'O que temos de mais precioso para oferecer é Jesus!'

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03 de fevereiro de 2019

A Celebração Eucarística no dia da Vida Religiosa Consagrada reuniu religiosos e religiosas de São Paulo na igreja do Colégio Madre Cabrini, no sábado, 2. A missa foi presidida por Dom Sergio de Deus Borges, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e bispo referencial da Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica.

Na homilia, Dom Sergio recordou que a Festa da Apresentação do Senhor, celebrada a cada 2 de fevereiro pela Igreja, é um momento particular na vida da Sagrada família, que era uma família que se esforçava para cumprir tudo o que determinava a Lei à época. 

 

 

Jesus, o consagrado do Pai

"O texto de Malaquias sugere uma bonita profecia, que provavelmente estava na mente do povo da época, que tem, em Jesus, a graça de ver cumprida a profecia. Ele, Jesus, se submete à Lei, como todos os outros. Estamos diante de um mistério, em que a Igreja celebra o consagrado do pai, Jesus, aquele que ilumina toda a história da humanidade. Jesus, ainda menino, é visto pelos olhos de Simeão e Ana", recordou Dom Sergio. 

O Bispo disse ainda que "o entusiasmo de Simeão foi tão forte, que a partir de então, para ele tanto faz viver ou morrer. Ana, uma mulher sábia, sabe interpretar aquele momento, pois esperava o Messias. Ela tem como recompensa da sua espera encontrar-se com o menino Jesus".

"Nós somos contemporâneos dos magos, de Simeão e Ana, dos pastores. Por isso, queridos consagrados e consagradas, que cada um possa se colocar aos pés de Maria e, assim como Simeão, pedir à Maria para segurar Jesus nos braços. Que cada um possa voltar ao centro de sua consagração. Mostrar as obras é algo muito bonito, o mais importante, porém, é colocar-se diante do Senhor", continuou Dom Sergio. 

O Presidente da celebração falou também sobre o valor da oração. "Precisamos desses prolongados tempos de oração e renúncia de nós mesmos para viver a expectativa da vinda do Senhor. Precisamos viver na expectativa de que o Senhor nos responde e acompanha cada um de nós. O que temos de mais precioso para oferecer aos jovens não são as constituições, é Jesus!".

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"Acredito que a vida consagrada é dom de Deus"

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31 de janeiro de 2019

Há cinco anos, Irmã Nilceia Aparecida Padilha mora no Malawi, país localizado na África meridional. Lá, a religiosa da Congregação das Irmãs Beneditinas da Divina Providência é responsável pela pequena comunidade de irmãs e também por uma creche com 60 alunos, quatro escolas primárias, uma escola de ensino médio que recebe 270 alunos, um pensionato para 80 meninas e a alimentação de 5.243 crianças em outra escola da região, com doações da Fundação Brunello e Frederica Cucinelli. “O que me sustenta na missão, sem dúvida, é a vida de oração”, disse a Irmã, que segue a espiritualidade beneditina, segundo a qual a oração e o trabalho devem se equilibrar.

A cada 2 de fevereiro, recorda-se, na Igreja em todo o mundo, o Dia da Vida Religiosa Consagrada. Com o tema “Vocações que anunciam a alegria do Evangelho e o amor de Deus”, esta é a 22ª vez que a data é celebrada. No Brasil, os consagrados são recordados também no terceiro domingo de agosto, mês em que se recorda todas as vocações.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Irmã Nilceia contou sua história vocacional e como tem sido a experiência missionária na África.

 

CONVERSA COM JESUS

Nilceia nasceu em Lauro Muller (SC) e é a mais nova de uma família de três irmãos. “Meus pais são católicos e têm muita devoção. Minha mãe conta que pediu a Nossa Senhora Aparecida uma menina a qual chamaria de Aparecida”, recordou.

De família simples, Nilceia disse que aprendeu em casa valores como honestidade, caridade e partilha. Com a mãe doente, a pequena lembra-se ainda de episódios como um dia em que sua mãe tomou remédios por engano e não conseguia se levantar da cama.

“Eu fui no quarto da vovó e pedi a Jesus que salvasse minha mãe. Que Ele não a deixasse partir, pois meus irmãos iriam sofrer muito. E que, se quisesse, Ele me levasse no lugar dela. Minha mãe melhorou e não mais ficou doente como daquela vez”, contou a Irmã.

