Venezuelanos são acolhidos em casa mantida por paróquia da Arquidiocese

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01 de novembro de 2019

Um novo grupo de imigrantes venezuelanos foi acolhido, no dia 23, na casa preparada pela Pastoral do Migrante da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Episcopal Brasilândia. 
Angie Carolina Lanza Pino, 33, David Rafael Ytrigo, 34, e os irmãos Margareth Katiuska Duque Carvajal, 30, e Alejandro José Torres Carvajal, 22, viajaram de avião por cerca de sete horas de Boa Vista (RR) a São Paulo (SP), com conexão em Brasília (DF). Eles seguiram o itinerário de milhares de venezuelanos que cruzaram a fronteira com o Brasil em busca de trabalho e melhores situações de vida, após o agravamento da crise política e humanitária no país governado pelo presidente Nicolás Maduro. 
Esses imigrantes fazem parte do Plano Nacional de Integração Caminhos de Solidariedade: Brasil & Venezuela, promovido pela Cáritas Diocesana de Roraima, com a Cáritas Brasileira, o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), com o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para agilizar o processo de interiorização, integração e acolhida dos migrantes em pelo menos 90 dioceses do Brasil, dentre elas a Arquidiocese de São Paulo.
O imóvel, localizado na Freguesia do Ó, foi mobiliado com doações e é destinado à acolhida provisória dos imigrantes, para que eles possam procurar emprego, estabilizar-se e conseguir uma moradia fixa. “Assim que eles conseguirem emprego, nós ainda vamos ajudar por quatro ou cinco meses com cestas básicas até que eles se organizem”, explicou ao O SÃO PAULO Darialva Linge, coordenadora da Pastoral do Migrante da Paróquia. O primeiro grupo foi acolhido na casa em março e já deixou o imóvel.

RECOMEÇO
Professora de Física, Margareth chegou a Bonfim (RR) em 2018. Na Venezuela, ela trabalhava havia seis anos no Ministério da Educação. Com o agravamento da crise, decidiu deixar tudo para vir ao Brasil. Margareth contou que chegou ao ponto de trabalhar somente para poder comer, sem nenhuma perspectiva de futuro.  
Em Bonfim, Margareth começou a trabalhar em restaurantes. Meses depois, conseguiu trazer sua mãe, seu irmão, cunhada e sobrinhos. Contudo, as oportunidades de emprego e desenvolvimento em Roraima são limitadas, ainda mais com o grande contingente de imigrantes que chegam a todo instante. Por isso, ela resolveu buscar mais oportunidades no Sudeste. 
“Estou disposta a trabalhar com o que for necessário, seja como cozinheira, faxineira, cuidando de crianças, ensinando-as”, disse Margareth. Para voltar a exercer sua profissão, ela precisa traduzir seu diploma. Porém, isso tem um custo que no momento ela não pode arcar. Agora sua prioridade é ter condições de trazer seus familiares para São Paulo. 
Na Venezuela, o irmão de Margareth, Alejandro, trabalhava em uma empresa de alimentos. Ao chegar a Bonfim,  há 11 meses, conseguiu emprego em uma carvoaria e em uma fazenda. Contudo, não há estabilidade alguma nesses empregos. Em São Paulo, ele também espera conseguir uma oportunidade em qualquer área. 

CRISE
Angie é licenciada em Enfermagem, especialista em Terapia Intensiva e Instrumentação Cirúrgica. Ela trabalhou 12 anos em hospital público e em clínicas privadas. 
A crise começou a afetar significativamente sua vida entre 2016 e 2017. Até então, Angie, sua mãe, suas duas filhas e uma neta tinham uma vida confortável e boas condições financeiras. A situação decisiva para deixar o país foi quando Angie chegou a ponto de ter que decidir comprar comida em vez dos medicamentos para sua mãe.
“Antes da crise, havia pobreza, mas era possível viver com um salário mínimo, comprando ao menos o necessário. Hoje, com um bom salário, como o que eu recebia, não é possível comprar um frango”, acrescentou Angie. 
Ao chegar a Caracaraí (RR), em 2018, ela trabalhou em uma casa de família e em uma lanchonete. Além de estudar português, fez um curso de cozinheira, para ter mais oportunidades de trabalho. A enfermeira quer se estabilizar minimamente em São Paulo para poder trazer sua mãe, suas filhas e a neta. 

POR UMA VIDA DIGNA
David trabalhava em uma grande oficina mecânica na Venezuela e tinha estabilidade de vida. “Jamais pensei em sair do meu país. Eu não era milionário, mas tinha comodidade em nossa família”, contou. 
Em Bonfim, ele começou a trabalhar como pedreiro. Porém, nem sempre era pago pelo trabalho. “Para nós, homens, a situação é mais difícil. Quem nos contrata promete que pagará em alguns dias, mas nem sempre cumpre a promessa. Enquanto isso, nossas mulheres e filhos estão na Venezuela passando necessidade e nós não conseguimos enviar dinheiro para eles, porque não recebemos”, relatou David. 
O venezuelano contou sobre as inúmeras discriminações que sofre por causa da má conduta de alguns de seus compatriotas. “Nós, que queremos trabalhar e dar uma vida melhor para nossa família, infelizmente somos confundidos com aqueles que cometem crimes. Nós não saímos de nossas casas para fazer mal, queremos uma vida digna”, disse.  

