‘O lugar do cristão é nas mãos de Deus’

Por
07 de novembro de 2019

Pela primeira vez em uma catacumba, o Papa Francisco presidiu a missa do Dia de Finados e destacou três palavras-chave para a vida de todo cristão: identidade, lugar e esperança. “O lugar do cristão é nas mãos de Deus, onde Ele quer”, disse o Santo Padre, na celebração do sábado, 2.
A cerimônia foi nas Catacumbas de Priscila, em Roma, com irmãs beneditinas e alguns convidados. Após a missa, Francisco visitou as catacumbas e parou por alguns minutos diante de uma imagem de Nossa Senhora, do terceiro século. Em seguida, voltou ao Vaticano e rezou junto aos túmulos dos pontífices que já morreram.

Identidade
Nas palavras do Papa, o que define todo cristão, independentemente a que grupo pertença, são as beatitudes, ou bem-aventuranças. O ensinamento está no Evangelho segundo São Mateus (5,1-12), bem como no Evangelho segundo São Lucas (6,20-49). As narrações traçam qual é o perfil do seguidor de Jesus Cristo: pobre em espírito, manso, aflito, tem fome e sede de justiça, misericordioso, puro de coração, promotor da paz e perseguido por causa da justiça.
Essa mesma identidade buscavam os primeiros cristãos, diz o Papa, e, também, os de hoje. “Se você segue isso [as bem-aventuranças], você é cristão”, afirmou. Mesmo que pertença a um ou outro movimento ou associação, “a sua carteira de identidade é essa [o Evangelho], e se você não tem isso, não serve para nada os movimentos ou os pertencimentos. Ou você vive assim, ou não é cristão.”
As “bem-aventuranças” são, nas palavras do Papa Francisco, “o grande protocolo” do cristão. “Sem isso, não há identidade, mas só a ficção de ser cristãos”, acrescentou.

Lugar
As catacumbas são antigos cemitérios subterrâneos onde os primeiros cristãos de Roma sepultavam seus mortos e se reuniam para rezar, às vezes de forma escondida, em períodos de perseguição. O Papa Francisco associou essa situação dos primeiros cristãos à de tantos outros que, ainda hoje, precisam esconder sua identidade e rezar de forma escondida por causa da perseguição.
“O lugar do cristão é um pouco em todos os lugares, nós não temos um lugar privilegiado na vida”, lembrou, ainda que alguns queiram se autoproclamar “cristãos qualificados”. Na verdade, continuou o Papa na homilia, “o lugar do cristão é nas mãos de Deus”.
Essas mãos são aquelas com chagas, “as mãos de seu Filho que quis levar consigo as chagas para mostrar o Pai e interceder por nós”. Por isso, o lugar do cristão é junto de Jesus, diante do Pai. “Nas mãos de Deus, estamos seguros, aconteça o que acontecer, até mesmo a cruz.”

Esperança
Homens e mulheres de esperança os cristãos se tornam ao se colocar nas mãos de Deus, afirmou Francisco. A vida eterna é “aquela Pátria aonde todos iremos” e, para chegar ali, não são necessários comportamentos sofisticados, mas somente mostrar a “carteira de identidade”.
“Nossa esperança está no Céu, a nossa esperança está ancorada ali, com a corda na mão, sustentamo-nos olhando aquela margem de rio que devemos atravessar”, comentou. A esperança, o futuro está lá, do outro lado do rio, mas estamos “bem presos à corda”. 
“Isso é importante: sempre agarrados à corda. Tantas vezes, veremos somente a corda, ou nem sequer a corda, ou tampouco a outra margem. Mas você, agarrado à corda, chegará seguro”, disse o Papa Francisco.

Comente

Documento final: conversão integral, pastoral, ecológica e sinodal

Por
31 de outubro de 2019

Conversão, missionariedade, defesa da vida e da criação são as palavras-chave do Documento Final da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, aprovado e divulgado no sábado, 26. 
No texto, que não é deliberativo, mas apenas consultivo, os padres sinodais fazem um diagnóstico sobre a realidade dos povos amazônicos e apresentam ao Papa sugestões para a ação evangelizadora da Igreja nessa região. 
O jornal O SÃO PAULO apresenta a seguir uma síntese dos principais assuntos do documento: 

CAPÍTULO I
Conversão integral

O texto ressalta a beleza da vida na Amazônia, que hoje é “ferida e deformada” pela dor e violência. Dentre as ameaças elencadas, estão: apropriação e privatização dos bens da natureza; modelos predatórios de produção; desmatamento; poluição das indústrias extrativistas; mudanças climáticas; narcotráfico; alcoolismo; tráfico de seres humanos; a criminalização de líderes e defensores do território; grupos armados ilegais. 
Migração – O crescente fenômeno migratório também está presente no texto, que indica três níveis: mobilidade de grupos indígenas em territórios de circulação tradicional; deslocamento forçado de populações indígenas; migração internacional e refugiados.
Os bispos reforçam que é necessário um cuidado pastoral nas regiões de fronteira, voltado para os migrantes e vítimas do tráfico humano. Em relação ao deslocamento forçado de famílias indígenas para os centros urbanos, sugere-se a criação de equipes missionárias que favoreçam a integração dessas comunidades nas cidades.