“Minha mãe ficava longos períodos no hospital e eu sentia muito a sua falta”, disse Nilceia, que também sofria com crises de asma e bronquite continuamente e, por isso, ia muitas vezes ao Hospital São Marcos, gerenciado e mantido pelas Irmãs Beneditinas da Divina Providência, na cidade de Nova Veneza (SC).

 

VOCAÇÃO

“O tempo passou e melhorei das crises respiratórias. Então, comecei a frequentar a catequese na minha comunidade, que era coordenada por uma irmã. Quando recebi a comunhão pela primeira vez, eu tive uma sensação inesquecível”, recordou Irmã Nilceia, que começou logo depois a colaborar na comunidade e recebeu o sacramento da Crisma aos 14 anos.

Aos 15 anos, Nilceia já atuava como catequista e ingressou no Apostolado do Sagrado Coração de Jesus. Conta que sentiu o chamado à vocação religiosa em uma ocasião que sua família recebeu a visita de uma freira. “Em 1995, uma forte tempestade levou 15 pessoas da minha família e uma freira veio nos visitar. Foi a primeira vez que pensei em ser religiosa e cheguei a pedir aos meus pais que eu queria ir junto com a Irmã. Mas meu pai não permitiu, porque disse que eu era ainda uma menina. Aos 16 anos, tive um namorado, mas não me senti inclinada ao matrimônio. Vivi um período de dúvidas sobre qual vocação seguir” conta a Irmã.

 

UMA CONVERSA DECISIVA

Em meio às dúvidas e questionamentos, Nilceia foi com sua mãe à cidade e pediu para visitar o convento das irmãs. Foi a primeira vez em que pôde conversar sobre o que sentia e seu chamado para a vocação.

“Voltei para casa decidida. Terminei o namoro e ingressei na Congregação. Fiz uma linda experiência junto às irmãs e às meninas em situação de rua que eram atendidas pelas irmãs. Compreendi o que significaria meu sim a Deus e, todas as vezes que pensei em desistir do caminho, aquela primeira experiência me fazia seguir em frente”, contou.

Em 2003, aos 20 anos, Nilceia Aparecida professou os primeiros votos na Congregação das Irmãs Beneditinas da Divina Providência, no Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Curitiba (PR).


EM MISSÃO

Todos os dias, Irmã Nilceia participa da celebração eucarística e reza a Oração das Horas (Laudes, Hora média, as Vésperas e as Completas, recitadas antes de dormir). “Além disso, cada irmã tem uma hora diária de oração individual e, juntas, fazemos Adoração ao Santíssimo Sacramento em silêncio”, explicou a religiosa que disse ser este o segredo da sua perseverança e felicidade como religiosa.

“Ser consagrada hoje é ter a certeza de que nada é meu e que estamos aqui de passagem. Quando eu vim ao Malawi, por exemplo, não falava inglês e, chegando aqui, consegui compreender que Deus dá a graça e que Ele é o dono da missão, nós somos apenas seus colaboradores”, afirmou Irmã Nilceia. “Acredito que a vida consagrada é dom e graça de Deus e ser consagrada é trabalhar por ele na salvação e na redenção de todos”, continuou ela.

 

MALAWI

As crianças que permanecem na creche em que Irmã Nilceia e as outras irmãs de sua congregação são voluntárias andam até 7 quilômetros para chegar à escola. A região é muito pobre e há muitos casos de gravidez na adolescência. Além disso, muitas crianças e adolescentes fazem a única refeição do dia na escola.

“A espiritualidade da minha congregação é o confiante abandono na Divina Providência, que se traduz no carisma de acolher, assistir e educar a infância e a juventude, sobretudo em situação de risco”, recordou Irmã Nilceia, que não tem nada em seu nome e vive confiando na Divina Providência, conforme o carisma próprio da sua Congregação.

A Comunidade Sagrado Coração de Jesus foi aberta em 2007 no Malawi com o objetivo de expandir o carisma da Congregação e atender crianças carentes e órfãs de pais que foram e estão sendo, ainda, vítimas da Aids no país.

