‘A evangelização tem o grande desafio de reaproximar as pessoas’

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27 de março de 2019

Popularmente conhecido como Dunga, Francisco José dos Santos, 52, natural de Pindamonhangaba (SP), é missionário, cantor, compositor, pregador, apresentador e, também, escritor. Famoso por ser idealizador do projeto PHN (Por hoje não vou mais pecar), ele é considerado um dos evangelizadores mais influentes da juventude católica.

Em entrevista ao O SÃO PAULO e à rádio 9 de Julho, Dunga falou sobre sua trajetória como missionário e também apresentou seu novo livro “Acredite! Cinco fases para ter sucesso e ser um vencedor”, lançado pela editora Academia. Confira a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO – COMO VOCÊ SENTIU O CHAMADO PARA ESSA MISSÃO?

Dunga – Eu me converti em 1983. Na época, eu tinha 18 anos. Eu era usuário de droga, um jovem muito ativo, jogava futebol, vôlei e basquete, tocava em banda marcial, fazia teatro. Porém, a droga me pegou e me escravizou durante cinco anos. Graças a Deus, pela intercessão da minha mãe e do meu pai, pela presença da minha família e da Renovação Carismática Católica, consegui, como que por um milagre, libertar-me das drogas e, dali para frente, eu entendi que Deus me queria falando para a juventude.

 

E COMO VOCÊ COMEÇOU A EVANGELIZAR?

Onde me convidavam eu estava lá, dizendo daquilo que Deus tinha feito na minha vida. De 1983 até hoje, eu não parei, e foram vários projetos. Eu fiquei de 1983 a 1991 na minha cidade, em Pindamonhangaba, servindo ali: montei a minha banda chamada Carisma, animava os grupos de oração e as missas de domingo. Até que em 1991, eu decidi investir tudo que eu era em uma vida missionária. Naquela época, eu já estava casado, tinha um filho, um bom emprego. Vendi tudo que tinha, tornei-me missionário e fui para a Canção Nova, que, naquela época, era uma comunidade pequena, não tinha a expressão que tem hoje. Lá, eu fiquei durante 27 anos. Em 1998, Deus me deu a inspiração de ensinar a juventude a dizer não ao pecado.

Eu visitava cadeias públicas, presídios de segurança máxima, casas de apoio a pessoas com o vírus HIV em fase terminal, casas de recuperação. O que eu mais vi nesses lugares foram jovens pagando um alto preço por um único pecado cometido, às vezes, pela primeira vez. Aí surgiu o “Por hoje não”. Eu convivia muito com as pessoas dos Alcoólicos Anônimos (AA), que tinham o “só por hoje”, mas eu queria abranger um pouco mais as situações do pecado, então “por hoje eu não vou mais pecar”. O PHN se tornou uns dois maiores eventos católicos para jovens do mundo, chegando a reunir 200 mil pessoas na Canção Nova. E, hoje, aquilo que era para a juventude passou a ser para os adultos também.

 

QUAIS OS DESAFIOS ATUAIS DA COMUNICAÇÃO COM A JUVENTUDE?

Hoje, o mundo vive os extremos. Nós temos os extremos dentro das comunidades, das famílias, da Igreja. Pessoas que pensam muito diferente umas das outras e nem sempre estão dispostas a dialogar. Nós estamos no mundo digital, em que as pessoas teclam mais do que falam, abreviam todas as palavras, relacionam-se muito com quem está longe e pouco com quem está perto. Hoje, a evangelização tem o grande desafio de reaproximar as pessoas, fazer com que as pessoas de novo se relacionem, que criem laços verdadeiros e profundos.

Vivemos em meio a uma pluralidade de pensamentos, de posicionamentos que, quando nós vamos pregar, já temos que ter cuidado com o que estamos falando, senão podemos ser processados. O grande desafio nosso como evangelizadores é reaproximar essas pessoas e fazer com que percebam as diferenças, que não são defeitos, não são coisas ruins, e sim riquezas. Eu me preocupo muito mais em aproximar pessoas do que em evangelizar. Primeiro, nós temos que cuidar desse humano que está adoecido para depois jogar a carga espiritual que ele também precisa para sobreviver.

 

PODE FALAR UM POUCO SOBRE OS CINCO PASSOS PARA O SUCESSO?

Às vezes, as pessoas têm medo da palavra “sucesso” e a interpretam mal. Mas é dessa palavra que vem a palavra “sucessão”, “suceder-se”. Toda pessoa que obtém sucesso e se torna uma pessoa vencedora nos deixa uma herança, um legado que vai ser sucedido por alguém. Eu quero deixar para o meu filho muitas coisas, quero ser sucedido por alguém. Eu fiz questão de colocar esse subtítulo justamente para atrair pessoas que nem mesmo na Igreja estão, mas que se interessam pelo livro, pelo subtítulo. Eu prego isso há dez anos. Eu fui observando as pessoas que estavam mais próximas a mim, como aquele que considero meu pai, o Monsenhor Jonas Abib [fundador da Canção Nova] e tantas outras que eu interpretava como pessoas de êxito, vencedoras. Analisando essas pessoas, percebi que elas tinham passado por cinco fases que eu numerei e renomeei como: “zombado”, “respeitado”, “considerado”, “admirado” e “referência”. Eu sempre dediquei uma palestra ou pregação para falar desse tema e eu cheguei às cinco fases.

 

PARA VOCÊ, O QUE É SER UM VENCEDOR?

Ser vencedor não tem nada a ver com dinheiro. Há muitas pessoas que têm dinheiro e não são vencedoras, porque ser vencedor engloba tudo. O livro vai explicar as cinco fases – cinco qualidades e cinco ferramentas. Para a primeira fase, ser zombado, a qualidade é saber ouvir; a ferramenta, a paciência. Na segunda fase, a pessoa passa a ser respeitada: A qualidade é dar exemplo, e a ferramenta é a firmeza. Na terceira fase, passa a ser considerada: A qualidade é elogiar pessoas, e a ferramenta é a alegria. Como faz falta gente alegre no nosso meio de trabalho! Na quarta fase, ela passa a ser admirada: A qualidade é o relacionamento, e a ferramenta é amar. Na quinta fase, ela se tornou uma referência, passou a liderar, e a ferramenta é a humildade. O livro vai trazer isso de forma bem detalhada, com exemplos e citações bíblicas.

 

QUAL MENSAGEM VOCÊ DEIXA PARA QUEM QUER SER SANTO NO DIA A DIA?

A maior alegria de Deus é ver acontecer na vida dos seus filhos aquilo que Ele sonhou para cada um deles. Além disso, a felicidade não é o lugar aonde se chega, mas a forma como se vai. Eu sou um homem feliz, pois a forma com que escolhi ir é respeitando as pessoas, amando meus filhos, fazendo amigos, escolhendo o certo, pois pecar significa errar o alvo. Então, eu não quero errar o alvo ou errar o mínimo possível. E lembre-se: Acredite! [seu novo livro] E uma ideia é aquilo que ainda ninguém pensou para resolver o meu problema, por isso quanto mais ideias tivermos, quanto mais inspirações, quanto mais transformamos em realidade os sonhos que tivermos, como José do Egito e José, pai adotivo de Jesus, quanto mais ideias tivermos, mais problemas da sociedade nós estaremos resolvendo.

(Colaborou: Jenniffer Silva)

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‘Nos cantos litúrgicos, as palavras com as quais rezamos vêm do próprio Deus’

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21 de março de 2019

Ele já compôs para os cantores italianos Mina e Andrea Bocelli, é o responsável pela trilha sonora de filmes como “Francisco e Clara” ou “Pompeia” e autor de cantos conhecidos e traduzidos em diferentes idiomas, sobretudo cantos litúrgicos.

A discografia do Monsenhor Frisina é composta também por um álbum com canções gravadas em Português e um hino inédito em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

Monsenhor Frisina está no Brasil durante este mês para uma agenda de conferências, celebrações e concertos. Durante o Congresso de Música Sacra (leia mais sobre o Congresso, a biografia do Monsenhor e o CD na página 12), ele concedeu uma entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO e falou sobre suas referências na música clássica e quais são as principais características da música litúrgica.

À Arquidiocese de São Paulo Monsenhor Marco Frisina desejou “que seja uma arquidiocese a caminho da animação litúrgica e musical de maneira convicta, pois a música é essencial para que o povo de Deus cresça na fé”

 

O SÃO PAULO – QUAL A PRINCIPAL DIFERENÇA ENTRE MÚSICA SACRA E MÚSICA LITÚRGICA?

Monsenhor Marco Frisina – Não se pode confundir música sacra e música litúrgica. Nós cantamos música litúrgica durante as celebrações eucarísticas. Nem todas as músicas sacras e canções religiosas podem ser incluídas no rito da celebração da Santa Missa. Elas são importantes e contribuem para a evangelização, mas devem ser cantadas em outro momento, não na liturgia.

O canto gregoriano é o canto que a Igreja produziu desde sempre e é interessante sobretudo porque foram criados trabalhos grandiosos, com características eternas. Em primeiro lugar, vem o texto, que é sempre retirado da Palavra de Deus. Os textos originais dos cantos gregorianos são sempre trechos da Palavra de Deus ou elaborados de outra maneira pela Teologia.

 

PODEMOS DIZER, ENTÃO, QUE O TEXTO É MAIS IMPORTANTE QUE A MÚSICA OU MELODIA NOS CANTOS LITÚRGICOS?

Sim. Há um primado do texto sobre a música, isso porque um canto quaresmal é diferente de um canto pascal ou natalino. Na liturgia, isso é indiscutível, porque nos cantos litúrgicos as palavras com as quais rezamos vêm do próprio Deus. E, assim, é necessário respeitar o primado do texto sobre a música. Podemos dizer que a música é importante, mas ela sempre presta um serviço ao texto.

 

COMO SE FORMA UM CORO E QUAL FUNÇÃO TEM?

Em primeiro lugar, não se trata de um coro de teatro. O coro de uma paróquia, comunidade ou diocese nada mais é do que a parte da assembleia que canta melhor. Aqueles que estudaram e que quiserem cantar podem entrar no coro, mas ele não está ali para fazer um espetáculo ou simplesmente um belo serviço. O coro está a serviço da assembleia e é, inclusive, uma parte da assembleia. Pode-se dizer que a assembleia dá ao coro a possibilidade de cantar. Mas todos cantam durante a liturgia, pois não há cristãos da série A e da série B... Não há divisões entre a assembleia. Contudo, é claro que a assembleia não pode cantar tudo quanto canta o coro, porque muitas vezes não consegue, devido a uma necessária preparação.

Aqueles que cantam melhor no coro são, por sua vez, os solistas. Entre estes, há um especial que é o salmista, aquele que proclama a Palavra de Deus cantando. Depois, há o padre, o presidente da celebração, que também deve cantar em momentos específicos da celebração, sobretudo aos domingos e em dias festivos.