ESPERANÇAS 
Embora desejem que a situação de seu país melhore para que um dia possam voltar a viver lá, os venezuelanos não veem muitas perspectivas concretas para que isso aconteça logo, pois eles não conseguem enxergar uma alternativa para o atual governo. “Não basta simplesmente a saída de Maduro do poder, pois não temos quem assuma e apresente um projeto real de mudança”, afirmou Angie. 

AJUDA DA IGREJA
Na opinião destes venezuelanos, a Igreja foi fundamental para suas vidas. Desde que chegaram a Roraima, encontraram na comunidade eclesial o apoio para se estabilizar. 
Além disso, eles reconhecem que essa experiência migratória provocou uma mudança interior diante dos desafios que têm enfrentado. “Tenho esperança de que, mesmo que demore, o povo venezuelano vai superar essa situação, e aprenderá muito de tudo isso que estamos passando, sobretudo, a valorizarmos mais o que é essencial na vida e as coisas que conquistamos com o suor do nosso trabalho”, disse Margareth. 
Ela acrescentou que a fé é fundamental para lhes dar força para enfrentar todos esses desafios, pois “são uma cruz, após a qual haverá uma ressurreição”.

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Com esperança de vida melhor, venezuelanos chegam a São Paulo

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13 de março de 2019

Depois de cerca de cinco horas de viagem aérea de Boa Vista (RR) a São Paulo (SP), com conexão em Brasília (DF), o grupo de sete imigrantes venezuelanos foi acolhido na casa preparada pela Pastoral do Migrante da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Episcopal Brasilândia, na sexta-feira, 8.

As primeiras a entrar na casa foram as crianças: Isabella Victoria Lezama Yepez, 9, Samantha Valentina Lezama Yepez, 7, e Juan Pablo Lezama Yepez, 4. Filhos do casal Cruz Angel Lezama Natera, 47, e Yussi Elizabeth Yepez de Lezama, 41, os pequenos fizeram uma festa quando entraram no quarto preparado pelas famílias e viram as camas repletas de brinquedos.

Já os irmãos Marvin Joel Arnal Gomez, 28, e Josué Manases Arnal Gomez, 22, estavam mais tímidos. Somente com a roupa do corpo, portavam apenas uma pasta com os documentos.

Os imigrantes chegaram a São Paulo com o desejo de conseguir emprego e logo ter condições de alugar uma casa e poder prover o seu sustento.

 

SOLIDARIEDADE

A casa foi mobiliada com doações, assim como os alimentos e utensílios domésticos. O aluguel e as despesas com água e energia elétrica serão pagos pelo Serviço Pastoral do Migrante (SPM), enquanto os paroquianos arcarão com as demais despesas do dia a dia.

No almoço oferecido pela comunidade, estavam alguns voluntários acompanhados pelo Pároco, Padre Edemilson Gonzaga. Durante a refeição, os imigrantes compartilharam com a reportagem do O SÃO PAULO o drama vivido em seu país e suas esperanças.

 

CRISE ECONÔMICA

Engenheiro eletrônico, Cruz partiu de sua terra natal para Roraima há um ano e meio. Com um bom cargo na empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), ele se viu obrigado a renunciar ao cargo e deixar o País após o agravamento da crise que desvalorizou enormemente a moeda local. Em 2007, Cruz recebia um salário equivalente a mil dólares. Dez anos depois, seu salário equivalia a 5 dólares. “Com isso, eu não poderia mais sustentar minha família, pagar a escola de minhas filhas, pois o ensino público era muito precário”, relatou.

Em uma de suas férias, Cruz foi com a família a Boa Vista para verificar a possibilidade de residir na cidade. Em seguida, deixou a esposa e os filhos na casa de uma cunhada que já morava lá, e retornou à Venezuela para formalizar seu desligamento da empresa, pagar contas pendentes e deixar de vez o País.

 

FALTA COMIDA

O casal destacou que a logística para conseguir alimentos era muito difícil, por meio de um programa do governo, cujos critérios de seleção dos beneficiários, segundo o relato deles, são mais políticos do que humanitários. “Há pessoas que não comem praticamente nada. Eu conheci famílias que ficam dias sem comer e estão muito debilitadas”, disse Yussi.

A venezuelana chegou a passar a noite nas filas intermináveis para comprar comida e produtos de necessidade básica. “A primeira vez que enfrentei essas filas foi há quase cinco anos, quando Juan Pablo estava prestes a nascer, para comprar fraldas”, lembrou.

Ainda segundo a mãe de família, a classe média praticamente não existe no País. “Ainda há famílias com boas casas, carros, mas sem dinheiro para mantê-los, sem sequer ter condições de comer.” Outro problema relatado é o alto índice de violência desencadeado pela crise. “Tínhamos medo de andar nas ruas. Havia gangues armadas em motos que assaltavam as pessoas”, completou a imigrante.