 

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Igreja necessita de profetas da esperança, diz Papa a religiosos

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13 de novembro de 2018

“Um convite para olhar com confiança o futuro da vida consagrada na Espanha”. Em síntese, foi o que escreveu o Papa Francisco na mensagem enviada nesta terça-feira à XVI Assembleia Geral da Conferência Espanhola de Religiosos (CONFER), que se realiza em Madri de 13 a 15 de novembro sob o lema “Darei a vós um futuro repleto de esperança”.

O Senhor dá esperança

O Senhor – disse Francisco – nos dá esperança com suas constantes mensagens de amor e com suas surpresas, que às vezes podem nos deixar desorientados, “porém nos ajudam a sair de nossos fechamentos mentais e espirituais. Sua presença é de ternura, nos acompanha e nos compromete”.

O caminho realizado pela CONFER – ressaltou o Papa – “tem uma história frutífera, cheia de exemplos de dedicação e santidade oculta e silenciosa”. Neste sentido, “nenhum esforço deve ser poupado para servir e encorajar a vida consagrada espanhola, para que não lhe falte a memória agradecida nem o olhar para o futuro, porque não há dúvida de que o estado de vida religiosa, sem esconder incertezas e preocupações, está cheio de oportunidades e também de entusiasmo, paixão e consciência de que a vida consagrada hoje tem sentido”.

Igreja necessita de homens e mulheres de esperança

O Papa enfatiza então que a Igreja “precisa de nós profetas, isto é, homens e mulheres de esperança”.

Diante das dificuldades que a vida religiosa está vivendo hoje disse o Pontífice, citando – “a diminuição das vocações e o envelhecimento de seus membros, os problemas econômicos e os desafios da internacionalidade e da globalização, as insídias do relativismo, a marginalização e a irrelevância social” – “nossa esperança se eleva ao Senhor, o único que pode nos ajudar e nos salvar”.

E esta esperança,  “leva-nos a pedir ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe, e trabalhar na evangelização dos jovens para que se abram ao chamado do Senhor”. Estar ao lado dos jovens – enfatizou Francisco – “é um grande desafio”.

Especialmente no contexto atual, há necessidade de “religiosos audazes, que abram novos caminhos e uma abordagem da questão vocacional como opção fundamental cristã. Cada tempo da história é tempo de Deus, também o nosso, pois o Espírito sopra onde quer, como quer e quando quer”.

Por isso, “qualquer momento pode transformar-se em um “Kairós”. É preciso somente estar atentos para reconhecê-lo e vivê-lo como tal”, alertou.

Vida Consagrada  caminha na santidade

Como religiosos – observou o Santo Padre – devemos ser obstinados, nos gastar e nos cansar, vivendo “as obras de misericórdia, que são o programa de nossa vida”.

“Não se trata de ser heróis nem de nos apresentar aos outros como modelos, mas de estar com aqueles que sofrem, acompanhar, buscar com outros caminhos alternativos, conscientes de nossa pobreza, mas também com a confiança depositada no Senhor e no seu amor sem limites. Daí a necessidade de voltar a ouvir o chamado a viver com a Igreja e na Igreja, deixando os nossos esquemas e confortos, para estar próximos das situações humanas de sofrimento e desesperança que esperam a luz do Evangelho”.

Os tempos mudaram e as nossas respostas devem ser diferentes, disse o Papa, encorajando os religiosos “a darem uma resposta tanto a situações estruturais que exigem novas formas de organização, como a necessidade de sair e buscar novas presenças para ser fiéis ao Evangelho e  canais do amor de Deus”.

“A vida de oração, o encontro pessoal com Jesus Cristo, o discernimento comunitário, o diálogo com o bispo devem ser uma prioridade na tomada de decisões. Temos que viver com humilde audácia olhando para o futuro e em atitude de escuta do Espírito, com ele podemos ser profetas da esperança”, disse o Santo Padre ao concluir, concedendo sua bênção aos participantes da Assembleia.

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Conferência dos Religiosos do Brasil realiza 53ª assembleia

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05 de setembro de 2018

Entre os dias 1º e 2 de setembro, aconteceu na Fundação ITESP, no bairro da Bela Vista, a 53ª assembleia da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), do Regional São Paulo.

O objetivo da assembleia deste ano foi de eleger uma nova coordenação regional para atuar entre os anos de 2018 a 2021. A Presidente da Conferência Nacional, Irmã Maria Inês Ribeiro, MAD, participou da atividade.

