Para trilhar o recomeço

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03 de agosto de 2019

O forte barulho das trancas de ferro que, ao longo do dia, são abertas e fechadas muitas vezes em uma prisão foi abafado pelo som dos aplausos e sorrisos de presos, agentes penitenciários e diretores no Centro de Detenção Provisória II de Pinheiros (CDP II), na zona Oeste da Capital Paulista, na quinta-feira, 25. 


Nessa unidade prisional estão mais de 1,7 mil presos provisórios – aqueles que ainda não foram julgados em definitivo –, quantidade acima da capacidade de 993 vagas. Naquele dia, 110 deles, selecionados pela direção da unidade, assistiram à palestra motivacional de Clóvis de Barros Filho, jornalista, cientista social, filósofo e advogado. 


A iniciativa foi idealizada pela Pastoral Carcerária, com o apoio da direção do CDP II de Pinheiros. Segundo o diretor da unidade, Guilherme Silveira Rodrigues, ações como essas têm sido priorizadas para colaborar no processo de ressocialização dos presos. “Tratamos o homem preso como gente, e a recíproca é verdadeira, pois somos tratados por eles da mesma forma. Aqui não se procura saber o que a pessoa fez, queremos saber o que ela fará quando sair. Julgá-la é parte do Judiciário”, garantiu ao O SÃO PAULO

‘A vida que vale a pena ser vivida’
Este foi o tema da palestra conduzida por Clóvis de Barros Filho, que, desde 2015, é professor universitário aposentado em razão de um problema de saúde que o deixou com apenas 14% da capacidade de visão.


Inicialmente, ele destacou que não se pode trilhar um caminho sem saber o ponto de partida e aonde se pretende chegar, pois só assim a pessoa conseguirá encontrar o que realmente tem valor na vida. 


O palestrante fez menções a personalidades da arte e do esporte e citou conceitos aristotélicos e o testemunho de Jesus Cristo, a fim de que os participantes refletissem sobre o sentido da própria vida, que é, em essência, segundo ele, a procura contínua da felicidade. 

Excelência e amor ao próximo
Clóvis lembrou que, para o filósofo grego Aristóteles, a felicidade está em fazer tudo com excelência, ou seja, esforçar-se para alcançar o máximo da perfeição dentro das próprias limitações humanas. 


“Se eu peguei este microfone hoje, foi para fazer melhor do que ontem. Estou aqui para fazer melhor do que já fiz. E isso faz com que esse momento seja colorido, desafiador e feliz, pois se eu estivesse aqui esperando o evento acabar para poder ir embora, este momento seria medíocre, ruim”, apontou.


Ao citar o exemplo de vida e os ensinamentos de Jesus Cristo, o palestrante recordou que o sentido da vida é também trazer a felicidade a outra pessoa, “é ter a vida regida pelo amor ao próximo”, mostrando-se sempre disponível. 


Por fim, Clóvis lembrou que, embora a felicidade seja algo que as pessoas desejem sempre, ela é experimentada de modo especial em ocasiões passageiras. Assim, esses instantes devem ser valorizados e compartilhados, especialmente com quem se ama. “Sem o amadurecimento do coração e do espírito, para que possamos querer bem as pessoas, fica difícil viver momentos assim”, comentou.

À procura do caminho certo
Sandro Elio Rodrigues, 40, Fábio Pereira de Assis Magalhães, 33, e João da Silva Lima, 43, assistiram à palestra e mostraram-se confiantes em trilhar novos caminhos na vida.


Preso há um ano e cinco meses, Sandro recebe a visita dos filhos com frequência e busca ocupar o tempo com leituras, sempre que possível. “Aproveitar o tempo é fundamental para refletir e para entender o caminho a ser percorrido. Não podemos perder a meada deste caminho”, comentou. “Na palestra de hoje, percebi que há algo muito maior do que aquilo que nos traz para este lugar. Devemos olhar mais para o próximo, encontrar esse amor e essa excelência que está dentro de nós. O ser humano acredita na reciclagem de uma garrafa Pet, mas duvida, às vezes, da ressocialização de alguém. Não se deve pagar o mal com o mal”, destacou.


Fábio mostrou-se animado em transmitir aos outros presos tudo que ouviu naquele dia que “quebrou o protocolo, com preso e funcionário no mesmo espaço, sem discriminação”, afirmou. Encarcerado há um ano e quatro meses, ele destacou que “o mais interessante dito pelo palestrante é que não importa como sua vida começou, mas como ela vai terminar. Não se deve pensar que ‘caiu aqui já era’. Não. Aqui é o começo para você analisar. É no fundo do poço que se deve olhar para cima e ver como sair”. 


