Setembro Amarelo: falar é a melhor solução. A ideia é promover o debate sobre suicídio

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11 de setembro de 2018

Durante todo o mês de setembro, é comum ver espaços públicos e privados decorados e/ou iluminados com a cor amarela. Esta iniciativa é para chamar a atenção para o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado dia 10 de setembro.

Este ano, campanha do Setembro Amarelo tem como tema: “Falar é a melhor solução”. A ideia é promover eventos que abram espaço para debates sobre suicídio, além de divulgar o tema e alertar a população sobre a importância de sua discussão. O suicídio é um problema de saúde pública no Brasil e os casos tem crescido, principalmente, entre os jovens.

De acordo com números do CVV – Centro de Valorização da Vida, 32 brasileiros se matam por dia, média de 1 morte a cada 45 minutos. Essa taxa é maior do que a de vítimas de AIDS e da maioria dos tipos de câncer. No Brasil, o CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.

O bispo de Campos (RJ) e referencial da Pastoral da Saúde da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Roberto Ferrería Paz, esse tipo de campanha é preventiva e educativa já que possibilita alertar pais, educadores e as pastorais que lidam com o jovem encaminharem e tomarem medidas de cunho terapêutico para situações de depressão, pânico e outras doenças que sem cuidado possam induzir ao suicídio.

De acordo com o site oficial da campanha, tem sido um mal silencioso, pois as pessoas fogem do assunto e, por medo ou desconhecimento, não veem os sinais de que uma pessoa próxima está com ideias suicidas. A esperança é o fato de que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nove em cada dez casos poderiam ser prevenidos. É necessário a pessoa buscar ajuda e atenção de quem está à sua volta.

Para dom Roberto Ferrería Paz, certamente que o suicídio é uma temática a ser tratada com responsabilidade e profissionalismo evitando-se qualquer abordagem superficial que possa provocar comportamentos imitativos ou atingir jovens sugestionáveis.

“Há muito tempo, a Igreja superou o enfoque moralista da questão para refletir mais a necessidade de uma abordagem mais ligada a saúde mental e espiritual em resposta a uma sociedade profundamente carente de sentido e vazia existencialmente”, ressalta.

O CVV alerta que a sociedade em geral precisa reconhecer sinais, diferenciar mitos e verdades, ouvir profissionais e ter acesso a formas de apoio. Falar também é a melhor solução já que a pessoa que pensa em suicídio sofre uma grande dor e não vê saída para ela. Em geral, quem pensa em suicídio não quer necessariamente morrer, mas fazer aquela dor sair, mas não sabe como.

Dom Roberto Ferrería Paz acredita que o suicídio é um indicador de desespero e falta de razões para viver. O bispo cita: ‘Vitor Frankl sempre afirmava que todas as pessoas precisam de um sentido para viver de um sonho, de esperança’.

“Não desconhecendo que podem haver também motivos químicos e orgânicos, devemos com o papa Francisco dizer aos jovens e adultos que não deixem que lhes roubem a esperança”, completa.

A mobilização de combate ao suicídio pode ser feita de diversas formas. Seja com ações informativas em empresas, os órgãos públicos se iluminando de amarelo ou cada pessoa pode se mobilizar compartilhando informações sobre o movimento Setembro Amarelo nas redes sociais, levantando o tema em seus grupos e buscando informações confiáveis sobre o assunto.

 

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‘O suicídio não tem nada de glorioso, é sempre uma tragédia’

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13 de novembro de 2017

O QUE É O SUICÍDIO DENTRO DO CONTEXTO PSIQUIÁTRICO?

José Manoel Bertolote - O problema não é só o contexto, seja religioso ou psiquiátrico – a questão é a percepção cultural do suicídio. Quando se trata do suicídio de uma celebridade, por exemplo, parece haver certa glorificação ou glamourização do suicídio.  Nem sempre, na grande imprensa, o suicídio é apresentado como um fato da perspectiva psiquiátrica, mas somente como um fato extremamente triste. Na maioria das vezes, porém, o ato está associado a transtornos mentais e praticamente sempre associado a um enorme sofrimento individual. Portanto, na minha opinião como estudioso e como psiquiatra, o suicídio não tem nada de glorioso, é sempre uma tragédia.