 

SITUAÇÃO POLÍTICA
 

Na percepção do grupo de imigrantes, a crise no País começou a ser percebida logo após a morte do presidente Hugo Chávez, em 2013. Para eles, o povo depositou uma esperança no líder que depois não se concretizou. “Antes, havia dois grupos políticos muito fortes que se alternavam no poder por décadas. Porém, ambos eram ruins e corruptos. Chávez surgiu com a promessa de ser uma alternativa a essa situação, como um salvador da pátria, sobretudo dos mais pobres. O que vemos hoje é o contrário. Os pobres são os que mais sofrem com a miséria.”

Os imigrantes reconhecem que muitas pessoas estão esperançosas com a ascensão do autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó. No entanto, eles ainda estão receosos de que a mudança possa vir por meio de outro “salvador da pátria”.

“O culpado por todos os problemas na Venezuela é o próprio venezuelano, porque não assumiu sua responsabilidade como pessoa, dando poder a alguém que não sabe governar para o bem de todos”, enfatizou Cruz.

 

FUTURO DO PAÍS

Quando perguntado se tem esperança de retornar em breve a seu País, Cruz abaixou a cabeça por um instante e disse que não crê que a situação se resolva tão logo, e que o processo não é simples. “É um problema muito complexo. A Venezuela não vai se reerguer em pouco tempo. Todas as estruturas do País estão corrompidas e debilitadas. Para se superar isso, são necessários recursos financeiros e humanos. A grande maioria dos profissionais com conhecimento técnico foi embora. Eu estou profundamente triste pela situação do meu País”, explicou.

 

EMPREGO

Os jovens irmãos Gomez estavam em Boa Vista havia quatro meses. Deixaram seus pais e irmãos em busca de condições de tirá-los do País.

“Nós queremos trabalhar no que for possível, construção civil, marcenaria, qualquer coisa. Temos esperança de ajudar os nossos familiares a sair da situação que estão vivendo em nosso País”, contou Josué. “A grande dificuldade em Roraima é que não há emprego, nem oportunidades para provermos o próprio sustento e ter uma vida melhor”, acrescentou Marvin.

Foi a falta de emprego em Roraima que também motivou a vinda da família de Cruz para o Sudeste. “Minha expectativa é conseguir um emprego. Eu não vim para pedir, eu vim para dar. Deemme a oportunidade de mostrar que posso ser útil para a sociedade”, afirmou o engenheiro.

“Na Venezuela, temos a nossa casa, mas não temos comida nem escola para nossos filhos. Não era o que desejávamos, deixar nosso lar, nossa vida na nossa terra. Essa situação toda que nos forçou a sair”, completou Yussi.

 

ACOLHIDA

No domingo, 10, os imigrantes foram acolhidos em uma das missas da Paróquia Santa Cruz. Na segunda-feira, 11, os agentes da Pastoral do Migrante começaram a ajudar o grupo a matricular as crianças na escola e no serviço público de saúde, além de ajudar os adultos a procurar emprego. A Paróquia também irá oferecer um curso de Português para eles.

“Que essa iniciativa possa inspirar outras comunidades a abrir seus corações para acolher esses irmãos que vieram para o Brasil em busca de uma vida mais digna”.

 

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Cáritas sistematiza projeto de interiorização de venezuelanos

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28 de novembro de 2018

No dia 14, na reunião ordinária do clero atuante na Região Belém, a Cáritas Brasileira - Regional São Paulo apresentou o projeto Pana, que tem o objetivo de contribuir para a assistência humanitária e na integração local das pessoas solicitantes de refúgio e de migrantes venezuelanos vulneráveis no Brasil, particularmente mulheres, crianças, populações indígenas, pessoas com deficiência e idosos.

O projeto é de responsabilidade da Cáritas Brasileira e conta com a ajuda financeira da Cáritas da Suíça, com o apoio e a experiência da Caritas Arquidiocesana de São Paulo, que trabalha há 40 anos com o tema do refúgio. Sendo um projeto nacional, ocorrerá nos seguintes estados: Amazonas, Pernambuco, Paraná, Roraima, Santa Catarina e São Paulo, além do Distrito Federal, e deverá acolher 3,5 mil venezuelanos que vivem na situação de migração forçada.

Em São Paulo, a ação acontecerá no imóvel localizado no Jardim Guairacá, na zona Leste, pertencente ao Centro de Educação de Base Sítio Pinheirinho (Cebasp). O projeto acolherá nesse local 204 venezuelanos, e a metade desse grupo chegará no fim do mês de novembro ou, no máximo, na primeira semana de dezembro. 

Na apresentação do projeto ao clero, a equipe da Cáritas pediu o envolvimento de todos e lembrou que a iniciativa faz parte da campanha da Caritas Internacionalis - “Compartilhe essa viagem, de braços abertos”, que motiva a despertar uma cultura de encontro com os migrantes e refugiados.

Inicialmente, foi solicitada a ajuda das paróquias para a realização de mutirões de limpeza do local com 12 sobrados, que serão casas de acolhidas para o público a ser atendido. As Paróquias Santa Bernadette e Santa Rosa de Lima tomaram a iniciativa nesses mutirões. As paróquias da Região promoverão uma campanha de natal solidário para arrecadar alimentação e kits de higiene destinados aos venezuelanos.