João, preso há sete meses, disse confiar que a “estada será de pouco tempo. Estou sendo disciplinado para voltar a fazer o bem. Há três meses, eu fui ao juiz e disse: ‘Doutor, eu cansei de errar’. Sei que se não parar de errar, continuarei cansando. Aqui estão pessoas que realmente querem mudar”, afirmou, comentando, ainda, que a iniciativa da Pastoral Carcerária em promover a palestra ajudará na aproximação de católicos e evangélicos na unidade prisional. “Somos todos cristãos. Seria bom que buscássemos mais essa união”, concluiu.

Presença da Igreja nos cárceres 
Toda semana, membros da Pastoral Carcerária de São Paulo visitam o CDP de Pinheiros para prestar assistência religiosa aos presos e seus familiares, bem como assistência jurídica, conforme as solicitações de encarcerados que desejam saber sobre as datas de audiências, benefícios de execução criminal concedidos e outras questões relativas ao processo judicial. 


“Regularmente, realizamos no CDP de Pinheiros celebrações da Palavra e, de acordo com a disponibilidade dos padres, a Santa Missa e outros sacramentos. Além disso, sempre nos preocupamos em preparar encontros que proporcionam uma troca de experiências: atividades que permitem a escuta das pessoas presas, em uma abordagem que traz nuances de cultura, atualidades, Filosofia e Sociologia, mas sempre contextualizadas no propósito da evangelização”, explicou à reportagem Érica Carolina Silva, coordenadora da Pastoral Carcerária na Região Episcopal Lapa. 


Ela disse que convidou o professor Clóvis por saber que ele dissemina uma mensagem de amor, solidariedade, fraternidade e cuidado com o próximo. 


Segundo Érica, a temática da palestra foi importante para concretizar uma ideia que a Pastoral sempre traz em seus encontros: “que a felicidade encontrada em Deus precisa ser refletida em cuidado ao próximo, sem exclusão, e que o caminho que seguimos para alcançá-la não precisa começar a ser trilhado apenas quando eles estiverem fora do cárcere”, concluiu. 

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‘Há um equívoco ao se pensar que escutar crianças significa fazer suas vontades’

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26 de junho de 2019

Adriana Friedmann, doutora em Antropologia, mestre em Educação e pedagoga, falou ao O SÃO PAULO a respeito de um tema que faz parte do dia a dia de muitas famílias, escolas e comunidades: Como se dá a verdadeira escuta da criança? Escutar significa não impor limites? Como as nossas crianças têm se desenvolvido numa sociedade com muitos estímulos, mas pouco diálogo? 
Com larga experiência como docente, palestrante, pesquisadora e consultora em temáticas sobre infância, Adriana é criadora e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid) e do Mapa da Infância Brasileira, além de autora de livros e artigos na área, dentre eles “Escuta e observação de crianças: processos inspiradores para educadores”, “Protagonismo infantil”, “Quem está na escuta”, “Linguagens e culturas infantis”, “História do percurso da Sociologia e da Antropologia da Infância”, “O olhar antropológico por dentro da infância”, “O desenvolvimento da criança através do brincar” e “A arte de brincar”.

O SÃO PAULO - Como surgiu o projeto de escuta das crianças?
Adriana Friedmann – A partir dos anos 2000 surgiu, no meu processo profissional, lidando com educadores de escolas e ONGs, essa preocupação com relação a quem estaria escutando efetivamente as crianças. A partir daí, já atuando desde os anos 1980 com estudos, pesquisas, formação e a promoção do brincar, comecei a desenvolver estudos e pesquisas e descobri que as Ciências Sociais tinham, desde os anos 1980, começado a considerar as crianças como atores sociais, autores/protagonistas de suas próprias vidas; e compreender a importância de conhecer os muitos saberes das diversas crianças das diferentes culturas. Assim, abre-se um campo de estudos e iniciativas que começam a pesquisar e ouvir as crianças mundo afora.
Aqui no Brasil, alguns antropólogos realizam pesquisas com crianças indígenas desde os anos 2000, além dos estudos e processos de formação. Desde 2011, venho criando vários grupos de formação e desenvolvimento de processos de escuta, a saber:  em 2015, iniciamos na Comunidade de Aprendizagem, do Mapa da Infância Brasileira, escutas de crianças de diversos grupos: crianças abrigadas, imigrantes, crianças em ocupações, em ONGs, praças etc. em 2017, criamos a Campanha “Vamos ouvir as crianças” e, desde 2018 o curso de pós-graduação lato sensu “A vez e a voz das crianças” na Casa Tombada, em São Paulo.

