Padres sinodais apresentam propostas para evangelização e defesa da vida na Amazônia

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18 de outubro de 2019

Os 12 grupos linguísticos de participantes dos Sínodo para a Amazônia concluíram seus relatórios dos trabalhos dos círculos menores com as propostas que servirão de base para o Documento Final da Assembleia Sinodal.

Ao longo da próxima semana, os padres sinodais trabalharão sobre o texto desse documento, que, ao final do Sínodo, será entregue ao Papa Francisco para que ele possa discernir e tomar decisões e eventuais deliberações para a Igreja na Amazônia.

O conteúdo desses relatórios foi publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé e, em síntese, destacam que o Sínodo “é um dom precioso do Espírito para a Amazônia e para toda a Igreja tanto no aspecto teológico pastoral, quanto pela inevitável tarefa do cuidado da Casa Comum”.

Também é um ponto comum das reflexões dos grupos que a assembleia sinodal “é um kairós, tempo de graça, ocasião propícia para a Igreja se reconciliar com a Amazônia”.

Leia, abaixo, uma síntese das propostas:

UM SÍNODO PARA TODA A IGREJA

Todos os textos lidos publicamente exprimem a esperança de que seja desenvolvido um novo caminho sinodal na Amazônia e que, da assembleia do Sínodo dos Bispos no Vaticano, seja criada uma fervorosa paixão missionária de uma verdadeira Igreja em saída. O desejo é de que o “viver bem” amazônico se encontre com a experiência das bem-aventuranças: de fato, à luz da Palavra de Deus, alcança a sua plena realização. As propostas concretas que nasceram são muitas e variadas e provêm de vários círculos que fazem questão de esclarecer: este não é um Sínodo regional, mas universal, o que acontece na Amazônia refere-se a todo o mundo.

A IGREJA NÃO DEVE SER UMA ONG

Os relatórios advertiram que a Igreja tem a tarefa de acompanhar a obra dos defensores dos direitos humanos muitas vezes criminalizados pelos poderes públicos. Porém, ao mesmo tempo, não deve agir como uma organização não governamental (ONG). Este risco, apontaram os bispos, acompanhado com o de se apresentar de forma exclusivamente ritualista, provoca muitas vezes o abandono de muitos fiéis que buscam respostas à sua sede de espiritualidade junto das seitas religiosas ou outras confissões cristãs. Portanto, dos círculos menores também chegou um pedido para que seja dada maior atenção ao diálogo ecumênico e inter-religioso.

MINISTÉRIOS LEIGOS

Para incentivar uma ação pastoral efetivamente presente na vida das comunidades, encorajou-se um maior incentivo e valorização da ação evangelizadora dos leigos. De quase todos os círculos menores chegou o pedido de aprofundar o significado do conceito de “Igreja ministerial”, ou seja, uma Igreja onde possa coexistir corresponsabilidade e compromisso dos leigos. O Círculo “Espanhol A” pede, por exemplo, que seja concedido de modo equilibrado ministérios a homens e mulheres leigos, abstendo-se, porém, do risco de clericalizá-los. Em nível geral, propõe-se uma cuidadosa reflexão sobre os ministérios do leitorato e acolitato também a mulheres, religiosas ou leigas, adequadamente formadas e preparadas.

Também foi enfatizado que a formação dos leigos deve ser integral, não apenas doutrinal, mas também kerigmática, fundada na doutrina social da Igreja e que leve à experiência e ao encontro com o Ressuscitado.

SACERDÓCIO E ‘VIRI PROBATI’

Sobre o tema da falta de sacerdotes na região amazônica as propostas dos grupos divergem. Ao evidenciar que o valor do celibato, dom a ser oferecido às comunidades indígenas, não está em discussão, o Círculo “Italiano A” alerta quanto ao risco de que este valor seja enfraquecido ou que a ordenação e homens casados, os chamados viri probati, possa desestimular o impulso missionário da Igreja Universal a serviço das comunidades mais distantes.