CAPÍTULO II
Conversão pastoral

Enfatizando a natureza missionária da Igreja, o documento recorda que a comunidade eclesial deve ser “samaritana”, indo ao encontro de todos; “Madalena”, amada e reconciliada para anunciar com alegria o Cristo ressuscitado; e “Mariana”, geradora de filhos para a fé entre os povos a que serve.
A assembleia sinodal não deixa de mencionar os muitos missionários que deram a vida para anunciar o Evangelho na Amazônia e sugere que as congregações religiosas do mundo estabeleçam pelo menos um posto missionário em um dos países da Amazônia. 
Ecumenismo – O documento considera o diálogo ecumênico e inter-religioso como “caminho indispensável da evangelização na Amazônia”. Reconhece que “as relações entre católicos e pentecostais, carismáticos e evangélicos não são fáceis” na região. “O fato de que alguns fiéis católicos se sintam atraídos por essas comunidades é motivo de atrito, mas pode converter-se, da nossa parte, em um motivo de exame pessoal e renovação pastoral”, aponta-se no texto. 
No âmbito inter-religioso, o documento incentiva um maior conhecimento das tradições religiosas dos povos locais, a fim de que cristãos e não cristãos possam agir juntos em defesa da “casa comum”. 
Indígenas e jovens – O documento também recorda a urgência de uma pastoral indígena que tenha um lugar específico na Igreja, especialmente para os jovens, imersos em uma crise de valores, vítimas da pobreza, violência, desemprego, novas formas de escravidão e dificuldade de acesso à educação. Muitos desses, alertam os bispos, acabam na prisão ou até no suicídio.
O texto conclusivo do Sínodo também se dedica ao tema da pastoral urbana, com um foco particular nas famílias, que, sobretudo nas periferias, sofrem com a pobreza, desemprego, falta de moradia e problemas de saúde. 

CAPÍTULO III
Conversão cultural

Para os padres sinodais, inculturação e interculturalidade são instrumentos importantes para alcançar uma conversão cultural que leva o cristão a ir ao encontro do outro e aprender com ele. 
Na perspectiva da inculturação, é dado espaço à piedade popular, cujas expressões devem ser valorizadas, acompanhadas, promovidas e, às vezes, “purificadas”, pois são momentos privilegiados de evangelização que devem conduzir ao encontro com Cristo.
O documento propõe que os centros de pesquisa da Igreja estudem e recolham as tradições, as línguas, as crenças e as aspirações dos povos indígenas, encorajando o trabalho educativo a partir da sua própria identidade e cultura.

CAPÍTULO IV
Conversão ecológica

A expressão conversão ecológica teve grande destaque neste Sínodo, que indica a ecologia integral, apontada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’, como o único caminho possível para a Amazônia. A esperança é que, reconhecendo “as feridas causadas pelo ser humano” ao território, sejam procurados “modelos de desenvolvimento justo e solidário”.  
O documento reafirma o empenho da Igreja em defender a vida “desde a concepção até o seu fim” e em promover o diálogo intercultural e ecumênico para conter as estruturas de morte, pecado, violência e injustiça. 
Os padres sinodais propõem a definição de “pecado ecológico” como “ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade, o meio ambiente”, as futuras gerações e a virtude da justiça.

CAPÍTULO V
Conversão sinodal     

Superar o clericalismo e as imposições arbitrárias, reforçar uma cultura do diálogo, da escuta e do discernimento espiritual e responder aos desafios pastorais são características apontadas pelo documento para definir a conversão sinodal à qual a Igreja é chamada na Amazônia.
Ministérios – Incentiva-se maior participação dos leigos na vida e missão da Igreja, que deve ser reforçada e ampliada a partir da promoção e concessão de ministérios leigos a homens e mulheres. Pedem, inclusive, que se estude a concessão do leitorato e do acolitato a mulheres, ministérios que até o momento só são concedidos a homens leigos. 
O Sínodo aposta, ainda, em uma vida consagrada com rosto amazônico, a partir de um reforço das vocações 
autóctones. 
Foram definidos como urgentes a promoção, formação e apoio aos diáconos permanentes, salientando importância de insistir em uma formação contínua, marcada pelo estudo acadêmico e prática pastoral, na qual sejam envolvidos também esposas e filhos do candidato.
O documento relata que em inúmeras consultas foi solicitado “o diaconato permanente para as mulheres”. O desejo dos padres sinodais é que sejam compartilhadas as experiências e reflexões emergidas até agora com a “Comissão de estudo sobre o diaconato das mulheres”, criada pelo Papa Francisco em 2016, para “aguardar seus resultados”.
Eucaristia e sacerdócio – Ao refletirem sobre a centralidade da Eucaristia à vida cristã, os padres sinodais ressaltaram a dificuldade de algumas comunidades terem acesso a este sacramento, assim como à Reconciliação e à Unção dos Enfermos, devido à falta de sacerdotes. 
Reforçando o apreço pelo celibato como dom de Deus e renovando a oração “para que haja muitas vocações” celibatárias, o documento final propõe “estabelecer critérios e regras por parte da autoridade competente, para ordenar sacerdotes homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, permitindo ter uma família legitimamente constituída e estável”. O documento reitera, contudo, que, a esse propósito, “alguns se expressaram a favor de uma abordagem universal ao argumento”.
Rito amazônico – O Sínodo também pede a constituição de uma comissão competente para estudar a elaboração de um rito amazônico, que se acrescentaria aos 23 ritos já existentes na Igreja Católica. De igual modo, expressa a urgência de formar comitês para a tradução e a elaboração de textos bíblicos e litúrgicos nas línguas dos diferentes locais, “preservando a matéria dos sacramentos e adaptando-os à forma, sem perder de vista o essencial”. 