 

PODEMOS FALAR DA MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE EVANGELIZAÇÃO?

O canto é uma escola de comunhão em que se aprende não somente a cantar, mas a crescer humanamente. Quando cantamos, prestamos atenção também às inimizades, às invejas. O coro deve ser o lugar em que todos estão felizes por estar juntos, não o contrário.

O canto litúrgico tem uma grande força de evangelização. Na Idade Média, as pessoas não sabiam ler nem escrever e viviam em muita pobreza, mas podiam aos domingos ouvir belíssimos cantos na igreja. Muitas vezes, não compreendiam as palavras pronunciadas em Latim, mas saíam edificadas. A música sacra tem um grande poder espiritual. No ano passado, encontrei-me com pessoas que não eram batizadas, mas amavam estar no coro da paróquia para cantar, pois a música as tocava e ali estavam sendo evangelizadas. Pensem em quando os bárbaros chegaram a Roma e, ao adentrarem as igrejas, ouviam músicas maravilhosas. Ali foram evangelizados.

A música litúrgica abre muitas possibilidades. Se toda paróquia tivesse música sacra, toda a comunidade se edificaria.

 

A VIA DA BELEZA É TAMBÉM UMA FORMA DE EVANGELIZAR...

Sem dúvida. Quem não sabia ler, podia ver os mosaicos em que estavam contadas histórias bíblicas nas igrejas, e ver a beleza e a grandeza de Deus. A evangelização por meio da via da beleza foi sempre um ponto forte da Igreja. A Igreja sempre viu a beleza como algo importantíssimo. No que se refere à música, hoje, podemos dizer que estamos atrasados, porque parecemos ter medo de fazer da nossa música algo que possa ser proposto a todos.

 

COMO FOI A EXPERIÊNCIA DE COMPOR EM PORTUGUÊS?

É a primeira vez que eu o fiz e foi muito belo, também porque o Hino a Nossa Senhora Aparecida é um ato de amor à Virgem Maria. Clayton Dias [diretor do Coro da Arquidiocese de Campinas (SP)] me ajudou para que eu tivesse a segurança com todos os acentos e particularidades do idioma. Foi uma experiência muito bela, porque cada língua tem sua alma e, portanto, quando sou convidado a escrever em outra língua, faço-o frequentemente e é sempre muito bom. Podemos dizer que as línguas não só têm uma alma, mas têm uma expressividade única, e esse é um modo para entrar no coração brasileiro. Para mim, o Português do Brasil, ainda mais que o Português de Portugal, tem uma doçura própria, uma cadência muito interessante.

 

QUAIS SÃO SUAS REFERÊNCIAS NO QUE DIZ RESPEITO À MÚSICA CLÁSSICA? O senhor TEM ALGUM COMPOSITOR PREFERIDO?

Não sei se tenho um compositor de música clássica, mas considero alguns grandiosos, como Mozart e Bach, que, para mim, desde sempre, são referências absolutas. Depois, há muitos outros, também do século XX, mas talvez esses dois sejam aqueles nos quais eu me apoio, inclusive para as composições de música sacra.

 

E ENTRE OS PADRES DA IGREJA?

Certamente Santo Agostinho é aquele que, mais do que todos, refletiu sobre a música. Há também grandes poetas cristãos, como Gregório Nazianzeno e todos aqueles padres que tiveram uma relação com a música e, sobretudo, com a poesia.

 

COMO É SEU PROCESSO CRIATIVO PARA COMPOR AS MÚSICAS? E SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA, HÁ UMA RECEITA DE COMO ELA DEVE SER FEITA?

Algumas vezes, as músicas que componho nascem espontaneamente, mas, na maioria das vezes, é necessário tempo, um tempo de “gestação”. Raramente, as composições nascem subitamente. Não há uma receita, mas algumas características indispensáveis no que se refere à música litúrgica: ela deve ser simples, expressiva, aderente ao texto e facilmente memorizável, para que o povo possa cantar

 

EXISTE ALGUMA MUDANÇA NA MÚSICA SACRA A PARTIR DO PONTIFICADO DE FRANCISCO?

Acredito que não haja uma mudança ou um efeito, mas, seguramente, Francisco está apontando o dedo sempre mais para a questão da reforma litúrgica conciliar e isso mostra, sobretudo, a importância da participação da assembleia. E é muito bonito e importante que o Papa insista sempre mais nesse argumento, para que possamos avançar no que se refere ao canto como uma oração do povo.

 

QUAL A OPINIÃO DO SENHOR SOBRE PADRES QUE SÃO CANTORES E FICAM CONHECIDOS POR SUA MÚSICA?

Eu escrevo a música, nunca a cantei. Mas acredito que Espírito Santo é original e pode suscitar essas experiências. Importante que não se perca de vista o sentido do ministério sacerdotal e que a música seja feita como se fosse uma pregação, ou seja, como se fosse uma conferência catequética ou teológica. O padre deve fazer a música sempre tendo em vista a evangelização e, como anúncio da própria fé deve buscar sempre o equilíbrio.

 

LEIA TAMBÉM: Monsenhor Marco Frisina conduz congresso sobre música sacra em São Paulo

 

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Por trás de uma cultura de morte, há uma arrogância de criar um mundo perfeito

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20 de julho de 2018

Francisco Razzo é graduado pela Faculdade São Bento, mestre em Filosofia pela PUC-SP, professor e palestrante. Em entrevista à radio 9 de Julho, ele contou sobre a inspiração para seu livro “Contra o Aborto”, que apresenta os desafios de tratar do tema no Brasil e fala sobre a cultura que permeia esse debate atualmente. Razzo é ainda autor do livro “A imaginação totalitária” também pela editora Record. Leia asseguir a integra da entrevista.

 

O SÃO PAULO - QUAL A COLABORAÇÃO FILOSÓFICA QUE O SENHOR PRETENDE DEIXAR COM O SEU LIVRO?

Francisco Razzo - Primeiro, é importante destacar que o título “Contra o Aborto”, na verdade, é uma defesa da vida. O título segue a ideia que eu estou participando de um debate público e tomando uma posição. Esse livro não tem como público-alvo as pessoas que passam pelo drama moral do aborto, nem, muito menos, para julgar quem pensa em fazer o aborto. É um livro de compreensão de um tema que está na ordem do dia. E é um livro que diz: “se você é a favor do aborto, eu sou contra, por esses motivos.”

Eu pretendo, nesse sentido, apresentar as razões que me fazem ser contra o aborto e analisar o posicionamento de quem é a favor. Encontro, assim, dois tipos de argumentos: aqueles que apresentam boas razões, e que merecem uma análise filosófica cuidadosa para se estabelecer um diálogo público, baseado na racionalidade; e aqueles que apresentam ataques ofensivos, retóricos. Esse posicionamento não pode ser acatado, é autoritário. Quem debate precisa de um nível de maturidade, de virtude pública que não pode só ser na reação agressiva. Umas das coisas mais importantes para mim é superar esses níveis de fala. Por isso, eu escrevi um livro.

 

O SENHOR RECEBEU CRÍTICAS POR SER UM HOMEM FALANDO SOBRE O ASSUNTO DO ABORTO?

Muitas críticas, mas críticas que considero ruins. É o tipo de crítica de quem não lê o livro. As pessoas que leram o livro, mesmo as que são favoráveis ao aborto, apresentaram críticas que são muito boas. Essas pessoas que dizem para mim que eu não posso falar de aborto porque sou homem têm como objetivo neutralizar o seu oponente. Mas quando você fornece justificativas para crenças, você não faz isso baseado na sua cor, na sua natureza social, no seu posicionamento político… você faz isso porque tem capacidade racional. O que faz com que nos tornemos seres que se comunicam não é o nosso traço, a nossa disposição social, étnica, financeira, econômica ou religiosa. O que nos determina é a capacidade de podermos justificar o que pensamos.

 

O SENHOR FALOU SOBRE AS CRÍTICAS DE PESSOAS QUE BUSCAM SILENCIAR SEUS OPONENTES, MAIS DO QUE DEBATER IDEIAS. CONSEGUE VER, NO BRASIL, ALGUM TIPO DE ABERTURA PARA O DIÁLOGO SOBRE O ABORTO?

Começo respondendo em um nível pessoal, pois o meu exemplo é um bom exemplo para essa pergunta. Eu, durante muito tempo, fui a favor do aborto! Não só a favor, como ajudei pessoas a abortarem. Eu, porém, mudei de opinião: fui estudar, fui conversar com pessoas, fui ler livros e percebi que eu estava filosoficamente e moralmente profundamente errado. Eu precisei rever minhas opiniões.

Em um nível cultural, existem excelentes obras favoráveis e contrárias ao aborto. Eu mostro posicionamentos de filósofos a favor do aborto, que apresentam suas razões. Mostro também filósofos contrários ao aborto, que estão produzindo, que estão debatendo e que não são só ativistas, militantes, mas fazem um processo intelectual importante. Não é só embate, é, também, debate. Este, na minha opinião, é muito rico, só que infelizmente fica muito reservado à academia, fica preso aos muros da universidade e não vai para o público.

 

O PRINCIPAL ARGUMENTO SOBRE O ABORTO SE FIA DO DEBATE ACERCA DO INÍCIO DA VIDA. NA OPINIÃO DO SENHOR, QUANDO ESTA COMEÇA?

 

Nós precisamos fazer uma boa distinção entre vida e pessoa. Quando falamos em vida, encontramos dois níveis de discussão: o biológico e o filosófico. O biológico é o conceito de vida como Homo sapiens; a vida como aqueles elementos que estão relacionados às leis da natureza. Quando falamos de vida no sentido antropológico, estamos pensando em vida como valor. A vida é digna pelo quanto ela vale. Nesse sentido, a vida da pessoa possui um valor insubstituível, um valor que eu não posso trocar por nada.

E quando eu digo pessoa, eu estou me referindo a algo que contém dignidade em si. Ser digno significa que essa entidade chamada de pessoa participa de uma comunidade, de uma comunhão. Eu olho para a minha filha como pessoa, para a minha esposa como pessoa, para os meus amigos como pessoas. Isso significa que nós entramos em uma comunidade, entramos em um reino de comunhão em que cada membro desse reino tem valor insubstituível, que cada membro desse reino tem valor acima de qualquer outro valor e ninguém vale mais que o outro.

A minha pergunta é: o embrião a partir de quando deve ser considerado pessoa? Do ponto de vista jurídico, a partir da concepção. O direito entendeu que a pessoa já na concepção merece uma garantia. Só que o direito, às vezes, está submetido à política. Temos, então, de nos perguntar: existe um momento que antecede a decisão política? Que momento é esse?

No meu entender, não consigo contemplar outro momento, senão a concepção. É preciso mostrar que uma mulher que toma consciência da sua gravidez, toma consciência de não outra coisa de estar grávida de um filho. Ela não está gravida de nenhum objeto, a não ser seu filho. Nenhuma mulher pergunta para si quando está grávida: "estou grávida do quê?" Não, não há um vácuo entre a concepção e qualquer outro momento.