 

 Leia também "Falar sobre a dor para salvar a vida"

 

EXISTE ALGUM GRUPO MAIS SUSCETÍVEL AO SUICÍDIO?

Existe. O grupo mais vulnerável – em todos os países em que isso foi examinado – é justamente o dos portadores de transtornos e de doenças mentais, das quais eu destaco duas: a depressão e o abuso do uso de álcool ou drogas. Quando estudamos os números de pessoas que se suicidaram, mais de 60% delas tinham, no momento do suicídio, um quadro de depressão ou de alcoolismo. 

A depressão, de forma muito ‘pesada’, contribui para o suicídio. Talvez, de todos os transtornos mentais, seja o mais frequentemente associado ao suicídio. Em homens, em geral, a depressão tem uma associação que nós chamamos de comorbidade com o uso de álcool [ou seja, a associação de duas doenças]. Nós temos já dois fatores que contribuem para levar o indivíduo ao desespero e considerar a possibilidade de suicídio. 

 

A PROXIMIDADE COM OUTRAS PESSOAS PODE AJUDAR A EVITAR CASOS DE SUICÍDIO?

Ajuda imensamente. Os estudos mostram que grande parte das pessoas que morreram por suicídio deram muitos sinais. O que acontece é que nós não conseguimos ou não temos disponibilidade para ler os sinais. Todos os estudos mostram que mais de um terço dos que se suicidaram deram sinais mais ou menos claros. Mas, nem sempre estamos abertos a receber esse pedido de ajuda. O pedido não é assim: “Por favor me ajude que eu estou desesperado, eu vou me matar!”. Isso é extremamente raro. Isso acontece, por exemplo, com as pessoas que ligam para o Centro de Valorização da Vida (CVV). Agora, no dia a dia, quando se refere aos nossos familiares, colegas e amigos, o que eles nos mostram é o sofrimento, o desespero, uma mudança muito radical no comportamento e que nós por conveniência, ou por medo, e até receio de fazer uma bobagem, deixamos passar. E muitas vezes, com isso, perdemos uma vida.

 

COMO PODEMOS IDENTIFICAR ESSES SINAIS?

Começa por aí, uma imagem que eu sempre uso é ‘cão que ladra, não morde’. Se eu passo na rua e os cães estão latindo, eu não vou provocá-los. Quando uma pessoa diz: “Um dia eu vou fazer isto!”, esse tipo de informação deve ser considerada e merece um encaminhamento. O encaminhamento não é, necessariamente, o psiquiatra – na comunidade, nós temos amigos, nós temos padres, temos pastores, temos conhecidos com mais experiência, professores. Em uma situação de alguém que está sofrendo, vamos olhar para essa pessoa. Procurar um hospital psiquiátrico é o último recurso. 

 

EM QUE MEDIDA A RELIGIÃO INFLUENCIA OU PREVINE O SUICÍDIO?

Eu acho que a religião tem um grande papel. Anos atrás, fiz um estudo comparativo entre países que eram predominantemente ateus  e aqueles em que havia predomínio de religião - católicos,  protestantes, hinduístas, mulçumanos.  Precisamos lembrar que também dentro de um país predominantemente católico como o Brasil, há ateus e na Rússia e na China, que são países ateus, há também católicos. Mas, fazendo uma análise geral dos países, as taxas de suicídio nos países assumidamente ateus eram assustadoramente mais altas do que países onde há predominância de uma religião. E, dentro das religiões, há graus de suicídio, sendo o mais alto em países de religião protestante, mais baixo em países de religião católica e mais baixo ainda em países mulçumanos – são os países com a menor taxa de suicídio. Isso porque o Islã tem uma postura fortemente negativa em relação ao suicídio – é considerado um dos piores pecados. Eles não têm a divisão de pecados mortais [e veniais], mas eles têm os pecados que são irreversíveis e o suicídio é um deles. 