Aproximadamente 120 provinciais, animadores de núcleos e delegados participaram do encontro e ouviram de Dom Manoel Ferreira dos Santos Junior, MSC, Bispo Referencial para a CRB, os avanços do grupo e as perspectivas de desafios para os próximos anos.  

O Arcebispo Metropolitano de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, falou na manhã do primeiro dia de assembleia, e agradeceu a dedicação de religiosos e religiosas que atuam dentro das demais dioceses que compõem o Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O segundo dia de encontro teve início com missa presidida pelo Padre Marcos de Àvila, RCJ. Durante a homilia, Padre Marcos destacou a importância de uma vida integra e transparente e de estar de braços abertos para os desafios que vão de encontro com cada carisma.

Ao fim da assembleia, foram divulgados os nomes do membros da nova coordenação. São eles: Ir. Auristênio Batista Bandeira, ISC; Ir. Edilamar da Glória Martins, CP; Pe. Flávio José de Lima da Silva, SJC; Ir. Inês da Costa Camargo, FTOS; Ir. Maria Marta Silva Santos, FAP; Pe. Mateus de Jesus Donizetti Albino, RCJ; e Pe. Rubens Pedro Cabral, OMI.

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Vida consagrada é sinal de esperança em meio às contradições do mundo

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Vida consagrada é sinal de esperança em meio às contradições do mundo

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26 de agosto de 2018

No sábado, 18, a Catedral da Sé acolheu os religiosos e religiosas consagrados que vivem e atuam na Arquidiocese de São Paulo para uma missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, recordando a vocação à vida religiosa. 

Na homilia, Dom Odilo recordou que o mês vocacional, vivenciado pela Igreja no Brasil, não é apenas ocasião para homenagear os diferentes estados de vida, mas também um mês de reflexão sobre as vocações na Igreja e de oração por elas. “Sem as vocações de especial consagração, a Igreja perde a vitalidade, não consegue dar conta da missão. Nós cremos que Deus continua a chamar, que vê a necessidade da Igreja, do desafio da messe que é grande”, afirmou.

“Certamente, por muitas circunstâncias, hoje está mais difícil ouvir, acolher o chamado de Deus. Talvez até mesmo de falar da vocação. Também faz parte da missão falar sobre as vocações assim como rezar pelas vocações, atendendo ao pedido de Jesus: ‘Pedi ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe’”, continuou o Cardeal Scherer. 

O Arcebispo agradeceu a presença dos consagrados não apenas na região central da cidade, como também nas periferias, sobretudo nas várias situações que requerem o testemunho da Igreja. Ele também recordou os religiosos idosos e enfermos que não puderam participar da missa. 

Ao falar sobre a liturgia do dia, da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, Dom Odilo recordou que a Virgem Maria viveu plenamente sua consagração a Deus e a confiança plena na sua palavra e que, por isso, ela é modelo e inspiração para todos aqueles que entregam sua vida à vontade de Deus.

“A vida consagrada é marcada fortemente pelo sinal da esperança no cumprimento pleno da salvação. Sem isso, não teria sentido consagrar-se nesta vida”, acrescentou o Cardeal, convidando os religiosos a renovarem a alegria da consagração a Deus, de viver no meio das contradições do mundo com um olhar que vai “além dos condicionamentos ligados a esta vida”.

 

TESTEMUNHO DE SANTIDADE

Ainda sobre o testemunho dos consagrados na Igreja em São Paulo, Dom Odilo ressaltou que os santos e beatos que viveram na Arquidiocese foram religiosos –São José de Anchieta, Santa Paulina, Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, Beato Mariano de La Mata e Beata Assunta Marchetti – que muito contribuíram para a evangelização. “O chamado à santidade é o primeiro e mais essencial. A vida santa é a nossa vocação e meta comum a partir do Batismo. Chegar à eternidade e viver na glória de Deus, como Maria, requer vida santa”, completou o Arcebispo, reforçando que “o estilo de vida dos cristãos é a santidade”. 

Em nome dos consagrados, o Padre Rubens Pedro Cabral, Diretor do Regional São Paulo da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB-SP), renovou o compromisso dos religiosos na missão evangelizadora em São Paulo, especialmente no caminho sinodal vivido pela Arquidiocese. “Que a vida religiosa continue a ser este sinal benéfico no meio desta cidade confusa e fragmentada”, afirmou.  

