindo os mesmos passos do pai. “Comecei a beber muito cedo e, aos 12 anos, já usava maconha. Depois, comecei a usar também a cocaína. Eu pensei que não ia ter mais jeito, foi quando eu conheci a Iara. Ela foi uma grande luz na minha vida.”

O testemunho de Anderson (de sobrenome não identificado) foi publicado no dia 28 de agosto de 2017 e pode ser visto no canal do YouTube “Drogas nunca mais”, mantido pela Missão Belém, comunidade católica que acolhe pessoas em situação de rua e as acompanha num caminho de recuperação do vício de substâncias químicas. 

“Durante uma noite muito fria em São Paulo, eu estava na rua e alguém me chamou para a Missão Belém. Lá, eu vi um clima de família e, naquela noite, numa das salas, eu encontrei meu pai com um Terço nas mãos. Foi um reencontro após quatro anos. Depois daquele dia, ele e eu conseguimos mudar de vida.” Hoje, Anderson e a esposa, Iara, são voluntários na Casa Guadalupe, da Missão Belém.

Irmã Cacilda da Silva Leste, 44, fundou, ao lado de Padre Gianpietro Carraro, a Missão Belém, comunidade católica que, desde 2005, desenvolve na cidade de São Paulo um trabalho junto “aos mais pobres dos pobres”, como eles mesmos afirmam. A missão começou quando eles passaram a visitar a região da Cracolândia, que por volta do ano 2000 era bem menor do que hoje e reunia aproximadamente 20 pessoas em situação de rua. Com a experiência na rua, eles perceberam que cerca de 99% das pessoas que perambulam por São Paulo, sobretudo pelo centro da cidade, têm problemas com álcool e drogas. 

“À princípio, a gente levava um café, algo para que eles comessem. Mas, com o tempo, percebemos que isso não bastava. Começamos a passar o tempo com eles na rua. Já chegamos a ficar um mês inteiro na rua. Pedíamos como eles, comíamos com eles, dormíamos na rua e, sobretudo, anunciávamos o Evangelho, porque acreditamos que a Boa Nova transforma”, afirmou Irmã Cacilda, que mora na Favela Nelson Cruz, na região do Belém.

Irmã Cacilda já acolheu muitas pessoas “em seu barraco”, como ela mesma disse. Como o movimento começou a aumentar e não era mais possível receber as pessoas, eles abriram mais uma casa, há cerca de quatro anos. A Casa Guadalupe fica a cinco minutos do Metrô Belém e tem vaga para 150 pessoas. Aberta 24 horas, a casa recebe pessoas que não têm aonde ir, além de doentes cujas famílias não são identificadas ou não têm condições para cuidar deles. 

“Esses dias, eu encontrei aqui perto [na Região Belém] um irmão da Cracolândia. Eu já o conhecia e sabia que ele, além do vício do crack, tem algum transtorno mental. Ele estava deitado, atravessado na calçada. Eu parei e vi que as pessoas nem olhavam e passavam quase pisando sobre ele. Então, eu parei, me abaixei e disse: “Vamos para casa?”. Ele abriu o olho, levantou rapidamente, pegou seu chinelo e me acompanhou. Então, eu o trouxe para essa nossa casa. Essa é uma situação cotidiana”, contou a Religiosa. 

Hoje, a Missão Belém conta com 160 casas no Brasil, 140 em São Paulo, 15 em Belém (PA) e uma no Paraná. Além disso, a Missão mantém casas no Haiti e uma na cidade de Lamezia Terme, na Itália, onde há um intenso movimento de imigrantes. “É uma casa para 25 pessoas, de 12 países que tem oito línguas diferentes e seis religiões diferentes”, contou Padre Gianpietro, em entrevista à reportagem.

Ele disse também que, desde 2005, a comunidade acolheu 60 mil pessoas individuais. Aproximadamente 40 mil começaram uma caminhada de recuperação de drogas e álcool e, dessas, 50% conseguiram se libertar do vício. “Podemos dizer que 20 mil pessoas vivem uma vida nova porque passaram pela Missão Belém”, comemorou o Padre.

Além da Missão Belém, muitas outras congregações religiosas e comunidades católicas mantêm, diariamente, serviços de acolhida e auxílio aos pobres, além de projetos educacionais e culturais voltados para crianças, adolescentes e jovens de baixa renda. É o caso dos Frades Menores Franciscanos que, no centro de São Paulo, distribuem comida diariamente para os pobres com o projeto “Chá do Padre”; ou a Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, que mantém projetos sociais no Jardim Elisa Maria, na periferia de São Paulo. 

