São José, o inspirador dos Papas

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19 de março de 2019

A silhueta de São José estendida no sono, ao lado da mesa onde estuda e assegura as necessidades da Igreja universal, está ali para recordar que também em um sonho pode se esconder a voz de Deus. Papa Francisco tem ao seu lado, desde sempre, nos quartos onde morou e estudou a pequena estátua de São José dormindo.

O “solucionador”

Até hoje a estátua de São José está sobre a sua escrivaninha na Casa Santa Marta. Esta imagem, e a devoção de Francisco por aquilo que representa, teve uma imprevista popularidade mundial quando alguns anos atrás o próprio Papa falou durante o Encontro Mundial das Famílias em Manila.

Uma confidência que revelou uma confiança total na força mediadora do pai putativo de Jesus e uma admiração pelo papel e pelo estilo que José sempre encarnou:

Amo muito São José, porque é um homem forte e silencioso. Na minha escrivaninha, tenho uma imagem de São José que dorme e, quando tenho um problema, uma dificuldade, escrevo um bilhetinho e meto-o debaixo de São José, para que o sonhe. Este gesto significa: reza por este problema! (Encontro com as famílias em Manila – 16 de janeiro de 2015).

Um nome para muitos Papas

Depois de Pedro, muitos Joãos, Bentos, Paulos, Gregórios, mas nenhum José. Nunca teve um Papa com este nome. Porém, muitos deles, especialmente no último século, o tiveram como nome de Batismo, como se os homens chamados para custodiar Jesus fosse um viático para os homens chamados para custodiar a Igreja. No início do século XX José Melchiorre Sarto torna-se Pio X e mais tarde sobem ao trono de Pedro Angelo José Rocalli, Karol Józef Wojtyla e Joseph Ratzinger. Francisco não se chama José, mas celebra, agradecido, a sua Missa de início de ministério dia 19 de março. Invocações que recordam o discreto modelo que inspira.

Muitos Papas por um nome

As etapas que levaram a Igreja a estabelecer o culto de São José foram muito longas, desde Sisto V que no final do século XV fixou a data da festa para 19 de março até a última decisão de Papa Francisco que, confirmando a vontade Bento XVI, no dia 1º de maio de 2013 decreta o acréscimo do nome de São José, Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, nas Orações eucarísticas II, III e IV (precedentemente João XXIII tinha estabelecido em 13 de novembro de 1962 a introdução no antigo Cânone romano da Missa, ao lado do nome de Maria e antes dos Apóstolos). Foi também João XXIII, que querendo confiar ao “pai” terreno de Jesus o Concílio Vaticano II, escreveu em 1961 a Carta Apostólica Le Voci, na qual faz um tipo de sumário da devoção a São José sustentada pelos seus predecessores. Não são opacas operações de “burocracia” litúrgica. Por trás de cada novo decreto colhe-se um sentimento e uma consciência eclesial cada vez mais enraizada como por exemplo, como aconteceu a Pio XII, podem chegar a marcar também na vida civil.

Um Santo que trabalha

No dia primeiro de maio de 1955, era um domingo e a Praça São Pedro estava repleta de fiéis. Pio XII faz um discurso enérgico aos presentes exortando todos a se orgulharem da sua identidade cristã frente às ideologias socialistas que pareciam dominar . No final surpreende a multidão com um “presente” que entusiasma todos:

Para que todos entendam este significado (…) queremos anunciar a Nossa determinação de instituir – como de fato instituímos – a festa litúrgica de São José operário, marcando-a no dia 1º de maio. Trabalhadores e trabalhadoras, agrada-vos o nosso dom? Temos certeza que sim, porque o humilde artesão de Nazaré não só personifica junto a Deus e a Santa Igreja a dignidade do trabalhador, mas é também sempre providente guardião vosso e de vossas famílias” (Festa de S. José Operário – 1º de maio de 1955).

“Papa José” não é possível

Quatro anos mais tarde a Igreja estava sendo guiada por um homem que queria se chamar “Papa José”. Renunciou, disse, porque “não é usado entre os Papas”, mas a explicação revela a nostalgia e a forte devoção que João XXIII tinha por São José:

“Faça com que também os teus protegidos compreendam que não estão sós no seu trabalho, mas saibam descobrir Jesus ao seu lado, acolhê-lo com a graça, custodiá-lo com a fé como tu o fazes. E faça com que em cada família, em cada fábrica, oficina, onde quer que trabalhe um cristão, tudo seja santificado na caridade, na paciência, na justiça, na busca do fazer bem, para que desçam abundantes dons da celeste predileção” (19 de março de 1959)

O homem dos riscos

Paulo VI também não se chama José, mas de 1963 a 1969 em particular, não deixa de celebrar uma Missa na solenidade de 19 de março. Cada homilia torna-se uma peça que forma um retrato pessoal com o qual Paulo VI mostra-se fascinado pela “completa e submissa dedicação” de José à sua missão, do homem “talvez tímido” mas dotado “de uma grandeza sobre-humana que encanta”.

São José, um homem ‘comprometido’ como se diz agora, por Maria, a eleita entre todas as mulheres da terra e da história, sempre sua virgem esposa, também fisicamente sua mulher, e por Jesus, em virtude da descendência legal, não natural, sua prole. A ele, os pesos, as responsabilidades, os riscos, as preocupações da pequena e singular sagrada família. A ele o serviço, a ele o trabalho, a ele o sacrifício, na penumbra do quadro evangélico, no qual nos agrada contemplá-lo, e certamente, sem dúvida, agora que tudo conhecemos, chamá-lo feliz, bem-aventurado. Isso é Evangelho. Nele os valores da existência humana assumem medidas diferentes daquela que somos acostumados a apreciar: aqui o que é pequeno torna-se grande” (Homilia de 19 de março de 1969).

O esposo sublime

Em 26 anos de pontificado João Paulo II falou de São José em infinitas ocasiões e, sempre disse que rezava intensamente pelo santo todos os dias. Essa devoção se resume no documento que lhe dedica em 15 de agosto de 1989, com a publicação da Exortação Apostólica Redemptoris Custos, escrita 100 anos depois da Quamquam Pluries de Leão XIII. No documento Papa Wojtyla aprofunda a vida de José em vários aspectos principalmente o do matrimônio cristão no qual oferece uma profunda leitura da relações entre os dois esposos de Nazaré.

A dificuldade de se aproximar ao mistério sublime da sua comunhão esponsal levou todos, desde o século II, a atribuir a José uma idade avançada e a considerá-lo guardião, mais do que esposo de Maria. É o caso de supor, ao invés, que na época ele não fosse um homem idoso, mas que a sua perfeição interior, fruto da graça, o levasse a viver com afeto virginal a relação esponsal com Maria” (Audiência Geral de 1996).

O pai silencioso

De São José não se conhecem as palavras, apenas os silêncios. Bento XVI aprofunda-se na aparente ausência de São José e extrai dela a riqueza de uma vida completa, de um homem fundamental que com seu exemplo sem proclamações marcou o crescimento de Jesus o homem-Deus:

Um silêncio graças ao qual José, em união com Maria, custodia a Palavra de Deus (…) um silêncio marcado pela oração constante, oração de bênção do Senhor, de adoração da sua santa vontade e de confiança sem reservas à sua providência. Não se exagera quando se pensa que do próprio “pai” José, Jesus tenha tomado – no plano humano – a robusta interioridade que é pressuposto da autêntica justiça, a “justiça superior”, que ele um dia ensinará aos seus discípulos”. (Angelus de 2005)

 O Santo da ternura

Da pequena “paróquia” de Santa Marta, Papa Francisco refletiu muito sobre o Santo ao qual confia todas suas preocupações. “O homem que custodia, o homem que faz crescer, o homem que leva adiante toda paternidade, todo mistério, mas não pega nada para si”, disse um uma das Missas matutinas. Por fim, em 20 de março de 2017 sublinha que José é o homem que age também quando dorme porque sonha o que Deus quer.