A maior parte dos relatórios, principalmente as de língua espanhola e portuguesa, argumentando a necessidade de uma Igreja “de presença” mais do que “de visita”, exprime-se favorável à concessão do presbiterado a homens casados, de boa reputação, preferivelmente indígenas escolhidos pelas comunidades de proveniência, mas em condições específicas.

Esses grupos salientaram que não deve ser esquecido o drama das muitas populações da Amazônia que atualmente recebem os sacramentos apenas uma ou duas vezes por ano. Por outro lado, também foi pedido às comunidades locais para reforçarem a consciência de que também a Palavra representa um alimento espiritual para os fiéis.

Como a discussão a respeito do sacerdócio não diz respeito apenas à Igreja na Amazônia, mas no mundo todo, sugeriu-se até a realização de um Sínodo universal específico sobre o tema dos viri probati.

CRISE VOCACIONAL E FORMAÇÃO SACERDOTAL

Considerando a dimensão do território pan-amazônico e a escassez de ministros, foi cogitada a criação de um fundo regional para a sustentabilidade da evangelização. Além disso, o Círculo “Italiano A” exprimiu “perplexidade” com relação à “falta de reflexão sobre as causas que levaram à proposta de superar de algum modo o celibato sacerdotal como foi expresso pelo Concílio Vaticano II e pelo magistério sucessivo”.

Ao mesmo tempo, espera-se uma formação permanente ao ministério com o objetivo de configurar o sacerdote a Cristo e se exorta o envio à Amazônia de missionários que atualmente exercem o ministério sacerdotal no norte do mundo. Diante da crise vocacional, os círculos menores relevam uma diminuição substancial da presença de religiosos na Amazônia e esperam uma renovação da vida religiosa que, sob impulso da Confederação latino-americana dos religiosos (CLAR), seja promovida com renovado fervor, de modo especial no que se refere à vida contemplativa.

Ao mesmo tempo propõe-se o fortalecimento da formação dos sacerdotes, que não deve ser apenas acadêmica, mas também realizada nos territórios amazônicos com experiências concretas de “Igreja em saída”, ao lado dos que sofrem. Foi solicitada também a constituição de seminários indígenas.

MULHER E DIACONATO

O tema da mulher está presente em mais de um relatório com o pedido de reconhecer, também em papéis de maior responsabilidade e liderança, o grande valor oferecido pela presença feminina no seu serviço específico à Igreja na Amazônia. Pede-se para garantir, por exemplo no âmbito de trabalho, o respeito dos direitos das mulheres e a superação de qualquer tipo de estereótipo. A maior parte dos Círculos Menores manifestou o pedido de que seja dada atenção ao estudo da possibilidade do diaconato para as mulheres, considerando que muitas funções deste ministério já são desempenhadas pelas mulheres na região.

Em 2016, o Papa Francisco criou uma comissão para o estudo das possibilidades teológicas e pastorais do diaconato feminino. Contudo, ainda não há uma conclusão sobre esse assunto. Em maio, durante sua viagem à Macedônia, o Pontifice explicou que não há certeza de que o diaconato exercido na Igreja primitiva fosse, de fato, “uma ordenação com a mesma forma e com a mesma finalidade que a ordenação masculina”.

DIÁLOGO INTERCULTURAL E INCULTURAÇÃO

Os círculos menores pedem que seja consolidada uma teologia e uma pastoral de “rosto indígena”, na qual diálogo intercultural e inculturação não são entendidos como opostos. A tarefa da Igreja não é a de decidir pelo povo amazônico ou assumir uma posição de conquista, mas acompanhar, caminhar junto numa perspectiva sinodal de diálogo e escuta.

Foi proposto o desenvolvimento de um “rito amazônico” no qual, conforme explicado em um dos relatórios, “devem ser valorizados os símbolos e gestos das culturas locais na liturgia da Igreja na Amazônia, conservando a unidade substancial do rito romano, visto que a Igreja não quer impor uma uniformidade rígida no que não afeta a fé”.