(Com informações de Vatican News)

Comente

Olhar para os outros como irmãos e rejeitar a religião do ‘eu’

Por
30 de outubro de 2019

Na conclusão da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, o Papa Francisco refletiu sobre a parábola do fariseu e do publicano, recordando que a oração deve vir do coração para agradar a Deus. No domingo, 27, ele também alertou para o risco de que alguém olhe para os outros como “inferiores e descartáveis”, pensando ser superior e mais santo do que as pessoas ao seu redor.
Conforme o relato bíblico no Evangelho segundo São Lucas, enquanto o fariseu dizia em sua oração “Agradeço-te, ó Deus, porque não sou como os outros homens”, o publicano, ao contrário, fala mais de suas fraquezas e pede a ajuda de Deus. A religião do fariseu, comenta o Papa, é a “religião do eu”, enquanto o publicano faz uma oração que sai do coração e, por isso, é a mais verdadeira.

O CASO DO FARISEU
“[O fariseu] conta vantagem porque cumpre da melhor forma alguns preceitos especiais. Mas esquece o principal: amar a Deus e ao próximo”, disse o Santo Padre, na homilia. “Ele está centrado só sobre si mesmo. O drama desse homem é que está sem amor. Mas até mesmo as coisas melhores, sem amor, não levam a nada”, acrescentou.
Ao final, o fariseu somente faz um elogio a si mesmo, contente com seu próprio mérito. “Ele está no tempo de Deus, mas pratica outra religião, a religião do eu. E tantos grupos ‘ilustres’, ‘cristãos católicos’ [de hoje], vão pela mesma estrada”, alertou.
Além de se esquecer de colocar Deus no centro de sua oração, o fariseu acaba se esquecendo de amar os outros, e, pior ainda, os despreza. “Para ele, o próximo não tem valor. Ele se considera melhor do que os outros”, observa Francisco.

A ORAÇÃO DO PUBLICANO
Nas palavras do Papa Francisco, a oração do publicano ajuda a compreender o que é agradável a Deus. Embora os publicanos fossem coletores de impostos, e, portanto, detestados pelas outras pessoas, esse personagem bíblico não fala só de seus próprios méritos, mas se apresenta de forma humilde. Ele se sente em uma “pobreza de vida”, ainda que fosse rico.
“Aquele homem que se aproveita dos outros se reconhece pobre diante de Deus e o Senhor escuta a sua oração, feita somente de sete palavras, mas de comportamentos verdadeiros”, afirma o Papa. “Ele bate no peito, porque no peito está o coração. Sua oração nasce precisamente do coração, é transparente, coloca diante de Deus o coração, não as aparências.”
Da mesma forma, hoje vivemos um momento histórico em que muitos se dizem cristãos, mas se comportam mais como os fariseus, segundo Francisco. Mas, na verdade, “encontramos em todos nós” ambos os personagens. “Somos um pouco publicanos, porque pecadores, e um pouco fariseus, porque presunçosos.”
A saída, portanto, é pedir a graça de Deus para “sentir-se necessitado de misericórdia, pobres por dentro”, e recordar que só assim será possível chegar mais perto de Deus, pois “o grito dos pobres é o grito de esperança da Igreja”, declarou.

Comente

Vaticano desmente que políticos latino-americanos tenham contas no IOR

Por
23 de outubro de 2019

O Vatican News divulgou novamente, nesta quarta-feira, 23, o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, publicado em 11 de janeiro, que desmente falsas notícias sobre a existência de contas bancárias atribuídas a presidentes e ex-presidentes de países latino-americanos no Instituto para as Obras de Religião (IOR), mais conhecido como o “Banco do Vaticano”.  

Na ocasião, o então diretor interino da Sala de Imprensa, Alessandro Gisotti, atestou a falsidade das informações publicadas pelo jornal El Expediente, em reportagem de 9 de janeiro. O artigo dizia que no IOR havia contas atribuídas ao ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner, o ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos, o ex-presidente do Brasil Luis Inácio Lula da Silva, o ex-presidente da Bolívia Evo Morales, o ex-presidente euatoriano Rafael Correa, o ex-presidente cubano Raúl Castro, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

 “Depois de verificar com as autoridades competentes, posso afirmar que nenhuma das pessoas mencionadas no artigo de El Expediente jamais teve uma conta bancária no IOR, nem a possui atualmente, nem possui assinaturas de delegados em nome de terceiros, nem teria – devido às novas normas adotadas pelo Instituto – algum título para realizar alguma operação”, informou Gisotti.

Essa fake news voltou a viralizar nas redes sociais no Brasil nos últimos dias, em função da entrevista de um “suposto diácono” argentino, de posse dos mesmos documentos apresentados pela divulgados pela anterior. “Os documentos apresentados como evidência são falsos. O IOR se reserva o direito de tomar medidas legais”, afirmou o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé.

 

Comente

O SÃO PAULO recorda o retorno da imagem restaurada à Aparecida

Por
17 de outubro de 2019

Nesta quinta-feira, 17, a série “#TBT O SÃO PAULO” recorda mais uma edição histórica do semanário da Arquidiocese de São Paulo. A edição 1.171, publicada em 19 de Agosto de 1978, destacou o retorno da imagem de Nossa Senhora Aparecida para Básica Velha, após sofrer um atentado em maio daquele ano e ser restaurada no Museu de Arte de São Paulo. Confira um trecho daquela edição:

“A imagem de Nossa Senhora Aparecida chegou ao Museu de Arte de São Paulo (MASP) no dia 28 de junho, numa caixa formada de algodão e fragmentada em 175 pedaços. Pouco a pouco, num trabalho feito pacientemente e que tomou o tempo dos restauradores durante mais de um mês, inclusive aos sábados e domingos. A obra foi concluída no dia 31 de Julho passado. Apenas um pedaço da face direita da imagem e um outro, do manto direito, precisaram moldados por falta do fragmento original.”