 

EXISTEM PESSOAS QUE COMETEM SUICÍDIO POR VINGANÇA?

Existe, mas é um número menor de casos. A imensa maioria dos casos é de suicídios lentos, muito discretos e silenciosos. Esses casos espetaculares, quando alguém pula de um prédio com o filho no braço, viram manchete e nós ficamos com a sensação de que isso é mais comum do que de fato é, na realidade, mas é um suicídio muito raro. O suicídio de vingança, mais do que um ato de heroísmo, é um ato de desespero e de sofrimento. E algumas pessoas que se suicidam com os filhos, por exemplo, o fazem porque, na sua perturbação mental, entendem que os filhos ou o ser amado também estão sem saída, como ele. Para não deixar alguém desprovido, ele, nesse momento, leva o outro junto. 

 

COMO A FAMÍLIA PODE PERCEBER OS INDICADORES?

O primeiro deles é a manifestação, ou de um cansaço com a vida, esgotamento, ou “eu não aguento mais”, “não quero mais viver”, “a vida já perdeu a graça”. Isto com pessoas de mais idade. Entre os mais jovens, ou seja, os adolescentes, o início do sofrimento se manifesta por uma mudança brusca de comportamento. Aquele rapaz ou aquela moça que era mais ou menos sociável começa a se fechar dentro de casa, cada vez mais dentro do quarto. Pode estar iniciando um processo de depressão que, quando evolui, pode se tornar um suicídio. Pelo contrário, uma pessoa muito quietinha que desanda a fazer barbaridades – esses são sinais indiretos de que há um problema com aquela pessoa.

 

QUAL A SITUAÇÃO DO SUICÍDIO NO BRASIL?

No Brasil, em particular, o suicídio aumenta sobretudo entre os mais jovens. Na média mundial, o suicídio está aumentando na faixa média de idade, de 40 a 50 anos. No Brasil, o aumento é entre 20 e 30 anos.

 

As opiniões expressas na entrevista são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do O SÃO PAULO.

 

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Falar sobre a dor para salvar a vida

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16 de novembro de 2017

A frase pode até parecer positiva, e quem a diz pode pensar que é uma tentativa de ajuda para quem passa por um grande sofrimento. Porém, em muitos casos, não é o suficiente quando o que está em jogo é o drama do suicídio. 

O suicídio mata cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo, uma a cada 40 segundos. No Brasil, para cada 100 mil mortes, 5,3 são causadas por suicídios. Os dados são do Ministério da Saúde e mostram que o número de suicídios cresceu no País de 2011 a 2015, sendo a quarta maior causa de morte entre os jovens.

Na grande maioria dos casos, as pessoas que cometem suicídio têm, no momento do ato, o diagnóstico de algum transtorno mental ou psiquiátrico, que pode ter sido desenvolvido ao longo dos anos ou por algum acontecimento pontual, como uma morte na família, a perda do emprego ou o fracasso de um relacionamento. 

Já no caso dos adolescentes e jovens, as causas estão relacionadas à falta de adequação ao meio em que vivem, não aceitação do corpo ou dificuldades familiares, além de problemas como o bullying. 

Pesquisas apontam como essencial que a sociedade comece a falar mais sobre as causas do suicídio e os possíveis caminhos de prevenção. Os especialistas são unânimes quando sugerem que é preciso romper o isolamento e mostrar possibilidades de integração em diferentes ambientes sociais. Outro fator determinante é a religião e a espiritualidade, que têm um papel importantíssimo quando o objetivo é a valorização e a preservação da vida. 

 

‘Quando eu percebi, o dia havia amanhecido e eu não tinha me jogado’

Carina Ferreira da Silva, 22, é paulista e viveu uma experiência muito dolorosa, que começou a se agravar em janeiro de 2016. A jovem passou no vestibular para cursar Ciências Contábeis na Unesp, em Rio Claro, no interior do Estado. “Eu pensei que, estando lá, meus pais me ajudariam, pois o curso era integral e eu não poderia trabalhar. Mas, depois de quase um mês e sem condições de me manter sozinha, precisei voltar para São Paulo. Naquele momento, vivi uma grande sensação de fracasso”, contou à reportagem. 