Na língua indígena dos waraos (Venezuela), o nome do projeto, Pana, significa irmão, companheiro, aquele que come do mesmo pão. Os interessados em colaborar podem entrar em contato com a Cáritas Brasileira – Regional São Paulo, pelo telefone (11) 3392-5911.

 

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Cáritas do Paraná acolhe migrantes venezuelanos em Curitiba

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02 de outubro de 2018

No início da noite dessa quinta-feira, 25, chegaram ao Aeroporto Afonso Pena, de Curitiba (PR), um grupo de 91 venezuelanos que buscam, devido à crise em seu país, recomeçar suas vidas no Brasil.

Cáritas Regional Paraná, em parceria com a OIM (Organização Internacional para as Migrações), é a responsável pela acolhida e acompanhamento desses migrantes na Casa de Acolhida Dom Oscar Romero, no bairro Fanny, em Curitiba (PR), onde eles permanecerão por um período de três meses. Tempo em que encontrarão todo o apoio para que possam se integrar na sociedade, aprender a língua, conseguir um emprego e, enfim, terem condições dignas para se integrar na sociedade brasileira e recomeçar suas vidas.

Os Venezuelanos partiram de Roraima (RR) em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), e foram acompanhados por uma representante do Ministério do Desenvolvimento Social e por membros do exército até a casa onde irão residir. Na acolhida estavam presentes os membros da Cáritas, o bispo auxiliar da Arquidiocese de Curitiba (PR) e referencial para as Pastorais Sociais, Dom Francisco Cota de Oliveira, representantes da prefeitura de Curitiba e do governo do Estado e vários voluntários.

Após o lanche, antes de conceder a bênção, Dom Francisco proferiu algumas palavras aos migrantes recém-chegados: “A Cáritas, as Pastorais Sociais e os serviços públicos querem ser para vocês aqui entre nós uma mão estendida. Sei que todos aqui vão buscar fazer um caminho de oportunidades e esperamos que elas venham para todos. A Igreja quer participar desse processo vivendo aquilo que o Papa Francisco nos pede: sendo uma Igreja misericordiosa, uma Igreja que participa do drama de quem está vivendo uma situação de sofrimento e dificuldades, ainda que falte muitos outros recursos, que não falte a solidariedade. Queremos ser para vocês uma Igreja que os acolhe com amor e partilha aquilo que tem”.

Em seguida, Amauri Mosmman, secretário executivo da Cáritas Regional Paraná, apresentou a equipe que irá trabalhar com eles diretamente na casa e os representantes públicos e voluntários presentes.

 

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Brasil e mais 3 países buscam soluções conjuntas para venezuelanos

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29 de agosto de 2018

A preocupação com os imigrantes venezuelanos que buscam apoio nos países vizinhos é tema de reunião em Bogotá, na Dirección de Migraciones colombiana. Embaixadores do Brasil, da Colômbia, do Equador e do Peru se reúnem nesta terça-feira, 28, na tentativa de buscar soluções diante da crise deflagrada a partir do êxodo dos venezuelanos.

O Brasil é representado pelo embaixador em Bogotá, Júlio Bitelli.

Desde ontem, 27, os diplomatas estão reunidos. Segundo a agenda proposta das autoridades da Colômbia, a reunião consiste na apresentação, por cada país, da situação migratória venezuelana.

Em seguida, os representantes dos quatro países detalham as fórmulas encontradas por seus governos para lidar com os desafios e o que julgam prioritário na recepção dos imigrantes.

A Colômbia propõe a consolidação de uma base de dados única sobre os imigrantes venezuelanos com foco em áreas de atuação específicas, como saúde, educação, trabalho e regularização migratória.

Expectativa

A expectativa é de que, ao final do encontro, as autoridades divulguem uma declaração na qual estarão detalhadas as ações definidas.

Na semana passada, o diretor de Migração da Colômbia, Christian Krüger Sarmiento, disse que "o êxodo de cidadãos venezuelanos” não é um problema específico de um ou outro país, é uma questão regional.

Aproximadamente 35 mil pessoas cruzam, a cada dia, a fronteira com a Colômbia, alguns em busca de alimentos e remédios, outros para deixar definitivamente o país. Pelos dados oficiais, pelo menos 1 milhão de venezuelanos se instalaram definitivamente na Colômbia.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 2,3 milhões fugiram do país.

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FAB leva para Manaus, João Pessoa e São Paulo 187 venezuelanos

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28 de agosto de 2018

Cento e oitenta e sete venezuelanos deixaram hoje, 28, a capital de Roraima, Boa Vista, com destino a Manaus (65), João Pessoa (69) e São Paulo (53) em busca de novas oportunidades.

Esse é o primeiro grupo dessa sexta etapa do processo de interiorização dos migrantes que cruzaram a fronteira do país, fugindo da crise político-econômica da Venezuela.

Ao todo, ao longo da semana, serão 278 pessoas transferidas em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). Na próxima quinta-feira, 60 deles serão levados para a cidade paranaense de Goioerê, 25 para o Rio de Janeiro e quatro para Brasília.

Entre abril a julho deste ano, 820 pessoas foram transferidas de Roraima para sete cidades. A maior parte deles (287) foi encaminhada para centros de acolhimento em São Paulo.