UM NOVO PAPA

A manchete principal da capa trazia como título: “Dia 25 começa nascer um novo Papa”. A notícia se refere ao início de um Conclave, no Vaticano, que elegeria o Papa João Paulo I, após a morte de São Paulo VI. A matéria destaca que a escolha de um Papa precisa ser vista como olhos da fé, pois o acontecimento não pode ser colocado apenas com o olhar humano. Confira um trecho da manchete:

“No dia 25, quando se fecharem as portas da Capela Sixtina, no Vaticano, um novo Papa começaram a nascer, eleito pelos 111 cardeais que la estarão presentes. Veja na página 10 quem são os cardeais que escolherão o novo Papa.”

LEIA TAMBÉM

O restauro da imagem e de uma vida de fé

 

Comente

Ir ao encontro dos outros em vez de atacá-los

Por
15 de outubro de 2019

Em sua tradicional audiência das quartas-feiras, o Papa Francisco afirmou que os cristãos devem ir ao encontro dos outros, pessoas que são diferentes, em vez de atacá-los. Recordando a história de São Paulo antes de sua conversão, quando ainda se chamava Saulo, ele disse na manhã do dia 9 de outubro: “A condição de raiva e conflitual de Saulo convida cada um a se perguntar ‘como vivo a minha vida de fé’?”

Saulo era intransigente e perseguia os cristãos. Manifestava intolerância contra aqueles que pensavam diferente dele, “absolutizava a própria identidade política ou religiosa e reduzia o outro a potencial inimigo a combater”. Em outras palavras, era um “ideólogo”, aponta Francisco, e não uma pessoa religiosa. A religião foi instrumentalizada pela ideologia.

Como vivo a minha fé?

Por isso, devemos nos perguntar: “Vou ao encontro dos outros ou sou contra os outros? Pertenço à Igreja universal – bons, maus, todos – ou tenho uma ideologia seletiva? Adoro a Deus ou adoro fórmulas dogmáticas? Como é a minha vida religiosa? A fé em Deus que professo me torna amigável ou hostil em relação a quem é diferente de mim?”

Quem permitiu a transformação de Saulo foi o próprio Jesus Cristo. Sua voz mandou que ele se levantasse, no episódio da conversão, quando Saulo ficou cego e caiu em uma estrada. Mas foi o Cristo Ressuscitado que permitiu sua passagem “da morta à vida”, e se tornasse Paulo, um dos apóstolos mais importantes e grande anunciador do Evangelho.

“Peçamos ao Pai que faça experimentar também em nós, como em Saulo, o impacto do seu amor que só pode fazer de um coração de pedra um coração de carne, capaz de acolher em si os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”, refletiu o Papa Francisco.

Comente

Papa Francisco: 'O verdadeiro comunicador se entrega, não se poupa'

Por
23 de setembro de 2019

Comunicar o amor com o corpo e alma, dando tudo de si, foram as palavras que o Papa Francisco dirigiu aos membros do Dicastério para a Comunicação, nesta segunda-feira, 23, em audiência realizada na Sala Regia, no Vaticano, na presença de inúmeros funcionários.

COMUNICAÇÃO CRISTÃ

“Comunica-se com a alma e com o corpo, comunica-se com a mente, com o coração, com as mãos; comunica-se com tudo. O verdadeiro comunicador se entrega, não se poupa. É verdade que a comunicação maior é o Amor, quando no amor se vê que há a plenitude da comunicação: amor a Deus e nosso.”, reforçou o Pontifice.

Todavia, o Papa advertiu que comunicar não é fazer propaganda. “Gostaria que a nossa comunicação fosse cristã” e não feita de proselitismo, afirmou, recordando o que dizia o Papa Emérito Bento XVI.

“Se quiserem comunicar uma verdade ‘mais ou menos’, mas sem se envolver, sem testemunhar com a própria vida, com a própria carne aquela verdade, parem, não o façam. Há sempre a assinatura do testemunho em cada coisa que fazemos. Testemunhas: cristãos quer dizer testemunhas. Mártires. Esta é a dimensão do martírio da nossa vocação: ser testemunhas”, acrescentou o Santo Padre.

COMUNIQUEM COM ALEGRIA

O Pontífice finalizou repetindo o uso de adjetivos e advérbios, em detrimento do substantivo – costume ao qual o Papa disse sentir “alergia”.

“O comunicador deve fazer entender o peso da realidade dos substantivos que refletem a realidade das pessoas. E esta é uma missão do comunicar: comunicar com a realidade, sem edulcorar com os adjetivos e os advérbios”, enfatizou o Pontífice, motivando os comunicadores a passarem “da cultura do adjetivo à teologia do substantivo” e a comunicarem o Evangelho com alegria.

INSTRUMENTOS DA VERDADE

Na saudação ao Santo Padre, em nome de todos os presentes, o Prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, agradeceu Francisco pelo encontro com os participantes da plenária.

Falando sobre o Dicastério, Ruffini recordou que o mesmo é “uma única grande comunidade ao redor do Papa” formada por cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos. “O que une todos é a vontade de levar a palavra do Papa ao mundo, de olhar os homens e as coisas com os olhos do Evangelho e torná-las visíveis através do rádio, web, jornal, redes sociais e de todos os instrumentos de difusão”, destacou.

O Prefeito salientou, ainda, que todos os dias se deparam com a dificuldade de estar à altura da tarefa que lhes foi confiada. “A distância entre o que somos e que gostaríamos de ser. Experimentamos a tristeza pelo que não conseguimos realizar. Mas também e sobretudo a beleza do ser, com as nossas imperfeições, os nossos erros, a nossa pequenez, testemunhas e instrumentos da verdade, que contamos através das nossas fotos, nossos vídeos, nossos artigos, nossas vozes”, concluiu.