 

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Vida consagrada: dom de Deus e da Igreja para o mundo

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19 de agosto de 2018

Sentir-se chamado por Deus e consagrar-lhe a vida é uma das decisões mais importantes que alguém pode tomar. “O que fazer da minha vida? O que Deus quer de mim? ” As indagações iniciais são muitas, numa atmosfera em que enamoramento e luta crucial se entrelaçam, em busca de um ideal a ser atingido. Por fim, o tempo - esse aliado importantíssimo do discernimento - mostra que o amor, acompanhado de abnegada entrega, é sempre a melhor resposta aos questionamentos da existência de cada um. 

É isso que demonstram as histórias de vida de várias pessoas que, atentas ao divino convite que receberam, responderam-lhe positivamente e assumiram sua vocação como uma alegre vivência de fé e testemunho cristão. Trata-se dos chamados à vida consagrada e religiosa, realidade que será retratada por toda a Igreja no próximo domingo, 19, em continuidade às celebrações deste mês vocacional em todo o Brasil. 

“A iniciativa de se utilizar o mês de agosto para valorizar as distintas vocações da Igreja no Brasil foi estabelecida na 19ª Assembleia Geral da CNBB, em 1981. Estamos, portanto, na 37ª edição do mês que enaltece as vocações da Igreja em nosso país”, afirma o Padre Rubens Pedro Cabral, Oblato de Maria Imaculada, e diretor do Regional São Paulo da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), entidade que busca valorizar a vocação à vida religiosa consagrada, ativa ou contemplativa. 

Ele explica que os religiosos compreendem um grande número de pessoas dentro da Igreja Católica em todo o mundo. No Regional São Paulo da CRB, que engloba todo o Estado, são cerca de 9 mil religiosos, sendo que há 238 casas vinculadas às congregações masculinas e 932, às femininas. 

 

TESTEMUNHOS VIVOS

“Venho de uma família pobre e católica da periferia da Zona Sul de São Paulo; Fui batizada, recebi a 1ª comunhão e frequentava a missa aos domingos. Assim cresci, pensando que minha vida seria comum, como a das pessoas ao meu redor. 

Aos 15 anos tive uma forte experiência com a Palavra de Deus, que veio ao meio encontro num momento em que me sentia vazia e triste, mesmo tendo uma vida aparentemente tranquila e feliz.

Por acaso, encontrei um pequeno Evangelho que ganhei na minha 1ª Comunhão, quando tinha 7 anos. Abri na passagem das bem-aventuranças, no capítulo quinto de Mateus e, estranhamente, aquela palavra saciou o meu coração e, em meio às lágrimas, senti uma alegria indizível... Já era Deus se manifestando, mas ainda não tinha consciência disso”, relata Cacilda da Silva Leste, 45 anos, paulistana, missionária e consagrada da Comunidade Missão Belém, cujo carisma é tratar das pessoas envolvidas com drogas ou álcool e em situação de rua. 

 A experiência de Gehilda Cavalcante, de 76 anos, pertencente ao Movimento dos Focolares e da Obra de Maria, é igualmente repleta de significado: 

“Eu sempre me perguntei o que Deus queria de mim, mas não tinha nada claro. Tinha 18 anos quando eu conheci o Movimento dos Focolares e fiquei muito impressionada, desde o primeiro momento quando uma jovem foi apresentá-lo no colégio onde eu estudava. Dizia que este Movimento começou por Chiara Lubich e um grupo de jovens, durante a 2ª Guerra Mundial, na Itália, quando tudo desmoronava. Ali elas entenderam que tudo passa, só Deus permanece e decidiram escolhê -Lo como o tudo de suas vidas. 

“E para amar a Deus é preciso amar o próximo, pois ‘é um mentiroso aquele que diz que ama a Deus, a quem não vê, se não ama o próximo que vê’. Para mim, foi a maior novidade, pois eu pensava que amar a Deus era uma coisa boa, eram as pessoas que atrapalhavam. Cada palavra penetrava profundamente na minha alma: ‘o maior desejo de Jesus está expresso no mandamento novo, Ele veio trazer a unidade e deu tudo de si na cruz para que se realizasse, antes de morrer a pediu ao Pai: ‘Que todos sejam um’”.

