Igreja se mobiliza para preservação de seu patrimônio artístico e cultural

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11 de fevereiro de 2019

O Brasil, desde o seu descobrimento, construiu um dos maiores acervos de bens culturais, históricos e artísticos da Igreja Católica. Nesses 500 anos de Terra da Santa Cruz, muita coisa foi construída e faz parte da fé, da história e da cultura do povo brasileiro.

Com o objetivo de apresentar o acervo construído pelo antigo Convento da Luz sob a ótica da zeladoria do patrimônio cultural, o Museu de Arte Sacra de São Paulo promove uma oficina nos dias 11, 12 e 13, com o tema “Mosteiro da Luz, 300 anos de aprendizado: Pedra, terra e pau construindo o patrimônio”.

 

CONSTRUINDO O PATRIMÔNIO

O curso será dividido em duas partes: uma introdução às questões próprias à preservação cultural, enfocando especialmente a trajetória da zeladoria do patrimônio, na qual se destaca o próprio Museu de Arte Sacra do Convento da Luz. Já na segunda parte, o edifício do Museu servirá como ponto de partida para a aprendizagem dos antigos saberes das artes e ofícios relacionados à arquitetura.

Desse modo, os conteúdos próprios relacionados à conservação e preservação cultural serão apresentados não como mera catalogação das técnicas construtivas, mas como um modo de proceder próprio dos antigos artífices, que faziam do seu engajamento com as ferramentas e as matérias-primas um modo de conhecer e reelaborar o mundo natural em seus próprios termos.

Assim, o curso tem por objetivo principal chamar a atenção e revalorizar tais práticas e rotinas do trabalho artesanal há muito relegadas ao esquecimento como parte de uma resposta aos impasses existentes no campo preservacionista entre conservação e restauro, arte e artesanato, memória e novos usos. A procura por inscrições foi intensa, por isso as vagas estão esgotadas, mas o Museu pretende realizar uma nova edição em breve.

 

INICIATIVAS DA IGREJA

Desde abril de 2017, faz parte dos organismos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a Comissão Episcopal Pastoral Especial para os Bens Culturais da Igreja no Brasil, que tem como missão promover o conhecimento, a conservação, a valorização cultural e evangelizadora dos bens culturais e imateriais da Igreja.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Dom Gregório Paixão, Bispo de Petrópolis (RJ) e integrante da Comissão Especial Igreja se mobiliza para preservação de seu patrimônio artístico e cultural FLAVIO ROGÉRIO LOPES osaopaulo@uol.com.br pra os Bens Culturais da CNBB, falou sobre a principal função desta Comissão.

“Reconhecer a grandiosidade e a importância do patrimônio artístico cultural católico em todo o território brasileiro. Tal patrimônio naturalmente já é bastante conhecido, mas falta uma catalogação definitiva desse grande patrimônio: essa é a primeira motivação”, disse Dom Gregório.

 

PATRIMÔNIO BRASILEIRO

O Bispo destacou que a Igreja possui o maior patrimônio cultural particular do Brasil, e um dos principais motivos dessa catalogação é tornar público esse material, muitas vezes guardado e desconhecido.

“Nós queremos que as pessoas saibam que esse material não é apenas nosso, mas que pertence a todos. Então seria basicamente restaurar essas Igrejas e obras de arte e colocar à disposição da comunidade (...). Pois não é apenas um patrimônio religioso, mas um patrimônio que pertence à população brasileira”, destacou.

Dom Gregório recordou que a comissão da CNBB tem feito congressos, simpósios e conferências para que as dioceses, com o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e dos demais órgãos fiscalizadores, realizem projetos para restauração.

“O conhecimento desse patrimônio nos faz conhecer nossa própria história, e um povo que não consegue enxergar a beleza de sua própria história não consegue construir um futuro que seja profícuo”, afirmou.