Hoje gostaria de pedir que nos conceda a todos a capacidade de sonhar, porque quando sonhamos coisas grandes, bonitas, aproximamo-nos do sonho de Deus, daquilo que Deus sonha sobre nós. Que conceda aos jovens — porque ele era jovem — a capacidade de sonhar, de arriscar e de cumprir as tarefas difíceis que viram nos sonhos. E conceda a nós a fidelidade que em geral cresce numa atitude correta, cresce no silêncio e na ternura que é capaz de guardar as próprias debilidades e as dos outros”.

 

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Exercícios espirituais: na Quaresma deixar que Deus restaure a nossa beleza

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12 de março de 2019

Um convite a refletir sobre a indiferença, “proteção de si” para proteger-se dos outros e da responsabilidade para com a realidade, sobre a erradicação da vida da cidade, procurando a beleza e a medida que vem do ser amado por Deus e amá-lo também nós.

Este é o centro da terceira meditação oferecida, na manhã desta terça-feira (12/03), pelo abade de São Miniato ao Monte em Florença, Bernardo Francesco Maria Gianni, beneditino, ao Papa Francisco e seus colaboradores da Cúria Romana. O tema das reflexões do pregador “O presente de infâmia, de sangue e indiferença”, é extraído dos versos de Mario Luzi em “Felicità turbate”, a poesia dedicada à abadia florentina em dezembro de 1997.

Olhar paras as feridas da cidade

Quando ele escreve, recordou o abade beneditino, Luzi tem nos olhos o massacre perpetrado pela máfia quatro anos antes na Via dei Georgofili, as cinco vítimas inocentes e a destruição de “uma parte preciosa do centro artístico de nossa cidade”, disse ele.

“Somos convidados, a partir daquele evento dramático, a olhar, como sempre estamos procurando fazer, as feridas das cidades do mundo inteiro, até mesmo aquelas muito mais complexas e marcadas pelas injustiças de todos os tipos, em todo o nosso planeta, e fazê-lo com um olhar sobre a realidade que o nosso Papa nos ensinou, como prevalente respeito à ideia.

A indiferença, “proteção de si” para proteger-se dos outros

O pregador se deteve num dos três “sinais do mal”, a indiferença, tão distante do “alcance caritativo” da poesia de Luzi e da ação política de Giorgio La Pira. A indiferença “que muitas vezes de forma sutil paralisa o nosso coração, torna o nosso olhar” opaco, nebuloso. O que Charles Taylor descreveu como a “proteção do eu”.

É como se a nossa pessoa vestisse uma tela, da qual e com a qual se proteger dos outros, daquela responsabilidade que os problemas do nosso tempo solicitam, à luz daquela paixão evangélica que o Senhor quer acender com a força do seu Santo Espírito em nosso coração.

Olhar para a realidade sem sonhar cidades ideais

Citando o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer e sua preocupação pela vida das gerações futuras, o abade Gianni sublinhou que deve estar em nosso coração a possibilidade de deixar para as novas gerações “um futuro melhor que o presente que vivemos, confiando nele, com um espírito radicalmente contrário à indiferença, mas todos movidos pela ardente participação”. Romano Guardini nos convidou ontem, recordou o beneditino, a acolher o futuro com responsabilidade “realizando-o o mais próximo possível junto com o Senhor”:

Olhar para a realidade evidentemente sem sonhar cidades ideais ou utópicas de nenhum tipo. A utopia não é uma perspectiva autenticamente evangélica. A Jerusalém celeste, que o visionário do Apocalipse contempla, não é uma utopia: é de fato o conteúdo de uma promessa real e confiável que o Senhor dá às suas igrejas na provação.

“A ação da Igreja e dos homens e mulheres de boa vontade”, esclareceu o abade Bernardo Francesco Maria Gianni, “acredito que seja realmente essa fecundidade gerada pela escuta obediente e apaixonada do Evangelho da vida” de Jesus. E a poesia de Mario Luzi, segundo o pregador, nos restitui a consciência “da tradição representada pelo fogo de seus antigos santos”. É aquela brasa que “com a santidade do tempo presente”, “pode realmente voltar a inflamar para ser uma luz de esperança na noite das cidades do nosso mundo”.

A erradicação da pessoa da vida da cidade

O abade de São Miniato ao Monte relatou as palavras de La Pira num encontro de prefeitos do mundo inteiro, em 2 de outubro de 1955: a crise do nosso tempo, disse o prefeito de Florença, “é uma crise de desproporção e desmedida em relação ao que é verdadeiramente humano”.

“A crise do nosso tempo pode ser definida como a erradicação da pessoa do contexto orgânico - isto é, vivo, conectivo - da cidade. Bem, essa crise só pode ser resolvida através de uma nova radicação, mais profunda, mais orgânica, da pessoa na cidade em que nasceu e em cuja história e tradição está organicamente inserida”.

Os remédios da beleza e medida

Deve ser vencida a tentação da indiferença, da “proteção de si”, da erradicação que também leva os homens da Igreja, a “sentirem-se estranhos, não interpelados pelo tecido vivo com as suas dificuldades, os  seus problemas, suas contradições, que são as cidades onde somos chamados a levar, seja qual for o custo, a Palavra de Deus, encarnando-a”. Por isso, o pregador propõe os medicamentos da beleza e da medida: “Uma dimensão coral contra todo individualismo, um grande testemunho que a Igreja não pode deixar de dar, com sua índole radicalmente fraterna”.

Santo Agostinho: amando a Deus nos tornamos belos

Santo Agostinho, comentando a Primeira Carta de São João, “nos lembra o que é a verdadeira beleza e como é recebida”. “Que fundamento”, diz Agostinho, “teremos para amar se Ele não nos tivesse amado por primeiro? Amando, tornamo-nos amigos, mas Ele nos amou quando éramos seus inimigos para nos tornar amigos”:

Novamente, a primazia de Deus, a anterioridade de seu agir, o nosso ser amados, ser feitos e ser decorados por sua beleza. Ele nos amou por primeiro e nos deu a capacidade de amá-lo: amando-o, nos tornamos belos.

Falar aos jovens da beleza, é a sua única medida

“Num mundo que olha muito para as aparências”, concluiu o pregador dos Exercícios ao Papa Francisco e à Cúria Romana, “a beleza é a única medida com a qual os jovens se aceitam e aceitam outros jovens”. Então, voltamos a Agostinho: “A nossa alma, irmãos, é feia por causa do pecado. Ela torna-se bonita amando a Deus”:

“Como seremos belos? Amando Ele que é sempre belo. Quanto mais cresce o amor em nós, cresce também a beleza, a caridade, de fato, a beleza da alma. No entanto, Agostinho reconhece que o Senhor Jesus, a fim de nos dar a sua beleza, também se tornou feio, e o fez na cruz, aceitando aquela mudança também em seu corpo.”