 

DISCERNIMENTO

Após um período de insegurança (naturalmente humana) diante do chamado feito por Deus e das contrariedades que a vida apresenta, percorre-se ainda um caminho para discernir o que, de fato, Ele nos pede, como conta Cacilda: 

“O tempo passou, e aos 19 anos perdi meu pai num atropelamento, o que me fez deixar de lado os sonhos e me dedicar à família... Aos 22 anos conheci o grupo de oração ‘Deus Salva’. Nunca tinha visto tantas pessoas felizes juntas, louvando a Deus numa igreja, e O senti mais uma vez falar comigo. Durante a Santa Missa, no momento da comunhão, senti novamente aquela alegria indizível que me atraia profundamente... Comecei a me doar como serva no grupo, recebi a Crisma, começamos a trabalhar na recuperação de jovens drogados e de suas famílias, participava das formações, enfim tudo o que era possível, além do meu trabalho normal e dos cuidados da minha família...”

O mesmo aconteceu na vida de Gehilda, que teve de enfrentar momentos trágicos no âmbito familiar para então perceber a mão de Deus em tudo: dois de seus tios assassinaram um senhor e, em consequência disso, os filhos desse senhor, não encontrando os tios assassinos, que ficaram foragidos, por vingança mataram o seu pai (que na época tinha 36 anos e 7 filhos, sendo ela a mais velha, de apenas 12 anos) e outro tio, ambos inocentes.

“Entendi que minha vida deveria ser pautada no Evangelho, sobretudo na sua essência que é o amor, a ser vivido em família e com cada próximo. No Movimento tive oportunidade de encontrar duas irmãs e um irmão daquela família inimiga, fiz as pazes com eles e continuamos tendo um bom relacionamento. Senti na alma uma grande liberdade e o desejo de doar a minha vida como uma resposta ao amor de Jesus por mim, expresso especialmente na cruz, e de viver pela unidade, a fim de levá-la a toda parte. ”

 

TUDO VALE A PENA!

Cacilda continua a relatar o que seu coração sentia a cada momento: 

“Após o tempo de discernimento, continuei a sentir o forte apelo de Deus em mim. Sentia uma profunda paz interior que me fazia superar todo e qualquer medo ou dúvida que surgia. Em 24 de setembro do ano 2000, comecei minha experiência numa comunidade de vida. Fui para ficar um mês, mas não consegui mais voltar para casa. A vida doada a Deus, aos irmãos e aos pobres me encheu daquela alegria que vi nos irmãos do grupo de oração, que vi nos missionários que conheci, que vi na história de São Francisco: finalmente havia entendido, havia encontrado o sentido da minha existência. Não há nada que pague o sorriso de um pobre! Não existe alegria maior! ” 

Gehilda, por sua vez, partilha da mesma opinião: 

“Eu me sinto feliz, realizada naquele lugar que Deus pensou para mim e experimento o que Jesus prometeu àqueles que deixam tudo por Ele: o cêntuplo nesta terra e a esperança da vida eterna. Encontro em Jesus na cruz a resposta para todos os sofrimentos e experimento a plenitude da alegria que Ele prometeu a quem vive na unidade. A maior alegria é viver num ambiente onde Jesus possa realizar a Sua promessa: ‘Onde dois ou mais estão unidos no meu nome, eu estou no meio deles’. É Jesus, presente espiritualmente entre nós, que dá sentido a toda nossa vida. Por isso, o meu empenho é viver para ser uma resposta ao amor de Jesus na cruz e amar cada um a ponto de o outro se sentir amado e me amar também, existindo assim o amor recíproco, que atrai a presença espiritual de Jesus na comunidade. ”

 

CONSELHOS 

Gehilda, com a certeza de ter feito a opção correta, se dirige àqueles que ainda têm dúvidas em relação à vocação: 

“Eu diria o que Jesus diz no Evangelho: ‘A quem me ama eu me manifestarei’. Quando amamos cada próximo que passa ao nosso lado, sentimos depois a união com Deus e ouvimos melhor a Sua voz que fala no nosso íntimo e diz o que Ele quer de nós. ” 

A opinião de Cacilda não é diferente: “Quando terminou o tempo do meu discernimento, pensei: ‘Se todo jovem tivesse a oportunidade de entender o chamado de Deus e experimentar a alegria que hoje estou sentindo, seria a pessoa mais feliz do mundo! Rezo a Deus para que todo jovem que sente esse apelo interior, tenha a disposição e a coragem de lhe dizer sim. Um sim generoso, como aquele de Maria, a esse Deus de amor, apaixonado por sua criatura e que nada mais deseja a não ser fazê-la feliz! ”