A previsão da Casa Civil da Presidência da República, que tem coordenado a ação, é que, somando os meses de agosto e setembro, a interiorização inclua outros mil venezuelanos. De acordo com o órgão, em setembro, cerca de 400 pessoas devem ser transportadas a cada semana.

Alternativa

A transferência para outras cidades acontece de forma voluntária como uma alternativa para os migrantes que estão vivendo em situação de extrema vulnerabilidade.

A partir da manifestação das cidades que disponibilizam espaços para acolher estas pessoas e do perfil desses abrigos, são identificados os que têm interesse em participar do processo.

Todos os venezuelanos que migram para outras cidades recebem vacina e são submetidos a exame de saúde. A situação deles no país também é regularizada e os migrantes passam a ter CPF (Cadastro de Pessoa Física) e carteira de trabalho.

A ação tem sido feita em parceria entre o governo e organismos internacionais ligados às Nações Unidas, como as Agências para Refugiados (Acnur) e para as Migrações (OIM), além do Fundo de População das Nações Unidas (Unfa) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

De acordo com a Casa Civil, ainda antes do embarque dos refugiados, os órgãos envolvidos no processo, as autoridades locais e a coordenação dos abrigos definem estratégias para garantir o atendimento de saúde aos refugiados, a matrícula das crianças em escolas nas cidades, a garantia de um reforço para o ensino da Língua Portuguesa e cursos profissionalizantes.

Outra medida é voltada para o setor privado que têm sido motivado a absorver a mão de obra refugiada.

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Roraima volta a pedir ao STF limite de entrada de venezuelanos

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20 de agosto de 2018

O governo de Roraima voltou a pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão temporária de entrada de imigrantes em território brasileiro para tentar conter o perigo de conflitos e o “eventual derramamento de sangue entre brasileiros e venezuelanos”.

A ação foi protocolada na manhã de hoje, 20, pela Procuradoria-Geral estadual, um dia após os conflitos entre brasileiros e venezuelanos registrados em Pacaraima (RR) motivarem cerca de 1,2 mil estrangeiros a deixar o Brasil às pressas, segundo o Exército.

Na ação cautelar, o governo estadual sugere o estabelecimento de uma “cota para refugiados”. A medida condicionaria o ingresso em território brasileiro à execução de um plano de interiorização dos imigrantes, a ser coordenado pelo governo federal.

Além da cota, o governo estadual também cobra que as autoridades federais estabeleçam barreiras sanitárias na fronteira. A proposta é exigir dos imigrantes a apresentação dos atestados de vacinas obrigatórias a fim de impedir a propagação de doenças sob controle ou já erradicadas no Brasil, como o sarampo.

O pedido reforça a Ação Civil Originária (ACO) 3121, que já pedia o fechamento da fronteira entre Roraima e a Venezuela. No último dia 6, a ministra Rosa Weber, relatora da ação no STF, indeferiu o pedido. Em sua sentença, a ministra apontou que, além de ausência dos pressupostos legais para emissão de liminar, o pedido do governo de Roraima contraria “os fundamentos da Constituição Federal, às leis brasileiras e aos tratados ratificados pelo Brasil”.

Após o conflito do último fim de semana, o governo federal decidiu enviar para Roraima mais 120 agentes da Força Nacional de Segurança Pública para reforçar a vigilância. Segundo o Ministério da Segurança Pública, 60 agentes já embarcaram em Brasília, esta manhã, com destino à Boa Vista, de onde partirão para Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Desde o ano passado, 31 agentes da Força Nacional atuam na cidade em apoio à Polícia Federal.

Além dos agentes da Força Nacional, o governo federal promete enviar, no próximo domingo, 26, 36 voluntários da área da saúde para atendimento aos imigrantes venezuelanos, em parceria com hospitais universitários. Em nota, a Presidência da República disse que governo federal “está comprometido com a proteção da integridade de brasileiros e venezuelanos”, e que o Itamaraty está em contato com as autoridades venezuelanas.

O estopim da mais recente crise ocorreu no sábado, 18, quando moradores da cidade atacaram barracas dos imigrantes venezuelanos, ateando fogo aos pertences dos imigrantes. De acordo com as autoridades locais, não há registro de feridos entre os venezuelanos Os ataques aconteceram depois que um comerciante local foi assaltado e espancado. Há suspeita de que o assalto tenha sido praticado por um grupo de venezuelanos.

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Parceira da ONU, organização Cáritas atende venezuelanos em São Paulo

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17 de agosto de 2018

Centro de Referência para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo (CASP) realizou na última semana o atendimento de cadastro inicial aos venezuelanos que chegaram à capital paulista na quinta etapa do processo de interiorização do governo federal, realizada no fim de 24, julho

Assim como no caso dos demais grupos interiorizados, o atendimento de cadastro inicial teve apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Os venezuelanos se cadastraram para tirar dúvidas sobre documentação e obter informações sobre serviços que o centro de referência oferece às pessoas em situação de refúgio.