O DICASTÉRIO

O Dicastério para a Comunicação foi criado em 27 de junho de 2015, ainda com o nome de Secretaria para a Comunicação, por meio de uma Carta Apostólica na forma de Motu Proprio, integrando os organismos da Cúria Romana que até então existiam: Pontifício Conselho das Comunicações Sociais; Sala de Imprensa da Santa Sé; Serviço Internet Vaticano; Rádio Vaticano; Centro Televisivo Vaticano; L’Osservatore Romano; Tipografia Vaticana; Serviço Fotográfico; Livraria Editora Vaticana.

A reformulação da comunicação vaticana aconteceu dentro do processo de reforma da Cúria Romana iniciado por Francisco. “O atual contexto comunicativo, caracterizado pela presença e pelo desenvolvimento das mídias digitais, pelos fatores da convergência e da interatividade, requer uma reformulação do sistema informativo da Santa Sé e uma reorganização que proceda decididamente rumo a uma integração e gestão unitária”, diz o Motu Proprio.

Ainda dentro do processo de reformulação da Cúria, em 23 de junho de 2018, o Santo Padre alterou o nome do organismo de Secretaria para Dicastério para a Comunicação.

(Colaborou Flávio Fogério Lopes)

Comente

Papa exorta novos bispos à proximidade com Deus e com o povo

Por
12 de setembro de 2019

O Papa Francisco recebeu na manhã desta quinta-feira, 12, no Vaticano, os bispos de recente nomeação participantes do curso anual promovido pelo pelas congregações para os Bispos e para as Igrejas Orientais, entre os dias 4 e 12.

Dos 13 prelados brasileiros participantes estavam Dom José Benedito Cardoso, Bispo Auxiliar de São Paulo nomeado em 23 de janeiro, e o Monsenhor Jorge Pierozan, nomeado Bispo Auxiliar de São Paulo em 24 de julho.

PRÓXIMOS DE DEUS E DO POVO

Em seu discurso, o Santo Padre destacou a palavra “proximidade” como atitude essencial para os bispos.

Francisco explicou que proximidade a Deus é a fonte do ministério do Bispo. Para isso, o Bispo deve cultivar a intimidade com Cristo diariamente na oração. “Somente estando com Jesus somos preservados da presunção pelagiana de que o bem deriva da nossa capacidade”, afirmou o Pontífice.

O Papa também ressaltou a proximidade do bispo com o seu povo. Ele advertiu que a proximidade ao povo não é uma estratégia oportunista, mas a condição essencial do ministro ordenado. “Não é uma obrigação externa, mas uma exigência interna à lógica do dom”, continuou.

DISPONIBILIDADE

Ainda de acordo com Francisco, a proximidade do Bispo, não é retórica, não é feita de anúncios autorreferenciais, mas de disponibilidade real. É preciso deixar-se surpreender e aprender verbos concretos, como ver, cuidar e curar. É colocar-se em jogo e sujar as mãos.

“Por favor, não deixem que prevaleçam os temores pelos riscos do ministério, retraindo-se e mantendo as distâncias”, pediu o Bispo de Roma.

SIMPLICIDADE

O Santo Padre exortou os bispos a levarem uma vida simples testemunhando que Jesus basta em suas vidas. Ele afirmou que são necessários bispos capazes de sentir o palpitar de suas comunidades e de seus sacerdotes, que não se contentem de presenças formais, mas que sejam “apóstolos da escuta”. “Por favor, não se circundem de bajuladores”, recomendou.

Por fim, o Papa encorajou as visitas pastorais regulares e uma proximidade especial aos sacerdotes. “Também eles estão expostos às intempéries de um mundo que, mesmo cansado das trevas, não poupa hostilidade à luz. Eles precisam ser amados, seguidos e encorajados.”

 

Comente

O que esperar da viagem do Papa à África?

Por
16 de outubro de 2019

Três países numa só viagem. O Papa Francisco voltará ao continente africano em sua viagem apostólica a Moçambique, Madagascar e Ilhas Maurício entre 4 e 10 de setembro.


É a quarta vez que ele pisa na África como Papa. A primeira foi em novembro de 2015, quando visitou o Quênia, Uganda e a República Centro-Africana, onde abriu o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. A segunda foi em abril de 2017, quando esteve no Egito. E, em maio deste ano, Francisco foi ao Marrocos – País onde também prevalece a cultura árabe, mas que, como o Egito, fica no norte da África.


Portanto, pode-se dizer que esta será a segunda ida do Papa à África chamada “subsaariana”, a região que está ao sul do deserto do Saara. Mas o que esperar desta viagem apostólica, que é a 31ª do Papa Francisco?

Peregrino da paz


Como sempre, o Papa Francisco viaja como peregrino da paz. Vários povos africanos enfrentam dificuldades, tanto do ponto de vista da pobreza e dos problemas sociais quanto dos conflitos étnicos e políticos.


Moçambique acaba de sair de um longo período de conflitos armados, no qual os rebeldes da milícia (e partido político) chamada Renamo lutavam contra o governo. A disputa pelo poder ainda estava relacionada com a sangrenta guerra civil do País, que terminou em 1994.


Após 16 anos de conflitos e mortes, um acordo de paz foi firmado em 1992, mas os confrontos recomeçaram diversas vezes até 1994; e, mais recentemente, em 2013, entre governo e oposição. Depois de muita negociação, no início de agosto deste ano, foi assinado um novo acordo de paz.