Ainda foi sugerida a promoção do conhecimento da Bíblia, favorecendo a tradução nas línguas locais. Nessa ótica, foi proposta a criação de um Conselho Eclesial da Igreja Pan-amazônica, uma estrutura eclesiástica ligada ao Celam, Repam e Conferências Episcopais dos países amazônicos.

AO LADO DOS POBRES E CONTRA A VIOLÊNCIA

Os padres sinodais enfatizaram a necessidade de a Igreja ouvir “o grito dos povos” e da natureza, estando ao lado dos mais pobres e combatendo toda forma de violência. Na Amazônia a violência assume várias faces: cárceres lotados; abusos e exploração sexuais; violação dos direitos das populações indígenas; assassinatos daqueles que defendem seus territórios; tráfico de drogas e narco-business; “extermínio” da população jovem; tráfico de seres humanos, feminicídios e na cultura de violência contra as mulheres; genocídio, biopirataria, etnocídio. Tais males, segundo os bispos, devem ser combatidos “porque matam a cultura e o espírito”. Também é muito clara a condenação da violação extrativista e o desmatamento. Foi destacada, ainda, a ligação entre abuso dos mais frágeis e da natureza. Entre as várias emergências colocadas em evidência, foi dado também espaço ao tema da crise climática.

DEFESA DA VIDA E DOS DIREITOS HUMANOS

Mais de um círculo menor solicitou a instituição de um Observatório Internacional dos Direitos Humanos, na convicção de que a defesa dos povos e da natureza deva ser prerrogativa de uma ação pastoral e eclesial. Além disso foi sugerido que as paróquias criem espaços seguros para as crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis. Reiterou-se o direito à vida de todos desde a concepção até a morte natural.

MISSIONARIEDADE E MARTÍRIO

Foi sugerida, também, a criação de um Observatório sócio-pastoral pan-amazônico em coordenação com o Celam, as comissões de Justiça e Paz das dioceses, a CLAR e a Repam. Os grupos ressaltaram, ainda, a distinção entre Igreja “indigenista”, que considera os indígenas destinatários passivos da pastoral, e Igreja “indígena”, que os vê como protagonistas da própria experiência de fé, segundo o princípio “Salvar a Amazônia com a Amazônia”. É importante também valorizar o exemplo dado por muitos missionários que deram a vida na Amazônia por amor ao Evangelho. Um dos círculos propôs incentivar os processos de beatificação dos “mártires da Amazônia”.

MIGRAÇÃO, JUVENTUDE E CIDADE

Nos relatórios, não faltaram menções aos povos isolados voluntariamente e foi pedido para que eles sejam acompanhados pelo trabalho de equipes missionárias itinerantes. Foi dado espaço também ao tema da migração, sobretudo juvenil. Hoje, 80% da população da Amazônia se encontra nas cidades. Um fenômeno que muitas vezes causa consequências negativas como a perda da identidade cultural, a marginalização social, a desintegração ou instabilidade familiar. Torna-se cada vez mais urgente a evangelização dos centros urbanos e a pastoral deve se adequar às circunstâncias sem se esquecer das favelas, das periferias e das realidades rurais. É urgente também uma pastoral juvenil renovada. No âmbito pedagógico, pede-se à Igreja para promover, de forma decisiva, a educação intercultural bilíngue e incentivar uma aliança de redes de universidades especializadas na ciência da Amazônia e na instrução superior intercultural para as populações indígenas.

TUTELA DA CRIAÇÃO

A dimensão ecológica é central nos relatórios dos círculos menores, em que se reitera que a criação é uma obra-prima de Deus na qual tudo está interligado. Pede-se para não se esquecer de que “uma conversão ecológica verdadeira começa na família e passa por uma conversão pessoal, de encontro com Jesus”.