 

ACORDO BRASIL-SANTA SÉ

No acordo bilateral e internacional entre o Brasil e a Santa Sé, promulgado em 11 de fevereiro de 2010, estão vários elementos de interesse recíproco, como questões de educação, assistência à saúde, a preservação da liberdade religiosa e o reconhecimento das instituições eclesiais para que a Igreja possa se fazer presente na sociedade. Entres esses elementos de interesse recíproco, há no acordo um artigo que trata da preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural da Igreja Católica no Brasil.

No artigo 6º do Acordo, está previsto que “o patrimônio histórico, artístico e cultural da Igreja Católica, assim como os documentos custodiados nos seus arquivos e bibliotecas, constitui parte relevante do patrimônio cultural brasileiro”. Nesse sentido, o Estado brasileiro e a Santa Sé assumiram o compromisso de cooperação mútua para “salvaguardar, valorizar e promover o uso dos bens móveis e imóveis de propriedade da Igreja Católica ou de outras pessoas jurídicas eclesiásticas que sejam consideradas pelo Brasil como parte de seu patrimônio cultural e artístico”

Já no artigo 7º do Acordo, o Brasil assegura as medidas necessárias para garantir a proteção dos lugares de culto da Igreja Católica, de suas liturgias, símbolos, imagens, objetos de culto, contra toda forma de violação, desrespeito e uso ilegítimo. “Nenhum edifício, dependência ou objeto afeto ao culto católico pode ser demolido, ocupado, transportado, sujeito a obras ou destinado pelo Estado e entidades públicas a outro fim”, diz o texto do Acordo.

“Para que essas coisas aconteçam com mais facilidade, nós temos o acordo Brasil-Santa Sé, que, nos termos dos artigos 6º e 7º, trata principalmente sobre o patrimônio artístico nacional. Então isso está garantido pela legislação federal, e, por outro lado, nos assegura este contato com as autoridades para que esse patrimônio seja conservado e restaurado”, concluiu o Bispo de Petrópolis (RJ).

(Colaborou: Fernando Geronazzo)
 

 

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Frei Galvão deixa patrimônio imaterial para a cidade de São Paulo

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25 de outubro de 2018

Uma marreta, livros, objetos e vestes litúrgicas, imagens dos séculos XVIII em papel machê, uma mesinha de madeira, gamelas, os pregos utilizados para a construção da igreja e do mosteiro. Todos esses objetos e muitos outros estão no Memorial de Frei Galvão e fazem parte da história de Santo Antonio de Sant’Anna Galvão e do Mosteiro da Luz.

O corredor que abriga o Memorial foi pensado à época da canonização de Frei Galvão, em 2007, e está provisoriamente fechado para manutenção, mas reabrirá em breve ao público. 

“Essa marreta foi tirada do caixão de Santo Antonio de Sant’Anna Galvão e era um objeto pessoal dele, usado na construção do mosteiro e da igreja”, disse Ronaldo Bernardes da Silva, ao apontar para a marreta que está, junto a uma colher de pedreiro, exposta no Memorial.

A vida de Santo Antonio de Sant’Anna Galvão se confunde com a história da construção do Mosteiro, sendo impossível dissociar uma coisa da outra. “Mas, ao falar desse Santo, o primeiro brasileiro e também o primeiro a ser canonizado fora do Vaticano, precisamos pensar que vai muito além do Mosteiro”, disse o Padre José Arnaldo Juliano, historiador e Capelão do Mosteiro à reportagem do O SÃO PAULO.

O Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz foi fundado em 2 de fevereiro de 1774, por Santo Antonio de Sant’Anna Galvão. O novo recolhimento tomou o nome de “Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência”

O Padre José Arnaldo lembra-se também, quando, ainda pequeno, era levado pela mãe para participar das celebrações na igreja do Mosteiro. “O que temos aqui não é só um patrimônio histórico e cultural, mas, sobretudo, uma arquitetura de fé, um patrimônio imaterial”, continuou o Capelão.