O atual presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, reuniu-se com o líder da Renamo, Ossufo Momade, e, finalmente alcançaram o cessar-fogo. O acordo pediu o desarmamento imediato e a reintegração de mais de 5 mil rebeldes na sociedade – segundo a agência de notícias Associated Press. O País realizará eleições em 15 de outubro deste ano, e Momade afirmou que participará do pleito de forma pacífica. Entretanto, poucos rebeldes realmente entregaram suas armas, o que deixa o acordo enfraquecido.


“Estamos em um momento de trégua”, lembrou o Padre Bernardo Suate, responsável pela seção Portuguesa da Rádio Vaticano/Vatican News, em conversa com jornalistas em Roma. “Esperamos que a chegada do Papa Francisco possa ser uma ocasião para estabelecer no País uma paz efetiva, sólida e duradoura”, disse, conforme relatou à agência italiana SIR, em 14 de junho.


A chegada do Papa ao País, acrescentou, é como “um bálsamo para as nossas feridas”. Moçambique também enfrenta ameaças isoladas e grupos terroristas islâmicos, o que agrava uma situação já delicada. “Em meio a tantos problemas, desafios e guerras, o povo de Deus perseverou na fé. Definimo-nos como uma Igreja das pequenas comunidades, uma Igreja-família”, declarou o Padre.

Novos ares na região


Vale lembrar que Moçambique, assim como Zimbábue e Malawi, acabou de passar pelo duro impacto de um ciclone, o Idai, que atingiu a região em março deste ano. Mais de 1,3 mil pessoas morreram e outras centenas de milhares perderam suas casas.


A visita do Papa, portanto, busca levar conforto a essa região. Em entrevista à revista norte-americana America Magazine, o Padre jesuíta Agbonkhianmeghe Orobator, que é Presidente da Conferência dos Superiores Gerais da África e de Madagascar, explicou que o Papa levará “novos ares” ao continente que tem 54 países e 1,3 bilhão de pessoas, que correspondem a 17% da população mundial.


“Pense no ciclone Idai e suas consequências devastadoras ou nas múltiplas tragédias que o povo Malagasy teve de sofrer recentemente. E as incertezas políticas nas Ilhas Maurício”, afirmou o Padre ao vaticanista irlandês Gerard O’Connell. 


O povo Malagasy é nativo de Madagascar, a quarta maior ilha do mundo. O País vem necessitando de ajuda humanitária frequente por causa da má distribuição de renda e de duras secas.


Cerca de 80% da população de Madagascar, que tem um total de 24 milhões de habitantes, está envolvida na agricultura. Contraditoriamente, quase metade de toda a população do País se encontra em situação de insegurança alimentar, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Esperança entre os líderes


Já as Ilhas Maurício têm 1,3 milhão de habitantes e são muito vulneráveis a eventos climáticos, como ciclones e enchentes. O País conseguiu atingir um nível econômico médio, mas enfrenta, cada vez mais, um aumento da desigualdade social.


Com um sistema parlamentarista de vários partidos, o País tem dificuldades de manter um governo estável. Diferentes coalizões vêm se intercalando no poder, em meio a escândalos financeiros e disputas internas.


De acordo com o Padre Agbonkhianmeghe, o Papa Francisco leva esperança a uma região do mundo onde faltam líderes capazes de entusiasmar o povo. O Sacerdote afirma, na entrevista à revista americana, que “tudo o que vai mal na África pode remeter ao seu déficit de liderança – seja a corrupção, a violência, a pobreza, o desemprego, a migração ou a desfuncionalidade política”.


“Nossos líderes têm muito a aprender do estilo de liderança pastoral do Papa Francisco”, disse à America Magazine. “A África é abençoada com uma abundância de recursos humanos, naturais e materiais. As pessoas são o maior ativo do continente.”

Principais momentos


Conforme a programação da viagem divulgada pelo Vaticano, o Papa partirá para a capital de Moçambique, Maputo, na tarde da quarta-feira, 4 de setembro. Além de se encontrar com autoridades civis e religiosas do País, ele terá um encontro inter-religioso com jovens moçambicanos na quinta-feira, 5 de setembro. Visitará, também, obras sociais e um hospital.


O Pontífice chegará a Antananarivo, capital de Madagascar, na manhã do sábado, 7 de setembro. Novamente vai se reunir com autoridades civis, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas do País. E, de novo, terá um encontro com jovens, sinalizando grande atenção à “Igreja jovem” da região africana e das ilhas vizinhas.


O Santo Padre visitará, ainda, o túmulo da Beata Victoire Rasoamanarivo, uma mulher leiga de Madagascar que dedicou sua vida aos mais necessitados. Também em Antananarivo, o Papa terá um encontro com trabalhadores e visitará uma obra social. A missa na manhã do domingo, 8 de setembro, será no “Campo Diocesano”.


Francisco chegará às Ilhas Maurício na segunda-feira, 9 de setembro, na capital, Port Louis. A visita ali será breve: ele só terá tempo para se encontrar com os bispos e as autoridades civis, mas uma missa pública será celebrada no “Monumento de Maria”. O retorno a Roma é previsto para a terça-feira, dia 10.

Comente

Unir forças contra a chaga dos abusos

Por
27 de fevereiro de 2019

Responsabilidade, prestação de contas e transparência. Estes são os três pilares que devem nortear a ação da Igreja diante da chaga dos abusos sexuais contra menores e vulneráveis perpetrados por membros do clero. Um problema com o qual todos nós preferíamos não ter de lidar – igrejas, escolas, clubes, famílias, jornalistas –, mas que, a pedido do Papa Francisco, foi objeto de profunda reflexão entre 21 e 24 de fevereiro, no Vaticano.