A partir dessa premissa, foram abordadas questões práticas como as temperaturas elevadas ou combate às emissões de CO2 (dióxido de carbono). Incentiva-se um estilo de vida mais sóbrio e a proteção de bens preciosos incomparáveis, como a água, direito humano fundamental que, se privatizado ou contaminado, corre o risco de prejudicar a vida de comunidades inteiras. Deve ser destacado o valor das plantas medicinais e incentivado o desenvolvimento de projetos sustentáveis, através de cursos que levem ao conhecimento de segredos e da sacralidade da natureza, segundo a visão amazônica. Alguns círculos propõem o desenvolvimento de projetos de reflorestamento nas escolas de formação em técnicas agrícolas.

PECADO ECOLÓGICO E ECONOMIA SOLIDÁRIA

Nessa ótica, acrescenta-se a proposta de inserir o tema da ecologia integral nas diretrizes das conferências episcopais e incluir na Teologia Moral o respeito pela Casa Comum e o conceito dos pecados ecológicos, por meio de uma revisão dos manuais e rituais do Sacramento da Penitência.

“A visão antropocêntrica utilitarista é obsoleta e o homem não pode mais submeter os recursos naturais a uma exploração ilimitada que coloca em perigo a humanidade”, destacou um dos relatórios. É necessário contemplar o imenso conjunto de formas de vida no planeta em relação umas com as outras, promovendo também um modelo de economia solidária e instituindo um ministério para o cuidado da Casa comum, conforme proposto pelo Círculo “Português B”.

COMUNICAÇÃO

Por fim, alguns relatórios deram espaço ao tema dos meios de comunicação. As redes católicas de comunicação devem ser incentivadas a colocar a Amazônia no centro de sua atenção a fim de difundir boas notícias e denunciar todo tipo de agressão contra a natureza e anunciar a verdade.

Foi proposto, ainda, o uso das redes sociais na Web Rádio, na Web TV e na comunicação rádio a fim de difundir as conclusões do Sínodo. Deseja-se que o “rio” do Sínodo, com a força do “rio amazônico”, transborde dos muitos dons e sugestões oferecidos nas reflexões dos padres sinodais, na Sala do Sínodo, e que dessa experiência de caminhar juntos, possa jorrar novos caminhos para a evangelização e a ecologia integral.

(Fotos: CNBB)

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Padre indígena: celibato é um dom que pode ser vivido em qualquer cultura

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17 de outubro de 2019

O único sacerdote indígena participante do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, Padre Justino Sarmento Resende, salesiano e membro da tribo Tuyuka, em São Gabriel da Cachoeira (AM), destacou os desafios para a formação de um clero autóctone na região amazônica.

Especialista em espiritualidade indígena e pastoral inculturada, Padre Justino falou os jornalistas na entrevista coletiva desta quinta-feira, 17, na Sala de Imprensa da Santa Sé.

'ROSTO AMAZÔNICO' 

Ordenado há 25 anos, o Sacerdote explicou o que considera como uma Igreja com “rosto amazônico” e indígena, expressão usada pelo Papa Francisco durante o encontro com povos indígenas em Porto Maldonado, no Peru, em janeiro de 2018.

Ele recordou que a Igreja chegou à Amazônia por meio dos missionários, especialmente, europeus e que, hoje a evangelização pode ser feita pelos próprios povos que ali vivem, com suas próprias línguas e identidade cultural. “Quando falamos em uma Igreja com o rosto indígena, nós procuramos concretizar como nós, indígenas, batizados, cristãos e ministros, podemos fazer diferente aquilo que os nossos antigos missionários, com suas limitações linguísticas, sem conhecer bem nossas culturas, fizeram da melhor maneira possível”, disse.

CHAMADO

Padre Justino mencionou sua própria experiência vocacional para reforçar sua reflexão. “Minha vocação surgiu quando eu vi missionários cheios de boa vontade dando catequese aos meus avós, que não tinham passado pelo processo da escolarização e, por isso, não entendiam a língua portuguesa. Foi diante dessa cena, que eu, ainda adolescente, pensei em ser um sacerdote, para poder transmitir a mensagem de Jesus na minha própria língua”, contou.