“Foi aí que minha depressão desencadeou, algo que eu já tinha desde criança, mas pensava ser apenas uma tristeza. E, como sempre fui uma pessoa quieta e calada, com uma personalidade mais introspectiva, ninguém se preocupou”, disse a jovem. 

Ainda em Rio Claro, andando pelas ruas da cidade à noite e sozinha, num momento de grande angústia, Carina encontrou um grupo de jovens que estava indo para a igreja participar de uma celebração e, vendo a situação dela, a convidaram para os acompanhar. “Eu fui, fiquei sentada chorando e pedi a Deus que me ajudasse. Foi quando senti que devia mesmo voltar para a casa dos meus pais, em São Paulo.” 

No mês de dezembro, porém, depois de afastar-se de todos os amigos e da comunidade que participava, Carina fez a primeira tentativa de suicídio, quando comprou veneno e tomou um coquetel. “O plano não deu certo, porque vomitei tudo. A única consequência foi a dor de estômago durante toda a semana”, relatou. 

E não foi a única vez. Carina fez um novo coquetel no mesmo mês, que a levou para o hospital e fez com que seus pais tomassem conhecimento da situação. Além disso, ela tentou se jogar no metrô, mas foi segurada por uma senhora.  Pensou, também, em pular da laje da casa em que morava, quando uma amiga enviou mensagens para perguntar por que ela tinha se afastado. 

“Sentei na laje e ia pular, mas quando coloquei o celular de lado, comecei a receber mensagens de uma amiga que falava uma série de coisas bacanas. Ficamos conversando durante aquela madrugada e, quando eu percebi, o dia havia amanhecido e eu não tinha me jogado”, disse. 

Foi naquela noite que Carina sentiu que precisava procurar auxílio e nenhum amigo poderia ajudá-la se ela não assumisse sua depressão. “Procurei uma psicóloga e, no início, achei muito chato. Porém, decidi continuar o tratamento, porque ela diagnosticou minha situação como uma depressão em estado gravíssimo. Foi quando, depois de assistir uma série na qual a personagem principal se suicidava, eu, mais uma vez, tentei pôr fim à minha vida. Comprei um pacote de lâminas e fiz mais de 30 cortes na coxa e 4 cortes em cada um dos pulsos. Mas os cortes foram superficiais. Minha mãe abriu a porta do banheiro e me viu no chão, com as lâminas na mão. Ela me repreendeu e disse que eu não podia mais repetir aquele gesto e, na minha casa, ninguém mais tocou no assunto.” 

Ainda assim, a jovem continou as conversas com a psicóloga e, com o passar dos meses, começou a sentir-se melhor, voltando, inclusive, a participar do grupo de jovens da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba. “Em julho, fui convidada para trabalhar no Encontro de Jovens com Cristo e decidi aceitar. No fim do encontro, que foi muito bonito, resolvi partilhar minha história com o grupo. Foi a primeira vez que falei, para mais pessoas, tudo o que estava vivendo. Foi surpreendente como eles me acolheram e muitos jovens vieram falar comigo. Depois daquele dia, sinto que sou outra pessoa”, continuou Carina.

 

É possível prevenir 

Gabriel Bartolomeu é mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo e trabalhou por alguns anos numa clínica de saúde mental da Capital Paulista. Ele conversou com O SÃO PAULO sobre os fatores que desencadeiam doenças ou transtornos mentais e como é importante que a pessoa com ideações suicidadas encontre espaços de acolhida para falar sobre seus problemas sem acusações ou julgamentos.

“A questão do suicídio é sim, multifatorial, mas na maioria quase absoluta dos casos a pessoa passa por uma angústia ou sofrimento muito intenso, que causam mudança de comportamento ou isolamento social”, explicou Gabriel.