 

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Exercícios espirituais: cultivemos saudáveis utopias, não as cinzas do mundo

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12 de março de 2019

Pinceladas de poesias, entremeadas com sonhos. O abade Bernardo Francesco Maria Gianni, que está propondo ao Papa Francisco e aos membros da Cúria romana as meditações para os exercícios espirituais, oferece copiosamente citações e invocações: um sopro delicado sobre as brasas da esperança e da confiança. O incansável construtor da paz Giorgio La Pira volta às suas reflexões, assim como a força evocativa da poesia de Mário Luzi e de Romano Gardini. Tudo orientado para propor um olhar evangélico sobre as cidades, para que possam se tornar “lugares ardentes de amor, de paz e de justiça”.

É o que nos faz celebrar Mário Luzi. A cidade que foi o sonho de Giorgio La Pira, é uma cidade na qual reavivar o fogo, para que a humanidade volte a contemplá-la com renovada esperança, reconhecendo-nos, como seguidamente tentamos dizer, um lugar onde passa o Senhor, um lugar visitado e visitável pelo Senhor.

Reavivar a chama do carisma de Deus

O beneditino olivetano, abade de São Miniato no Monte em Florença, recorda aos presentes que o fogo do amor de Jesus é confiado também ao “testemunho”, à “custódia” e à “paixão” de cada um. E este tempo da Quaresma permite reavivar o fogo que ficou menos ardente “por resignação, por hábito, por aquela “mornidão” justamente repreendida por importantes páginas do Apocalipse”.

É verdade, a Carta aos Romanos, capítulo 11 versículo 20 nos recorda: os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis. Mas como podemos nos considerar dispensados da busca apaixonada do combustível necessário para manter acesa, ardente, e em crescimento a chama da vocação que recebemos?

A presunção de não precisar de nada

O abade alerta sobre a presunção de não “precisar de nada”, com o qual, frisa, “nos consideramos realmente dispensados de considerar seriamente e cuidar deste dom imenso que o Senhor nos doou”, com “uma vida de oração, de escuta da sua Palavra, alimentando-nos da santa e divina Eucaristia, vivendo uma fraternidade radical que derive da escuta da Palavra e da conformação à lógica eucarística com a qual a vida divina se abre entrando dentro de nós”. “E realmente se entra”, insiste, “misticamente com a força do Espírito Santo”.

Um sopro que é a força do Espírito Santo que se digna de passar através de nós, que se digna transformar as nossas fraquezas, as nossas fragilidades, tornando-nos capazes de reacender novamente aquela chama dos desejos ardentes.

A sinfonia das estações

Recordando mais uma vez as palavras do profeta da esperança Giorgio La Pira, o monge lembra que um homem pode “nascer quando é velho”: e isso acontece “se nos sentimos necessitados da necessidade e desejosos do desejo”, quando realmente participamos “a este evento pascal de um autêntico renascimento a partir do alto”.

E então trata-se de redescobrir que dentro de nós há uma sinfonia, há uma polifonia no espírito muito mais rica e articulada do que aquela que o tempo mecânico dos nossos relógios parecem nos sugerir. São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios, usa palavras de extraordinária força evocativa e de grande verdade espiritual e antropológica: “Por isso, não desanimamos. Mesmo se o nosso físico vai se arruinando, o nosso interior, pelo contrário, vai-se renovando dia a dia”.

Resistir às cinzas do mundo

Portanto, não se deve se render “às cinzas dentro e fora de nós” porque esta “segunda criação pode se realizar em cada homem, através de cada palavra, através de cada acontecimento”.

Uma perspectiva que a mim parece restituir à condição humana uma dignidade à qual não se deve banalmente se congratular com uma auto referencialidade pecaminosa. Pelo contrário, leva-a a uma inquietude que gere Páscoa por tudo e de qualquer modo em uma perspectiva que decidimos contemplar no espaço da convivência citadina, porque advertimos que principalmente ali, está reunida a grande tentação de se reconhecer só e somente como cinza inerte, fruto de uma combustão que deflagrou as esperanças e os sonhos principalmente - permitam-me dizer – das novas gerações.

A partir disso a importância de não buscar “resultados imediatos que produzam rendimentos políticos fáceis, rápidos e efêmeros”, mas ações capazes de gerar “novos dinamismos na sociedade”, capazes de dar plena floração ao ser humano.  

A possibilidade de um novo início

Certamente a vida é “hábito, como uma constrição, como um relógio”, mas há sempre “o momento da decisão”: e esta é a “força do início”, a “força da novidade” que “nasce do espírito, do coração”. Na escolha ganha intensidade a liberdade do homem, que deveria se plasmar no exemplo de Cristo ao invés de dar “atenção às pessoas desiludidas e infelizes”, a “quem recomenda cinicamente de não cultivar esperanças na vida”, a quem “derrota logo todo o entusiasmo dizendo que nada vale o sacrifício de uma vida toda”.

Não ouçamos os “velhos” de coração que sufocam a euforia juvenil; vamos aos velhos que têm os olhos que brilham de esperança. Cultivemos saudáveis utopias. Deus nos quer capazes de sonhar como Ele e com Ele enquanto caminhamos atentos à realidade. Sonho, fogo, chama. Sonhar um mundo diverso e se um sonho se apaga voltar a sonhá-lo de novo, extraindo com esperança da memória das origens, e das brasas que talvez depois de uma vida não tão boa, estejam escondidas sob as cinzas do primeiro encontro com Jesus.

 

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Papa Francisco: na Quaresma, pedir a graça da coerência e deixar de ser hipócrita

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08 de março de 2019

Peçamos esta graça na Quaresma: a coerência entre o formal e o real, entre a realidade e as aparências: palavras do Papa Francisco na homilia desta sexta-feira (08/03), ao celebrar a missa na capela da Casa Santa Marta. O Pontífice inspirou sua reflexão no trecho extraído do livro do profeta Isaías.

A alegria da penitência

A simplicidade das aparências deveria ser redescoberta sobretudo no período da Quaresma, através do exercício do jejum, da esmola e da oração. Os cristãos, de fato, deveriam fazer penitência mostrando-se alegres; ser generosos com quem se encontra na necessidade sem “tocar os tambores”; dirigir-se ao Pai quase “escondido”, sem buscar a admiração dos outros. No tempo de Jesus, explicou o Papa, o exemplo era nítido na conduta do fariseu e do publicano; hoje, os católicos se sentem “justos” porque pertencem a certa “associação”, vão à “missa todos os domingos” e não são “como aqueles pobretões que não entendem nada”.

As pessoas que buscam as aparências jamais se reconhecem pecadores e se você disser a elas: “Mas você também é pecador!” – “Mas sim, todos temos pecados!”, e relativizam tudo e voltam a se tornar justos. Buscam até aparecer com cara de santinhos: tudo aparência. E quando existe esta diferença entre a realidade e a aparência, o Senhor usa o adjetivo: “Hipócrita”.

A hipocrisia dos "profissionais da religião"

Cada pessoa é tentada pelas hipocrisias e o tempo que nos conduz à Páscoa pode ser ocasião para reconhecer as próprias incoerências, para identificar as camadas de maquiagem de modo a “esconder a realidade”. Francisco insistiu no aspecto da hipocrisia, um tema que emergiu com força durante a XV Assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos sobre o tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Os jovens, afirmou, ficam impressionados com aqueles que buscam aparecer, mas depois se comportam consequentemente, sobretudo quando esta hipocrisia é vivida por “profissionais da religião”. O Senhor, ao invés, pede coerência.