 

Ações na Arquidiocese de São Paulo 

Dom Odilo escreveu aos bispos, padres, religiosos e leigos da Arquidiocese de São Paulo pedindo que, em todas as comunidades e organizações, a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial dos Pobres seja refletida e divulgada, além da organização de alguma ação concreta. 

A Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese, com vários grupos, como a Missão Belém, a Aliança de Misericórdia, a Toca de Assis e a Fraternidade Voz dos Pobres estará na Praça da Sé desde o sábado,18, em acolhimento às pessoas em situação de rua. Acontecerá uma adoração contínua e, às 22h, a celebração da missa. No domingo, 19, haverá um café da manhã com as pessoas na rua e atendimento a elas. Às 11h, todos participarão de missa na Catedral da Sé.

Em outra ação, no sábado, 18, a partir das 14h, haverá a missão Franciscana, com visita aos moradores de rua e às ocupações da região central. A missão será realizada pelas lideranças do Convento de São Francisco e da Pastoral da Criança. 

No domingo, 19, haverá arrecadação de cestas básicas, que serão doadas às famílias atendidas pela Pastoral da Criança, e a comunidade franciscana almoçará junto às pessoas em situação de rua que são atendidas diariamente no “Chá do Padre”.
 

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“Não amemos com palavras, mas com obras”

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14 de novembro de 2017

Inspirado pelo Ano Santo da Misericórdia, o Papa Francisco instituiu, em 21 de novembro de 2016, por meio de uma carta apostólica, o “Dia Mundial dos Pobres”.

A festa será celebrada no penúltimo domingo do ano litúrgico.

“Intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário, se deve celebrar em toda a Igreja, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres”, escreveu Francisco, no documento ‘Misericórdia e mísera’, que encerrou o Jubileu.

O Pontífice declarou ser essa a “mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo”, para isso propõe-se a reflexão sobre o compromisso de ajudar os pobres

O I Dia Mundial dos Pobres será celebrado, neste ano de 2017, em 19 de novembro, com o tema: “Não amemos com palavras, mas com obras”

Em 13 de junho, Francisco escreveu uma mensagem para a primeira celebração da festividade:

 

MENSAGEM DO SANTO PADRE PARA O I DIA MUNDIAL DOS POBRES

         (XXXIII Domingo do Tempo Comum – 19 de novembro de 2017)

                   Tema: «Não amemos com palavras, mas com obras»

 

1. «Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo «discípulo amado» até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos. O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus, e João recorda-a com clareza. Assenta sobre duas colunas mestras: o primeiro a amar foi Deus (cf. 1 Jo 4, 10.19); e amou dando-Se totalmente, incluindo a própria vida (cf. 1 Jo 3, 16).

Um amor assim não pode ficar sem resposta. Apesar de ser dado de maneira unilateral, isto é, sem pedir nada em troca, ele abrasa de tal forma o coração, que toda e qualquer pessoa se sente levada a retribuí-lo, não obstante as suas limitações e pecados. Isto é possível, se a graça de Deus, a sua caridade misericordiosa, for acolhida no nosso coração a pontos de mover a nossa vontade e os nossos afetos para o amor ao próprio Deus e ao próximo. Deste modo a misericórdia, que brota por assim dizer do coração da Trindade, pode chegar a pôr em movimento a nossa vida e gerar compaixão e obras de misericórdia em prol dos irmãos e irmãs que se encontram em necessidade.

2. «Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o» (Sal 34/33, 7). A Igreja compreendeu, desde sempre, a importância de tal invocação. Possuímos um grande testemunho já nas primeiras páginas do Atos dos Apóstolos, quando Pedro pede para se escolher sete homens «cheios do Espírito e de sabedoria» (6, 3), que assumam o serviço de assistência aos pobres. Este é, sem dúvida, um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Tudo isto foi possível, por ela ter compreendido que a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).

«Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação. O evangelista Lucas – o autor sagrado que deu mais espaço à misericórdia do que qualquer outro – não está a fazer retórica, quando descreve a prática da partilha na primeira comunidade. Antes pelo contrário, com a sua narração, pretende falar aos fiéis de todas as gerações (e, por conseguinte, também à nossa), procurando sustentá-los no seu testemunho e incentivá-los à ação concreta a favor dos mais necessitados. E o mesmo ensinamento é dado, com igual convicção, pelo apóstolo Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 5-6.14-17).

 

3. Contudo, houve momentos em que os cristãos não escutaram profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade mundana. Mas o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem o olhar fixo no essencial. Com efeito, fez surgir homens e mulheres que, de vários modos, ofereceram a sua vida ao serviço dos pobres. Nestes dois mil anos, quantas páginas de história foram escritas por cristãos que, com toda a simplicidade e humildade, serviram os seus irmãos mais pobres, animados por uma generosa fantasia da caridade!