Ronaldo, por sua vez, nasceu em Guaratinguetá (SP) e casou-se com a irmã da Madre Superiora da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, as Monjas Concepcionistas do Mosteiro da Luz. Ele trabalhou alguns anos prestando serviços no Mosteiro, mas hoje faz um trabalho voluntário e é responsável pela preservação do memorial e das imagens da igreja. 

Os sinos tocaram ao meio-dia quando Ronaldo, emocionado, falou das graças que já ouviu de pessoas que recorrem, todos os dias, às irmãs para pedir orações ou obter as pílulas. “Em 2007, eu estava na roda entregando as pílulas, substituindo uma das monjas, e um casal veio com sua filha pequena, a Melissa, que devia ter cerca de 6 anos de idade. Eles estavam desacreditados pelos médicos, pois a pequena teve câncer, que já estava em estágio avançado. Eles choraram muito e receberam as pílulas. Quatro meses depois, vi Melissa chegar para a missa, totalmente diferente, mais gordinha e corada. Eu fui abraçá-los e perguntei sobre a menina, e a mãe disse: ‘Olha, nem os médicos estão acreditando, os órgãos dela estão se regenerando totalmente’”, contou Ronaldo.

 

FÉ E DEVOÇÃO

“A devoção a Santo Antonio de Sant’Anna Galvão cresceu para além dos muros do Mosteiro. Crescem, em todo o País, paróquias e comunidades dedicadas ao Santo”, afirmou Padre José Arnaldo.

Ele falou, ainda, que a espiritualidade de Frei Galvão, essencialmente franciscana, é uma espiritualidade de conciliação. “Frei Galvão, num período muito complicado para o Brasil, antes da independência, pregava o Evangelho da paz e da conciliação. Precisamos aprender muito com ele”, continuou o atual Capelão do Mosteiro. 

Padre Armênio Rodrigues Nogueira, que foi Capelão do Mosteiro da Luz entre 2003 e 2008, e colaborou com Irmã Célia Cadorin no período de canonização, salientou sobre a expressão de devoção ao frade franciscano, após ter se tornado o primeiro Santo brasileiro. 

Para ele, já nos primeiros meses, percebeu-se um maior número de visitantes, boa parte de curiosos que pouco conheciam sobre a história do santo, mas que, devido à grande manifestação popular, procuravam mais informações. “Além daqueles que não conheciam Frei Galvão, começaram a acontecer muitas manifestações de fé por parte de devotos que já o consideravam Santo antes mesmo de sua canonização”, continuou Padre Armênio. 

A festa litúrgica do Santo é celebrada em 25 de outubro, dia em que haverá seis missas na Igreja do Mosteiro da Luz, com uma procissão de encerramento às 19h e missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano.

 

ACOLHER

Nos livros, documentos e testemunhos é perceptível uma virtude do Santo que marca toda a espiritualidade do Mosteiro da Luz: a acolhida. Ele fez do Mosteiro da Luz um espaço de recolhimento e de oração, e seus braços estavam sempre dispostos a abraçar quem pedisse ajuda. 

Nesse abraço coube uma pílula, escrita e entregue a uma mulher que tinha o desejo de engravidar e que, ao seguir sua recomendação, foi agraciada com a oportunidade de ser mãe. 

O serviço e a acolhida são, na opinião do Padre Armênio, as grandes lições de vida e de espiritualidade ensinadas pelo Frade: “Quando ele tinha que curar uma pessoa, ia até ela; quando tinha que apaziguar uma briga, ele ia; quando precisava pôr a mão na massa para construir um prédio, ele ia, imediatamente”, reiterou.