Muitos cristãos, mesmo católicos, que se dizem católicos praticantes, como exploram as pessoas! Como exploram os operários! Como os mandam para casa no início do verão para readmiti-los no final, de modo que não têm direito à aposentadoria, não têm direito de ir avante. E muitos deles se dizem católicos: vão à missa no domingo… mas agem assim. E isso é pecado mortal! Quantas pessoas humilham seus operários...

Beleza da simplicidade

Neste tempo da Quaresma, o Pontífice convidou os fiéis a redescobrirem a beleza da simplicidade, da realidade que “deve estar unida à aparência”.

Peça ao Senhor a força e vai humildemente avante, com aquilo que pode. Mas não maquie a alma, porque, se fizer isso, o Senhor não o irá reconhecer. Peçamos ao Senhor a graça de sermos coerentes, de não sermos vaidosos, de não aparecer mais dignos daquilo que somos. Peçamos esta graça nesta Quaresma: a coerência entre o formal e o real, entre a realidade e as aparências.

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Quaresma 2019: converter-nos para fazer da criação um jardim, não um deserto

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26 de fevereiro de 2019

O tema da criação inspirou a mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2019.

O texto foi divulgado esta terça-feira (26/02) na Sala de Imprensa da Santa Sé, com o título “A criação encontra-se em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus”, extraído de Romanos 8,19.

O Pontífice oferece algumas propostas de reflexão para acompanharem o caminho de conversão nesta Quaresma.

 

A redenção da criação

O Pontífice destaca que a criação se beneficia da redenção do homem quando este vive como filho de Deus, isto é, como pessoa redimida. Neste mundo, porém, adverte Francisco, “a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte”.

 

A força destruidora do pecado

Com efeito, prossegue o Papa, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo, das outras criaturas, mas também de nós mesmos. Isso leva a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo desejos incontrolados.

“ Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais. ”

A aparição do mal no meio dos homens interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, a ponto de o jardim se transformar num deserto.
Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, explica o Papa, a sentir-se o seu senhor absoluto. Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco.

“O pecado, manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.”

 

A força sanadora do arrependimento e do perdão

Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus. E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.

A Quaresma chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos.

“ Queridos irmãos e irmãs, a ‘quaresma’ do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus. Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação. ”

“Não deixemos que passe em vão este tempo favorável!”, é o apelo final do Papa.

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Papa na Liturgia Penitencial: há um longo caminho pela frente

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23 de fevereiro de 2019

No final do terceiro dia do Encontro sobre a Proteção dos Menores na Igreja, o Papa Francisco presidiu na Sala Regia do Palácio Apostólico, uma Liturgia Penitencial na presença dos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo. Eis suas palavras:

“Irmãos e irmãs, 

todos conhecemos a Parábola do Filho Pródigo. Nós a contamos frequentemente e frequentemente fizemos homilias sobre ela.  Nas nossas congregações e nas nossas comunidades a consideramos nada mais que óbvia: declama-se aos pecadores para induzi-los ao arrependimento. Talvez tenha se tornado um hábito tão comum, que esquecemos algo importante. Esquecemos rapidamente de aplicar essa Escritura para nós mesmos, de nos ver pelo que somos, ou seja filhos pródigos.  

Precisamente como o filho pródigo do Evangelho, pedimos nossa parte da herança, ganhamo-la e agora a estamos esbanjando com muito desempenho. Essa crise dos abusos é uma expressão disso. O Senhor nos confiou a administração dos bens da salvação, Ele confia e acredita que nós vamos cumprir Sua missão, que vamos proclamar a Boa Nova e vamos construir a estabelecer o Reino de Deus.

Muito pelo contrário, o que fazemos? Fazemos jus ao que nos foi confiado? Nós não poderíamos responder a essa pergunta com um "sim" honesto, não se tem dúvida disso. 

Frequentemente ficamos por demais parados, olhamos para outro lado, evitamos conflitos - estávamos demasiadamente confortáveis para nos confrontarmos com o lado escuro da Igreja.  Traímos portanto a confiança  em nós depostiada, de modo especial em relação ao abuso no âmbito da responsabilidade da Igreja, que é substancialmente nossa responsabilidade. Não garantimos às pessoas a proteção que elas têm direito de ter, destruímos a esperança e as pessoas foram brutalmente violadas no corpo e no espírito.

O filho pródigo do Evangelho perde tudo: não apenas sua herança, mas também seu estado social, sua boa posição, sua reputação. Não seria de se admirar se coubesse a nós um destino semelhante, se as pessoas falam mal de nós, se há desconfiança em nós, se alguns ameaçam retirar seu apoio moral. Não devemos reclamar por causa disso: mais do que isso, precisaríamos nos perguntar o que deveríamos fazer diferente. Ninguém pode se furtar, ninguém pode dizer: mas eu pessoalmente não fiz nada de mal. Nós somos irmãos (no episcopado) e não somos responsáveis apenas por nós mesmos, mas também por cada membro da fraternidade e pela própria fraternidade.

O que precisamos fazer de modo diferente e por onde precisamos começar? Olhemos mais uma vez o filho pródigo do Evangelho. Para ele a situação começa a melhorar ao resolver ser muito humilde, desempenhar cargos muito simples e não pretender nenhum privilégio. Sua situação muda quando ele se reconhece e admite ter cometido um erro, ele confessa isso ao Pai, fala com ele abertamente e está pronto para sofrer as consequências disso. Deste modo, o Pai experimenta a grande alegria pela volta do seu filho pródigo e ajuda a fazer com que os irmãos se ajudem mutuamente. 

Seremos capazes de fazer isso? Desejaremos fazer isso? O atual encontro vai desvendar isso, deve desvendá-lo, se quisermos demonstrar que somos dignos filhos do Senhor, nosso Pai celeste. Como ouvimos e discutimos hoje e nos dois dias precedentes, isso implica assumirmos responsabilidades, mostrarmos a accountability (a obrigação de se dar conta daquilo que se faz) e instituirmos a transparência.

O caminho à nossa frente para implementarmos de verdade tudo isso de modo sustentável e apropriado é longo. Conseguimos progressos variados caminhando com velocidades diferentes. O encontro atual foi somente um passo entre muitos. Não acreditemos que apenas porque começamos a trocar algo entre nós, todas as dificuldades tenham sido eliminadas. E como para o filho do Evangelho que volta para casa, nem tudo está resolvido – quanto mais não seja, ele vai precisar reconquistar seu irmão. Nós precisamos fazer a mesma coisa: precisamos reconquistar nossos irmãos e irmãs nas congregações e nas comunidades, reconquistar sua confiança e conseguir novamente sua disponibilidade para colaborarem conosco, para estabelecermos juntos o Reino de Deus".

Testemunho

 

Durante a liturgia penitencial, também um testemunho:

O abuso, de qualquer tipo, é a maior humilhação que um indivíduo possa sofrer. É preciso confrontar com a consciência de que não se pode defender contra a força superior do agressor. Você não pode escapar do que acontece, mas você tem que suportar, não importa o quão ruim seja. Quando se vive o abuso, gostaríamos de acabar com tudo. Mas isso não é possível.

Gostaria de escapar, então acontece que você não é mais si mesmo. Gostaria de fugir tentando escapar de si mesmo. Assim, com o tempo, a pessoa fica completamente sozinha. Você está sozinho, porque se retirou para outro lugar e não pode ou não quer voltar para si mesmo. Quanto mais acontece, menos você retorna a si mesmo. Você é outra pessoa e sempre permanecerá assim. O que você carrega dentro é como um fantasma, que os outros não são capazes de ver. Nunca verão você e não conhecerão você completamente. O que mais magoa é a certeza de que ninguém vai entender você. E isso fica com você pelo resto da vida.