 

ESTE, ENTÃO, É O CENTRO DO DEBATE QUE SE FAZ SOBRE ESSA QUESTÃO DO ABORTO: SE O EMBRIÃO É UMA PESSOA, ESSA PESSOA TEM UM DIREITO NATURAL À VIDA, E NÃO PODE SER DESTITUÍDA DESSE DIREITO?

 

É claro! Ninguém pode decretar, por qualquer tipo de esforço, por qualquer tipo de poder, que uma pessoa deixe de ser pessoa. Todas as vezes que isso aconteceu na história, acabou em tragédia: a escravidão, por exemplo, tratava os escravos como um objeto, uma coisa.

O termo técnico que se usa é justamente esse: natureza; é um direito que está na natureza humana. O que se tenta fazer atualmente é negar esse direito, motivado pelo calor do embate. Agora, se o direito é seu, não porque alguém lhe deu, porque é essencialmente seu, quem poderia tirá-lo? Toda aquele que quiser tirá-lo está cometendo um ato tirânico, um ato de barbárie

 

QUANDO AS PESSOAS ATENTAM CONTRA O DIREITO À VIDA, O SENHOR ENTENDE COMO ALGO ARTICULADO, UMA CULTURA DA MORTE, OU COMO UMA MERA PERVERSÃO DA SOCIEDADE?

Até podemos usar a ideia de cultura da morte. Mas é preciso registrar o termo que, pra mim, é mais importante, porque enverniza essa cultura da morte, que é o conceito de eugenia. Existe hoje uma cultura excessivamente humanista, que visa ser capaz de realizar o que é perfeito, o que é bonito, o que é saudável, a partir dos esforços humanos, como se nós tivéssemos a capacidade de trazer ao mundo a perfeição, e tudo aquilo que não é perfeito, que macula ou que suja o mundo, deve ser eliminado.

O que a eugenia tentar criar é um reino, de beleza, de paz, de segurança, de perfeição, pelos esforços humanos. Eu vou dar um exemplo, para ilustrar melhor: como se resolveu o problema da síndrome de Down nos países nórdicos? Foi encontrada uma cura? Não, você não precisa criar uma cura, mas somente eliminar esse tipo de pessoa… Não há mais pessoas com síndrome de Down lá porque abortaram todas.

Então, você percebe que há uma lógica, não no sentido de “quero matar essas pessoas”, mas de “quero melhorar a sociedade”. Nenhum abortista pensa que o aborto é um negócio de morte, porque eles não entendem que o embrião é uma pessoa. Contudo, você percebe que todos os argumentos são argumentos que supõem que dada pessoa vai sofrer, que vai ser infeliz; o que essa lógica mostra é a tentativa de controle de uma vida perfeita.

E isso é muito importante, porque essa cultura da morte, no fundo, se ampara numa prepotência de uma cultura da perfeição, que ao projetar um mundo perfeito, dentro da nossa imaginação, gera uma cultura justamente de morte. Você percebe, então, que há uma lógica perigosíssima. Há, por traz de uma cultura de morte, uma arrogância humana de criar um mundo perfeito, em que todo mundo é feliz, e vive em um mundo magico e sem sofrimento.

 

 

É QUASE A TENTAÇÃO ORIGINAL: “SEREIS COMO DEUSES!”, QUE A SERPENTE DISSE PARA EVA...

Exatamente! Para mim, do ponto de vista teológico, é um exemplo prático de um tipo de poder, oferecido por Satanás, que dá a capacidade de controlar quem merece ou não merece viver. Como assim, quem merece ou não merece viver? Isso é um absurdo! Só porque a pessoa tem um defeito físico, só porque uma mulher vai ter uma dificuldade em criar o seu filho… Gente, pelo amor de Deus! As pessoas há 40 anos se viravam bem. Se antes a vida era uma bênção para as pessoas, hoje ela se tornou motivo de vergonha. Então, a cultura da morte, na verdade, é a cultura da arrogância, da prepotência, é a cultura que, para projetar um reino de paz, entrega um reino de morte.

 

 

 

 

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‘Não se pode viver em sociedade se formos intolerantes’

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10 de julho de 2018

Rafael Ruiz, professor adjunto de História da América da Universidade Federal de São Paulo, acaba de publicar o livro “Alienação e Intolerância”, pela editora Cultor de Livros. Nesse livro, faz uma análise do pensamento moderno, de seus avanços e contradições, sobretudo a partir da tensão entre a esfera pública e a privada. Ao fazer isso, ilumina uma série de problemas, que muitas vezes parecem obscuros, da sociedade contemporânea e permite compreender melhor o papel e os desafios da religião na atualidade. A seguir, a entrevista dada por ele ao jornal O SÃO PAULO.

 

O SÃO PAULO - Logo no início de seu livro, o senhor retoma um comentário do articulista João Pereira Coutinho, para quem “os cristãos falam uma linguagem que o ‘espírito do tempo’ não entende”. Joseph Ratzinger, em seu livro “Introdução ao Cristianismo” (São Paulo, Loyola), usa uma metáfora semelhante, ao comparar os cristãos a um palhaço que avisa a cidade que um incêndio se aproxima, mas não é levado a sério, até que o fogo chegue e destrua tudo. Pode nos explicar melhor o que essas comparações significam para os cristãos de hoje?

Rafael Ruiz - Acho que podemos falar ainda de outras metáforas mais conhecidas, pelo menos no mundo cristão: o sal para os alimentos, a levedura para o pão, a semente jogada a esmo nos caminhos...Penso que todas elas estão querendo dar a dimensão da mensagem cristã. Nem todos irão aceitá-la, entendê-la ou vivê-la. Mas penso também que isso não é algo próprio de hoje, mas de todos os tempos. Sempre foi assim e imagino que será assim. O que me parece que não faz sentido nenhum é receber e aceitar a mensagem cristã e isolar-se num canto para poder vivê-la melhor. Se se pensa mesmo nessas metáforas, então, o que eu concluo é que se trata de assumir que poucos, ou como diria Henrique V, na tragédia de Shakespeare, momentos antes da batalha de Azincourt (eram três franceses para um inglês), “nós poucos, poucos e felizes” acabarão por fermentar toda a massa. Quando? Não faço a mínima ideia. Acho que isso corresponde a Deus, que é o senhor do tempo. Aos cristãos nos corresponde viver de acordo com essa mensagem no mundo que nos toca viver e em convivência harmoniosa e pacífica com todos aqueles que não gostam ou não aceitam ou simplesmente não querem ouvir falar dessa mensagem. Todos temos o direito de viver de acordo com a nossa consciência. E acredito que o Espírito sopra onde quer e quando quer.

 

As duas palavras usadas no título do livro, Alienação e intolerância, são muito usadas nos tempos de hoje, mas uma é pouco entendida (alienação) e outra frequentemente é usada de forma esquemática (intolerância). O que o senhor entende por alienação e por que a escolheu para estar no título de sua obra?

O que quero dizer com “alienação”, e mais concretamente com “alienação da consciência”, é um estilo de vida que me parece ser extremamente comum na sociedade atual: em lugar de pensar e de refletir sobre as consequências dos nossos atos, e de ver se o que queremos fazer está certo ou errado, preferimos “terceirizar” a nossa decisão e, em lugar de decidir pessoalmente, acabamos fazendo o que diz a lei, ou uma pesquisa de opinião, ou uma emissora de tv ou algum parâmetro ou norma de conduta escrita em algum Código profissional...Preferimos que haja alguma instância ou sistema ou modelo que nos diga o que devemos fazer. E o fazemos sem pensar o mais mínimo naquilo que estamos fazendo. E, dessa forma, ficamos tranquilos, sem problemas de consciência, em paz...Ou seja, ficamos alienados.

 

E a intolerância? Como o senhor a vê e por que a escolheu?

Parece-me que é um dos maiores males da sociedade atual. Não se pode viver em sociedade se formos intolerantes. Em algum momento, as relações sociais ficarão tão tensionadas, que, provavelmente, em lugar de uma sociedade, o que teremos, no máximo, será uma série de bandos amontoados tentando se impor pela força uns sobre os outros.

Escolhi essa palavra porque me parece que, de maneira geral, ela sempre aparece associada ao fenômeno “religioso” e, nesse sentido, sempre que se utiliza ou se ouve esse termo pensa-se, erradamente, em algum fundamentalista (esse é o termo que se usa) que pode ser muçulmano, judeu, cristão...E o que eu quis destacar é que há um tipo específico de intolerância que foi sendo construído ao longo dos tempos modernos e que tem uma origem civil, política, acadêmica...ou seja, não religiosa. E sobre essa intolerância fala-se muito pouco. E existe. E é bem forte. É sobre isso que fala o artigo de Coutinho e acredito que muitas pessoas tenham experiência desse tipo de intolerância na sua vida diária: pelo fato de ter uma crença religiosa, a pessoa é desqualificada, hostilizada e, muitas vezes, impedida até de manifestar em público a sua opinião com o argumento de que “como é alguém que acredita numa religião, não pode falar, portanto, na esfera pública”. Acho que aí está uma das grandes doenças atuais e que atrapalha a vida em sociedade. Se, de fato, vivemos numa democracia, não vejo por que alguém não possa falar o que pensa pelo simples fato de ser alguém que acredita. E que, pelo contrário, só se admita como “ser pensante” e “ativo” na vida social e política de um País apenas aqueles que não creem em nada.

 

Nossa organização social moderna se estrutura, em grande parte, na distinção entre os espaços público e privado. Como entender a tensão e a relação entre esses dois âmbitos?

E acho ótimo! Parece-me que essa separação foi uma das grandes realizações da Modernidade. Se isso não tivesse acontecido, acredito que não poderíamos falar de uma “cultura ocidental”. Contudo, acho que, ao longo de todo o processo histórico dos tempos modernos, foi-se perdendo o sentido que essa separação tinha na origem (estamos falando dos séculos XVI e XVII). Naqueles séculos, essa separação era vista como algo imbricado e, ao mesmo tempo, tensionado. Em que sentido? No sentido de que o homem é um ser pessoal e unitário. Os atos humanos são atos de um “eu” pessoal e, portanto, muitas vezes haverá uma tensão, um conflito interior e exterior, entre o que diz a lei e o que diz a minha consciência, entre o que todos fazem e o que eu acho que é bom fazer.... E essa tensão é boa. Ela não pode ser eliminada. Essa tensão é precisamente a base e a sustentação da democracia, porque essa tensão nos encaminha para o debate. É por isso que a sociedade deve estar sempre aberta ao debate. De todos e não apenas de alguns. Tem de ser um debate inclusivo e não excludente. É o debate democrático que tem poder e capacidade para moderar a tensão. Quando isso não é assim, ou quando não foi assim na História, quando ou o Estado ou a Igreja quis impor um único modo de pensar e de atuar, chegamos, muitas vezes, a situações injustas e desumanas. A tensão entre o que é público, externo, social e político, e aquilo que é pessoal, privado e íntimo, tem de ser preservada e, até agora, o Ocidente encontrou na democracia a fórmula para que fosse preservada. Quando não é assim, e é sobre isso que alerto no meu livro, estamos eliminando ou, se não, asfixiando a ideia de Ocidente.