No entanto o caminho vocacional do Padre indígena não foi fácil. Ele encontrou resistência de muitas pessoas, inclusive de sua tribo, que diziam que o sacerdócio não era algo para indígenas. “Aos poucos, a Igreja foi percebendo que nós, indígenas evangelizados, podíamos nos tornar evangelizadores. Já havia catequistas, mas não sacerdotes”, acrescentou.

FORMAÇÃO

Padre Justino passou pela formação básica para o sacerdócio, com o estudo da Filosofia e Teologia. Depois de ordenado, estudou Missiologia por dois anos e, em seguida, fez mestrado em educação, para trabalhar em oficinas e encontros sobre inculturação e evangelização para indígenas. “Sigo estudando para encontrar respostas para a pergunta: como nós podemos ajudar a construir novas maneiras de evangelizar na Amazônia?”, enfatizou o Sacerdote.

“Não podemos ver a Igreja como algo fora de nós, pois nós mesmos somos Igreja. A mensagem do Evangelho não paira no ar, mas se encarna nas pessoas e, quando chega nas culturas indígenas, faz parte do ser indígena”, afirmou Padre Justino.

CELIBATO

Quando questionado sobre a falta de padres na Amazônia e sobre as afirmações feitas durante o Sínodo de que os indígenas teriam dificuldade para viver o celibato apostólico, Padre Justino respondeu: “É um dom de Deus. Pessoas de qualquer cultura no mundo podem vivê-lo. Deve ser uma decisão livre, não imposta. É difícil para mim como para qualquer outro padre não indígena”.

ATIVIDADES DO SÍNODO

Nesta quinta-feira, continuaram as reuniões dos círculos menores do Sínodo para a Amazônia. Os grupos linguísticos estão elaborando os relatórios de suas discussões, que serão entregues para a comissão de redação do Documento Final do Sínodo, cujo projeto será trabalhado ao longo da próxima semana de Assembleia sinodal, no Vaticano.

 

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Começam trabalhos em grupos no Sínodo para a Amazônia

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10 de outubro de 2019

Terminou nesta quarta-feira, 9, o primeiro bloco de intervenções individuais do Sínodo dos Bispos para a Amazônia. Nessas sessões, chamadas de Congregações gerais, presididas pelo Papa Francisco, cada participante inscrito apresenta, em até quatro minutos, suas reflexões a respeito dos principais temas do Sínodo a partir de suas experiências locais e do que é destacado no Instrumentum Laboris (Instrumento de Trabalho), texto que serve de base para as discussões sinodais.

Nesta quinta-feira, 10, e na sexta-feira, 11, acontecem os círculos menores, nos quais grupos linguísticos para aprofundarem os temas apresentados. São quatro grupos de língua portuguesa, cinco grupos de língua espanhola, dois de italiano e um grupo de inglês e francês. Cada grupo possui um moderador e um relator.

ASSUNTOS

O Prefeito do Dicastério para a Comunicação e Presidente da Comissão para Informação do Sínodo, Paolo Ruffini, explicou aos jornalistas, nesta manhã, que as discussões das congregações gerais giraram em torno dos seguintes temas:

- A questão ecológica e o grande risco para o planeta do desenvolvimento predatório e não sustentável;

- O valor que da Amazônia para todo o planeta;

- A violência nos confrontos por terra e dos povos originários;

- A necessidade de mudar paradigmas em relação ao cuidado do meio ambiente;

- A necessidade de se respeitar os direitos humanos e a relação entre o ser humano e a criação;

- O diálogo com as culturas;

- A evangelização, inculturação, interculturalidade;

- O modo de ser Igreja na Amazônia;

- A missionariedade;

- A escassez de sacerdotes na região;

- A possibilidade de novos ministérios ordenados;

- O papel e a responsabilidade dos leigos por meio dos ministérios não ordenados;

- O papel das mulheres, bem como sua defesa de qualquer forma de violência;

- A importância dos sacramentos para a comunidade;

- A formação dos leigos;

- A formação de sacerdotes e diáconos;

- O papel das congregações religiosas;

- A atenção para que não haja uma visão muito clerical da Igreja e da comunidade.