A partir do cadastro, a equipe da CASP identifica as necessidades dos recém-chegados para direcioná-los ao setor de assistência, que providencia vagas em albergues e oferece informações sobre como acessar a saúde pública e dar entrada em pedidos para benefícios de assistência social.

Já o setor de integração encaminha os migrantes e solicitantes de refúgio para cursos de português, e os auxilia na elaboração de currículos e na busca de oportunidades de trabalho. Também orienta crianças, jovens e adultos que desejam retomar os estudos no Brasil.

Na Cáritas São Paulo, solicitantes de refúgio e refugiados recebem também acompanhamento da equipe de proteção no que diz respeito aos processos de solicitação de refúgio junto ao Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), além de atuar para que essa população tenha acesso a direitos no país.

Outro programa de atendimento é o de saúde mental, que presta apoio a pessoas que passaram por traumas e/ou têm dificuldades de adaptação no Brasil, como preconceito, falta de oportunidades de emprego e barreiras em relação à língua.

Desde o início de 2018, o Centro de Referência para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo já atendeu 452 venezuelanos e organizou, no início de julho (4), um mutirão de cadastro que efetuou o atendimento de cadastro inicial de cerca de 90 pessoas.

Somente no primeiro semestre deste ano, o número de solicitações de refúgio feitas por venezuelanos no Brasil aumentou de 17.865 para 35.540. Com a contínua chegada de venezuelanos em Roraima, o governo federal desenvolveu o projeto de interiorização, processo voluntário que busca criar melhores condições de integração para aqueles que cruzam a fronteira.

De acordo com a disponibilidade de vagas, solicitantes de refúgio e migrantes que queiram participar do processo são selecionados, passam por exame de saúde, regularizam documentação, são imunizados e transportados às demais cidades de acolhida.

De acordo com dados da Casa Civil, a capital paulista foi a cidade que mais recebeu venezuelanos interiorizados. Do total de 820 pessoas que partiram de Roraima de forma voluntária para outros estados, 287 foram para São Paulo.

O processo é organizado pelo governo federal com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), da Organização Internacional para as Migrações (OIM), do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

A atuação das agências da ONU se dá de forma integrada e com responsabilidades compartilhadas. O ACNUR estabelece o perfil da população registrada nos abrigos e identifica os interessados em participar da estratégia de interiorização. A OIM e o UNFPA atuam na informação prévia ao embarque, garantindo que as pessoas possam tomar uma decisão informada e consentida, sempre de forma voluntária. O UNFPA promove diálogos com as mulheres para que se sintam fortalecidas neste processo.

A OIM ajuda também na organização dos voos e acompanha os venezuelanos participantes do processo, que assinam termo de voluntariedade. O PNUD tem promovido seminários com o setor privado para estimular a inserção de trabalhadoras e trabalhadores venezuelanos no mercado de trabalho brasileiro.

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Venezuelanos com fome atravessam fronteiras

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08 de março de 2018

A atual crise política e socioeconômica da Venezuela, País que faz fronteira com os estados brasileiros de Amazonas e Roraima, tem provocado uma intensa emigração de venezuelanos para os vizinhos Colômbia e Brasil, sobretudo após a falta de acesso a alimentos, produtos de higiene e medicamentos, e a desvalorização da moeda local, unida à inflação crescente no País.

A Venezuela, primeiro país da América Latina a conquistar sua independência, viu o agravamento da crise a partir de 2015, sob a presidência de Nícolas Maduro, do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), sucessor de Hugo Chávez – que esteve à frente do País de 1999 até sua morte, em 2013.

Outros fatores, como a queda dos preços do petróleo – que representa mais de 90% da renda do País –, têm agravado a situação. Estima-se que cerca de 70 mil venezuelanos tenham emigrado para o Brasil, quase 40 mil somente para a Região Norte. Em termos legais, há dois tipos de pedido de entrada: como solicitante de refúgio (pois a situação venezuelana já está no patamar de uma crise humanitária) e por meio da Resolução Normativa 126, que concede residência temporária, pelo prazo de até dois anos, ao estrangeiro que tenha ingressado no território brasileiro por via terrestre e seja nacional de país fronteiriço. 

 

MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS

Em São Paulo, instituições como a Cáritas Arquidiocesana, a Missão Paz São Paulo, a Casa do Migrante e a Missão Scalabriniana dão assistência aos imigrantes que chegam, a maioria por terra, enfrentando dias ou até semanas de viagem. 

“Os relatos dos venezuelanos que procuram a Cáritas são múltiplos e pintam um quadro de generalizada escassez de produtos tanto alimentícios quanto fármacos, decorrente da instabilidade política e do conflito entre partidos oposicionistas e governistas. Como resultado dessa escassez, os venezuelanos não conseguem comprar os produtos que precisam para a sua sobrevivência e muitos passam fome ou sofrem de doenças para as quais o tratamento costuma ser simples e barato. Isso faz com que muitos procurem rotas possíveis, como a de Pacaraima, em Roraima”, disse William da Rosa, Coordenador do Programa de Proteção do Centro de Referência para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. 

Padre Paolo Parise, Diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM), local onde está situada a Missão Paz e a Casa do Migrante, no Centro da Capital Paulista, recordou que, ao falar de migração venezuelana no Brasil, é importante salientar que se trata de um fenômeno que interessa, sobretudo, ao Estado de Roraima. 