 

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Santo que anuncia a paz

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31 de outubro de 2018

1739 | Nasce em Guaratinguetá (SP) Antonio Galvão de França 

1752 | Ingressa no Seminário de Belém (PA), mantido pelos jesuítas

1757 |  O Santo  regressa a Guaratinguetá (SP) 

1760 | Ingressa na Ordem de São Francisco, recebe o respectivo hábito e inicia o período do Noviciado no Convento de São Boaventura de Macacu (RJ)

1761 | Professa solenemente os votos na Ordem Franciscana

1762 | É ordenado sacerdote no Rio de Janeiro, transferindo-se em seguida para São Paulo

1766 | Consagra-se a Nossa Senhora

1769 | É nomeado confessor do Recolhimento de Santa Teresa, onde conhece Irmã Helena do Espírito Santo

1774 | Funda com Madre Helena o Recolhimento da Luz

1775 | Frei Galvão é condenado ao desterro no Rio de Janeiro, pelo governador Martim Lopes, que logo recua em seu intento

1780 | As religiosas da Luz, até então instaladas provisoriamente, transferem-se para o novo e amplo edifício, projetado e construído por Frei Galvão

1788 | É eleito guardião (superior) do Convento de São Francisco, na Capital Paulista

1798 | Funda, em Sorocaba (SP), o Recolhimento de Santa Clara

1811 | Por problemas de saúde, passa a residir na Luz

1822 | Morre no dia 23 de dezembro, aos 83 anos de idade

1938 | É aberto, em São Paulo, o primeiro processo diocesano, com vistas à futura beatificação 

1998 | É beatificado por São João Paulo II, no dia 25 de outubro, no Vaticano

2007 | No dia 11 de maio é canonizado por Bento XVI, em São Paulo
 

 

ARQUITETO

Na colher de pedreiro, que fica guardada no Memorial do Mosteiro, bem como na marreta utilizada para bater os pregos durante a construção, é contada parte da história do Santo e do Recolhimento por ele fundado. 

As mãos de Frei Galvão ao tocá-las e postas na massa revelam não apenas mais uma de suas habilidades, mas, sobretudo, sua força e dedicação na edificação de um templo, um lugar em que as pessoas pudessem estar mais próximas de Deus. 

Infelizmente, ele não pôde ver pronta a igreja, mas deixou um desenho, protótipo do que seriam as suas torres. Essa imagem, que hoje está exposta no Museu de Arte Sacra, foi feita por ele, desenhando-a com um prego sobre a madeira. “Vemos ele mesmo projetando as torres, as portas, os arcos da Igreja”, enfatizou Padre Armênio. 

Em 2008, o Congresso Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo (CREA-SP), dando início às comemorações do seu jubileu de diamante, conferiu a Santo Antonio de Sant’Anna Galvão o título Honoris Causa de Engenheiro e Arquiteto, aprovado na sessão plenária nº 1.901, de 2 de outubro de 2008. 

As paredes com cerca de um metro de espessura, a madeira utilizada em móveis e no teto, os recursos para tornar os espaços iluminados e a estabilidade de uma construção que tem mais de 200 anos provam que Frei Galvão tinha um vasto conhecimento, que foi aplicado ao longo de sua vida.

 

ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

Em 1770, Dom Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão, mais conhecido como o Morgado de Mateus, então capitão general e governador da Capitania, resolveu fundar em São Paulo uma academia das letras. 

Chamada a princípio de “Academia dos Felizes”, Morgado convidou para fazer parte da Academia recém-fundada nomes representativos da intelectualidade paulista. Entre os convidados estava Frei Galvão, que participou da sua fundação recitando 16 poesias em Latim, sendo que 15 delas eram dedicadas a Santa Ana e uma em homenagem ao Governador. 

 

IMACULADA CONCEIÇÃO

Após um ano de noviciado, Frei Galvão professou solenemente os votos no dia 16 de abril de 1761. Como era costume na ordem franciscana, pronunciou um juramento que deveria defender a Imaculada Conceição de Maria. Tal documento que ele escreveu de próprio punho e assinou com sangue tirado do próprio peito está conservado no arquivo do Mosteiro da Luz.

A devoção à Imaculada Conceição pode ser vista e sentida por quem entra na igreja do Mosteiro da Luz, que além das imagens de Santo Antônio, São Francisco e do próprio Frei Galvão, abriga uma imagem da Imaculada Conceição de Maria, que era, inclusive, um objeto pessoal de Frei Galvão. 