 

(Colaborou Naya Fernandes)
 

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‘Sou uma apaixonada por Deus e pela vida que eu abracei’

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08 de fevereiro de 2018

Formada em Filosofia, História, Pedagogia, Mestra em Educação com especialização em Pastoral Juvenil e Doutora em Psicologia pela USP, Irmã Adair Aparecida Sberga, 54, falou ao O SÃO PAULO sobre aquilo que dá realmente sentido à sua vida: ser religiosa consagrada. Há 32 anos na Congregação das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas), Irmã Adair, que atualmente é Diretora Executiva da Rede Salesiana de Escolas do Brasil e Vice-Presidente da Associação Nacional das Escolas Católicas (ANEC), afirmou que a vida religiosa “é um sinal para o mundo de que as pessoas podem ser felizes quando se voltam para o seu interior, onde está o amor, onde está Deus”. 

 

O SÃO PAULO – COMO FOI O DESPERTAR DA SUA VOCAÇÃO PARA A VIDA CONSAGRADA?

Irmã Adair Aparecida Sberga – Eu participava do grupo de jovens de minha paróquia, onde nós desenvolvíamos atividades como catequese, visitas a asilos e atividades de solidariedade. Certa vez, o nosso pároco nos falou sobre se apaixonar por Jesus Cristo. Isso me tocou profundamente. Um dia, em uma procissão, eu vi uma religiosa de hábito e comecei a pensar que também poderia ser igual a ela. O desejo que sentia era de estar a serviço. No lugar de me dedicar a uma pessoa só, a uma família, queria estar disponível para servir a outras pessoas. Eu comecei a frequentar encontros vocacionais e procurei uma religiosa para conversar. Eu já havia concluído o ensino médio, tinha um bom emprego, mas deixei tudo para seguir ao chamado. No início, foi muito difícil, porque minha família não aceitava minha decisão. Aos poucos, eles foram percebendo que era um chamado de Deus. 

 

COMO A SENHORA DEFINE A VIDA CONSAGRADA A PARTIR DA SUA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA?

É uma entrega de consagração a Deus, um serviço de doação naquilo que fazemos com total gratuidade. Não é uma fuga do mundo, mas um compromisso maior que assumimos com o mundo e com a humanidade. As palavras serviço e disponibilidade são muito fortes para mim, além do amor às crianças, adolescentes e jovens. Tanto que, por isso, sou uma irmã salesiana. Sou muito feliz. Sinto a bondade e o amor de Deus me conduzindo para dar testemunho da santidade, da radicalidade das bem-aventuranças. Quando eu decidi seguir a vida religiosa, eu manifestei a um padre minha dúvida de que se tratava mesmo de um chamado de Deus ou era só uma vontade minha. Então, ele me disse: “Minha filha, se você quer é porque Deus também quer”. Deus não vai pedir para mim algo que vá contra minha natureza. A correspondência ao chamado de Deus é justamente se sentir feliz naquilo que está fazendo. A vida religiosa é uma das formas de viver a vocação universal à santidade. 

 

COMO EXPLICAR OS VOTOS DE POBREZA, CASTIDADE E OBEDIÊNCIA NOS DIAS DE HOJE?

A obediência não significa ser uma pessoa subserviente. Mas é obedecer ao próprio Deus que se manifesta na nossa vida. O voto de obediência é estar atento àquilo que a própria vida nos coloca e deixar que Deus conduza a nossa história. Muitas vezes queremos fazer a nossa vontade, do nosso jeito. Porém, quando me coloco na perspectiva de Deus, ele me conduz para que eu possa dar os frutos que ele espera que eu dê. Portanto, é uma abertura para a ação de Deus. A castidade é a radicalidade do amor. Às vezes, as pessoas relacionam a castidade somente com sexualidade, mas ela é muito mais ampla. É a capacidade de amar e crescer no amor ao próximo. Por isso, estamos abertas a amar a todos e não somente a uma pessoa. É ter um coração indiviso que ama com mais intensidade a todas as pessoas nas suas condições de vida. Já a pobreza é a grande disponibilidade à gratuidade. O meu tempo não é só para mim, aquilo que temos, dividimos. Não é só não ter, mas a possibilidade de uma partilha maior. 