O encontro intitulado “A proteção de menores na Igreja” reuniu 190 participantes, entre eles 112 bispos presidentes de conferências episcopais, além de especialistas e superiores religiosos e religiosas. O objetivo era claro: reconhecer o problema e encontrar meios para enfrentá-lo, com abertura e coragem, de forma conjunta e concreta. O evento também teve uma comovente liturgia penitencial, na qual pediram perdão pelos próprios pecados e por aqueles cometidos por outros membros da Igreja.

Uma série de fortes testemunhos de vítimas reforçou o caráter humano e urgente do tema. “Não podemos ignorar a voz das vítimas”, disse o Arcebispo de Malta, Dom Charles Scicluna, um dos principais organizadores. “Sem ouvir as narrativas das vítimas, você jamais compreenderá a gravidade do problema”, acrescentou. “Nossa falta de respostas ao sofrimento das vítimas, a ponto de rejeitá-las e acobertar o escândalo para proteger os abusadores e a instituição, dilacerou o nosso povo, deixando uma ferida profunda na nossa relação com aqueles a quem somos enviados para servir”, completou.

 

DA REAÇÃO Á AÇÃO

Também para o Papa, as vítimas são uma manifestação do Cristo crucificado. Para passar a uma postura proativa – em vez de reativa – participantes do encontro manifestaram ser essencial priorizar as vítimas, acolhendo-as, ouvindo-as e dando a elas o apoio e as informações necessárias para seguir em frente. Esse foi um dos pontos em uma lista com 21 tópicos de reflexão que o Papa entregou aos participantes no primeiro dia.

É preciso colocar-se “à escuta do Espírito Santo, e com docilidade à sua orientação, escutarmos o grito dos pequenos que pedem justiça”, disse. Em breve discurso de abertura, na quinta-feira, 21, Francisco afirmou que enfrentar os abusos com “medidas concretas” é uma responsabilidade pastoral e eclesial, “que nos obriga a discutir juntos, de maneira sinodal, sincera e aprofundada”. Embora já existam diretrizes, o encontro sinaliza uma ação coletiva na Igreja para que se fortaleça a mudança de mentalidade, e para que as normas existentes sejam desenvolvidas e aplicadas localmente.

Entre as propostas, falou-se em equipar as estruturas da Igreja, com material de formação, revendo-se periodicamente os protocolos já existentes; conscientizar a sociedade, e em especial bispos e superiores religiosos; abrir canais de denúncia; preparar caminhos pastorais nas comunidades paroquiais; estabelecer provisões para facilitar a participação dos fiéis leigos em comissões consultivas e investigativas; e melhorar o aspecto psicológico do processo seletivo de candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada.

 

RECONHECER A AMPLITUDE

Para ser concreto, é preciso, acima de tudo, reconhecer a amplitude do fenômeno. Entre alguns participantes do encontro havia, no início, a ideia de que a proteção de menores deveria ser uma prioridade dos locais mais atingidos – países como Estados Unidos, Irlanda, Austrália e Chile, por exemplo. Mas, segundo um dos organizadores, o Padre jesuíta Hans Zollner, ao fim do evento se percebia um consenso de que prevenir e ter protocolos claros é uma necessidade em todas as culturas. Isso, para ele, já valeu a reunião.

No discurso de encerramento, o Papa tocou nesse ponto. “Nosso trabalho nos levou a reconhecer, mais uma vez, que a gravidade da chaga dos abusos sexuais de menores é um fenômeno historicamente difuso, infelizmente, em todas as culturas e sociedades”, admitiu, observando que houve uma evolução na opinião pública sobre algo que era “considerado tabu”.

 

NOVAS PREOCUPAÇÕES

A Igreja pode se tornar um dos principais atores globais no combate à violência sexual, não só em suas próprias instituições, mas na sociedade. O Papa Francisco contextualizou o problema, identificando estatisticamente os mais diversos tipos de abuso, cometidos sobretudo por pais, parentes, maridos, treinadores e educadores.

Questão é ‘responsabilidade compartilhada’ e não ‘fixação’, diz professora

Três mulheres falaram à assembleia e suas palestras repercutiram fortemente entre os participantes e na imprensa. A primeira delas, Linda Ghisoni, teóloga italiana, é canonista e subsecretária do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida. Segundo a Professora, somente assumindo a “responsabilidade compartilhada” de leigos, religiosos e clero será possível enfrentar de forma eficaz o problema dos abusos sexuais.

“Tomar consciência do fenômeno e da própria responsabilidade não é uma fixação, não é uma ação inquisitorial acessória para satisfazer meras necessidades sociais, mas uma necessidade que surge da própria natureza da Igreja como um mistério de comunhão fundado na Trindade, como povo em caminho, que não evita, mas enfrenta com renovada consciência comunitária também os desafios ligados aos abusos ocorridos dentro dela”, disse.

A Irmã Veronica Openibo, nigeriana, criticou a “hipocrisia e a complacência” de membros da Igreja que nada ou pouco fizeram para resolver o problema. “É preciso romper com toda a cultura do silêncio e do sigilo entre nós, para fazer entrar mais luz na nossa Igreja. Reconheçamos nossa vulnerabilidade, sejamos proativos e não reativos ao enfrentar os desafios, e aprofundemos sem medo as questões”, declarou a Superiora-geral da Sociedade do Santo Jesus Menino.

Já a jornalista e escritora mexicana Valentina Alazraki, vaticanista há mais de 40 anos, desde o pontificado de Paulo VI, falou sobre a perspectiva da relação do clero com a imprensa. Abordando o tema também como mãe, ela defendeu que a Igreja esteja sempre do lado dos mais fracos: “Há outro caminho senão o de estar ao lado das vítimas, e não do carnífice? Se vocês são contra os que cometem abusos ou os encobrem, então estamos do mesmo lado. Nós [jornalistas e bispos] podemos ser aliados, não inimigos.”