“É uma Igreja pequena, que convida à oração. Se ficarmos na porta, observando, perceberemos que toda hora entram e saem pessoas rezando; na hora do almoço, muita gente que trabalha nas redondezas vem para rezar. É um espaço de espiritualidade e de acolhida”, disse Padre José Arnaldo, atual Capelão. Ele enfatizou o destaque que deve ser dado à igreja: “Arquitetonicamente e artisticamente, devemos destacar a igreja, dedicada à Imaculada Conceição”.

 

CARISMA E MISSÃO

Ao falar sobre o carisma franciscano vivido por Frei Galvão, Padre José Arnaldo insistiu que ele era um frei que vivia, em essência, os valores da paz e do bem. “Ele é um grande comunicador da paz. Na época em que ele viveu, a cidade estava passando por uma transição muito conflitiva, às vésperas da independência do Brasil. Frei Galvão morreu justamente no ano da independência, em 

1822. É um momento em que a sociedade está passando por transformações – principalmente no planalto paulista. Vivia-se a cultura do café e as migrações começavam a acontecer de forma mais intensa na cidade. Frei Galvão enfrentou grandes desafios com a mudança de configuração da cidade”, explicou. 

Segundo os documentos, Frei Galvão é um religioso que viajava constantemente e fazia visitas a outras comunidades para promover a concórdia e a reconciliação. “Ainda que a fundação da cidade esteja ligada à missão dos jesuítas, São Paulo não era uma cidade de fé borbulhante e, por isso, Frei Galvão se torna um importante missionário. Ele é o percursor de uma nova evangelização na cidade”, continuou Padre Armênio.

Fonte: Vida e milagres de Frei Galvão, livro de Armando dos Santos
 

PÍLULAS DE FREI GALVÃO

O antigo Capelão, Padre Armênio, falou à reportagem sobre as marcas deixadas por Frei Galvão. Uma dessas marcas mais conhecidas são as pílulas milagrosas. Ao lembrá-las, ele contou sobre o caso de uma senhora judia, que foi até o Mosteiro da Luz com o desejo de conhecer mais sobre o Santo, pois seu neto, que morava em Israel, recebeu uma graça e foi curado graças à pílula levada por uma amiga da família que morava em São Paulo. 

“O Mosteiro estava fechado, pois as irmãs estavam fazendo a limpeza e ela ia para o aeroporto. Eu entrei com ela pelo fundo da igreja, e quando ela pôs as mãos no túmulo, chorava igual a uma ‘criança’”, recordou o Padre. 

O fato foi contado pela avó do menino, que mesmo sem a fé católica, foi digno da graça e da cura. Ao fim do encontro com ela, Padre Armênio lhe entregou uma imagem e um livro com a história de Frei Galvão, para que seu neto também pudesse conhecê-lo. 

Hoje as pílulas são impressas com tinta de confeiteiro em papel de arroz e são cortadas e enroladas manualmente pelas irmãs concepcionistas. 

 

HISTÓRIA

Certo dia, um moço, que se debatia com fortes dores provocadas por cálculos renais, pediu ao Frei Galvão que o abençoasse para ficar livre da dor. 

Frei Galvão, lembrando-se do poder da intercessão da Santíssima Virgem, escreveu em um papelzinho o verso do breviário: Post partum Virgo inviolata permansisti, Dei Genitrix intercede pro nobis (Após o parto, a Virgem permaneceu intacta, Mãe de Deus intercede por nós) e mandou ao moço ingerir o papelzinho feito em forma de pílulas. O moço o fez, confiando em Nossa Senhora e expeliu os cálculos sem dificuldade. 

A partir daí, o Frei começou a ser procurado para que desse às pessoas as pílulas que, ainda hoje, são entregues às pessoas por meio de uma roda de madeira, atrás da qual as irmãs permanecem para conversar com as pessoas e receber os pedidos de oração. 