As tentativas de retornar ao verdadeiro eu e de participar do mundo "precedente", como antes do abuso, são tão dolorosas quanto o próprio abuso. Você sempre vive em dois mundos ao mesmo tempo. Eu gostaria que os agressores pudessem entender que criam essa divisão nas vítimas. Pelo resto de nossas vidas.

Quanto maior o seu desejo e as suas tentativas de reconciliar esses dois mundos, mais dolorosa é a certeza de que isso não é possível. Não há sonho sem lembranças do que aconteceu, nenhum dia sem recordações (flashbacks).

Agora consigo administrar melhor essa situação, aprendendo a viver com essas duas vidas. Eu tento me concentrar sobre o meu direito divino de estar vivo. Eu posso e devo estar aqui. Isso me dá coragem. Acabou agora. Eu posso continuar. Eu tenho que continuar. Se eu desistisse agora ou parasse, eu deixaria que essa injustiça interferisse na minha vida. Eu posso evitar que isso aconteça aprendendo a controlá-lo e aprendendo a falar sobre isso.

Exame de consciência

 

A Parábola do Pai misericordioso nos mostra que Deus oferece o perdão e uma esperança futura. O Filho que deixou o Pai, porém, não pode permanecer longe, mas deve reconhecer sua culpa, arrepender-se e retornar ao Pai.

Durante três dias, conversamos entre nós e ouvimos as vozes das vítimas sobreviventes sobre os crimes que as crianças e os jovens sofreram na nossa Igreja. Perguntamos um ao outro: como podemos agir com responsabilidade e quais são as medidas que precisamos tomar agora? Mas para enfrentar o futuro com nova coragem, devemos dizer, como o filho pródigo: "Pai, pequei". Devemos avaliar onde há necessidade de ações concretas para as Igrejas locais, para os membros de nossas Conferências Episcopais, para nós mesmos. E isso exigirá de nossa parte uma visão honesta da situação em nossos países e de nossas ações.

Que abusos foram cometidos contra crianças e jovens por clérigos e outros membros da Igreja em meu país? O que eu sei sobre as pessoas da minha diocese que foram abusadas e violentadas por padres, diáconos e religiosos? Como a Igreja em meu país respondeu àqueles que foram submetidos a abusos de poder, consciência e abuso sexual? Que obstáculos colocamos na frente deles? Nós os ouvimos? Nós procuramos ajudá-los? Procuramos justiça para eles? Eu mantive minhas responsabilidades?

Na Igreja do meu país, como nos comportamos com os bispos, sacerdotes, diáconos e religiosos acusados de abuso sexual? Como tratamos aqueles cujos crimes foram estabelecidos? E o que eu pessoalmente fiz para evitar essa injustiça e estabelecer justiça? O que eu deixei de fazer? Que atenção demos em nosso país às pessoas cuja fé foi abalada e às pessoas que sofreram e foram indiretamente feridas e afetadas por tais horríveis eventos? Há ajuda para famílias e parentes de pessoas que foram abusadas? Ajudamos pessoas nas paróquia onde o acusado e os criminosos estavam trabalhando? Eu me permiti acompanhar os sofrimentos dessas pessoas? Que medidas adotamos em nosso país para evitar uma nova injustiça? Trabalhamos para sermos coerentes em nossas ações? Fomos coerentes? Na minha diocese, fiz todo o possível para fazer justiça e aliviar as feridas das vítimas e das pessoas que sofrem por causa delas? Eu negligenciei o que é importante?

 

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Mestre em Direito Canônico detalha ações da Igreja diante dos casos de abuso sexual contra menores

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22 de fevereiro de 2019

Idealizado pelo Papa Francisco, acontece nesta semana, entre os dias 21 e 24, o encontro “A proteção de menores da Igreja”, que busca conhecer a realidade das vítimas de abuso sexual cometidos por clérigos, alinhar protocolos de ação, com agilidade, responsabilidade e transparência.

O evento é inédito, mas a preocupação da Igreja com o tema é de longa data, como detalha em entrevista ao O SÃO PAULO o professor universitário Ricardo Gaiotti, mestre em Teoria Geral do Direito e em Direito Canônico.

Gaiotti, que também é colaborador no Tribunal Eclesiástico de Aparecida (SP), explica sobre os protocolos de ação das autoridades eclesiásticas diante das denúncias ou comprovação dos casos, bem como as punições canônicas mais comuns, como a proibição de residir em determinado lugar, privações de poder e de ofício, transferência penal para outro ofício e até demissão do estado clerical. A seguir, leia a íntegra da entrevista.

O SÃO PAULO – Historicamente, como tem sido a atuação da Igreja diante dos casos de abusos de menores por parte dos clérigos?

Ricardo Gaiotti - Considero que, diversas medidas “públicas” foram e estão sendo tomadas por parte das autoridades da Igreja. Observa-se por exemplo, que no site do Vaticano – Santa Sé – há um espaço dedicado aos problemas referentes ao abuso de menor, com o nome Abuso de menores. A resposta da Igreja. Neste local, encontram-se os documentos, discursos, homilias, iniciativas, etc. referentes ao tema.

Outra iniciativa tomada pelo Papa Francisco foi a criação, em 2014, da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores. Entre os objetivos de tal comissão se destacam a ajuda às conferências episcopais e religiosas no desenvolvimento e implementação de políticas, procedimentos e programas efetivos para a proteção de menores e adultos vulneráveis, isto é, vias mais adequadas para a proteção dos mesmos, realizando tudo o que for possível para assegurar que tais delitos não se repitam na Igreja. Além disso, encontra-se disponível no site da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, todo o itinerário das principais atividades promovidas pela Igreja Católica em defesa dos vulneráveis, sobretudo, documentos, discursos, orientações, e iniciativas promovidas desde de 2001, por São João Paulo II até o presente momento. 

Quanto à Igreja no Brasil, não foi diferente. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou um documento intitulado “Orientações e Procedimentos Relativos às Acusações de Abuso Sexual Contra Menores”, além da “Nota da Presidência da CNBB sobre o compromisso no combate aos crimes de abusos sexuais cometidos por membros do clero”.

 

Como efetivamente as autoridades eclesiásticas têm colaborado com a esfera de penalização criminal quando se comprova que um membro da Igreja praticou abuso de menores?

Há uma Carta Circular, divulgada pela Congregação para a Doutrina da Fé, em vista a oferecer ajudar às conferências episcopais na preparação de diretrizes no tratamento dos casos de abuso sexual contra menores por parte de clérigos, que destaca a necessidade da colaboração entre as autoridades canônicas e civis, tendo em vista que o abuso sexual de menores não é só um delito canônico, mas também um crime perseguido pela autoridade civil.

Neste sentido, os bispos devem assegurar todo esforço no tratamento dos casos de eventuais abusos que porventura lhes sejam denunciados de acordo com a disciplina canônica e civil, no respeito dos direitos de todas as partes, mas esta colaboração não se refere só aos casos de abuso cometidos por clérigos, mas diz respeito também aos casos de abuso que implicam o pessoal religioso ou leigo que trabalha nas estruturas eclesiásticas.

Não menos importante é destacar que a Igreja Católica – Santa Sé  – é signatária da Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. Este instrumento, deixa claro que os Estados partes adotarão todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra todas as formas de violência física ou mental, abuso ou tratamento negligente, maus-tratos ou exploração, inclusive abuso sexual, enquanto a criança estiver sob a custódia dos pais, do representante legal ou de qualquer outra pessoa responsável por ela. Além disso, eles comprometeram-se a proteger a criança contra todas as formas de exploração e abuso sexual e adotarem medidas apropriadas para estimular a recuperação física e psicológica e a reintegração social de toda criança vítima de abuso.