Ele salientou a importância de diferenciar os chamados “pensamentos de morte” - que podem acontecer com qualquer pessoa - da ideação suicida, seja ela estruturada ou não. “Quando a pessoa pensa em estratégias de como fazer isso, está no grau mais grave e pode sim chegar a cometer o suicídio”, esclareceu. 

“Na maioria dos casos, as pessoas falam – de alguma maneira – sobre o que estão vivendo, ainda que não se expressem claramente com palavra. Elas ficam tristes, isoladas, demonstram falta de vontade de fazer as coisas, mostramse ensimesmadas e expressam também a dificuldade em mudar isso”, ressaltou Gabriel.

Mas, nem sempre é fácil para a família identificar esses sinais. Gabriel explicou a dificuldade para alguém que não experimentou esse tipo de sofrimento de compreender e até mesmo de ajudar o outro, sobretudo dentro do círculo familiar. “Por um lado, é uma experiência que eles não têm e, por outro, a família sente-se completamente impotente ou pensa que, ao tentar animar a pessoa ou até repreendê-la pelos seus atos, já a está ajudando”, continou. 

“É muito importante extrapolar o círculo familiar. Nesse sentido, a religião tem um papel fundamental. Sentir-se parte de uma comunidade e ter alguém de confiança para conversar pode reverter sim o quadro de depressão. Porém, cada pessoa é única e não podemos afirmar que todas irão obter os mesmos resultados, e, por isso, o profissional médico é também essencial. Uma coisa não exclui a outra”, afirmou o Psicólogo.

 

Espiritualidade

Pesquisas mostram que em países onde há a predominância de uma religião, há números significativamente menores de mortes causadas por suicídio (veja mais na página 15, a entrevista com José Bertolote). A espiritualidade e a busca do sentido para a vida são essenciais para o desenvolvimento humano.

A doutrina da Igreja Católica, por sua vez, ensina que cada pessoa deve cuidar da própria vida e da vida dos demais e, sendo assim, encaixa o suicídio como um “pecado grave”. 

Porém, o Catecismo da Igreja Católica, no artigo 2283, afirma, também, que “não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.” 

A direção espiritual, realizada de forma sistemática com um sacerdote e a participação em grupos na comunidade são, sem dúvida, caminhos importantes para a valorização da vida. Em São Paulo, são muitas as paróquias e comunidades que mantêm atendimento sistemático de confissões e acolhem as pessoas nas suas dificuldades.

“Você acha que, com o suicídio, vai aliviar seu sofrimento e também o das pessoas que estão próximas a você. Mas, isso é mentira. É preciso procurar apoio, é preciso falar sobre o que você sente. Eu procurei apoio nas coisas e depois nas pessoas. E consegui superar a pior e mais difícil fase da depressão, quando não via cor em nada. Arrependo-me por todas as vezes que eu tentei o suicídio. Deus me deu a vida, que é um bem tão precioso e eu queria tirá-la, sendo que há tantas pessoas no mundo que querem viver, mas alguém lhes tira a vida ou elas têm alguma doença grave. Isso seria injusto comigo e com o mundo”, disse, emocionada, Carina, que hoje mora sozinha e cursa Ciências Contábeis.
 

Mitos sobre o suicídio

Mito

Verdades

O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre arbítrio.

FALSO. Os suicidas estão passando quase invariavelmente por uma doença mental que altera, de forma radical, a sua percepção da realidade e interfere em seu livre arbítrio. O tratamento eficaz da doença mental é o pilar mais importante da prevenção do suicídio. Após o tratamento da doença mental, o desejo de se matar desaparece.

Quando uma pessoa pensa em se suicidar terá risco de suicídio para o resto da vida.

FALSO. O risco de suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco.

As pessoas que ameaçam se matar não farão isso, querem apenas chamar a atenção.

FALSO. A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. Boa parte dos suicidas expressou, em dias ou semanas anteriores, seu desejo de se matar.