 

NOVENA

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos adoro, louvo e Vos dou graças pelos benefícios que me fizestes. Peço-Vos por tudo que fez e sofreu o Vosso Santo Antonio de Sant’Anna Galvão, que aumenteis em mim a fé, a esperança e a caridade, e Vos digneis conceder-me a graça que ardentemente almejo. Amém.

 

 

 

GUARDIÃS DO MOSTEIRO DA LUZ

A Ordem da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, Monjas Concepcionistas, foi fundada em 1484, por Santa Beatriz da Silva, sob a inspiração do Espírito Santo e a pedido da Virgem Imaculada, em Toledo, na Espanha. É um instituto religioso de vida integralmente contemplativa, com votos solenes (perpétuos) de castidade, pobreza, obediência e clausura, com Regra e Constituições próprias. A Ordem tem 17 mosteiros no Brasil e quase 200 mosteiros pelo mundo.

Atualmente, moram no Mosteiro oito irmãs, juntamente com as jovens em formação e junioristas. Estas últimas fazem votos de pobreza, castidade e obediência e os renovam, anualmente, por três anos. As irmãs recebem candidatas de todo o Brasil.

“Elas fazem três meses de aspirantado, um ano de postulado e dois de noviciado”, explicou a Irmã Maria Aparecida de São José, Mestra da formação. Juntamente com a Priora do Mosteiro, Madre Eliana Cristina Lopes, a Mestra está à frente do Mosteiro para conduzir o dia a dia e a espiritualidade das demais religiosas, de acordo com o estatuto próprio da Congregação. 

Diferentemente do que imaginam muitas pessoas, a Ordem não foi fundada por Santo Antonio de Sant’Anna Galvão, mas por Santa Beatriz da Silva. No entanto, foi Frei Galvão que convidou as irmãs para residir no Mosteiro, motivado pelo carisma próprio da Ordem dedicada à Imaculada Conceição de Maria. 

Além de uma vida intensa de oração, as irmãs exercem diversos trabalhos manuais, como a fabricação de pães e biscoitos para vender na loja anexa à igreja, além de serem elas as responsáveis pelas pílulas e pelas relíquias de Santo Antonio de Sant’Anna Galvão, que hoje são enviadas para todo o Brasil e até para o exterior. 

“Hoje, estamos concedendo relíquias para serem colocadas no momento da dedicação de altares em igrejas católicas em todo o Brasil”, salientou Padre José Arnaldo, que informou, ainda, que os pedidos de relíquias chegam todos os dias. 

 

SANTA BEATRIZ DA SILVA

Fundadora da Ordem da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, Beatriz da Silva nasceu em Portugal, em 1437. Da linhagem dos reis de Portugal, Beatriz partiu, ainda pequena, para a corte-régia de Castela. Mas, segundo a história, a rainha a trancou e, após o Tratado de Tordesilhas, Beatriz foi para Toledo, na Espanha, juntamente com a corte. 

Em Toledo, Beatriz recolheu-se no Mosteiro de São Domingos, das monjas dominicanas. Em 1484, a rainha dona Isabel doou para Beatriz os Palácios de Galiana, e ela começou a adaptar a casa a um mosteiro. Levou consigo dona Filipa da Silva, sua sobrinha, e outras 11 mulheres. 

Beatriz morreu no ano de 1492. Foi beatificada pelo Papa Pio XI em 26 de julho de 1926 e solenemente canonizada em 3 de outubro de 1976 pelo Papa Paulo VI. Sua festa é celebrada no dia 17 de agosto.

