Quando a alegria do nascimento se transforma na dor da partida, o que fazer?

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02 de novembro de 2019

Assim que o diagnóstico é confirmado, os telefones dos familiares mais próximos testemunham a novidade, os abraços e palavras de boas-vindas demostram quanto amor tem guardado para a vida que vai chegar. Porém, em muitos casos, o coração cheio de expectativa é dilacerado por um sangramento ou pela inexistência dos batimentos cardíacos. Outros chegam a nascer, mas o tempo vivido é muito inferior ao que seria necessário e sonhado desde a concepção. O sopro que dá a vida é o mesmo que sufoca pela dor incontrolável no peito de quem perde um filho ou filha.

A MESMA DOR, DUAS VEZES

A primeira gravidez de Graziela Leão Soares de Oliveira, 26, aconteceu em 2014, casada com Marcos Vinicius, a chegada do primeiro filho foi confirmada com seis semanas de gestação , quando já pôde ouvir o coração de seu bebê.

Apenas três semanas depois, vieram os sangramentos e o exame de ultrassom, que confirmou que não havia mais batimentos e o bebê havia parado de se desenvolver ainda com sete semanas.

Graziela explicou que foi orientada pelo médico a esperar um novo ciclo menstrual para tentar engravidar novamente. Assim ela fez e, no mesmo ano, conseguiu engravidar. A gestação seguia normalmente com a realização do pré-natal, em uma consulta, mais uma vez, o ultrassom lhe mostrou que o bebê estava morto. 

“Após esse segundo aborto, fiz acompanhamento médico com exames para verificar se estavam relacionados a minha saúde ou a do meu esposo. Fizemos e estávamos saudáveis. As causas em si nunca foram determinadas. O primeiro por ser espontâneo, eles julgam normal. O segundo ocorreu porque quando estava com 13 semanas, tive dengue e a infecção afetou a placenta, ocasionado o aborto retido”, contou.

O aborto retiro ocorre quando o embrião morre e não é expulso para o exterior, podendo ficar dentro do útero por semanas ou mesmo meses.

POR QUE COMIGO?

Tão jovem, Graziela salientou que a superação da segunda perda foi mais dolorosa e que não chegou a se sentir culpada, mas que se questionava o porquê de estar passando por isso. Ela disse, ainda, que cogitou não engravidar mais, pois temia novas perdas.

“Me senti impotente, pequena. Não sei bem expressar a não ser dor, muita dor na alma. Por ser nova, não tinha estrutura e sabedoria de como passar por aquilo, mas, ao mesmo tempo, eu me senti muito forte e sabia que um dia aquela ferida ia ser cicatrizada”, reiterou.

FERIDAS

A psicóloga Vanessa Campos, que mantém uma página no Facebook “Psicologiando” para falar sobre o luto gestacional e é coautora do livro “Psicologia e saúde da mulher”, reiterou que não é possível mensurar a dor da mulher que perde seu bebê com seis semanas de gestação, ou daquela que tem o filho falecido com um mês de nascido, ambas sofrem à sua maneira.

Essas mães podem apresentar, ainda, de acordo com a psicóloga, sentimento de inferioridade, questionamentos religiosos, baixa autoestima, raiva e sentimento de injustiça ou soberba, o que segundo ela, faz parte do processo de luto e contribui para sua superação, mas alertou que a família deve ficar atenta caso esses sintomas ocorram por mais de seis meses.

É PRECISO SUPERAR

Vanessa explicou que caso aconteça uma nova gravidez, essa mãe tende a ficar extremante receosa e passa nove meses de muita angústia e medo de que a perda aconteça novamente.

“É como um fantasma que assombra. Algumas mulheres entram em um ciclo de medo tão grande que ficam quase obcecadas por fazer ultrassonografias. Outras, vão para o outro extremo, não se sentem à vontade em fazer o exame, pois a tensão e o medo as paralisam”, continuou, dizendo, porém, que essas inseguranças normalmente estão restritas à gravidez, sendo interrompidas com o nascimento do bebê.

Durante a ajuda terapêutica, Vanessa recorda a essas mulheres que elas jamais se esquecerão do bebê que se foi e que a lembrança, a dor, é retomada.