“Um estado recente, formado por migrantes internos e que sempre manteve uma relação histórica com a Venezuela. Para se ter uma ideia, nos anos 1980, 7% da população venezuelana era formada por imigrantes, inclusive brasileiros. Hoje, segundo os dados da Polícia Federal, há cerca de 31 mil venezuelanos em Roraima”, explicou o Padre. 

 

REFUGIADOS

O País que mais recebe venezuelanos é a Colômbia, onde o número já chegou a mais de meio milhão; no Chile, são 100 mil e outros países da América Latina têm recebido mais imigrantes do que o Brasil.

Padre Paolo informou que há um crescente número de venezuelanos em São Paulo desde 2014, ano em que a Missão Paz recebeu apenas um imigrante proveniente da Venezuela. Em 2015, foram 12; em 2016, 15, e, durante 2017, 52 venezuelanos passaram pela Instituição. “Este ano, até este momento, foram 23. Porém, não podemos, de maneira alguma, classificar isso como invasão e gerar preocupação e medo na população”, alertou. 

William da Rosa, da Cáritas, explicou também que, devido a um número de solicitações de refúgio superior à capacidade operacional do Governo Brasileiro, o Conare (órgão do Ministério da Justiça responsável pela determinação do status jurídico do refugiado) ainda não enfrentou a atual situação da Venezuela e não fechou um entendimento sobre o assunto. 

“Vale ressaltar que a determinação de status de refugiado no sistema brasileiro ocorre no plano individual. Ainda assim, para dar uma resposta mínima a esse deslocamento, o Conselho Nacional de Imigração (CNIg) editou a Resolução Normativa 126, de março de 2017, com vigência até o dia 2 de março de 2018 e cuja reedição aguardamos. Segundo essa Resolução, cumpridos os requisitos legais, os venezuelanos recebem a residência temporária por dois anos e, assim, têm o direito aos outros documentos como carteira de trabalho e CPF”, continuou William. 

João Carlos Jarochinski Silva, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), recordou que a Resolução foi importante, mas os procedimentos que exige têm um custo alto para o bolso dos venezuelanos, cerca de R$ 130,00, o que corresponde a sete salários mínimos na Venezuela. 

 

RORAIMA

Hector Palomo, 39, é Advogado. Ele saiu da cidade de Tigre, na Venezuela, rumo à Boa Vista (RR) e, após percorrer 1.031 quilômetros, chegou ao Brasil, em dezembro de 2017. Em entrevista à jornalista Osnilda Lima, Coordenadora de Comunicação da Comissão Episcopal para a Amazônia - Rede Eclesial Pan-Amazônica, Hector contou que conseguiu pagar dois meses de aluguel e comprou, com uma pequena reserva em dinheiro que tinha, algumas roupas e pulseiras para revender. Mas, em seguida, não conseguiu pagar o aluguel e passou a morar nas ruas de Boa Vista, quando foi roubado e sua situação piorou. 

“Quando precisei ir morar na rua, eu chorava muito. Mas a esperança e a fé têm me mantido em pé. Sinto angústia, pois não consegui mandar dinheiro para minha família e sei que eles não têm mais o que comer”, disse o Advogado, que durante a entrevista tinha nas mãos um exemplar do Código Penal Brasileiro. 

Ao abrir a pochete, Hector mostrou toda sua documentação, pois já conseguiu regularização como refugiado no Brasil e aguarda o início da interiorização prometida pelo Governo Federal, para buscar oportunidades em outros estados brasileiros. Ele mora no pátio da Paróquia da Consolata, em Boa Vista, junto a outros imigrantes e refugiados, e tem ajudado nas celebrações litúrgicas e a servir as 300 marmitas que a comunidade oferece diariamente. 

“Nós precisamos da ajuda de vocês. Estamos passando fome na Venezuela, as crianças estão morrendo de desnutrição e de várias doenças”, disse, com a voz embargada e esforçando-se para falar o português, idioma que deseja aprender logo, até encontrar emprego, que, segundo ele, não importa qual, desde que seja digno, para conseguir enviar algum dinheiro à família que permanece na Venezuela.

A situação dos abrigos em Roraima é de grande precariedade.  Informações da Rede Eclesial Pan-Amazônica mostram que, além de superlotados, há poucos banheiros para milhares de pessoas e falta comida. 

 

SÃO PAULO E A INTERIORIZAÇÃO

Em fevereiro, o Governo Federal brasileiro apresentou um plano de interiorização que tem como atores a Casa Civil, outros órgãos do Governo e as prefeituras. O objetivo é distribuir os imigrantes venezuelanos por outros estados brasileiros, a princípio para os municípios de Manaus (AM), São Paulo (SP), e, em seguida, Cuiabá (MT). 

“É uma tentativa de tornar o município protagonista, com tudo que ele tem a disposição. Como Missão Paz, fomos consultados por órgãos internacionais e nos colocamos à disposição. Se precisar, podemos acolher aproximadamente 30 ou 40 venezuelanos. Obviamente, precisamos de tempo para nos organizar. Mas, a princípio, será a Prefeitura, por meio da Secretaria de Desenvolvimento, da Assistência Social e da Secretaria de Direitos Humanos, que vai coordenar a chegada desses imigrantes”, explicou Padre Paolo.  

