Sínodo dos Bispos entra na reta final: jovens pedem uma Igreja presente

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17 de outubro de 2018

Depois de fazerem um profundo “reconhecimento” da realidade em que vivem os jovens de hoje, os padres sinodais reunidos no Vaticano para o Sínodo dos Bispos concluíram, na segunda-feira, 15, a segunda parte do processo. Trata-se de “interpretar” essa realidade e identificar os acertos e erros da Igreja em relação aos jovens de hoje. 

Os padres sinodais observam, por exemplo, que diante de uma mudança de época, muda também a forma como os jovens encaram a vida, como a fé é transmitida, a linguagem, a ideia de maturidade e os métodos para o discernimento vocacional. Reconhecem que nem sempre a Igreja soube acompanhar essas mudanças na mesma velocidade que os jovens. Permanece intacto o chamado à santidade para toda e qualquer pessoa, a mais profunda e verdadeira “vocação”, que vem de Deus.

Além das reuniões em assembleia, eles também se dividem periodicamente para debates mais informais e livres, em pequenos grupos linguísticos, chamados “círculos menores”. Pelos resumos das conversas nos 14 grupos, divulgados pelo Vaticano, é possível ter uma ideia geral dos temas discutidos no Sínodo, cujo tema central é bastante amplo:  “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. 

Entre os tópicos levantados nessa segunda etapa, de acordo com o Cardeal Sergio da Rocha, relator-geral do Sínodo, estão a ação do Espírito Santo no povo de Deus e em cada jovem; a compreensão bíblica e antropológica da juventude; a inquietude e o fascínio dos jovens pelo sacro; a vocação como mistério; a relação entre vocação e missão; a relação entre vocação ao Matrimônio e ao celibato com a base comum no Batismo; o papel da consciência e caminhos de formação que considerem a liberdade individual; o papel das famílias no discernimento vocacional; a importância das comunidades no acompanhamento; e a relação entre acompanhamento e os sacramentos. 

No grupo de Língua Portuguesa, no qual estão os bispos brasileiros, portugueses e de alguns países africanos, falou-se, por exemplo, da transmissão da fé, que hoje já não segue sempre o modelo “tradicional”, isto é, passada de pais para filhos. “Muitas vezes, a fé hoje é transmitida também por vias não tradicionais, acontecendo até mesmo os casos de pais que despertam para a fé pelo testemunho dos filhos e de muitos jovens por meio de outros jovens”, diz o texto. “Não podemos reduzir a fé a uma moral. A proposta cristã precisa ser encarnada em experiências concretas. Faz-se necessário retornar à proposta de Jesus: ‘Vinde e vede!’”

Sobre o discernimento, processo por meio do qual os jovens podem tomar as decisões mais importantes da vida, os padres sinodais de Língua Portuguesa disseram que alguns elementos fundamentais são “o conhecimento da realidade, a oração, a iluminação pela Palavra de Deus, o acompanhador e a decisão, que comporta uma dimensão de aventura, iluminada pela fé, por vezes acompanhada pelo medo, mas confirmada pelos frutos que gera”, num contexto de “exercício da liberdade e seguimento da voz da consciência”.

 

PREOCUPAÇÕES CONCRETAS

Uma das realidades concretas mais presentes nos círculos menores é a preocupação com pessoas solteiras que nem sempre fazem uma escolha entre o celibato, a consagração ou o Matrimônio. Eles identificam, entre muitos jovens, aqueles que não se casam nem se dedicam integralmente à vida na Igreja. 

Alguns o fazem por falta de opção, porque a vida não os encaminhou num sentido definitivo; outros, por um certo comodismo, e outros, ainda, porque terminaram sozinhos após um divórcio. Os padres sinodais reconhecem que as pessoas solteiras são uma grande parte do povo de Deus, vivem muitas vezes em grande sofrimento e são uma realidade cada vez mais forte. Portanto, precisam de um acompanhamento especial por parte da Igreja.

De forma positiva, nota-se que muitas dessas são pessoas bastante disponíveis ao serviço aos mais pobres e à comunidade. “Merecem uma reflexão esperançosa e uma palavra de apoio”, dizem padres sinodais de Língua Espanhola. 

Outra preocupação realista é com aqueles que não têm religião, que se declaram agnósticos ou ateus, mas que muitas vezes têm fé em Deus ou em um “algo mais”, uma força maior. Essas pessoas, dizem os padres sinodais de Língua Inglesa, também podem ser orientadas a fazer o bem. 

O diálogo com elas, aponta o grupo de Língua Portuguesa, é possível até mesmo em temas mais espinhosos, desde que “partindo de princípios básicos do ensinamento cristão (como o valor da vida humana e a dignidade do corpo)”. Assim, “é possível abrir estradas de diálogo com os que não creem”. 

Nesta terceira semana, o Sínodo começa a refletir sobre o verbo “escolher”, pensando de forma mais propositiva e prática, sobre o que pode ser feito para a Igreja ir ao encontro dos jovens. O documento final do Sínodo já começou a ser redigido por uma comissão eleita e deve ser aprovado antes do dia 28. O objetivo principal do documento é orientar uma exortação póssinodal, a ser escrita pelo Papa Francisco.

 

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