 

Muitos autores consideram que a mentalidade do brasileiro, em particular, caracteriza-se pela noção do público como o espaço de sujeição às leis e responsabilidade do Estado, enquanto o privado seria o espaço da liberdade individual e da responsabilidade pessoal. O senhor concorda com essa imagem?

Concordo com que essa é a imagem criada, mas não me parece que seja especificamente do brasileiro. Acho que é a imagem corriqueira de todo aquele que vive dentro do modelo do Estado liberal contemporâneo. Os ingleses são assim, os norte-americanos também, os franceses, espanhóis... Não acho que seja peculiaridade brasileira. Se concordo? Não. Não concordo. Parece-me que tudo isso começou com Locke quando aconselhou nas suas obras a distinguir na conduta humana dois âmbitos: o individual, que seria o da liberdade de consciência e que deveria ser vivido apenas dentro do âmbito privado e doméstico; e o âmbito público, em que se deveria seguir sempre a lei, mesmo injusta. Penso que está aqui a origem de muitas neuroses modernas e daquilo que chamo de alienação da consciência. É uma falácia opor liberdade ou consciência contra lei civil ou penal. A maior parte das pessoas, pelo menos aquelas que poderíamos chamar de “pessoas comuns”, se não roubam ou não matam não é porque estejam sendo obrigadas a isso por força da lei penal, mas porque simplesmente, na sua consciência mais íntima, não querem ter esse tipo de conduta.

 

No livro, o senhor fala do relativismo atual e da mentalidade marcada pela “pós-verdade”, uma situação na qual nenhuma afirmação pode ser considerada como mais justa ou condizente com a realidade que as demais. Nesse contexto, como situar a afirmação evangélica “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32)?

Penso que é como se fosse dito em chinês. Embora possa fazer sentido, não temos mais instrumentos que nos permitam entendê-lo. Volto à pergunta inicial e ao artigo do Jorge Pereira Coutinho. É estranho e incompreensível, em muitos lugares onde isso não deveria soar nem ser estranho, como o campo político e o mundo acadêmico, falar de verdade e, mais ainda, afirmar que é precisamente a verdade aquilo que nos tornará livres. Parece-me que a questão se coloca precisamente porque, hoje, estamos pouco dispostos a debater, a conversar e a dialogar. Contentamo-nos com clichês, frases feitas e “twitadas”. Dessa forma, fica muito difícil entender uma frase como essa e mais difícil ainda tentar explicá-la.

 

No final do livro, o senhor explica que o escreveu pensando nos muitos que sempre lhe perguntam “como pode alguém que tem um credo religioso ter a pretensão de dar a sua opinião na vida pública?”.  Para entender sua resposta, sem dúvida, é necessário ler o livro, mas poderia nos dar uma síntese breve do que responder a essas pessoas?

Como disse, penso que uma das maiores conquistas da Modernidade foi construir a separação tensionada entre o público e o privado e, ao mesmo tempo, encontrar o sistema democrático como forma de tornar possível que essa tensão, em lugar de desembocar em conflito, possa seguir as trilhas de uma convivência moderada, temperada e pacífica. O próprio Habermas que, durante tanto tempo, defendeu a ideia de um espaço público sem interferência alguma do elemento religioso, mudou de opinião e tornou pública essa opinião precisamente no debate aberto com o Papa Bento XVI. O que me estranha é que, curiosamente, se antes se falava tanto do Habermas para não permitir o ingresso de pessoas religiosas no debate público, por quê agora não se fala tanto dele? Parece-me que essas pessoas que têm um credo religioso, em primeiro lugar, não pensam todos da mesma forma e, em segundo lugar, para ter “carta de autorização” para entrar na esfera pública devem usar argumentos explicitados e justificados de forma racional e não de forma religiosa nem sobrenatural. Também me parece uma falácia, que muitas vezes vivi na pele, dizer que o que uma pessoa crente fala é sempre uma “fala religiosa”. Acho uma falácia cômoda e excludente. Primeiro, é preciso deixar falar, depois é preciso ouvir, mais tarde é preciso debater e, então, e só então, se poderá concluir o conteúdo do que se está falando. E, finalmente, e é nisso que consiste a democracia: poder votar, escolhendo dentre as diferentes opiniões e propostas, aquela que cada um considerar mais conveniente, mais justa ou mais adequada para aquela sociedade e aquele momento.

 

 

Serviço:

Título: Alienação e Intolerância.

Autor: Rafael Ruiz

Editora: Cultor de Livros

Páginas: 154

Formato: 14 x 21 cm

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‘Todos necessitamos dar e receber hospitalidade, mas somente Deus é o anfitrião’

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20 de junho de 2018

Durante sua rápida visita a São Paulo, na quinta-feira, 14, o Cardeal Luis Antonio Tagle, Arcebispo de Manila, nas Filipinas, e Presidente da Caritas Internationalis, concedeu entrevista ao O SÃO PAULO, na qual falou sobre a “cultura do encontro” diante dos desafios da migração, tema do Seminário Internacional de Migrações e Refúgio, realizado pela Cáritas Brasileira, entre os dias 12 e 14, em Brasília (DF), do qual participou. 

Cardeal Tagle destacou que o serviço da caridade promovido pela Igreja deve ser motivado pelo amor que nasce da experiência de fé no próprio Cristo e que a atuação da Cáritas precisa ir para além dos centros diocesanos e penetrar as comunidades paroquiais. Confira a íntegra da entrevista a seguir.

 

O SÃO PAULO - QUAIS AS QUESTÕES QUE MAIS LHE CHAMAM A ATENÇÃO EM RELAÇÃO À MIGRAÇÃO?

Cardeal Luis Antonio Tagle - Com mais de 65 milhões de pessoas movendo-se em todo o planeta, porque é tão difícil encontrá-los? Como podemos perder a oportunidade de encontrar um imigrante forçado ou um refugiado quando há milhões deles? Se contarmos as vítimas do tráfico ou contrabando de pessoas e as novas formas de escravidão, como podemos deixar escapar a oportunidade de encontrar ao menos um deles? Como podem ser invisíveis milhões de pessoas em contínuo movimento? É aqui que se faz necessário refletir sobre a cultura do encontro.

Em setembro de 2017, a Caritas Internationalis , como federação, inaugurou a campanha “Compartilhe a Viagem”, a partir da proposta do Papa Francisco de desenvolver uma cultura do encontro pessoal com os migrantes e refugiados, porque há uma tendência de encarar a migração apenas como um conceito. No entanto, tratase de um fenômeno que diz respeito ao ser humano. Cada migrante é uma pessoa que busca braços abertos, ouvidos que escutem sua história, pessoas próximas, irmãos e irmãs que estão prontos para dividir seu caminho.

 

COMO SE DESENVOLVE A CAMPANHA?

“Compartilhe a Viagem” se inspira nos princípios orientadores do Papa Francisco: acolher os migrantes e refugiados, melhorando canais seguros e legais para eles e assegurando que sua decisão de emigrar seja voluntária; protegê-los, assegurando sua dignidade e seus direitos, especialmente o direito à vida; promover seu desenvolvimento humano integral, para que ninguém seja deixado para trás ou seja excluído; e integrá-los na sociedade, possibilitando que compartilhem seus valores e sua cultura enquanto aprendem os da comunidade que os acolhe.

 

NO SEMINÁRIO EM BRASÍLIA, O SENHOR AFIRMOU QUE ‘TODOS NÓS, DESDE QUE NASCEMOS, SOMOS MIGRANTES NO MUNDO’. POR QUÊ?

É uma interpretação bíblica e ao mesmo tempo existencial. Todos nós estamos em viagem rumo à pátria definitiva. Nenhuma pessoa pode dizer a outra “eu sou proprietário desta terra e você é estrangeiro”. Todos nós estamos em viagem, só o Senhor Deus é o “proprietário” do mundo enquanto nós estamos em caminho. Todos necessitamos dar e receber hospitalidade, mas somente Deus é o anfitrião... A Igreja com os migrantes deve exercer a hospitalidade de Deus.

Jesus, foi um refugiado no Egito com Maria e José, e, inclusive, não teve onde dormir durante seu ministério. Ele se identifica com os migrantes: “Fui um estrangeiro e me acolhestes” (Mt 25,35). A atitude em relação aos estrangeiros pode impactar em seu destino para sempre. No entanto, o temor ao estranho prevalece frequentemente. Como podemos superar este medo do outro? A menos que tenhamos uma experiência de encontro pessoal com o outro, nenhum diálogo funcionará. O temor nos cega para a humanidade do outro... Seria uma grande ajuda reconhecer no outro a mesma debilidade, fragilidade e impotência que nós mesmos experimentamos.

 

O PAPA FRANCISCO AFIRMA QUE A IGREJA NÃO É UMA ONG. EM QUE A CÁRITAS SE DISTINGUE DAS DEMAIS INSTITUIÇÕES HUMANITÁRIAS?

Antes de mais nada, é preciso dizer que as organizações não governamentais (ONGs) fazem um bem enorme. Porém, sua motivação é humanística. Sem dúvida isso é bom. No entanto, a Cáritas tem uma motivação de fé, de amor, que tem um nome: Jesus Cristo. A fé e a caridade são combinadas. A fé dá esperança não somente para as pessoas às quais a Caritas serve, mas também para o pessoal que atua na Caritas. Nesse sentido, é muito importante a formação humana e espiritual de todos os que trabalham na Cáritas. Um dos objetivos estratégicos da Caritas Internationalis nos últimos quatro anos é a formação do coração do pessoal da entidade, pois há uma tendência e até um perigo de se tornar apenas uma instituição de serviço humanitário. Todos os dias, seus agentes se deparam com a pobreza e a miséria. Sem a fé, há a tentação de perder a esperança, de serem pessoas aborrecidas ou desesperadas. Ou, por exemplo, a relação com os migrantes e refugiados atinge um nível de transação legal. Mas quando há fé, há sempre um encontro pessoal, há uma vivacidade que nutre essa relação. Tanto o Papa [Emérito] Bento XVI quanto o Papa Francisco afirmam que a Cáritas é a expressão do coração da Igreja, que nasce do coração de Jesus. Por isso, é importante formar as pessoas para a caridade.

 

EM SUAS VISITAS, O SENHOR TEM ENFATIZADO A IMPORTÂNCIA DE EQUIPES PAROQUIAIS DA CÁRITAS. POR QUÊ?