 

Quais as penas canônicas aplicadas na maioria dos casos?

Diversas são as penas canônicas que podem ser impostas àqueles que cometem os delitos mais graves contra os costumes, tais como delito contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor de 18 anos; neste número, é equiparada ao menor a pessoa que habitualmente tem um uso imperfeito da razão; e a aquisição ou a detenção ou a divulgação, para fins de libidinagem, de imagens pornográficas de menores com idade inferior aos 14 anos por parte de um clérigo, de qualquer modo e com qualquer instrumento. Assim, o clérigo que pratica os delitos descrito anteriormente será punido segundo a gravidade do crime, não excluída a demissão ou a deposição.

Outras penas podem ser aplicadas, tais como:

1.° Proibição ou preceito de residir em determinado lugar ou território;

2.° Privação do poder, ofício, cargo, direito, privilégio, faculdade, graça, título, insígnias, mesmo meramente honoríficas;

3.° Proibição de exercer as coisas referidas no referido item 2o ou a proibição de as exercer em certo lugar ou fora de certo lugar. Tais proibições nunca são sob pena de nulidade;

4.° Transferência penal para outro ofício;

5.° Demissão do estado clerical. (cf. Cân. 1336; 1395 § 2).

 

A ação criminal no âmbito canônico relativa aos delitos analisados pela Congregação para a Doutrina da Fé pode prescrever?

Houve a alteração da prescrição ao longo da história. A título exemplificativo, o Código de Direito Canônico, promulgado pelo Papa João Paulo II em 1983 afirma no cân. 1395, §2: “O clérigo que tenha cometido outros delitos contra o sexto preceito do Decálogo, se o delito foi feito com violência, ou ameaças, ou publicamente, ou com um menor com menos de 16 anos, seja punido com penas justas, não excluída a demissão do estado clerical, se a situação o exigir”.

Porém, em 1994, a Santa Sé concedeu um indulto aos bispos dos Estados Unidos, assim, a idade para definir o delito canônico de abuso sexual de um menor foi elevada de 16 anos para 18 anos. Além disso, o tempo para a prescrição foi alargado a um período de dez anos calculado a partir do 18º ano de idade da vítima. O indulto de 1994 para os Estados Unidos foi alargado à Irlanda em 1996. Por fim, o Papa João Paulo II decidiu incluir o abuso sexual de um menor de 18 anos cometido por um clérigo no novo elenco dos delitos canônicos reservados à Congregação para a Doutrina da Fé. Sendo que, a prescrição para estes casos foi estabelecida em dez anos a partir de quando for completado o 18º ano de idade da vítima. Assim em 30 de Abril de 2001, foi promulgada um motu proprio com o título Sacramentorum sanctitatis tutela, documento que previa as normas sobre os delitos mais graves e competência da Congregação para a Doutrina da Fé.

Contudo, em 21 de maio de 2010, foi aprovado um novo texto a respeito das Normas sobre os delicta graviora. Este documento, equiparou ao menor, pessoa que habitualmente tem um uso imperfeito da razão. Além disso, considerou como crime a aquisição ou a detenção ou a divulgação, para fins de libidinagem, de imagens pornográficas de menores com idade inferior aos 14 anos por parte de um clérigo, de qualquer modo e com qualquer instrumento.

Quanto à prescrição e decadência, a ação criminal relativa ao delito contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor de 18 anos; extingue-se por prescrição em 20 anos, começando a decorrer a partir do dia em que o menor completou 18 anos de idade.

 

A partir de qual momento da investigação o clérigo pode ser afastado do ofício? Se comprovado que é inocente, que providências ele pode tomar?

A investigação prévia, entre outras coisas, visa garantir a boa fama. Essa por sinal é uma garantia canônica: “Ninguém tem o direito de lesar ilegitimamente a boa fama de que outrem goza, nem de violar o direito de cada pessoa a defender a própria intimidade. (cf. Cân. 220). Além disso, afirma o Código de Direito Canônico: “Quem apresentar ao Superior eclesiástico outra denúncia caluniosa de delito, ou por outra forma lesar a boa fama alheia, pode ser punido com pena justa, sem excluir uma censura. O caluniador pode ainda ser compelido a dar a satisfação conveniente. (cf. Cân. 1390 §2 e §3). Por fim, nada impede que o caluniado injustamente busque a reparação do dano sofrido junto a justiça civil.

 

Quais são os procedimentos que um bispo é orientado a adotar ao ter ciência de uma denúncia de abuso que envolva um clérigo?

Desde do momento da suspeita que um clérigo tenha cometido um abuso, o bispo pode impor medidas preventivas para a salvaguarda da comunidade, incluídas as vítimas. Na realidade, é sempre conferido ao bispo local o poder de tutelar as crianças limitando as atividades de qualquer sacerdote na sua diocese. Isso faz parte da sua autoridade ordinária, que ele é solicitado a exercer em qualquer medida necessária para garantir que as crianças não sofram danos, e este poder pode ser exercido à discrição do bispo antes, durante e depois de qualquer procedimento canônico.

É preciso destacar que o bispo, quando há suspeita de abuso de menores ou adultos vulneráveis, não somente deve agir, como tem a obrigação canônica, fato que ficou claro no documento do Papa Francisco publicado em 04 de junho de 2016, em forma de motu próprio “Como uma Mãe amorosa”. Este documento apresenta uma diretriz concreta, para a possibilidade da perda do ofício por parte de bispos e outras autoridades canônicas, quando os mesmos forem negligentes principalmente com os casos de abusos sexuais cometidos contra menores ou adultos vulneráveis.

Assim, entre as causas graves que podem ser objeto da perda do ofício eclesiástico já presentes no Código de Direito Canônico, o Papa Francisco determinou que, entre as mencionadas “causas graves” fosse incluída a negligência dos Bispos no exercício do seu ofício, concretamente as que se referem aos casos de abusos sexuais cometidos sobre menores e adultos vulneráveis, previstos pelo Sacramentorum sanctitatis tutelaCom efeito, a partir de tal documento, as autoridades religiosas citadas no documento podem ser legitimamente removidas do seu ofício, se tiver, por negligência, agido ou omitido atos que tenham provocado um grave dano a outros, seja que se tratem de pessoas físicas, seja que se trate de uma comunidade no seu conjunto. Quando se tratar de abusos sobre menores ou adultos vulneráveis, basta apenas que a falta de diligência seja grave.

Outro detalhe importante é quando se falava em perda do ofício eclesiástico por causas graves, atribuiu a interpretação do mesmo ao sujeito autor do ato, nestes casos as autoridades religiosas, que tivessem conhecimento posterior de tal dano, e não tivesse aberto a investigação prévia diante de uma denúncia verossímil, não era considerado sujeito passível de sofrer uma pena canônica em razão da causa grave.

Agora, porém, aquele que tem conhecimento do ato gerador da causa grave, como um abuso de menor, tem o dever e obrigação de agir, por meio dos instrumentos canônicos e civis/penais, correndo o risco de perder seu ofício eclesiástico em virtude da omissão, sem excluir possíveis sanções civis/penais em razão da sua omissão.