Se uma pessoa que se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte, passa a se sentir melhor, normalmente significa que o problema já passou.

FALSO. Se alguém que pensava em suicidar-se e, de repente, parece tranquilo, aliviado, não significa que o problema já passou. Uma pessoa que decidiu suicidarse pode sentir-se “melhor” ou sentir-se aliviada simplesmente por ter tomado a decisão de se matar.

Quando um indivíduo mostra sinais de melhora ou sobrevive à uma tentativa de suicídio, ela está fora de perigo. 

FALSO. Um dos períodos mais perigosos é quando se está melhorando da crise que motivou a tentativa, ou quando a pessoa ainda está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta do hospital é um período em que a pessoa está particularmente fragilizada. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa suicida muitas vezes continua em alto risco.

Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco.

FALSO. Falar sobre suicídio não aumenta o risco. Muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem.

É proibido que a mídia aborde o tema suicídio.

FALSO. A mídia tem obrigação social de tratar desse importante assunto de saúde pública e abordar esse tema de forma adequada. Isso não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda etc.

 Fonte: Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio
 

A realidade do suicídio no mundo

  •   Nos últimos 50 anos, houve um aumento em 60% no número de tentativas de suicídio;  
  • Os maiores índices de suicídio estão concentrados em países da antiga União Soviética;
  •  Na Rússia morrem desta forma 70 em cada 100 mil habitantes;  
  • Na Lituânia morrem 75 homens em cada 100 mil habitantes;
  • 90% dos casos têm relação com transtornos psiquiátricos;
  • Depressão e transtorno bipolar aumentam entre 15 a 20 vezes as possibilidades de suicídio;  
  • Um terço das mortes de jovens no mundo é por suicídio;  
  • Na Dinamarca e Japão, a ocorrência é maior em pessoas com idades entre 25 e 34 anos.
     

No Brasil 

  • 5,3 mortes a cada 100 mil habitantes;  
  • Morrem três vezes mais homens do que mulheres;  
  • As mulheres tentam três vezes mais suicídio do que os homens.

 

Fatores sociais que levam ao suicídio

  • Falta de estrutura familiar;  
  • Perdas sociais, econômicas e familiares;  
  • Falta de religiosidade;  
  • Alcoolismo;  
  • Esquizofrenia;  
  • Abuso de drogas.
Fontes: Associação de Suicidologia da América Latina e Caribe (Asulac),
UFMG e Associação Mineira de Psiquiatria
 

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A sedução da sétima arte

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17 de julho de 2017

Um tema tão delicado como o do suicídio assistido ter sido tratado no cinema é, porém, uma oportunidade para que se discuta a questão, quer da morte em si, quer da necessidade de que se revejam os padrões e as neces- sidades de consumo criadas para dar conta de uma felicidade meramente baseada em valores como o dinheiro, os padrões de beleza estabelecidos, o prazer sem medida e o poder sobre o próprio corpo ou o dos demais. E são esses os padrões formatados nos quais grande parte da humanidade nem sequer se dá conta de que está seguindo, levada pela propaganda de uma vida perfeita e quase imortal.

 

Elisabeth acrescenta que “cada época apresenta uma neurose predominante e atualmente o tédio existencial torna a população tão passiva que nem consegue identificar o que quer. Passa a querer o que os outros fazem, um conformismo, ou faz o que os outros querem que faça, o chamado totalitarismo. A cultura do descarte, que centra o objetivo no consumismo, leva ao fechamento nos próprios interesses, mas não responde à aspiração presente no coração humano. A falta de ideais favorece os impulsos de agressividade, a criminalidade, a indiferença diante do outro, a dependên- cia de drogas e o suicídio, sobretudo entre os jovens universitários. A cultura do descarte leva também a des- cartar os relacionamentos, as pessoas e a si próprio.”