Para organizar e coordenar a caridade na Igreja particular, deve haver uma estrutura diocesana. Isso é muito importante. Porém, o serviço da caridade também deve penetrar as comunidades paroquiais. A Igreja local é constituída das paróquias e de suas pequenas comunidades de base. Existe a tendência de as paróquias passarem a responsabilidade do serviço da caridade apenas para um centro diocesano. Quando, por exemplo, uma pessoa pobre vai à paróquia buscar auxílio, é orientada a procurar o centro diocesano. Ou quando surge alguém com a necessidade de ser ouvida, dizem a ela: “Vá a esse local central que há uma mulher que escuta e orienta as pessoas”. A paróquia é o lugar do primeiro contato com o pobre. Por isso, é preciso formar uma pequena equipe paroquial como uma espécie de “pronto-socorro”, para as pessoas serem atendidas em suas primeiras necessidades e depois serem encaminhadas para um atendimento mais específico, desenvolvido pelo órgão diocesano.

 

QUAL AS SUAS IMPRESSÕES SOBRE O TRABALHO REALIZADO PELA CÁRITAS NO BRASIL?

Eu tive muito pouco contato com o trabalho concreto da Cáritas no Brasil. Mas, em Brasília, pude ouvir os testemunhos e partilhas de muitos daqueles que desenvolvem o serviço da caridade, bem como seus desafios. Eu fiquei muito encorajado ao ver e ouvir a bondade do povo da Cáritas Brasileira, e sua disponibilidade em fazer algo de bom para as pessoas mais necessitadas, especialmente pelos migrantes e refugiados, como aqui em São Paulo. Eu fiquei muito tocado por esse testemunho. Por isso, encorajo a todos a andarem avante e a não desanimarem. O caminho é longo, com tantos desafios, mas é a via justa.

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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Amparo Maternal é referência de parto normal em São Paulo

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17 de junho de 2018

Parto humanizado, violência obstétrica e mortalidade materna são temas que fazem parte de um dos momentos mais fortes e, ao mesmo tempo, delicados da vida humana: o nascimento. Diante disso, há 78 anos, o Amparo Maternal foi fundado com o apoio do Arcebispo de São Paulo à época, Dom José Gaspar D’Affonseca e Silva. 

O Amparo Maternal realiza uma média de 480 partos por mês – sendo 73% deles partos normais –, todos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Gerido pela Associação Congregação de Santa Catarina (ACSC) desde 2008, o Amparo é considerado modelo de boas práticas de humanização pela Secretaria Municipal de Saúde.

Além de dar prioridade ao parto natural, o Amparo se diferencia de outras maternidades ao permitir, por exemplo, que a parturiente permaneça com um acompanhante em período integral, desde sua admissão até sua alta e a do bebê, e não apenas nos horários de visitas, podendo optar pelo auxílio de doulas da maternidade. Conta, também, com o Centro de Acolhida, um abrigo provisório para gestantes em situação de vulnerabilidade e risco social, estendendo-se ao período pós-parto e ao filho recémnascido. O atendimento do Centro de Acolhida é realizado por meio do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), com foco no trabalho social individualizado que favorece o processo de reconstrução de vida das atendidas e sua reinserção social, familiar e comunitária. 

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Karena Castro, coordenadora de Enfermagem do Amparo Maternal, falou sobre como o Amparo privilegia o tratamento humanizado e acolhe as necessidades de suas pacientes, de modo que elas possam ser respeitadas durante todo o tempo que permanecem na instituição.

 

O SÃO PAULO – COMO É A ROTINA DO AMPARO MATERNAL NO QUE SE REFERE AO PARTO NORMAL?

Karena Castro – Nós realizamos uma média de 20 de partos a cada 24 horas. Em abril, fizemos 621 partos, sendo que 450 foram partos normais, e 95% dos partos normais são feitos por enfermeiras obstetras. É uma coisa muito arraigada no Amparo. De longa data, o enfermeiro faz o parto normal e os médicos acompanham. A gente tenta dividir o máximo as responsabilidades. Muitas mulheres que chegam ao Amparo têm medo do parto normal. Então, procuramos acalmá- -las e explicar todo o processo. Somos uma maternidade que atende 100% via SUS, nosso foco é o parto normal, com gestantes de baixo risco, que não têm diabetes, colesterol alto ou hipertensão. Mas acontece de pacientes hipertensas ou com diabetes controladas procurarem a maternidade e, quando é possível, nós as atendemos também. Temos uma UTI neonatal com dez leitos, mas não receberíamos a mulher com outras comorbidades, devido aos riscos para ela mesma e a ausência de uma UTI para adultos.

 

QUEM PODE RECORRER AO AMPARO? COMO FUNCIONA O CENTRO DE ACOLHIDA?

A partir do momento que a gravidez é identificada, e a mulher não tem para aonde ir, ela pode morar no Amparo Maternal. E depois do parto, a mulher pode ficar até seis meses no Amparo. No Centro de Acolhida, elas têm aulas de Língua Portuguesa, maquiagem e artesanato. 

 

E SOBRE A QUESTÃO DA ACOLHIDA DE MULHERES IMIGRANTES E REFUGIADAS?

Acredito que a acolhida deste perfil de mulheres têm crescido nos últimos seis anos. Elas são encaminhadas por ONG’s, pela Caritas Arquidiocesana e de outros centros de acolhidas. São, na maioria, angolanas, africanas e haitianas. A cultura delas é diferente, e elas já vêm para a maternidade com essa cultura do parto normal. 

 

COMO AS MULHERES CHEGAM AO AMPARO?

Nem sempre a mulher chega consciente dos benefícios do parto normal. Às vezes, temos que conversar com ela, explicar como funciona. Mas temos um número alto de mulheres que chega aqui com seu plano de parto. Então, trabalhamos tentando nivelar as expectativas dela com a nossa realidade, e temos tido sucesso nisso. 

 

COMO VOCÊ VÊ O ALTO NÚMERO DE CESÁREAS PRATICADO NO BRASIL?

O meio sempre fomentou esta via de parto e nós fazemos parte deste meio, então é um ambiente que se retroalimenta e acabou se tornando normal. Porém, estudos mostram que não é tão normal assim. Os benefícios do parto natural, fisiológico, quando tem de ser este tipo de parto, são imensos, porque o corpo avisa para o cérebro que está na hora de o bebê nascer e isso fortalece o útero e prepara a amamentação. O que a gente vê hoje são cesáreas agendadas, em que o corpo não se prepara, e que têm muitos riscos, principalmente para o bebê. Porque o bebê, quando está pronto mesmo, indica a hora de nascer. A cesárea é uma cirurgia inteligente, que veio para salvar vidas. Mas está sendo feita de forma imprudente. Por comodidade, conforto do profissional, da família, ou porque a mulher em trabalho de parto acaba ocupando um leito no qual já poderiam ter acontecido muitas cesáreas. 

 

ESTAMOS NUM TEMPO DE MUDANÇA DE MENTALIDADE QUANTO A ISSO?

Sim. Há um movimento grande no Brasil com organizações que têm feito uma forte campanha para diminuir o número de cesáreas nas instituições privadas, porque sabem dos riscos dessa prática não baseada em evidências. Mas a mulher também precisa querer, ela precisa buscar essa informação. Infelizmente, aqui no Brasil, precisamos brigar pelo simples e pelo óbvio. Muitas pessoas acham que parto normal e o que aconteceu com a Kate Middleton [o terceiro filho de Kate Middleton e do príncipe William que nasceu no dia 23 de abril], que teve o seu terceiro filho de parto normal e saiu do hospital sete horas depois, é algo primitivo, enquanto muitas outras acham que é evolução. Acredito que devemos pensar no meio do caminho, num meio termo. Aqui no hospital, conversamos muito sobre a alta oportuna. Porque engessar a alta em 48 horas? Se a paciente já conhece a maternidade e tem consciência dos procedimentos, pode ser um procedimento desnecessário.
 

COMO AS MULHERES - E AS FAMÍLIAS – PODEM LUTAR PELOS SEUS DIREITOS NA HORA DO PARTO?

A mulher é independente até certo ponto. Quando uma mulher entra numa instituição, ela tem de confiar nas pessoas que estão ali. No caso do parto humanizado, tudo é feito com respeito. Respeitar o corpo, aceitar sua escolha, entender a instituição e a equipe. Quanto mais informações ela puder ter durante a gestação, mas vai garantir um parto conforme o desejado. E que a prioridade dela seja a família, o nascimento, não a via de parto. A mulher deve procurar o profissional que acredite nisso, porque se ele não acreditar, não adianta brigar por isso.

 

E SOBRE A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA, QUANDO ELA ACONTECE?

Violência obstétrica é real e trabalhamos para que isso não seja uma prática no nosso hospital. Acredito que, de maneira geral, os atendimentos melhoraram muito. Não ouvir a família e não nivelar a expectativa da mulher diante da realidade é violência. Tudo o que não é respeitoso, pode ser um tipo de violência. É necessário respeitar a mulher, o bebê e a família sempre. 

 

As opiniões expressas na seção “Com a palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

 

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‘Crise ecológica vem de uma crise em nossos corações’

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06 de junho de 2018

Um dos maiores aliados do Papa Francisco na promoção de iniciativas internacionais que defendam o meio ambiente é o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu. Ele é o principal líder de 300 milhões de cristãos da Igreja Ortodoxa, o “primeiro entre pares”, amplamente reconhecido, inclusive pelos católicos. As duas Igrejas estão divididas desde o histórico cisma de 1054, que separou Oriente e Ocidente. Mas com o passar dos anos se aproximam cada vez mais, especialmente desde o encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras, em 1964.

As nossas Igrejas são chamadas a oferecer modelos alternativos de vida baseados numa abordagem do ser humano em sua relação com Deus, como uma criatura que anseia a vida eterna, vivendo em fraternidade e amor com o outro”, afirmou Sua Santidade Bartolomeu, em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO.

A reportagem procurou o Patriarcado Ecumênico cerca de um mês antes da visita de Bartolomeu a Roma, no fim de maio, pedindo que ele respondesse a algumas perguntas por escrito. Após o encontro com Papa Francisco e uma palestra na Fundação Centesimus Annus-Pro Pontefice, o Patriarca Ecumênico respondeu.

Desde que Francisco assumiu o trono do apóstolo Pedro, uma intensa relação se criou com o Patriarca Bartolomeu, tradicionalmente reconhecido como sucessor do apóstolo André. A defesa do meio ambiente como criação divina, que o Papa Francisco eternizou na encíclica Laudato Si’, há tempos já era um tema levantado e discutido mundialmente por Bartolomeu.

“A crise ecológica é uma questão que afeta o mundo natural, mas decorre de uma crise em nossos corações”, analisa o Patriarca Ecumênico. “É fácil culpar os outros pela destruição do planeta, mas também devemos nos perguntar se a criação é realmente mais segura nas mãos dos cristãos”, alertou. “Devemos perceber que, como membros da criação, não somos o centro do mundo.”