Todas as vezes que o bispo, por exemplo, recebe a notícia, pelo menos verosímil, de um delito mais grave, realizada a averiguação prévia, a dê a conhecer à Congregação para a Doutrina da Fé, a qual, se não avoca para si a causa por circunstâncias particulares, ordena ao Ordinário ou ao Hierarca que proceda ulteriormente, ficando estabelecido contudo, se necessário, o direito de apelo contra a sentença de primeiro grau apenas ao Supremo Tribunal da mesma Congregação.

A qualquer momento para evitar escândalos, defender a liberdade das testemunhas e garantir o curso da justiça, o bispo pode afastar o acusado do ministério sagrado ou de qualquer ofício ou cargo eclesiástico. (cf. Cân. 1722)

 

O Direito Canônico prevê punições a quem faça alguma denúncia falsa de abuso sexual contra menores?

Sim. Prevê o  Cân. 1390 — § 2. Quem apresentar ao Superior eclesiástico outra denúncia caluniosa de delito, ou por outra forma lesar a boa fama alheia, pode ser punido com pena justa, sem excluir uma censura. § 3. O caluniador pode ainda ser compelido a dar a satisfação conveniente.

A formulação do cânon em abstrato, sem mencionar o fiel, indica que foram repetidos no foro eclesiástico dois direitos humanos fundamentais que não derivam do batismo, mas do direito natural. Contudo, devemos acrescentar que, também, os batizados têm o específico dever evangélico de amor e estima recíproca. É preciso considerar, ainda, que estes direitos comuns a todos os homens, na comunidade cristã, assumem conotações específicas e incisivas que devem ser tuteladas, pois é mais grave perder a boa fama na família natural ou no meio dos amigos, do que perdê-la em um lugar distante (um brasileiro na Índia, por exemplo). É mais arriscado e problemático perder a intimidade onde existem relações de familiaridade e amizade do que em qualquer outro lugar.

O direito à boa fama e à intimidade aparece no Catecismo da Igreja Católica (CIC) subentendido, pois seria uma imperfeição técnica considerar como próprio do fiel o que, na verdade, são dois direitos humanos fundamentais.

Em relação ao conteúdo da boa fama, trata-se do bom nome, da dignidade e do decoro pessoais, da consideração social que os outros possuem em relação à pessoa, considerando as suas qualidades físicas, morais, culturais, religiosas, artísticas etc. Em linguagem moderna se diria imagem. Evidentemente que o direito garante a proteção da imagem positiva e não da negativa. A calúnia, a injúria e a difamação são os modos mais concretos de lesar este direito. Além dos delitos canônicos, o autor de uma denúncia falsa, pode ser tipificado em alguns crimes, principalmente o de injúria e difamação, que são chamados Crimes contra a Honra.

 

O Direito Canônico apresenta alguma orientação no sentido de auxiliar o bispo a discernir se ele está diante de uma denúncia verídica ou falsa?

O primeiro ponto é observar se a denúncia é verossímil, considerando que sim, ele utiliza da investigação prévia, que justamente a ferramenta canônica para a avaliação se de fato há materialidade em tal denúncia. Na investigação previa não impede que um bispo seja auxiliado por profissionais especializados, inclusive das autoridades civis. 

 

Uma vez confirmada a denúncia, há diferentes graus de penalização conforme a idade do menor que foi abusado?

Na formação de seu juízo, o Juiz pode utilizar de critérios semelhantes ao agravantes e atenuantes conhecido pelo Direito Penal, contudo, tratando de menor ou adulto vulnerável a pena é a mesma do ponto de vista canônico.

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Papa Francisco: escutemos o grito dos pequenos que pedem justiça

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21 de fevereiro de 2019

No início da manhã desta quinta-feira (21), o Papa Francisco introduziu os trabalhos do primeiro dia do encontro inédito sobre a proteção dos menores dentro da Igreja. A conferência reúne, pela primeira vez, os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo no Vaticano para abordar o tema.

O Papa começou o encontro afirmando do seu forte desejo de responsabilidade em interpelar Patriarcas, Cardeais, Arcebispos, Bispos, Superiores Religiosos e Responsáveis “diante da chaga dos abusos sexuais perpetrados por homens da Igreja em detrimento dos menores”. Todos juntos e “com a docilidade” da condução do Espírito Santo, “escutemos o grito dos pequenos que pedem justiça”.

“ O santo Povo de Deus nos vê e espera de nós não simples e evidentes condenações, mas medidas concretas e eficazes a serem realizadas. ”

Responsabilidade pastoral e eclesial

O Pontífice pediu que o encontro tivesse a incumbência do “peso da responsabilidade pastoral e eclesial que nos obriga a discutir juntos, de maneira sinodal, sincera e aprofundada sobre como enfrentar esse mal que aflige a Igreja e a humanidade. O santo Povo de Deus nos vê e espera de nós não simples e evidentes condenações, mas medidas concretas e eficazes a serem realizadas. São necessárias medidas concretas”, acrescentou Francisco.

O Papa enalteceu, então, que o percurso de todos através desse encontro, no Vaticano, começa “armados da fé e do espírito de máxima parresia, de coragem e concretude”.

Como subsídio, disse Francisco, “me permito compartilhar com vocês alguns importantes critérios, formulados pelas diversas Comissões e Conferências Episcopais que chegaram até nós. São orientações para ajudar a nossa reflexão que serão entregues a vocês. São um simples ponto de partida que veio de vocês e volta para vocês”.

Transformar o mal em consciência e purificação

O Papa Francisco, então, agradeceu a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, a Congregação para a Doutrina da Fé e os membros da Comissão Organizadora pelo “excelente trabalho desenvolvido com grande empenho em preparar este encontro”. E o Pontífice finalizou:

“ Peço ao Espírito Santo de nos sustentar nestes dias e de nos ajudar a transformar esse mal em uma oportunidade de consciência e de purificação. A Virgem Maria nos ilumine para buscar curar as graves feridas que o escândalo da pedofilia causou seja nos pequenos que nos crentes. ”

Ouvir as vozes das vítimas

Os trabalhos do encontro iniciaram com uma oração, durante a qual alguns testemunhos de vítimas foram compartilhados – de quem não pôde falar ou foi silenciado. Os presentes na conferência elevaram as próprias orações para que cada um pudesse ouvir aqueles que “foram violados e feridos, maltratados e abusados”, reconhecendo “as feridas do povo para que seja feita justiça”.

“Não consentir que os nossos fracassos”, foi a oração ao Senhor, “façam os homens perderem a fé em ti e no teu Evangelho”. Um longo e denso silêncio seguiu a uma das experiências que foram lidas:

“Ninguém me escutava; nem os meus pais, nem os meus amigos, nem depois as autoridades eclesiásticas. Não me escutavam e nem mesmo o meu choro. E eu me questiono: por quê? E me questiono por que Deus não me escutou?”

 

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Papa Francisco: "Na oração cristã não há espaço para o eu"

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13 de fevereiro de 2019

Na catequese pronunciada esta quarta-feira (13/02), o Papa propôs uma reflexão sobre o ‘Pai Nosso’, explicando como rezar melhor a oração que Jesus nos ensinou.
A Sala Paulo VI, dentro do Estado do Vaticano, ficou repleta de fiéis, romanos e turistas que receberam o Papa com o carinho de sempre, cantos e aplausos e em seguida, ouviram suas palavras com atenção.

Introspecção do diálogo com Jesus

Para rezar - iniciou o Papa - são necessários silêncio e introspecção.