É importante, porém, destacar que a arte, o cinema e a literatura, sem sombra de dúvida, são exemplos maravilhosos da engenhosidade, inteligência e sabedoria humana e se constituem expressões mais lindas daquilo que definimos como cultura humana. “Quem não se encanta, por exemplo, ao ler um dos clássicos da literatura universal como ‘Dom Quixote de la Mancha’, do escritor espanhol Cervantes? Ou, então, quem não se comove diante da ‘Pietá’ de Michelangelo? E no cinema? Hoje, precisamos de educação com visão crítica e espírito de discernimento, porque nem tudo que vemos por aí ajuda a construir uma vida saudável e feliz. Há muitas situações de ilusão, violência, destruição e pornografia, que corrompem com os verdadeiros valores humanos, que constroem um ser humano normal, feliz e cidadão. Aqui, especificamente, estamos dian- te de poderosíssimos instrumentos de marketing em seduzir sentimen- tal e afetivamente a juventude, que vive um momento particularmente sensível e vulnerável frente à vida e em relação com os valores humanos”, alerta Padre Leo Pessini.

Ele explica à reportagem que o fenômeno do turismo do suicídio assistido na Suíça tem aumentado de forma rápida nos últimos anos e preocupa não só o próprio governo suíço, mas vários governos europeus. “Entre 2008 e 2012, 611 não residen- tes suíços, provenientes de 31 países, foram ajudados a abreviar suas vidas. Temos a eutanásia legalizada desde 2002 na Holanda e na Bélgica. O suicídio assistido está legalizado em vários estados dos Estados Unidos da América. O Canadá está num momento de forte discussão política, mas tudo indica que o suicídio assis- tido vai ser aprovado e regulamenta- do pela Suprema Corte.”

Em matéria do site G1, o ator

Zack Weinstein, que ficou tetraplégi- co em 2005, afirma que “a mensagem do filme é que é melhor para essa pes- soa morrer do que precisar de um ser- viço que a ajude a viver”. Na mesma notícia, há ainda a fala do ator Grant Albrecht, que sofre de uma doença que está retirando a sua capacidade de andar. “Romantizar a covardia é real- mente perpetuar um estereótipo por uma questão de abandonar as pessoas reais com deficiência que estão lutan- do para manter sua sanidade e meios de subsistência e não ganham oportu- nidades em Hollywood”. 

Em artigo publicado no blog Re- ginas, do site Sempre família, Ana Clara Lazarini, que escreve para o blog, afirma que alguns grupos que defendem os direitos das pessoas com deficiência se movimentaram em di- versos países para protestar contra a obra, que mostra a ideia de que não é possível um deficiente ter uma vida digna e feliz, que morrer seria um ato de amor e “pouparia” os amigos e familiares. Citam-se, como exemplo, o grupo “Not Dead Yet”, “Euthanasia Prevention Coalition” e “Center for Disability Rights”.

Ela conta no artigo que Dan Harvey, um jovem que possui uma deficiência muito parecida com a de Will Traynor, criou um canal no YouTube para mostrar sua indignação com o sucesso do filme. No vídeo, diz que o filme reforça o estereótipo da pes- soa com deficiência física, que é contrário da realidade, como se a vida fosse negativa e melancólica, e que acabar com ela seria um ato de coragem. Outro problema relacionado à produção hollywoodiana é a falta de representatividade dos atores com deficiência. As grandes empresas cinematográficas optam por atores que não têm deficiência para fazerem papeis de personagens que têm.

Enquanto “Como eu era antes de você” quer mostrar uma vida que só vale a pena ser vivida se estiver dentro dos padrões pré-estabeleci- dos por uma parcela aparentemente bem sucedida da sociedade, outros filmes, e só para citar um “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, ajudam a perceber o quanto pequenos momentos podem fazer a diferença, mesmo que seja quebrar a camada de creme em um potinho de doce. E, cada pessoa, nas diferen- tes culturas, idades e momentos his- tóricos, tem a tarefa de redescobrir esses momentos. Para alguns, é o aconchego de um almoço em famí- lia no domingo; para outros, ouvir a voz do amigo distante no telefone ou ainda viver um instante de espiritualidade enquanto se contempla as folhas das árvores caírem ao sol. 

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