Quais são os principais critérios para se falar sobre a escuta da criança?
É importante partir da compreensão de que não é possível falar de um ideal de criança ou de infância, mas de diversidade de grupos infantis, da singularidade das crianças nos vários coletivos; entender que as crianças são protagonistas de suas vidas e que têm direito a se expressar e participar. Assim o fazem por meio de linguagens verbais e não verbais, como o brincar, o corpo, o gesto, o movimento, as inúmeras formas de expressões plásticas, musicais, poéticas, dentre outras. A partir dessas linguagens expressivas, as crianças comunicam permanentemente suas vidas, suas culturas, influências multiculturais e suas produções. 
Há uma questão ética a ser levada em conta que tem a ver com o direito de o adulto registrar e disseminar todo esse conteúdo, sem que as crianças consintam, não somente os adultos responsáveis por elas. E, ainda, a importância de dar devolutivas sempre que estamos desenvolvendo processos de escuta, observação e pesquisa com as crianças.
Outro importante critério é o adulto tomar distância, silenciar, não intervir, corrigir ou querer ensinar qualquer coisa. Observar, respeitar e aceitar.

O que os pais devem fazer para dar início a um processo de escuta?

Escutar tem a ver com estar junto, estar presente, abrir-se para aprender coisas que as crianças vivem, expressam ou sabem, conhecimentos estes diferentes dos adultos. Estar junto, pedir licença, perguntar o menos possível, registrar. Surpreender-se frente ao inusitado, ao não planejado que parte da espontaneidade das crianças!

E os educadores? Como podem contribuir neste processo?

Para os educadores é, talvez, um exercício mais desafiador. Colocar-se no papel de aprendiz e não daquele que está o tempo todo ensinando, transmitindo conteúdos, acompanhando processos. Poder aceitar situações de livre brincar, de autonomia e livre escolha, deixar as crianças resolverem os conflitos entre si (desde que não cheguem a situações violentas), confiar nas crianças e nas suas capacidades!
Assim, o educador precisa equilibrar no cotidiano da escola – ou em instituições ou situações não formais – a proposição de atividades dirigidas e de tempos livres. É nessas situações que a possibilidade de escutar/observar as crianças na sua espontaneidade oferece inúmeras pistas para o educador conhecer e (re)conhecer as singularidades, potenciais, interesses e necessidades das crianças. Com esse universo de informações, ele tem a grande chance de repensar e readequar propostas, atividades e conteúdos para cada grupo.

E quais são os limites dessa escuta?
Os limites da escuta têm a ver com a interação que as próprias crianças solicitam, com a “ansiedade” dos adultos – até onde conseguem verdadeiramente não intervir, conter seus impulsos; tem a ver com entremear essa escuta passiva com momentos de coparticipação ativa – brincar junto, dançar, pintar, cantar, ser partícipe em relações o mais “simétricas” possíveis.

Você considera que a sociedade – de maneira geral – está consciente sobre o processo de escuta das crianças no dia a dia?

Este é um tema e uma postura bastante novos. Há um equívoco ao se pensar que escutar crianças significa “fazer suas vontades”. Escutar crianças tem como finalidade fazer com que os adultos reconheçam que elas têm um universo próprio, direitos, interesses, vontades e, principalmente, potenciais únicos. É surpreendente o mundo no qual as crianças estão inseridas e que escapa a nós, educadores, pais e gestores. 

À escuta das crianças, estaria relacionado um processo de “desadultização” dos pequenos?

A escuta se relaciona com um novo tempo em que o adulto já tem elementos e informações suficientes vindos de inúmeros estudos e áreas de conhecimento, em que é imperativo e urgente respeitar o tempo e o espaço para as crianças viverem suas infâncias de forma plena e significativa. Tem a ver com os adultos não se apressarem ou pressionarem as crianças e diminuírem suas expectativas. Tem a ver com reconhecer o protagonismo das crianças e a importância de colocar limites no que seja o tempo da infância, o tempo da juventude e o tempo dos adultos. Voltar a delimitar o que pode e precisa ser vivenciado em cada etapa.