 

E uma nova preocupação nasce no ambiente digital: “Uma parte muito considerável da produção pornográfica tem, tristemente, como objeto, os menores, que assim são gravemente feridos em sua dignidade”, avaliou. Outra preocupação do Pontífice é o turismo sexual – de acordo com a Organização Mundial do Turismo, todo ano, 3 milhões de pessoas viajam para ter relações sexuais com menores. “Os autores, na maior parte dos casos, não reconhecem que o que estão fazendo é um crime”, lamentou.

 

RESPONSABILIDADE MORAL

Por outro lado, o Papa não relativizou a responsabilidade da Igreja e suas estruturas: “A desumanidade do fenômeno em nível mundial se torna ainda mais grave e mais escandalosa na Igreja, porque contradiz a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética. O consagrado, escolhido por Deus para guiar as almas à salvação, deixa-se subjugar pela própria fragilidade humana ou pela própria doença, tornando-se, assim, um instrumento de Satanás”, refletiu.

Em seu discurso, Francisco insistiu que é preciso reconhecer “humilde e corajosamente” que estamos diante do “mistério do mal, que ataca os mais fracos porque são imagem de Jesus”. E acrescentou que, nas últimas três décadas, a Igreja cresceu em consciência sobre o problema. Daqui para a frente, cada caso dessa “monstruosidade” será enfrentado com “a máxima seriedade”, garantiu.

 

Vaticano anuncia nova lei e ‘forçatarefa’ para proteção de menores

Após a conclusão do encontro, o Vaticano anunciou três medidas imediatas para ratificar o compromisso da Igreja com a proteção de menores, de acordo com o Padre jesuíta Federico Lombardi, moderador do encontro.

Primeiro, uma nova lei para a Cidade do Vaticano para o tema dos abusos sexuais de menores, com o objetivo de servir de exemplo a outras instituições; segundo, a publicação de um manual pela Congregação para a Doutrina da Fé, destinado a todos os bispos, para que “compreendam claramente seus deveres”; e, terceiro, a convocação de uma “força-tarefa” de pessoas competentes para orientar dioceses e conferências episcopais menos estruturadas ou com dificuldade para iniciativas em proteção de menores.

Já existem estruturas na Igreja para lidar com o problema, como a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, instituída pelo Papa Francisco em 2014, e o Centro para a Proteção de Menores, da Pontifícia Universidade Gregoriana, criado pelo Padre Hans Zollner, em 2012, sob o pontificado do Papa Bento XVI, além de normas que se tornaram mais exigentes ao longo da última década. Também as dioceses, os seminários e as instituições de educação já estão mais adaptados, e os casos de abuso diminuíram drasticamente desde os anos 1980.

 

DIREITO E PENAS

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o canonista Ricardo Gaiotti explicou que também já existe uma série de protocolos, tanto em âmbito universal, quanto nas igrejas locais. “Quanto à Igreja no Brasil, não foi diferente. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou um documento intitulado ‘Orientações e Procedimentos Relativos às Acusações de Abuso Sexual contra Menores’”, além da ‘Nota da Presidência da CNBB sobre o compromisso no combate aos crimes de abusos sexuais cometidos por membros do clero’”, lembrou.

Entre as penas que podem ser aplicadas, nas leis da Igreja, a um clérigo que comete abusos estão desde a suspensão temporária dos seus ofícios até a “demissão do estado clerical”, isto é, a perda completa da capacidade de representar a Igreja como sacerdote.

A Congregação para a Doutrina da Fé oferece ajuda aos bispos locais na preparação de diretrizes, destacando a necessidade da colaboração entre as autoridades da Igreja e civis, tendo em vista que o abuso sexual é também “um crime perseguido pela autoridade civil”. Gaiotti observou, ainda, que a Santa Sé é signatária da Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. Leia no osaopaulo.org. br a entrevista completa.

(Filipe Domingues e Daniel Gomes)
 

Diretrizes Propostas pelo Papa francisco

Ao fim do encontro, o Papa Francisco indicou oito diretrizes para prevenção dos abusos sexuais e seu combate. “É chegada a hora de trabalhar juntos para erradicar essa brutalidade do corpo de nossa humanidade, adotando as medidas necessárias já em vigor em nível internacional e eclesial”, disse.

1. Proteção das crianças: Impedir que se tornem vítimas de abuso psicológico e físico em todas as instituições.

2. Seriedade impecável: Combater a mentalidade “reativo-defensiva” e fazer justiça com qualquer pessoa que tenha cometido delitos.

3. Verdadeira purificação: Renovar o empenho pela santidade dos pastores.

4. Formação: Conciliar aspectos negativos e positivos da personalidade dos candidatos ao sacerdócio.

5. Reforçar e verificar diretrizes das conferências episcopais: Reafirmar a exigência de unidade dos bispos nos parâmetros e normas. Não bastam só orientações.

6. Acompanhar pessoas abusadas: A Igreja tem o dever de oferecer todo o apoio necessário, recorrendo a especialistas nesse campo.

7. Mundo digital: Estimular as autoridades a aplicar todas as medidas para limitar sites e aplicativos que ameaçam a dignidade humana, especialmente a dos menores, e aplicar regras mais rígidas para o clero.

8. Turismo sexual: Buscar justiça às autoridades, mas também apoio concreto e espiritual às vítimas desse fenômeno.

 

Comente

Páginas

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.