Unidos nessa e em outras empreitadas, juntos os dois deram vários passos na direção da completa reunião, desejada e sonhada, entre Oriente e Ocidente. O Patriarca de 78 anos almeja, em seu ministério, fazer o mundo voltar a perceber que precisa de Deus: “Se você quer uma resposta sobre minhas preocupações, eu me concentraria na seguinte questão fundamental: como as pessoas podem transformar o mundo tornando-se discípulas de Cristo.”

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO - SANTIDADE, O SENHOR VISITOU ROMA E O PAPA HÁ POUCOS DIAS. E DEU UMA PALESTRA SOBRE O TEMA “UMA AGENDA CRISTÃ COMUM PARA O BEM COMUM”. QUAIS SÃO OS FRUTOS DESSA VISITA?

 

Patriarca Ecumênico Bartolomeu – Cada encontro com o Papa Francisco é uma nova oportunidade para voltarmos a registrar as boas relações entre nossas duas Igrejas e nossa vontade de continuar o caminho para a unidade. É o encontro de dois irmãos, os sucessores de Pedro e André, o Primeiro-Chamado, e cada evento desse tipo simboliza nossa herança comum, mas, acima de tudo, a responsabilidade comum que compartilhamos como Pastores para o futuro do Cristianismo.

No título do nosso discurso, nos deparamos com a palavra “comum” duas vezes. A própria Igreja é o lugar do “comum”, um evento de partilha, de amor e abertura, uma “comunhão de relações”. Hoje, a humanidade está enfrentando uma crise séria nos seus resultados sociais em escala global. Como afirmamos em nosso discurso, “esta crise mundial é uma crise de solidariedade”, um processo contínuo de “desolidarização”, que coloca em risco o próprio futuro da humanidade. É nossa profunda convicção de que o futuro da humanidade está relacionado com a resistência contra esta crise e o estabelecimento de uma “cultura de solidariedade”.

As nossas Igrejas são chamadas a oferecer modelos alternativos de vida baseados numa abordagem do ser humano em sua relação com Deus, como uma criatura que anseia a vida eterna, vivendo em fraternidade e amor com o outro. Deus está presente onde quer que exista amor e solidariedade. Nossas Igrejas resistem à injustiça e a todos os poderes que minam a coesão social, apresentando o conteúdo social do Evangelho. É crença comum do Papa Francisco e nossa que os problemas ecológicos atuais devem ser abordados em conexão com a crise social. É este espírito da nossa Mensagem Comum com o Papa Francisco no Dia Mundial da Criação (1º de setembro de 2018).

Gostaríamos, ainda, de expressar nossa alegria pela oportunidade que tivemos, mais uma vez, de nos encontrarmos com o Papa Emérito Bento XVI, a quem nos associamos em conhecimento de longo prazo e apreciação mútua. Foi um prazer compartilharmos nossos pensamentos sobre vários assuntos espirituais.

 

PENSANDO NAQUELES QUE NÃO ESTÃO TÃO FAMILIARIZADOS COM A IGREJA ORTODOXA, QUAIS SÃO SUAS PRINCIPAIS PREOCUPAÇÕES HOJE, COMO PATRIARCA ECUMÊNICO E PASTOR DE UMA IGREJA TÃO IMPORTANTE?

 

Inquestionavelmente, uma das nossas principais preocupações é que a humanidade experimente a magnificência do Cristianismo e a transformação que nosso Senhor Jesus Cristo trouxe ao universo. Um equívoco comum entre nossos irmãos é pensar que essa magnificência se refere apenas à arte ou à cultura.

Frequentemente, buscam a suprema magnificência da fé cristã na [basílica de] Santa Sophia e no Monastério Chora em Constantinopla [cidade renomeada Istambul pelos turcos], ou em Ravenna, nas pinturas de Giotto, na moderna e maravilhosa catedral de Oscar Niemeyer, no Brasil, com seus anjos suspensos no alto, ou na música bizantina e em melodias gregorianas. Mas o esplendor do Cristianismo não se encontra apenas aí. O Cristianismo é representado pelos incontáveis atos de amor, bondade, compaixão, perdão e sacrifício das pessoas – atos motivados pelo desejo de viver como discípulos de nosso Senhor Jesus Cristo.

Um verdadeiro cristão é alguém que dá sua comida a uma pessoa faminta; alguém que oferece água a um irmão que está com sede; alguém que abriga um estranho; alguém que veste um ser humano nu; alguém que visita uma pessoa presa; alguém que cuida de um homem doente; alguém que tem uma coisa boa a dizer sobre todas as pessoas, mesmo aquelas que discordam dele; alguém que ajuda aqueles que o odeiam; alguém que não julga os outros; alguém que ama seus adversários.

Tais atos de caridade, embora difíceis de cumprir, são uma parte natural do ser cristão. Tais discípulos de Cristo são “o sal da terra”, como nosso Senhor ensina no Santo Evangelho. A glória do Cristianismo são os frutos surpreendentes da fé em Cristo, o coração da bondade amorosa, o amor e a solidariedade para com os nossos semelhantes e a certeza do destino eterno de todos.

Se você quer uma resposta sobre minhas preocupações, eu me concentraria na seguinte questão fundamental: como as pessoas podem transformar o mundo tornando-se discípulas de Cristo.

 

O QUE INSPIRA AS AÇÕES DOS CRISTÃOS ORTODOXOS E CATÓLICOS NO CAMINHO À UNIDADE?

 

Com os cristãos ocidentais, compartilhamos um caminho comum durante o primeiro milênio da história do Cristianismo. Nossas Igrejas provaram a amarga tristeza da separação por muitos séculos, após o cisma de 1054. O cisma foi uma experiência dolorosa para os dois lados, independentemente de quem tenha responsabilidade por isso.

Tudo mudou depois do histórico encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecumênico Atenágoras, em Jerusalém, em 1964, que levou ao levantamento comum dos anátemas [condenação] entre as duas Igrejas. Seguindo o exemplo de nossos predecessores e comemorando aquele momento único para nossas duas Igrejas, 50 anos depois daquele encontro histórico, nos reunimos novamente em 2014 com nosso irmão Papa Francisco em Jerusalém e outras partes da Terra Santa. Confirmamos nossa firme convicção de que precisamos do amor e do apoio uns dos outros.

O primeiro encontro entre o Papa e o Patriarca Ecumênico, em 1964, iniciou um diálogo teológico de verdade e amor entre nossas duas Igrejas; o quinquagésimo aniversário desta reunião confirmou que o nosso desejo de unidade exige mais atos de caridade e amor.

 

JUNTOS, O SENHOR E O PAPA FRANCISCO PEDEM MAIS RESPEITO À CRIAÇÃO, AO MEIO AMBIENTE. ESSA É UMA PREOCUPAÇÃO QUE OS UNE?

 

É um fato inegável que nosso planeta enfrenta sérios problemas, em grande parte devido ao abuso humano sem precedentes da criação de Deus. Tal interferência humana provocou uma crise ecológica. A atmosfera está sendo poluída cada vez mais; a água limpa está se tornando mais escassa, já que estamos poluindo nossos oceanos, rios e lagos. Estamos destruindo milhares de hectares de florestas. Mudanças no clima do planeta levaram à perda de muitas espécies da nossa flora e fauna…

Acreditamos que essas coisas ocorreram por causa de nossa gradual separação e alienação de Deus. Mesmo nós, cristãos, que muitas vezes nos orgulhamos de nossa fé, nos distanciamos de Deus. É fácil culpar os outros pela destruição do planeta, mas também devemos nos perguntar se a Criação é realmente mais segura nas mãos dos cristãos.

A crise ecológica é uma questão que afeta o mundo natural, mas decorre de uma crise em nossos corações. À medida que procuramos desenvolver soluções concretas e baseadas em fatos, devemos também nos concentrar na necessidade de arrependimento pessoal, o que traria uma “mudança de pensamento” e uma mudança em nossos modos de vida. E, à medida que mudamos nossas vidas, devemos perceber que, como membros da criação, não somos o centro do mundo. Nós dependemos de Deus; Deus não depende de nós.

 

PODERIAM CATÓLICOS E ORTODOXOS SONHAR COM, UM DIA, CELEBRAR A PÁSCOA NA MESMA DATA? O SENHOR ESTÁ OTIMISTA NESSE SENTIDO?

 

O assunto de uma celebração comum da Páscoa é importante e complicado. Precisa ser tratado delicadamente para evitar escândalos entre os fiéis. No entanto, esta questão é de grande preocupação para a Igreja Ortodoxa.

A ideia de uma data comum de Páscoa para os ortodoxos e católicos foi levantada no trabalho regular da Conferência Pan-Ortodoxa de 1923, em Constantinopla, e, mais tarde, durante a Reunião do Comitê Preparatório de 1930 no Monte Athos. Desde então, tem sido discutido durante muitos encontros inter ortodoxos. Isso mostra nosso sincero desejo e esperança de que, como cristãos ortodoxos, celebremos a Páscoa no mesmo dia que outros irmãos cristãos.

Uma data comum da Páscoa entre cristãos orientais e ocidentais nos livrará, entre outras coisas, de muitas dificuldades práticas, especialmente importantes para os fiéis de ambas as Igrejas, que residem em países onde a Ortodoxia ou o Catolicismo não são a religião predominante. A verdade é que a Igreja Ortodoxa terá dificuldade em aceitar qualquer decisão que negligencie o que já foi determinado sobre este assunto pelo Primeiro Concílio Ecumênico em Niceia (325 dC). Oramos, no entanto, e esperamos que o Deus Todo-Poderoso guie nossos passos.

 

COMO O SENHOR DESCREVERIA O DIÁLOGO ENTRE CRISTÃOS E MUÇULMANOS HOJE?

 

Em abril passado, respondendo ao gentil convite do honorável Professor Dr. Ahmad Al-Tayyeb, Grande Imã da Universidade Al-Azhar e Presidente do “Conselho de Sábios” do Islã Sunita, Sua Santidade o Papa Francisco e eu visitamos o Egito para participar de uma reunião inter-religiosa. Destacou-se o papel da religião em alcançar e manter a paz no mundo. Nós enfatizamos a necessidade da humanidade de abraçar a fé e reconhecer a presença de Deus. Também a necessidade de respeitar o pluralismo e as diferenças.

Para este fim, o Patriarcado Ecumênico iniciou um diálogo com o Judaísmo e o Islã. É nossa responsabilidade trabalhar com pessoas de diversas origens. Esperamos que nossa cooperação com outras tradições religiosas, especialmente em questões sociais, traga grandes frutos para o mundo inteiro. Para a Igreja Ortodoxa, a liberdade religiosa e a liberdade de consciência são uma parte imperativa do processo; não podemos aceitar, sob qualquer circunstância, o estímulo de sentimentos fanáticos contra outras religiões.

Acreditamos firmemente que o diálogo religioso, e reuniões entre líderes religiosos, ajudarão as pessoas a superar seus medos e passarão do conflito para a reaproximação e a convivência pacífica. Por fim, nem a guerra nem a indiferença ao sofrimento das pessoas são consistentes com o ensinamento religioso. Como já mostramos várias vezes, a guerra em nome da religião é, na verdade, uma guerra contra a própria religião.