CONEXÃO

Padre Giacomo Costa, secretário da Comissão para a Comunicação, chamou a atenção para a conexão existente entre os temas. “É um verdadeiro exercício de articulação entre o local e o universal, de como manter o foco sobre a região amazônica e entrar em profundidade nessa experiência e, ao mesmo tempo, perceber o quanto isso influencia sobre toda a Igreja para que ela possa contribuir em uma região tão particular”, disse. 

PRÓXIMOS PASSOS

No sábado, 12, retomam-se as congregações gerais, que seguem até terça-feira, 15. Depois, haverá nova oportunidade de intervenções públicas, agora, a partir das reflexões feitas em grupos. Nos dias 16 e 17, os círculos menores se reunirão novamente para a conclusão dos relatórios de cada grupo.

A última semana do Sínodo será dedicada a apresentação do projeto de documento final do sínodo e a discussão em torno do texto para, enfim, ser votado pelos padres sinodais.

Recordando que o Sínodo é um organismo consultivo do Pontifice, esse documento não tem caráter deliberativo, mas indicações resultantes do discernimento e trabalhos realizados durante a assembleia.

O Documento Final será entregue ao Papa Francisco, para que ele possa discernir e tomar suas decisões e orientações, podendo escrever uma exortação pós-sinodal.

(Foto: Daniel Ibanez / ACI Stampa)

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Dom Odilo: o foco do Sínodo é a missão da Igreja na Amazônia

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11 de outubro de 2019

O Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, ressaltou que o Sínodo dos Bispos para a Amazônia tem como foco a missão evangelizadora da Igreja na região amazônica.

No programa “Encontro com o Pastor” desta quarta-feira, 9, na rádio 9 de Julho, Dom Odilo enfatizou que os bispos não estão reunidos com o Papa no Vaticano pra tomar decisões políticas ou que cabem aos governos, “mas para fazer uma reflexão sobre aquilo que é a missão da Igreja em relação às questões da Amazônia”.

Em viagem a Roma para a participação do Consistório para criação de 13 novos cardeais, celebrado no sábado, 5, e para a Canonização da Beata Dulce dos Pobres, que acontecerá no próximo domingo, 13, o Cardeal Scherer, também participou da missa de abertura do Sínodo, presidida pelo Papa Francisco no domingo, 6, na Basílica de São Pedro.

POVOS E MEIO AMBIENTE

Dom Odilo explicou aos ouvintes que neste momento acontecem no Sínodo os debates sobres os vários temas que estão relacionados com as questões da Amazônia e a sua região nesse território que compreende, além do Brasil, mais oito países da América do Sul.

Dentre as questões que interessam a Igreja na região Amazônica está a situação dos povos que ali vivem – indígenas, ribeirinhos e caboclos –, seja no interior como nas cidades. “A Igreja tem uma missão em relação ao homem da Amazônia”, afirmou Dom Odilo.

Por outro lado, recordou o Arcebispo, o Sínodo também discute temas relacionados ao meio ambiente e o cuidado necessário para preservar o que o Papa Francisco chama de “casa comum”, tema de sua Encíclica Laudato si’. Tal cuidado da natureza, acrescentou o Cardeal, é importante para os que hoje vivem da natureza, como para que as futuras gerações.

MISSÃO

Dom Odilo salientou, ainda, que o foco do Sínodo é a missão da Igreja, sua presença na Amazônia, carências, e os desafios par aa evangelização nessa região. Ele chamou a atenção, por exemplo, para o avanço dos movimentos neopentecostais nas comunidades amazônicas, apontando que umas das causas seja o fato de a Igreja Católica não estar suficientemente presente.