“A verdadeira oração se realiza no segredo na consciência, do fundo do coração: com Deus é impossível fingir, é como o olhar de duas pessoas, o homem e Deus, quando se cruzam”. Mas apesar disso, Jesus não nos ensina uma oração intimista ou individualista. Não deixamos o mundo fora da porta do nosso quarto... levamos as pessoas e situações em nosso coração!

“ Na oração do Pai Nosso, há uma palavra que brilha pela sua ausência: uma palavra que em nossos tempos – como talvez sempre – todos consideram importante: a palavra ‘eu'. ”

Primeiramente nos dirigimos a Deus como a Alguém que nos ama e escuta (seja santificado o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade) e, depois, quando lhe apresentamos uma série de petições (dai-nos hoje o nosso pão cotidiano, perdoai as nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação, livrai-nos do mal), as fazemos na primeira pessoa do plural – “nós” – isto é, rezamos como uma comunidade de irmãos e irmãs.

“Até as necessidades mais elementares do homem – como ter alimento para saciar sua fome – são todas feitas no plural. Na oração cristã, ninguém pede o pão para si, mas o suplica para todos os pobres do mundo”, disse Francisco.

Pedir a Jesus que nos faça ter compaixão

Na oração, o cristão leva todas as dificuldades e sofrimentos de quem está ao seu lado, tanto dos amigos como de quem lhe faz mal, imitando a compaixão que Jesus sentia pelos pecadores.
Mas pode acontecer – ressalvou o Papa – que alguém não perceba o sofrimento a seu redor, não sinta pena pelas lágrimas dos pobres, fique indiferente a tudo. Isto significa que seu coração está petrificado. Neste caso, seria bom pedir ao Senhor que o toque com o seu Espírito e sensibilize seu coração.

“ Cristo não ficou alheio às misérias do mundo. Toda vez que percebia uma solidão, uma ferida no corpo ou no espírito, sentia forte compaixão. ”

Às 7 mil pessoas presentes, o Papa perguntou: “Quando rezamos, nos abrimos ao grito de tanta gente, próxima ou distante? Ou penso na oração como uma espécie de anestesia, para ficar mais tranquilo? Isto seria um terrível equivoco”.

A oração deve abrir o coração ao próximo para que amemos com um amor compassivo e concreto, sabendo que tudo aquilo que fizermos “a um destes meus irmãos mais pequeninos, -afirma Jesus - foi a mim mesmo que o fizestes”

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Imprensa destaca migrantes, violência e direitos humanos na viagem ao Panamá

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31 de janeiro de 2019

Alguns grandes temas marcaram a cobertura internacional da visita do Papa ao Panamá para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em especial as mais diversas manifestações de violência contra os jovens, mas também a defesa da vida e dos direitos humanos. Houve significativa ênfase à visita de Francisco a uma centro de reclusão de menores, à crise na Venezuela e à expectativa para o encontro de bispos convocado para fevereiro, no Vaticano, para debater o problema dos abusos na Igreja.

 

APRISIONAMENTO E RECONCILIAÇÃO

Um dos momentos considerados mais comoventes foi a visita do Papa a um cárcere de menores, na sexta-feira, 25. “Papa rejeita marginalização com visita a prisão no Panamá”, anuncia manchete da agência France Presse. O texto registra a denúncia do Papa a “muros invisíveis” que separam os “pecadores” do resto da população.

“O Pontífice argentino de 82 anos se afastou do clamor da juventude católica global reunida na Cidade do Panamá para fazer uma viagem de 40 km até a penitenciária de concreto fora da capital”, diz a reportagem. O Papa ouviu a confissão de alguns jovens presos e um deles disse: “Não há palavras para descrever a liberdade deste momento”, relata a AFP.

Também a Catholic News Agency deu destaque às confissões. “Ele disse aos reclusos que ‘vocês são um propósito maior’, e que há alegria no céu quando um pecador se arrepende”, relata Courtney Grogan

Também falando sobre a misericórdia divina, muitos jornalistas notaram a fala do Papa sobre o aborto, durante o voo de retorno a Roma. No próprio Vatican News, site do Vaticano, o diretor Andrea Tornielli comenta a fala do Papa, que condena o aborto, mas também procura dizer às pessoas envolvidas que Deus as acompanha no sofrimento.

“Para entender o drama do aborto, é preciso estar no confessionário e ajudar as mulheres a se reconciliarem com o filho não nascido”, escreve o vaticanista italiano.

 

FEVEREIRO

Também durante o voo papal, Francisco alertou os jornalistas para que “desinflem as expectativas” para o encontro de fevereiro. Ele convocou presidentes de conferências episcopais e representantes da Igreja em todo o mundo para refletir sobre o problema dos abusos sexuais e de poder praticados por membros do clero.

Conforme relatou Inés San Martin no site Crux, o Papa explicou à imprensa que a ideia partiu do Conselho de Cardeais (C9) e propõe uma espécie de “catequese” aos bispos, para que compreendam melhor o problema e saibam como agir em caso de necessidade. Também é objetivo fortalecer os protocolos da Igreja. “Durante o encontro, disse Francisco, os bispos irão ‘rezar, ouvir testemunhos e participar de liturgias penitenciais, pedindo perdão por toda a Igreja”, relata.

 

MIGRAÇÃO

Jornais e sites como o National Catholic Reporter registraram a defesa humanitária que Francisco faz dos migrantes, lembrando que a América Central é uma das regiões que mais enviam migrantes para os Estados Unidos, e muitos passando pelo México.

“O Papa Francisco lamentou a condenação insensível e irresponsável dos migrantes”, relata o vaticanista Joshua McElwee. Segundo a publicação, o Pontífice pediu que a Igreja ajude a criar “sociedades que acolham e protejam aqueles que deixam suas terras por causa da violência e da fome”

 

VENEZUELA

Entre outros problemas da América Latina, chamou atenção dos jornalistas o posicionamento do Papa Francisco para a crise na Venezuela. Embora os bispos venezuelanos não reconheçam a legitimidade do governo de Nicolás Maduro, a Santa Sé se mantém neutra para evitar que os fiéis venezuelanos sofram represálias.

“Tenho medo do derramamento de sangue. Por isso, peço que sejam grandes aqueles que possam ajudar a resolver o problema. A violência me aterroriza. E se precisarem de ajuda para entrar num acordo, peçam”, disse o Papa no voo de retorno a Roma, conforme reportagem de Paolo Rodari, no site italiano Corriere della Sera.

A Venezuela vive um dos momentos mais difíceis de sua história, com inflação incontrolável, pobreza e fome. As últimas eleições presidenciais, que deram vitória a Maduro, não foram reconhecidas internacionalmente. Na quarta-feira, 23, enquanto o Papa estava viajando para o Panamá, o presidente do Congresso venezuelano se declarou presidente interino do país e diversos países o reconheceram como chefe de Estado da Venezuela, inclusive os Estados Unidos da América e o Brasil.

 

SONHOS

Conforme a coluna de opinião de Annette Planells, no jornal panamenho La Prensa, a visita do Papa ao país lhes ajudou a recuperar a capacidade de esperar dias melhores, especialmente para os jovens. “A JMJ tirou o melhor de nós como sociedade e as mensagens do Papa Francisco foram diretas, pertinentes e oportunas”, escreve.

“Vivemos uma experiência única. Além das crenças pessoais, a visita de milhares de jovens de todo o mundo nos permitiu voltar a sonhar. Sonhar com uma sociedade mais humana, uma sociedade centrada nos indivíduos, na qual todos se ajudam a ser felizes”, diz a colunista.

 

LEIA TAMBÉM: Uma Jornada inesquecível para a América Central e para o mundo

 

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