 

COMO O SENHOR EXPRESSA SUA PREOCUPAÇÃO PELOS CRISTÃOS PERSEGUIDOS NO ORIENTE MÉDIO E LUGARES ONDE COMUNIDADES ORIGINAIS CORREM O RISCO DE DESAPARECER?

 

A perseguição aos cristãos preocupa imensamente e é fonte de grande pesar para nós. Infelizmente, essa perseguição não se limita ao Oriente Médio. Os cristãos são perseguidos também em outros cantos do mundo onde existe uma chamada “cristianofobia”. Na Europa e em muitas sociedades ocidentais, as políticas de secularização e descristianização representam um sério desafio para o Cristianismo.

Mas há algo desconhecido dos perseguidores do Cristianismo: a fé em Jesus Cristo é governada pelo espírito de paz, amor, perdão e serviço. Nós não procuramos explorar e dominar os outros. A realidade atual na Europa e em outras partes do mundo prova que toda realização cultural e, principalmente, a realização social, nascem de princípios cristãos. Assim, a perseguição ao Cristianismo leva, na verdade, à perseguição da cultura e de valores únicos que embelezam nosso mundo.

Sem dúvida, a situação que ocorre no Oriente Médio é alarmante. Muitos cristãos são perseguidos, enquanto outros são forçados a fugir de sua terra natal. Nós expressamos nossas sérias preocupações inúmeras vezes aos líderes mundiais; lembramos que ainda não descobrimos o paradeiro dos dois Hierarcas sequestrados, o Metropolita Grego-Ortodoxo, Paul, e o Bispo siríaco, John Ibrahim, ambos de Alepo. Aguardamos ansiosamente para receber notícias das autoridades regionais e globais e rezamos pelo seu retorno seguro.

A Igreja Ortodoxa, como foi afirmado na Encíclica do Santo e Grande Conselho, convocado na ilha de Creta, na Grécia, em junho de 2016, “está particularmente preocupada com a situação que os cristãos enfrentam, e outras minorias étnicas e religiosas perseguidas no Oriente Médio. Em particular, ela dirige um apelo aos governos da região para proteger as populações cristãs – ortodoxos, orientais e outros cristãos – que sobrevivem no berço do Cristianismo. Os cristãos indígenas e outras populações gozam do direito inalienável de permanecer em seus países como cidadãos com direitos iguais”.

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‘O Jornalismo é uma ferramenta de paz quando conta a realidade’

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16 de mai de 2018

Jornalista, Advogado, Professor e Diretor-Geral do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), Carlos Alberto Di Franco concedeu uma entrevista à rádio 9 de Julho , sobre os desafios atuais do Jornalismo e a função pública deste na construção de uma cultura de paz, no contexto da mensagem do Papa Francisco para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Di Franco visitou a redação integrada do Departamento de Jornalismo da Arquidiocese de São Paulo, na Freguesia do Ó, no dia 9. Na ocasião, ele destacou aos profissionais da comunicação que “é preciso reinventar o Jornalismo e recuperá-lo num contexto muito mais transparente e interativo”. Para o Professor, o Jornalismo é uma ferramenta de paz quando conta a realidade, tem valores, princípios e sabe que do outro lado da informação existe alguém que tem uma história, uma vida. Confira a entrevista.

 

HOJE EM DIA, FALA-SE EM CRISE EM DIVERSOS SETORES. COMO ESSA CRISE CHEGOU AO JORNALISMO?

Carlos Alberto Di Franco – O Jornalismo vive hoje uma crise muito forte não propriamente no Jornalismo, porque nunca se consumiu tanta informação como hoje. Nos jornais impressos, no rádio, na televisão, nas redes sociais, o consumo de informação é muito grande. Mas o que existe é uma crise forte no modelo de negócios. O Jornalismo bom, de qualidade, exige investimento. Custa dinheiro apurar e distribuir informação. E a crise financeira é muito forte, porque a publicidade está desaparecendo. É preciso repensar modelos de monetização do Jornalismo. Agora, o Jornalismo em si é impressionante, as pessoas consomem muita informação. O problema é que nem sempre consomem informação de qualidade.

 

PODERIA FALAR MAIS SOBRE A QUALIDADE DA INFORMAÇÃO?

Nós navegamos freneticamente no espaço virtual, uma enxurrada de estímulos vai dispersando a nossa inteligência com muita frequência. Ficamos reféns da superficialidade, perdemos contexto, sensibilidade crítica. As redes sociais são um sintoma disso. Muitas pessoas entram nas redes para confirmar suas opiniões, não para melhorar ou confrontar os seus critérios, para ouvir o outro lado que não pensa como nós, mas talvez pensa diferente de nós e pode nos abrir a uma possibilidade diferente de olhar as coisas. A fragmentação dos conteúdos pode também transmitir para nós uma certa sensação de liberdade. Eu consumo a informação que eu quero, não a informação que os jornais, a televisão, os sites querem. Será verdade isso? Eu creio que não. Penso que há uma nostalgia enorme de conteúdos bem editados, com ética, contextualização. É preciso reinventar o Jornalismo, recuperá-lo num contexto muito mais transparente e interativo, das competências, das magias do Jornalismo de sempre.   

 

COMO FAZER UM JORNALISMO DE QUALIDADE?

Isso implica, sobretudo, olhar para a conteúdo e olhar criticamente para como nós, jornalistas, olhamos para o mundo que é o horizonte da nossa informação. O nosso papel é sair da redação, ir ver a vida e transmitir para quem consome a nossa informação a vida que nós encontramos, não a nossa visão da vida. Eu creio que o leitor, ouvinte ou telespectador percebe quando nós, de alguma maneira, tentamos manipular a realidade, tentamos mostrar uma vida que não é real, mas é o nosso olhar a respeito da vida. A nossa missão como profissionais e os nossos valores éticos devem nos conduzir ao compromisso de levar a realidade como efetivamente é. Em cada esquina há uma história real para contar. O Jornalismo não é máquina, tecnologia. O grande capital são as pessoas. É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva profunda, fugir das armadilhas do politicamente correto, do contrabando opinativo, da politização da informação, do distanciamento da realidade e da falta da reportagem. Se as empresas de comunicação não investirem na qualificação de suas pessoas, em treinamento do seu pessoal, vão morrer na praia. O dinamismo é muito grande. O mundo está indo num processo muito acelerado. 

 

ATUALMENTE, FALA-SE EM JORNALISMO DE DADOS E DIGITAL. ISSO NÃO ACABA AFASTANDO O PROFISSIONAL DO MATERIAL HUMANO?

Eu não tenho dúvidas disso! Eu penso que o Jornalismo de dados é importantíssimo. Partir para uma reportagem tendo um elenco de elementos, históricos e dados da informação levantados previamente, é muito importante. Eu acho que o mundo digital é uma realidade inescapável. Está aí, é irreversível. Agora, o que atrai o consumidor é perceber que o Jornalismo tem alma, tem rosto humano, transmite vida, tem cheiro de asfalto. Se ele percebe que isso não existe, que é uma construção pasteurizada, talvez o consuma num primeiro momento, mas, pouco a pouco, vai se afastando. É preciso contar histórias reais, às vezes dramáticas, outras positivas, mas histórias reais.

 

COMO FALAR SOBRE UM JORNALISMO DE PAZ, COMO LEMBRA O PAPA, EM TEMPOS DE NOTÍCIAS FALSAS E SENSACIONALISMOS?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que o Papa Francisco é um comunicador nato. Ele tem uma capacidade intuitiva de comunicação muito forte. Por isso, atrai tantas pessoas. Fake News não é só notícia falsa, mas uma notícia que vem embrulhada num pacote atraente, muitas vezes sensacionalista. Um conselho é: vai a um site e uma empresa de comunicação séria, com credibilidade e procura ver como essa informação foi tratada lá. Isso derruba 80% das fake news . Mas quando você se deixa entusiasmar por aquela notícia sensacionalista e começa a compartilhá-la, você está sendo um agente multiplicador da mentira, do erro, contribuindo para que a informação não seja uma ferramenta da paz, de construção, mas uma ferramenta de desconstrução. 

 

COMO RECUPERAR A FUNÇÃO SOCIAL DO JORNALISMO ENQUANTO SERVIÇO PARA AS PESSOAS?

O Jornalismo é uma ferramenta de paz quando conta a realidade, tem valores, princípios e sabe que do outro lado da informação existe alguém que tem uma história, uma vida, uma família. Você tem de se aproximar das pessoas de uma maneira respeitosa. Quando você está entrevistando alguém, está entrando em um “terreno sagrado”, na vida e na história de uma pessoa. Essa preocupação ética, unida à preocupação de estar muito próximo da realidade e contar o mundo que estamos vendo, acaba construindo um Jornalismo muito mais pacífico.

(Colaborou: Cleide Barbosa)

As opiniões expressas na seção “com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

 

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Assembleia Geral da CNBB tem clima fraterno e produtivo

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25 de abril de 2018

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, fez uma avaliação da 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada entre os dias 11 e 20, em Aparecida (SP). Dom Odilo destacou os principais temas abordados pelo episcopado brasileiro, com especial atenção às novas diretrizes para a formação de sacerdotes na Igreja no Brasil. O Cardeal também chamou a atenção para o clima fraterno e sereno e a produtividade do encontro. Confira a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO - COMO O SENHOR AVALIA ESTA ASSEMBLEIA GERAL?

Cardeal Odilo Pedro Scherer – A Assembleia foi uma experiência muito rica de encontro e convívio entre os bispos de todo o Brasil. É a única ocasião durante o ano em que todos os bispos do país podem se encontrar, trocar ideias, partilhar experiências, falar sobre suas dificuldades e angústias, rezar e trabalhar juntos. Só por isso, a Assembleia da CNBB já valeria a pena. Mas ela também é uma expressão importante de colegialidade episcopal e da solicitude de cada bispo por toda a Igreja do Brasil. A Assembleia transcorreu em clima fraterno e sereno e foi bastante produtiva, pois discutimos e aprovamos diversos textos e documentos.

 

O QUE O SENHOR DESTACA NAS NOVAS DIRETRIZES PARA A FORMAÇÃO DOS PRESBÍTEROS?

Na verdade, elas não são inteiramente novas, mas foi feita a adequação das Diretrizes que já tínhamos às novas normas e orientações da Santa Sé para a formação sacerdotal no mundo inteiro. Nossas Diretrizes insistem na formação de padres pastores e missionários, com uma forte experiência de Deus e da vida da Igreja. A formação no seminário tem duas grandes metas: a formação de discípulos de Jesus Cristo, durante a etapa dos estudos filosóficos; e a configuração dos formandos com Cristo Sacerdote, durante a etapa dos estudos teológicos. Além disso, a formação sacerdotal, nas novas Diretrizes, é vista a partir de dois grandes enfoques: formação inicial, antes da ordenação sacerdotal; e formação permanente, após a ordenação. As Diretrizes colocam destaque especial na formação permanente do clero, conforme normas também dadas pela Santa Sé.