“Precisamos encontrar modos e meios de nos fazer presentes de maneira mais eficaz na grande Amazônia. Esta é a questão que o Papa Francisco está colocando: a Igreja na Amazônia precisa encontrar novos caminhos para a evangelização”, reforçou o Cardeal.

Novos caminhos, enfatizou Dom Odilo, serão os que partem sempre da fé profunda renovada em Jesus Cristo, no Evangelho, a dedicação missionária, “a caridade ardente” e a vida cristã cultivada pessoalmente, nas famílias e nas comunidades. “É assim que a Igreja consegue cumprir a sua missão e tornar-se presente”, disse.

RENOVAÇÃO INTERIOR

O Cardeal acrescentou que a renovação missionária que se busca na Amazônia não é tanto em relação às estruturas, mas uma renovação do espírito, da maneira de estar presente nessa região.

“Como o Papa Francisco tem dito, é preciso que haja evangelizadores novos, com espírito novo. Só assim a Igreja vai se renovar. Simplesmente trocar estruturas não dá muita certeza de que vão acontecer as mudanças”, afirmou Dom Odilo, recordando que Jesus, no Evangelho, diz que o vinho novo deve ser colocado em odres novos. “Portanto, os vinhos novos que nós devemos ser, deverão produzir novidade, novas formas de estarmos presentes como cristãos”.

OUÇA O PROGRAMA "ENCONTRO COM O PASTOR"

 

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Direitos humanos, migração e formação são destaques do 2º dia do Sínodo

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08 de outubro de 2019

Os trabalhos da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia tiveram continuidade nesta terça-feira, 8, no Vaticano. Durante a manhã, houve a 3ª Congregação Geral, com a presença do Papa Francisco, na qual foram apresentadas as intervenções dos participantes sobre os temas abordados no Instrumento de Trabalho.

Esse é o momento em que o Papa escuta tudo aquilo que foi resultado das consultas e encontros pré-sinodais realizados nas comunidades dos nove países que abrangem a região pan-amazônica. Os participantes inscritos têm a oportunidade de se manifestar sobre a realidade local. Cada interessado em fazer uso da palavra tem quatro minutos para apresentar o seu ponto de vista. A cada quatro intervenções há uma pausa para meditação.

As congregações gerais são fechadas e, periodicamente, a Sala de Imprensa da Santa Sé divulga sínteses oficiais dos assuntos discutidos.

A violação de direitos humanos e a criminalização dos líderes das comunidades e dos movimentos sociais estiveram entre os principais assuntos tratados. Também foi tratado o fenômeno migratório na região amazônica, apontou-se a urgência de formação de sacerdotes, consagrados e leigos, além de refletirem sobre caminhos possíveis para os diferentes ministérios em vista de uma vida eclesial que tenha a Eucaristia como centro.  

ORAÇÃO

A oração inicial foi conduzida pelo Arcebispo de Belém (PA), Dom Alberto Taveira, que, recordando as palavras do Salmo do dia (118), que ressalta que a plenitude da lei é o amor. “Somos convidados a proclamar que a Palavra do Senhor é mais doce do que o mel silvestre abundante em nossas terras, e afirmamos a certeza de que da lei de Deus recebemos a inteligência necessária para os trabalhos a serem empreendidos, comprometendo-nos a rejeitar todos os caminhos da mentira”, afirmou.

DIREITOS HUMANOS

Segundo o que foi apresentado, entre 2003 e 2017, morreram 1.119 indígenas por defenderem seus próprios territórios. Muitas vezes, os líderes sociais são vítimas da impunidade e da insuficiência dos poderes estatais que não garantem sua segurança.

Nesse sentido, reafirmou-se que a Igreja deve atuar na defesa daqueles que lutam pela preservação das suas próprias terras por meio da criação de, aonde ainda não existem, redes específicas de proteção ou, em âmbito diocesano, ações permanentes de solidariedade de promoção da justiça social.