“Não existe um diagnóstico geral para a perda gestacional. Existem várias possibilidades que só o médico obstetra que acompanha a gestação poderá avaliar. No entanto, estima-se que cerca de uma em cada quatro mulheres sofre perda gestacional espontânea. Infelizmente trata-se de uma estatística bem maior do que gostaríamos”, concluiu a psicóloga.

HUMANIZAR O LUTO

Um grupo composto por dez mães que perderam seus filhos forma hoje o “Movimento Humaniza Luto”, que tem como objetivo acolher e sensibilizar por meio de campanhas digitais a sociedade em relação ao luto pelas perdas gestacional, neonatal e infantil.

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Aline Vieira, Amanda Oliveira, Emanuele Vieira, Carina Fernandes, Cristiane Fiori, Helen Elias Rocha, Joice Almeida, Mirella Carletto Silva, Kamyle Dantas, Karla Sousa são chamadas de “Mães de Anjo” e formam o movimento que vê na quebra de tabus sociais, a maior motivação para o trabalho que realizam.

“Estamos falando da espera pela vida que é interrompida pela morte. Quando se perde um bebê, muitos acreditam que não há motivo para luto, como se a dor pudesse ser medida pelo tempo de convivência com o filho. Desqualificam as expectativas e os desejos que permeavam a chegada desse filho, desconsideram as fantasias e vínculos estabelecidos. São sonhos que foram construídos antes mesmo da concepção. As pessoas não compreendem que desde o início sempre houve amor”, disseram ao O SÃO PAULO.

ACOLHIDA

Tramita na Câmara dos Deputados, um projeto de lei da deputada Flávia Morais (PDT-GO), que prevê o atendimento diferenciado às mães que estão internadas por sofrerem um aborto espontâneo ou a morte neonatal e infantil, como a permanência em quartos específicos, a fim de evitar perguntas constrangedoras e dolorosas nesta etapa.

As idealizadoras do Movimento Humaniza Luto afirmaram à reportagem que a invalidação do luto gestacional começa já na maternidade, diante do despreparo dos profissionais em lidar com os aspectos emocionais. “Se aprovado, o projeto de lei pode proporcionar a ‘minimização’ do sofrimento das mulheres que vivenciam a perda, conferindo maior visibilidade a um luto extremamente negligenciado. Além disso, a sanção da lei fomentaria a conscientização da sociedade, já que a disseminação de informações em relação a maneira de tratamento conferida às mães, poderiam ocorrer em massa por meio de ações governamentais”.

SINGULARIDADE

A primeira campanha promovida pelo movimento se chamou “Não me diga BR”, em que mães e pais publicavam fotos em suas redes sociais utilizando a #naomedigaBR, segurando cartazes com as frases que mais lhes magoaram durante o período do luto.

A proposta esteve pautada na conscientização sobre o que não dizer a essa família. A receptividade e engajamento foram surpreendentes, conforme contaram as representantes.

Outros trabalhos organizados por elas pretendem estimular a conscientização sobre a humanização do luto gestacional e neonatal e a singularidade das dores e das histórias de quem perde um bebê tão precocemente.

PRÍNCIPE DO LAR

A superação deste período tão difícil é essencial. Foi assim também para Graziela, que após dois abortos, teve seu sofrimento recompensado com a chegada, não esperada, de Enzo. Hoje com três anos, ele nasceu após uma gravidez tranquila: “Não planejei, mas o Senhor sim! Não tive medo de perder. Sempre tive a certeza que daria certo. O Senhor me deu segurança e deixou claro que Ele estava no controle de tudo. Foi uma gestação abençoada, calma”, contou.

A mãe de Enzo falou que a maternidade lhe fez uma pessoa mais humana e que sente pela reciprocidade de afeto que recebe do filho, que se tornou uma boa mãe.

“Sinto o amor de Deus e seu cuidado desenhando em cada detalhe do Enzo. Perfeito, melhor do que imaginei, mais do que pedi em minhas orações. O Enzo é extremamente especial. Nossa relação é fora da curva, é de alma mesmo”.

 

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