 

QUAIS SÃO AS NOVIDADES DA REVISÃO DO ESTATUTO CANÔNICO DA CNBB?

 O Estatuto da CNBB, após 16 anos de vigência, foi adequado em alguns aspectos. As mudanças principais dizem respeito à composição da Presidência: haverá dois Vice-Presidentes e dois Secretários-Gerais. De fato, o Estatuto anterior não previa um segundo Secretário-Geral, o que era uma lacuna, sobretudo em casos de ausência ou impedimento do Secretário-Geral. Os novos Estatutos também ampliam e definem melhor a identidade e as competências dos Regionais da CNBB.

 

OS BISPOS CHEGARAM A TRATAR SOBRE OS ATAQUES QUE A CNBB SOFREU NAS REDES SOCIAIS? QUAIS ORIENTAÇÕES FORAM DADAS QUANTO À RELAÇÃO DO POVO COM SEUS PASTORES?

A questão foi objeto de reflexão durante a Assembleia Geral e foi tratada numa mensagem divulgada no final da Assembleia. Era necessário que a própria CNBB dissesse uma palavra de esclarecimento sobre a identidade e a missão da Conferência Episcopal, nem sempre compreendidas de maneira adequada por quem promoveu ataques ou diversas formas de desmoralização da CNBB, deixando muitas pessoas desorientadas e inseguras na sua adesão de fé na Igreja e podendo dar origem a divisões na Igreja. Penso que a nota foi oportuna e ficou boa.

 

UM DOS ASSUNTOS DA PAUTA FOI UMA REFLEXÃO SOBRE A RELAÇÃO DA IGREJA E DO ESTADO LAICO. O SENHOR PODERIA FALAR SOBRE ISSO?

Não chegamos a aprofundar muito a questão, que precisa de ulteriores aprofundamentos. Mas a reflexão feita foi boa e ajudou a esclarecer que a Igreja Católica não é contra a laicidade do Estado, corretamente entendida, como afirmação e garantia de liberdade religiosa, separação entre Igreja e Estado, não imposição de nenhuma forma de crer ou não crer por parte do Estado e também garantia de não discriminação religiosa dos cidadãos. Em poucas palavras, o Estado laico não impõe religião a ninguém nem proíbe ou dificulta as manifestações religiosas, mas garante e respeita a liberdade religiosa dos cidadãos e o livre exercício da religião.

 

TAMBÉM FOI PAUTA O CONTEXTO SOCIOPOLÍTICO, ESPECIALMENTE NESTE ANO ELEITORAL?

Tratamos também do contexto socio-político do Brasil, onde exercemos nossa missão de pastores do povo. Foi elaborada e divulgada uma boa mensagem ao povo brasileiro sobre o ano eleitoral. Diante do quadro variado de crises que vivemos no Brasil, os bispos encorajam os cidadãos a participarem do processo político e eleitoral com coragem, lucidez e esperança. Todos temos responsabilidades na promoção do bem comum. Um apelo especial é feito aos cidadãos católicos para que se façam protagonistas e se envolvam no processo político e eleitoral, apoiando candidatos de “ficha limpa” e zelando pela correta aplicação da lei contra a corrupção eleitoral. Na mensagem, lembram-se as palavras do Papa Francisco, que desafia os católicos leigos e leigas a assumirem de maneira positiva seu papel na vida social e política do Brasil.

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‘O povo de Deus merece poder contar com presbíteros que sejam homens íntegros e idôneos’

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15 de abril de 2018

Em entrevista ao O SÃO PAULO , Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre (RS) e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, falou sobre a proposta de novas Diretrizes para a Formação de Presbíteros, tema central da 56ª Assembleia Geral da CNBB, que acontece entre os dias 11 e 20, em Aparecida (SP). 

Um dos responsáveis pela elaboração do texto que será trabalhado pelos bispos, Dom Jaime destacou a necessidade de se considerar as rápidas transformações sociais e culturais que influenciam os candidatos ao ministério ordenado. “Os tempos mudam e exigem respostas condizentes às novas situações e desafios”, afirmou o Arcebispo. 

 

O SÃO PAULO – QUAL A NECESSIDADE DE PROPOR NOVAS DIRETRIZES PARA A FORMAÇÃO PRESBITERAL PARA A IGREJA NO BRASIL?

Dom Jaime Spengler – As diretrizes que estão em vigor foram aprovadas em 2009 e levavam em consideração as novas situações da realidade formativa e a riqueza missionária do documento da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, celebrada em Aparecida, em 2007. Agora, após a publicação, pela Santa Sé, da nova Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, intitulada “O dom da vocação presbiteral”, em 2016, e tendo presente o magistério do Papa Francisco, a CNBB sente a necessidade de elaborar novas diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja do Brasil. Há de se considerar, também, as rápidas transformações sociais e culturais que influenciam os candidatos ao ministério ordenado. Os tempos mudam e exigem respostas condizentes às novas situações e desafios.

 

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS?

Vivemos aquilo que se cunhou denominar mudança de época. Estamos num tempo de transformações rápidas e profundas, que afetam a realidade como um todo. São transformações que atingem todos os setores da vida humana e os próprios critérios de compreensão, os valores mais profundos, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem relações e ações. Tal situação representa um desafio para a formação dos candidatos ao ministério ordenado.

O Brasil é marcado por enormes diferenças. Isso se reflete no tipo de candidato que procura uma oportunidade para realizar um itinerário vocacional. Temos, por um lado, os grandes centros urbanos com características próprias. De outro lado, temos a realidade, digamos, rural, que também apresenta um perfil característico de candidatos. Temos, ainda, candidatos que provêm de etnias indígenas – sobretudo da realidade amazônica. Também temos o jovem sertanejo, do cerrado, os negros. Há realidades que ainda possuem o seminário menor. Outras só acolhem candidatos que já concluíram o ensino médio ou candidatos adultos. Alguns candidatos chegam apresentando uma grave deficiência escolar. Outros apresentam ótima formação intelectual e acadêmica. E o que dizer dos que não foram iniciados na fé cristã? Constata- -se, também, um número crescente de candidatos de idade mais avançada. Em algumas regiões, verifica-se um número expressivo de candidatos que são filhos único. Esses são alguns elementos que desafiam a formação presbiteral.

 

E AS DIRETRIZES VÃO LEVAR EM CONTA ESSAS QUESTÕES?

Um documento que pretenda ser de orientação para toda a Igreja do Brasil há de ter presente a complexa realidade que as diferentes regiões e situações apresentam. Por isso, a formação há de ser sempre orientada por grande sensibilidade por parte dos encarregados da formação dos futuros presbíteros e profundo empenho naquela obra que a tradição ocidental denomina “discernimento”. Além disso, é imprescindível que os candidatos sejam acompanhados por equipes formativas. Mas para que as equipes formativas possam desenvolver sua missão, constata-se a necessidade de preparar um número suficiente de formadores. Onde não é possível haver uma equipe de formadores, urge ter a coragem de constituir seminários provinciais ou regionais, onde os candidatos possam receber acompanhamento personalizado e formação adequada para estarem à altura das exigências e desafios que a atividade evangelizadora na complexa realidade de hoje apresenta à Igreja.

 

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS MUDANÇAS DA NOVA RATIO FUNDAMENTALIS QUE O SENHOR DESTACA?

Creio que a nova Ratio Fundamentalis é para uma nova geração de presbíteros. No entanto, não se trata tanto de mudanças. Por quê? Trata-se, antes de tudo, de propor ou indicar caminhos para escuta daquilo que o Espírito de Deus inspira à Igreja; ao mesmo tempo, faz-se necessária a devida atenção à rica e bela tradição da Igreja. A escuta atenta do Espírito Santo impulsiona a olhar para a frente – o Espírito Santo de Deus faz novas todas as coisas! – e cultivar a devida atenção ao patrimônio já existente. 

A nova Ratio insiste na integralidade do processo formativo e recomenda a devida atenção às diversas dimensões do ser humano. Para isso, faz-se necessário a construção de um itinerário pedagógico gradual e personalizado. O documento põe um acento particular sobre a dimensão humana. Isso também implica maturidade afetiva. Sem uma sólida base humana, torna-se difícil desenvolver, por exemplo, as dimensões intelectual, espiritual, comunitária e missionária, constitutivas da integralidade do processo formativo.

Outro aspecto importante é o discernimento vocacional. O povo de Deus merece poder contar com presbíteros que sejam homens íntegros e idôneos; homens apaixonados por Jesus Cristo e seu Evangelho. Homens que assumiram o caminho do discípulo e de configuração a Jesus Cristo. Homens capazes de testemunhar com palavras e ações que amam o que são e gostam do que fazem.


QUAL É A PRÓXIMA ETAPA DA ELABORAÇÃO DAS DIRETRIZES?

O Conselho Permanente da CNBB solicitou que a Comissão Especial designada elabore o texto a ser proposto como material de estudo para esta Assembleia Geral. Há de se recordar que as atuais diretrizes em vigor foram aprovadas por unanimidade pelo episcopado brasileiro. Isso diz do ótimo trabalho então realizado. É verdade que após quase dez anos, mudanças aconteceram. A sensibilidade para tais mudanças se fará sentir durante a própria Assembleia nas sugestões, emendas etc, que serão certamente apresentadas pelos senhores bispos. É também verdade que os bispos já tiveram oportunidade para apresentar suas sugestões. Também os formadores dos diversos seminários desse imenso Brasil e os animadores da Pastoral Presbiteral nas dioceses puderam cooperar na construção do texto que está chegando às mãos dos bispos nestes dias de Assembleia.

 

O DOCUMENTO PROPOSTO É EXTENSO. PRETENDE-SE DIMINUÍ-LO?

Esta é uma questão desafiadora! Há um consenso quase geral entre os bispos de que os documentos da Conferência sejam breves. Entretanto, tendo presente a complexidade do tema e as distintas realidades da Igreja no Brasil, pode-se imaginar o quanto seja difícil construir um texto breve. A Comissão se esforçou para construir um texto breve. No entanto, chegamos praticamente às mesmas dimensões do texto das diretrizes em vigor. Oxalá, os bispos reunidos, seguindo o princípio da sinodalidade, consigam expressar o que se faz necessário como Diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil num texto breve.

 

HÁ A POSSIBILIDADE DESSAS DIRETRIZES SEREM APROVADAS COMO DOCUMENTO NESTA ASSEMBLEIA GERAL?

As Diretrizes para a Formação dos Presbíteros é o tema central desta Assembleia. Os bispos concentrarão esforços e atenção sobre esse tema. Por isso, esperamos que sejam aprovadas nesta Assembleia Geral. 

 


As opiniões expressas na seção “com a palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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