 

 

CANONIZAÇÃO

Mais de 1,2 milhão pessoas vibraram ao ouvir as palavras do Papa Bento XVI, no Campo de Marte, em 11 de maio de 2007: “Em honra da Santíssima Trindade, para a exaltação da fé católica e o crescimento da vida cristã, pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e nossa, depois de ter refletido longamente, invocado o auxílio divino por muitas vezes e ouvido o parecer de muitos de nossos irmãos no episcopado, declaramos e definimos como Santo e Beato Antonio de Sant’Anna Galvão, e o inscrevemos na lista dos Santos, e estabelecemos que, em toda a Igreja, ele seja devotamente honrado entre os santos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Aquele dia 11 de maio é resultado do processo liderado pela Irmã Célia Cadorin, da Congregação da Imaculada Conceição. Ela e todos os devotos de Frei Galvão receberam, em 16 de dezembro de 2006, o anúncio da promulgação pelo Papa Bento XVI do “Decreto sobre o Milagre”, que deu a Frei Galvão a oportunidade de sua canonização.

A ansiedade de se ter um santo nascido no Brasil durou 184 anos, até que fosse reconhecido o milagre a ele atribuído, relacionado à gravidez da química Sandra Grossi de Almeida, de São Paulo, que por ter uma má formação no útero, sofrera três abortos espontâneos e a quarta gestação era considerada de altíssimo risco.

Em 1999, ela recebeu o diagnóstico de que seria muito difícil ultrapassar 28 semanas de gestação. Ao longo dos meses, passou por inúmeros sangramentos e repouso absoluto, precisando ficar internada na maternidade Pro Matre, em São Paulo.

Mesmo com todas as dificuldades, no dia 11 de dezembro, Sandra deu à luz seu filho, Enzo Almeida Galafassi, que apresentou dificuldades respiratórias e, já no dia seguinte, não demonstrava nenhum problema, recebendo alta oito dias após o nascimento.

A mãe de Enzo sempre tomou as pílulas de Frei Galvão. Os fatos foram analisados pela Comissão de Peritos Médicos da Congregação para as Causas dos Santos, do Vaticano, e atribuído à intervenção divina.

Em seguida, o processo foi para a Comissão de Teólogos e para a Congregação de Padres Cardeais e Bispos, e por fim, aprovado por Bento XVI, que em sua visita ao País proclamou Frei Galvão santo, sendo instituída como data anual para culto o dia 25 de outubro, em memória à data de sua beatificação, feita por São João Paulo II, em 1998.

 


 

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‘Primavera dos Museus’ acontece em todo o País

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22 de setembro de 2018

Duas semanas após o incêndio que destruiu 90% do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, realiza-se, em todo o País, a 12ª Primavera dos Museus. Trata-se de uma temporada cultural, organizada desde 2007, sob a coordenação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e que este ano acontece até domingo, 23. Contando com uma extensa programação, a edição atual envolve mais de 900 instituições participantes (como museus, centros culturais, casas de cultura, memoriais, bibliotecas e institutos, entre outros) e promove 2.787 eventos em todo o território nacional.

Com o tema “Celebrando a Educação em Museus”, a proposta é convidar e incentivar tanto estudiosos e pesquisadores como a população em geral à reflexão acerca das atribuições vinculadas a um museu, como educar e contribuir no despertar de interesse para as diferentes áreas do conhecimento e pesquisa, o fortalecimento da cidadania e das noções de pertencimento e identidade, o respeito à diversidade e à valorização da cultura, a vida em sociedade, a importância das memórias e o valor do patrimônio cultural musealizado.

Durante o evento, haverá o lançamento e a divulgação do Caderno da Política Nacional de Educação Museal (PNEM), no Museu Casa Histórica de Alcântara (MA), no Museu Vitor Meirelles (SC) e no Museu das Missões (RS).

Para informações adicionais e detalhes das instituições participantes do evento em cada Estado do Brasil, confira a programação do museu.

Fonte: Ibram

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Ecônomo da CNBB chama atenção para os desafios da gestão no ambiente eclesial

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13 de agosto de 2018

“A gestão da Igreja está sendo pensada, o que não é de hoje. A Igreja sempre foi referência de organização, agora que nós estamos nos adaptando às novas leis”. A fala é do ecônomo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), monsenhor Nereudo Freire Henrique, que tem feito um trabalho de sensibilização dos responsáveis por instituições ligadas à Igreja para que entendam a gestão como aliada no trabalho de evangelização.