 

O QUE SUSTENTA A SUA VOCAÇÃO?

Em primeiro lugar, a oração. Nem sempre eu estou na capela, por conta da missão exigente que desempenho atualmente. Mas o tempo todo eu estou rezando. Tudo o que faço coloco na presença de Deus. Eu sinto sua presença. É essa proximidade com o divino que me sustenta. Sou uma apaixonada por Deus e pela vida que eu abracei.

Deus nos fala muito também por meio da vida comunitária. Não é simples viver em comunidade, pois convivemos com pessoas de todos os tipos. Mas a comunidade me ajuda a me constituir cada vez mais como pessoa. O tempo todo, a comunidade me dá a possibilidade de confronto para saber se estou vivendo com radicalidade aquilo que professo. Uma sustenta a vocação da outra. A vida comunitária é fundamental na vida religiosa para que não nos percamos na estrada. 

 

EM MEIO AOS MUITOS TRABALHOS, NÃO EXISTE O PERIGO DE CAIR NO ATIVISMO?

São muitas as exigências do mundo contemporâneo e muitas as atividades a serem realizadas pelos religiosos. Realmente, nós podemos cair no ativismo. Mas não é o fazer muitas coisas que conduz ao ativismo, e, sim, o modo como fazemos. Precisamos dar sentido a tudo o que realizamos. Quando trabalhamos na presença de Deus, aquilo não nos esgota. No entanto, precisamos ter consciência de que, como seres humanos, temos um limite de natureza física. Por isso, temos que ir até onde nossa saúde suporta. Porque, se nós nos esgotarmos demais, vem a irritação, o cansaço, a perda do entusiasmo e até do amor que sustenta a vida. E necessário cuidar da saúde física para ter uma boa espiritualidade. 

 

COMO FILHA DE MARIA AUXILIADORA, QUAL É O PAPEL DA NOSSA SENHORA NA SUA CONSAGRAÇÃO?

Nossa Senhora é uma presença muito especial em minha vida. Quando eu era irmã bem jovenzinha, uma religiosa me disse: “Quer salvar a famílias, reze o Terço todos os dias”. Aquela foi uma palavra de Deus em minha vida. Com essa oração, eu já alcancei muitas graças da Mãe de Jesus. Uma vez, rezando o Terço, eu vi Nossa Senhora. Isso não é impossível, quando nos abrimos para Deus, tudo é possível. Ela é uma mediadora de Deus, intercessora. Ela é uma boa mãe que nos acompanha. 

 

A SENHORA TEVE EXEMPLOS QUE A INSPIRARAM NA VOCAÇÃO?

Muitas irmãs com quem eu convivi foram mulheres muito fiéis, estudiosas, de uma grande doação, com uma sabedoria de vida que nos provocava. Elas nos davam o testemunho de coerência. Recentemente, em Natal (RN), encontrei-me com uma religiosa de 97 anos, muito lúcida, com um enorme desejo de viver a santidade. Esses exemplos de abertura de vida, desejo de viver na bondade, na pureza e nobreza de vida nos inspiram muito.

 

QUAL É A CONTRIBUIÇÃO DA VIDA CONSAGRADA PARA MUNDO?

A vida religiosa consagrada é marcada pelo despojamento e pela vivência da radicalidade e daquilo que é essencial. Nós vivemos em uma sociedade que fez a opção pelo consumo, pela materialidade e pelo individualismo. Cada vez que as pessoas vão em busca disso, se afastam do encontro com a sua interioridade. A vida consagrada nos ajuda a encontrar essa interioridade. A vida religiosa é um sinal para o mundo de que as pessoas podem ser felizes quando se voltam para o seu interior, onde está o amor, onde está Deus.

 

ENTÃO, VALE A PENA SER UMA CONSAGRADA?

Sim! Cada um tem que descobrir para o que Deus o chama e ter a abertura para esse chamado. Não dizer logo “isso não é para mim”. Deus chama, mas as pessoas precisam responder. E, se alguém recebeu o chamado à vida religiosa consagrada, será feliz assim, correspondendo ao dom que Deus lhe deu. 

 

As opiniões expressas na seção “Com a palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.
 

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