Edinson de Jesús Lujan Barrios, 49, veio da Venezuela para o Brasil no mês de novembro de 2016, após ser contratado por uma multinacional para prestar serviços fora do seu País. Porém, um acidente fez com que Edinson ficasse por três meses sem condições de andar e, consequentemente, sem a vaga de emprego. 

Desempregado e como refugiado no Brasil, o venezuelano, que é formado em Administração e licenciado em Ciências Sociais, com mestrado em Psicologia Social, procurou ajuda na Cáritas Arquidiocesana e foi encaminhado para a Missão Paz, onde ficou por pouco mais de uma semana, quando foi transferido para a Missão Scalabriniana, no Pari. A Missão Scalabriniana é uma das últimas casas de acolhida e serviço aos imigrantes aberta em São Paulo. É mantida pela Congregação das Irmãs de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas – e acolhe cerca de 200 imigrantes, a maioria provenientes de países africanos. 

Atualmente, Edinson é professor e pesquisador na Faculdade Zumbi dos Palmares, onde leciona Espanhol e Inglês. Para ele, pensar na situação atual do seu País de origem é muito triste. “Meu salário na Venezuela seria algo em torno de 800 mil bolívares, o que corresponde a pouco mais de R$ 50,00”, explicou à reportagem do O SÃO PAULO. 

O Professor, que continua morando na Missão Scalabriniana, citou também que o salário mínimo na Venezuela é de 600 mil bolívares – o que corresponde a 5 dólares –, mas um único quilo de carne chega a custar 500 mil bolívares e um rolo de papel higiênico, 300 mil. 

“Tenho um filho, que já emigrou para a Colômbia. Falo com minha família na Venezuela todos os dias e sinto muito pelo meu pai, que está idoso e doente e não tenho conseguido nem mesmo enviar medicamentos para ele. Mas acredito que em breve tudo vai passar, pois conheço meu povo e sei que se trata de um bravo povo latino-americano”, disse Edinson, que pretende continuar no Brasil e agradece aos brasileiros pela ajuda prestada. 

 

SUPERAÇÃO

Ao ser perguntado sobre os gestos xenófobos que podem surgir em relação aos venezuelanos, sobretudo por questões políticas e ideológicas, Padre Paolo Parise disse que, “às vezes, ficamos marcados por frases nas redes sociais de pessoas que se manifestam, até mesmo sem pensar ou infelizmente pensando”. Ele disse, porém, que existe outra São Paulo, outro Brasil, acolhedor. 

“A cidade de São Paulo já manifestou, inúmeras vezes, gestos de solidariedade e de acolhida com migrantes e refugiados. Mas, infelizmente, frases xenófobas fazem mais barulho. Eu diria que estamos prontos para acolher também esses venezuelanos e temos que atuar em todos os níveis para prevenir a xenofobia e ajudar as pessoas a superarem o preconceito. Muitas vezes, dizem para mim que precisamos ajudar os brasileiros e não os estrangeiros. Eu diria que, em lugar da lógica de um ou outro, que tenta excluir alguém, temos que pensar em uma lógica inclusiva e ajudar um e outro”, afirmou o Padre. 

Ele sugere, também, que se evite a criação da falsa sensação de que o Brasil esteja com grandes números de imigrantes. “Alguns utilizam o termo invasão, mas isso não corresponde à realidade”, acrescentou. “E, para os que se dizem cristãos, há uma razão religiosa, ou seja, quando encontramos um imigrante ou um refugiado, está presente o próprio Cristo”, insistiu Padre Parise, recordando o capítulo 25 do Evangelho de Mateus. 

 

PELA FÉ

Em uma mensagem publicada em dezembro de 2016, a Santa Sé, em Roma, manifestou preocupação acerca da crise na República Bolivariana da Venezuela. A nota informou que o Santo Padre, diretamente e por meio da Secretaria de Estado, acompanha de perto a situação e suas implicações humanitárias, sociais, políticas, econômicas e, inclusive, espirituais. “A Santa Sé pede a todos os atores políticos, e em particular ao Governo, que se assegure o pleno respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, como também à vigente Constituição. Evitem ou suspendam as iniciativas em curso como a nova Constituinte que, mais do que favorecer a reconciliação e a paz, fomentam um clima de tensão e enfrentamento e hipotecam o futuro.” 

A Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), publicou uma Carta Aberta à Sociedade na segunda-feira, 5. Na Carta, a Comissão informa sobre as visitas que foram realizadas na fronteira Brasil/Venezuela. “Essas atividades nos colocaram em contato com uma realidade cruel e desumana, que grita por respostas rápidas, eficazes e articuladas das igrejas, do Estado e da sociedade em geral”, afirma o texto. “Em nome da CEPEETH, fazemos um veemente apelo às igrejas e à sociedade a uma maior solicitude para com estes nossos irmãos e irmãs imigrantes e refugiados”, continua a Carta, assinada por Dom Enemésio Lazzaris, Bispo de Balsas (MA) e Presidente da Comissão.
 

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