Na terça-feira, 7, durante o curso para os novos bispos, realizado na sede provisória da CNBB, em Brasília (DF), monsenhor Nereudo falou aos novos prelados sobre gestão, os desafios no ambiente eclesial, o retrato atual da gestão das dioceses e paróquias e da necessidade de recuperar a espiritualidade que está atrelada a este trabalho administrativo.

Foram apresentadas questões sobre personalidade jurídica, legislação, planejamento e organização patrimonial. O ecônomo sugeriu ações para o cumprimento de obrigações legais e práticas que podem ser eficientes do ponto de vista gerencial.

“Temos a legislação que cobra das instituições determinados comportamentos e o gestor tem que ter conhecimento e construir equipes que deem suporte”, afirmou. Para monsenhor Nereudo, padre e bispos não devem ter medo de buscar pessoas que consigam dar esta contribuição, no caso, profissionais qualificados.

A recuperação de ferramentas, como o planejamento, também é importante, segundo o ecônomo: “Assim como temos o planejamento pastoral, assim vamos ter também o planejamento administrativo, que exige a participação de todo o pessoal que está envolvido, clareza nos objetivos, estabelecimento de metas, organização que possa ajudar no percurso que será percorrido, bom senso na administração, estratégias, recuperação de lideranças e papeis a partir de necessidades”.

A planilha orçamentária é outra ferramenta importante e está dentro do planejamento. Um orçamento organizado, segundo monsenhor Nereudo, dá ao gestor uma antecipação daquilo que vai acontecer no futuro do ponto de vista financeiro-econômico.

A questão contábil também teve destaque na fala do ecônomo da CNBB, que explicou sobre “SPED contábil”, que é Sistema Público de Escrituração Digital, e seus benefícios no planejamento e no cumprimento das obrigações com o governo.

“A contabilidade é um retrato em números daquele momento que a instituição está vivenciando. Na contabilidade você vai conseguir visualizar o patrimônio da instituição. É como aquela senhora que está na capela que compra o vinho, a vela, que paga a energia e a água da capela: tudo isso vai ter um reflexo na contabilidade da paróquia, da diocese, que mensalmente você consegue montar os balancetes e anualmente os balanços. E aqui interessa a contabilidade, em primeiro lugar ao gestor. Se eu conheço a minha realidade, o meu patrimônio, eu vou fazer um planejamento, saber onde eu posso investir, o que eu posso planejar”.

Monsenhor Nereudo também falou sobre as novidades do programa e-social, do Governo Federal, que a partir deste ano, irá incluir as informações com dados e folhas de pagamento dos funcionários de empresas do terceiro setor, como a CNBB. Foi sugerido aos bispos que em cada diocese tenha um pequeno grupo que possa fazer o levantamento das informações que vão alimentar este sistema. “A partir do momento em que as coisas estiverem organizadas, irá fluir e servir a todos com rapidez e que possa trazer benefícios”, espera.

O último tópico da fala de monsenhor Nereudo foi a questão patrimonial e a necessidade de organização deste acervo nas dioceses, principalmente nas cidades antigas, onde não se tinha escritura e onde ocorriam doações sem um elemento formal. “E a gente está sugerindo que seja feito nas dioceses um levantamento patrimonial para abastecer a peça contábil com os registros e também o controle. Digo que o patrimônio bem organizado traz uma receita para a instituição”, ensina Nereudo.

Sobre o trabalho com regionais e dioceses, o ecônomo da CNBB sustenta que busca despertar nos bispos o desejo de atuação pensando na gestão transparente, “para que assim possamos nós também cobrarmos das instituições, sejam privadas ou públicas, um comportamento transparente”. Neste trabalho de assessoria Brasil afora, ele tem sido solicitado juntamente com o assessor jurídico-civil da Conferência dos Bispos, o advogado Hugo José Sarubbi Cysneiros Oliveira.

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