Venezuelanos são acolhidos em casa mantida por paróquia da Arquidiocese

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01 de novembro de 2019

Um novo grupo de imigrantes venezuelanos foi acolhido, no dia 23, na casa preparada pela Pastoral do Migrante da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Episcopal Brasilândia. 
Angie Carolina Lanza Pino, 33, David Rafael Ytrigo, 34, e os irmãos Margareth Katiuska Duque Carvajal, 30, e Alejandro José Torres Carvajal, 22, viajaram de avião por cerca de sete horas de Boa Vista (RR) a São Paulo (SP), com conexão em Brasília (DF). Eles seguiram o itinerário de milhares de venezuelanos que cruzaram a fronteira com o Brasil em busca de trabalho e melhores situações de vida, após o agravamento da crise política e humanitária no país governado pelo presidente Nicolás Maduro. 
Esses imigrantes fazem parte do Plano Nacional de Integração Caminhos de Solidariedade: Brasil & Venezuela, promovido pela Cáritas Diocesana de Roraima, com a Cáritas Brasileira, o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), com o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para agilizar o processo de interiorização, integração e acolhida dos migrantes em pelo menos 90 dioceses do Brasil, dentre elas a Arquidiocese de São Paulo.
O imóvel, localizado na Freguesia do Ó, foi mobiliado com doações e é destinado à acolhida provisória dos imigrantes, para que eles possam procurar emprego, estabilizar-se e conseguir uma moradia fixa. “Assim que eles conseguirem emprego, nós ainda vamos ajudar por quatro ou cinco meses com cestas básicas até que eles se organizem”, explicou ao O SÃO PAULO Darialva Linge, coordenadora da Pastoral do Migrante da Paróquia. O primeiro grupo foi acolhido na casa em março e já deixou o imóvel.

RECOMEÇO
Professora de Física, Margareth chegou a Bonfim (RR) em 2018. Na Venezuela, ela trabalhava havia seis anos no Ministério da Educação. Com o agravamento da crise, decidiu deixar tudo para vir ao Brasil. Margareth contou que chegou ao ponto de trabalhar somente para poder comer, sem nenhuma perspectiva de futuro.  
Em Bonfim, Margareth começou a trabalhar em restaurantes. Meses depois, conseguiu trazer sua mãe, seu irmão, cunhada e sobrinhos. Contudo, as oportunidades de emprego e desenvolvimento em Roraima são limitadas, ainda mais com o grande contingente de imigrantes que chegam a todo instante. Por isso, ela resolveu buscar mais oportunidades no Sudeste. 
“Estou disposta a trabalhar com o que for necessário, seja como cozinheira, faxineira, cuidando de crianças, ensinando-as”, disse Margareth. Para voltar a exercer sua profissão, ela precisa traduzir seu diploma. Porém, isso tem um custo que no momento ela não pode arcar. Agora sua prioridade é ter condições de trazer seus familiares para São Paulo. 
Na Venezuela, o irmão de Margareth, Alejandro, trabalhava em uma empresa de alimentos. Ao chegar a Bonfim,  há 11 meses, conseguiu emprego em uma carvoaria e em uma fazenda. Contudo, não há estabilidade alguma nesses empregos. Em São Paulo, ele também espera conseguir uma oportunidade em qualquer área. 

CRISE
Angie é licenciada em Enfermagem, especialista em Terapia Intensiva e Instrumentação Cirúrgica. Ela trabalhou 12 anos em hospital público e em clínicas privadas. 
A crise começou a afetar significativamente sua vida entre 2016 e 2017. Até então, Angie, sua mãe, suas duas filhas e uma neta tinham uma vida confortável e boas condições financeiras. A situação decisiva para deixar o país foi quando Angie chegou a ponto de ter que decidir comprar comida em vez dos medicamentos para sua mãe.
“Antes da crise, havia pobreza, mas era possível viver com um salário mínimo, comprando ao menos o necessário. Hoje, com um bom salário, como o que eu recebia, não é possível comprar um frango”, acrescentou Angie. 
Ao chegar a Caracaraí (RR), em 2018, ela trabalhou em uma casa de família e em uma lanchonete. Além de estudar português, fez um curso de cozinheira, para ter mais oportunidades de trabalho. A enfermeira quer se estabilizar minimamente em São Paulo para poder trazer sua mãe, suas filhas e a neta. 

POR UMA VIDA DIGNA
David trabalhava em uma grande oficina mecânica na Venezuela e tinha estabilidade de vida. “Jamais pensei em sair do meu país. Eu não era milionário, mas tinha comodidade em nossa família”, contou. 
Em Bonfim, ele começou a trabalhar como pedreiro. Porém, nem sempre era pago pelo trabalho. “Para nós, homens, a situação é mais difícil. Quem nos contrata promete que pagará em alguns dias, mas nem sempre cumpre a promessa. Enquanto isso, nossas mulheres e filhos estão na Venezuela passando necessidade e nós não conseguimos enviar dinheiro para eles, porque não recebemos”, relatou David. 
O venezuelano contou sobre as inúmeras discriminações que sofre por causa da má conduta de alguns de seus compatriotas. “Nós, que queremos trabalhar e dar uma vida melhor para nossa família, infelizmente somos confundidos com aqueles que cometem crimes. Nós não saímos de nossas casas para fazer mal, queremos uma vida digna”, disse.  

ESPERANÇAS 
Embora desejem que a situação de seu país melhore para que um dia possam voltar a viver lá, os venezuelanos não veem muitas perspectivas concretas para que isso aconteça logo, pois eles não conseguem enxergar uma alternativa para o atual governo. “Não basta simplesmente a saída de Maduro do poder, pois não temos quem assuma e apresente um projeto real de mudança”, afirmou Angie. 

AJUDA DA IGREJA
Na opinião destes venezuelanos, a Igreja foi fundamental para suas vidas. Desde que chegaram a Roraima, encontraram na comunidade eclesial o apoio para se estabilizar. 
Além disso, eles reconhecem que essa experiência migratória provocou uma mudança interior diante dos desafios que têm enfrentado. “Tenho esperança de que, mesmo que demore, o povo venezuelano vai superar essa situação, e aprenderá muito de tudo isso que estamos passando, sobretudo, a valorizarmos mais o que é essencial na vida e as coisas que conquistamos com o suor do nosso trabalho”, disse Margareth. 
Ela acrescentou que a fé é fundamental para lhes dar força para enfrentar todos esses desafios, pois “são uma cruz, após a qual haverá uma ressurreição”.

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