Dentre todos, destaca-se o exemplo de Francisco de Assis, que foi seguido por tantos outros homens e mulheres santos, ao longo dos séculos. Não se contentou com abraçar e dar esmola aos leprosos, mas decidiu ir a Gúbio para estar junto com eles. Ele mesmo identificou neste encontro a viragem da sua conversão: «Quando estava nos meus pecados, parecia-me deveras insuportável ver os leprosos. E o próprio Senhor levou-me para o meio deles e usei de misericórdia para com eles. E, ao afastar-me deles, aquilo que antes me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo» (Test 1-3: FF 110). Este testemunho mostra a força transformadora da caridade e o estilo de vida dos cristãos.

Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a conversão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e serenidade de espírito, porque se toca palpavelmente a carne de Cristo. Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. O Corpo de Cristo, repartido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis. Continuam a ressoar de grande atualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: «Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez» (Hom. in Matthaeum, 50, 3: PG 58).

Portanto somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.

4. Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de tudo, uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminhar atrás d’Ele e com Ele: um caminho que conduz à bem-aventurança do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3; Lc 6, 20). Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo. Mais, é a pobreza que cria as condições para assumir livremente as responsabilidades pessoais e sociais, não obstante as próprias limitações, confiando na proximidade de Deus e vivendo apoiados pela sua graça. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afetos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2545).

Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida.

5. Sabemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, para se poder identificar claramente a pobreza. E, todavia, esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos vincados pelo sofrimento, a marginalização, a opressão, a violência, as torturas e a prisão, pela guerra, a privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e o analfabetismo, pela emergência sanitária e a falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e a escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!

Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.

Todos estes pobres – como gostava de dizer o Beato Paulo VI – pertencem à Igreja por «direito evangélico» (Discurso de abertura na II Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II, 29/IX/1963) e obrigam à opção fundamental por eles. Por isso, benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem «se» nem «mas», nem «talvez»: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus.

6. No termo do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o Dia Mundial dos Pobres, para que as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carenciados. Quero que, aos outros Dias Mundiais instituídos pelos meus Antecessores e sendo já tradição na vida das nossas comunidades, se acrescente este, que completa o conjunto de tais Dias com um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predileção de Jesus pelos pobres.

Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.

7. Desejo que, na semana anterior ao Dia Mundial dos Pobres – que este ano será no dia 19 de novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum –, as comunidades cristãs se empenhem na criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta. Poderão ainda convidar os pobres e os voluntários para participarem, juntos, na Eucaristia deste domingo, de modo que, no domingo seguinte, a celebração da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo resulte ainda mais autêntica. Na verdade, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.

Neste domingo, se viverem no nosso bairro pobres que buscam proteção e ajuda, aproximemo-nos deles: será um momento propício para encontrar o Deus que buscamos. Como ensina a Sagrada Escritura (cf. Gn 18, 3-5; Heb 13, 2), acolhamo-los como hóspedes privilegiados à nossa mesa; poderão ser mestres, que nos ajudam a viver de maneira mais coerente a fé. Com a sua confiança e a disponibilidade para aceitar ajuda, mostram-nos, de forma sóbria e muitas vezes feliz, como é decisivo vivermos do essencial e abandonarmo-nos à providência do Pai.

8. Na base das múltiplas iniciativas concretas que se poderão realizar neste Dia, esteja sempre a oração. Não esqueçamos que o Pai Nosso é a oração dos pobres. De facto, o pedido do pão exprime o abandono a Deus nas necessidades primárias da nossa vida. Tudo o que Jesus nos ensinou com esta oração exprime e recolhe o grito de quem sofre pela precariedade da existência e a falta do necessário. Aos discípulos que Lhe pediam para os ensinar a rezar, Jesus respondeu com as palavras dos pobres que se dirigem ao único Pai, em quem todos se reconhecem como irmãos. O Pai Nosso é uma oração que se exprime no plural: o pão que se pede é «nosso», e isto implica partilha, comparticipação e responsabilidade comum. Nesta oração, todos reconhecemos a exigência de superar qualquer forma de egoísmo, para termos acesso à alegria do acolhimento recíproco.

 

9. Aos irmãos bispos, aos sacerdotes, aos diáconos – que, por vocação, têm a missão de apoiar os pobres –, às pessoas consagradas, às associações, aos movimentos e ao vasto mundo do voluntariado, peço que se comprometam para que, com este Dia Mundial dos Pobres, se instaure uma tradição que seja contribuição concreta para a evangelização no mundo contemporâneo.

Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.

 

Vaticano, Memória de Santo António de Lisboa,

13 de junho de 2017.

Franciscus

(Fontes: Canção Nova, A12 e Rádio Vaticano)

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