Por uma vila mais limpa

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24 de novembro de 2019

Uma rotatória na Vila Santa Inês, em Ermelino Matarazzo, zona Leste, não era utilizada, pois, por anos, foi um ponto de descarte irregular do lixo doméstico, entulho e tudo o mais que já não era útil para os moradores do local.
A imagem não só empobrecia a paisagem como também fazia com que crianças, jovens e adultos pensassem que aquele lugar e outras ruas da comunidade poderiam ser utilizadas como lixões a céu aberto. A realidade incomodou Ionilton Aragão, que passou a dialogar com os outros moradores para que colocassem o lixo na rua apenas nos dias e horários certos de coleta.
Aos poucos, essa iniciativa comunitária mudou hábitos e levou à criação de projeto de educação ambiental, em dezembro de 2011, com o nome de “Varre Vila”.
Mais do que a conscientização sobre eliminar os chamados “pontos viciados de lixo” (locais em que o descarte é feito sem hora nem dia marcados), os moradores perceberam que, se cada um varresse a própria calçada, não existiria qualquer vestígio de sujeira nas ruas do bairro. Assim é feito desde então.
Aragão, que é coordenador-geral do projeto, explicou à reportagem que todo o trabalho é realizado firmando, com moradores, escolas, serviços de saúde, igrejas locais e empresas de limpeza urbana da cidade, um compromisso que coloca em discussão o problema evidente da coleta de lixo nas periferias também para o poder público.

MULTIPLICAR
O “Varre Vila” já foi implantado nos bairros de Itaim Paulista, Guaianases e São Miguel Paulista, todos na zona Leste, e nos municípios paulistas de Guarulhos e Cubatão. Em  dezembro, deve chegar a Curitiba (PR). 
Foi difundido, ainda, com a criação de outros dois projetos “Vila Limpa”, no Bom Retiro, região central, que durou de novembro de 2018 a maio deste ano; e o “Nossa Vila Limpa”, no Jardim Elisa Maria, zona Noroeste, de novembro de 2015 a junho de 2018. Este último foi decontinuado devido ao término dos contratos com empresas de limpeza urbana da cidade, ocorrido no mesmo ano.
Segundo Aragão, mesmo com a finalização do “Nossa Vila Limpa”, o que foi vivenciado no local ainda reverbera na comunidade, mas seu fim significou a interrupção de um trabalho que tem como base uma mudança de comportamento, pensada continuamente. 

PARTICIPAÇÃO POPULAR
Juliana Lopes Silva, que é consultora em Gestão Empresarial e atuou, entre dezembro de 2015 e junho de 2018, como colaboradora do “Nossa Vila Limpa”, reiterou que no Jardim Elisa Maria o processo de transformação era feito de forma comunitária, pensando em soluções viáveis para todos e que os bairros Jardim Vista Alegre, Vila Icaraí, Jardim Paraná, também na zona Noroeste, e Vila Nova Jaguaré, na zona Oeste, vinham sendo contemplados com a iniciativa. 
O essencial, de acordo com Juliana, era fazer com que o morador entendesse que o bairro é uma extensão da própria casa. Reuniões nas ruas e com pedreiros locais aconteciam constantemente, para falar da importância do descarte correto de lixo orgânico e entulho.
 “Os moradores sentem que valeu a pena, pois o projeto, para além da limpeza urbana, trabalhou pertencimento: o córrego por onde eu passo, a praça por onde eu ando, a rua por onde eu vou, também me pertencem. Então, parte dos moradores continua varrendo a sua porta e descartando o lixo no dia e horário corretos”, salientou Juliana.

O QUE DIZ A PREFEITURA 
A reportagem solicitou à Amlurb respostas sobre o motivo pelo qual o “Nossa Vila Limpa” foi encerrado e questionou sobre quais políticas públicas existem na cidade de São Paulo para a retirada e fiscalização dos pontos viciados de lixo.
Em nota, a Amlurb afirmou que “realiza um trabalho permanente de educação ambiental com entrega de informativos, a fim de orientar a população sobre a importância do lixo e da separação dos materiais recicláveis, além de iniciativas com a comunidade como o Recicla Sampa, Varre Vila e Vila Limpa”. 
Também explicou os objetivos do projeto “Varre Vila”, já citados nesta reportagem. Limitou-se a dizer que o “Projeto Vila Limpa”, no Bom Retiro, “foi concluído em maio deste ano, mas nada impede que futuramente venha a ser prolongado em outras comunidades”. Não houve resposta ao questionamento da permanência da atuação do “Nossa Vila Limpa”. 
Sobre as políticas públicas para os pontos viciados, a Prefeitura informou que, entre 2016 e 2018, a adesão dos munícipes nos ecopontos cresceu cerca de 30% e que, nos últimos anos, o município vem combatendo o descarte irregular nas ruas e já calcula uma diminuição de 35% de pontos viciados. 

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