Como criar comunidades cuidadoras, para além dos espaços casa-escola?
Precisamos pensar em uma reeducação intergeracional em que as famílias e as comunidades constituam referências inspiradoras. Olhar para comunidades como favelas ou comunidades indígenas, em que a força do coletivo faz o papel materno e paterno – muito além de uma única figura de referência, como seria a da mãe ou a do pai – é uma possibilidade efetiva na qual qualquer comunidade pode se inspirar. A educação das crianças acontece nos entre lugares e nos entre tempos que vão muito além dos espaços físicos, institucionais ou dos tempos planejados. Olhar por essas brechas pode nos indicar inúmeras pistas para a ideia de comunidades cuidadoras.
 

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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A importância da Educação Física para a escola e a sociedade

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11 de fevereiro de 2019

A primeira semana do mês de Fevereiro é conhecida como os dias que marcam o início das aulas nas escolas do Estado e da Prefeitura de São Paulo. Uma das disciplinas mais amadas pelos alunos é a de Educação Física, um ensino muito importante para o desenvolvimento do corpo e da mente e que contribui, inclusive, no desenvolvimento escolar e na formação do cidadão.

 

CONSTRUÇÃO DO INDIVÍDUO

A escola é uma importante etapa na construção do indivíduo. As experiências adquiridas durante esse período são determinantes para o seu desenvolvimento, tanto físico como psicológico. Segundo especialistas, a prática de atividades físicas deve ser estimulada desde a pré-escola, e as crianças devem aprender seus benefícios.

O desenvolvimento de diversos padrões éticos e morais pode ser estimulado pela prática do esporte, como o respeito, a importância do trabalho em grupo, saber apreciar a vitória e aprender com as derrotas. A professora de Educação Física Gigi Pavanello, do Colégio Mirandópolis, fala sobre a importância da disciplina para toda a sociedade.

 

BASE DOS JOVENS

“A Educação Física não tem função, pelo menos direta, de formar atletas. Entretanto, é a primeira base dos jovens. Educar o físico do aluno (que é nosso objetivo principal) é sem dúvida a parte mais fácil e divertida. No entanto, é nesta disciplina que diagnosticamos o comportamento social do indivíduo”, disse a professora em entrevista ao O SÃO PAULO.

Segundo a educadora, cada geração exige uma postura técnica diferente, e cada professor possui uma metodologia à qual se sente mais atraído. Mas a base acaba sendo a mesma, mesmo que indiretamente. A professora reforçou que “a educação precisa se reformular como um todo e entender o ser humano como único”

“Quando analisamos o contato com os alunos, notamos que a cada geração temos que nos adaptar e igualmente adaptar o conteúdo para crianças e jovens com síndromes, transtornos e doenças de modo geral. Aspectos psicológicos estão sento exigidos dos professores cada dia mais”, concluiu.

 

CONSELHO PARTICIPATIVO

O Conselho Participativo Municipal (CPM), de São Paulo, conta com conselheiros eleitos pelo povo, que atuam em diferentes áreas, com o objetivo de lutar pelas demandas da comunidade. O CPM da Freguesia do Ó/Brasilândia procurou a supervisão de esportes da subprefeitura para oferecer parceria na organização de eventos esportivos como um campeonato de Futsal realizado no 72º aniversário da Brasilândia.

“Quando um jovem participa ativamente de um esporte, aprende a conviver com sentimentos e papéis sociais importantes que vão ajudá-lo em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Muitas vezes, espera-se desse jovem que suas notas melhorem e que ele se torne um aluno exemplar. Com certeza, o esporte o ajudará muito nesses aspectos”, disse Aline Manetta, professora de Educação Física, responsável por projetos esportivos na região e Coordenadora do CPM Freguesia do Ó/ Brasilândia, à reportagem.

 

JOVEM PROTAGONISTA

Segundo Aline, o CPM está buscando parcerias para a construção de um calendário esportivo para o ano de 2019. O grande diferencial do projeto é que o jovem não participará apenas como atleta, mas será seu protagonista, pois é convidado a levar demandas para o Conselho e oferecer sugestões para que se tornem viáveis.

“Quando o jovem entende que ajudar o seu colega a melhorar também o fará evoluir, ele começa a amar o esporte. A minha experiência é inexplicável, poder ver o laço de confiança que pode se formar quando crianças e jovens trabalham juntos por um único ideal é algo que com certeza me faz sentir a pessoa mais feliz do mundo”, concluiu.

 

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