De acordo com a síntese publicada pela Sala de imprensa da Santa Sé, foi afirmado várias vezes nas intervenções que a tarefa da Igreja deve ser a de “levantar a voz contra os projetos que destroem o ambiente”.

Ao mesmo tempo, os Padre Sinodais evidenciaram a importância de promover uma política mais participativa e uma economia afastada da “cultura do descarte”, apostando, antes de tudo, em experiências de economia alternativa, como as das pequenas cooperativas que comercializam produtos da floresta, sem passar pela grande produção.

MODELOS DE EXTRATIVISMO 

Também fio abordada a questão da contaminação do rios, nos quais são despejados os resíduos das atividades minerárias, e do desmatamento, ameaça cada vez mais concreta na Amazônia, devido à venda de madeira ou pela cultivação de coca, “mas favorecida por uma legislatura ambiental frágil que não tutela as riquezas e as belezas naturais do território”.

Sobre este aspecto, houve padres sinodais que afirmaram que a Igreja é chamada a denunciar as distorções de modelos de extrativismo predatório, ilegais e violentos, porque o grito de dor da terra depredada é o mesmo dos povos que a habitam. A defesa das populações nativas foi recordada também através do martírio de muitos missionários que deram sua vida pela causa indígena e pela tutela dos que são explorados e perseguidos por ameaças ocultas sob a farsa de “projetos de desenvolvimento”.

MIGRAÇÕES

As intervenções também deram destaque para o tema das migrações, tanto das populações indígenas para as grandes cidades, quanto das populações que atravessam a Amazônia para chegar em outros países.

Foi apontada a necessidade de uma “nova frente missionária no sentido intereclesial”, para uma maior colaboração entre as Igrejas e outros organismos comprometidos, levando em conta os recentes fluxos migratórios da região.

Recordou-se, ainda, que o fenômeno migratório também atinge a juventude da Amazônia, obrigada a deixar suas cidades de origem por causa de desemprego, violências, tráfico de seres humanos, narcotráfico, prostituição e exploração. Nesse sentido, indicou-se que a Igreja reconheça, valorize, sustente e reforce a participação da juventude da Amazônia nos espaços eclesiais, sociais e políticos, enfatizando que os jovens “profetas de esperança”.

FORMAÇÃO

A formação dos responsáveis pela evangelização nas comunidades também foi destacada na Congregação Geral. Salientou-se que diante dos numerosos desafios da atualidade – entre os quais secularismo, indiferença religiosa, proliferação incontrolável de igrejas pentecostais – a Igreja deve aprender a consultar e escutar a voz do laicato.

Indicou-se: uma formação básica nas paróquias, com leitura e meditação da Palavra de Deus; uma formação intensiva em tempo integral, destinada a animadores e animadoras das comunidades, e uma formação teológica sistemática para os candidatos aos ministérios ordenados e para os homens e as mulheres que desejam se comprometer nos ministérios leigos.

Ainda sobre os futuros padres, foi destacado que a formação dos seminaristas seja reconsiderada e se torne mais próxima da vida das comunidades.

 ‘VIRI PROBATI’

A discussão sobre a proposta de ordenação de homens casados das comunidades amazônicas, chamados de “viri probati”, novamente foi trazida por alguns padres sinodais nesta manhã. Nas intervenções, foi lembrado o que o Instrumento de Trabalho destaca sobre a falta de sacerdotes e a dificuldade de levar a Eucaristia aos fiéis: a necessidade de passar de uma “pastoral de visita” a uma “pastoral de presença”, fazendo referência à possibilidade de as comunidades não dependerem apenas dos missionários para terem acesso aos sacramentos da vida cotidiana dos cristãos.

Contudo, houve padres sinodais que alertaram para o fato de que tal proposta baseada apenas no argumento da falta da Eucaristia nas comunidades poderia levar o sacerdote a ser um simples “funcionário da missa” e não, como deveria ser, um pastor da comunidade, um mestre de vida cristã, uma presença concreta da proximidade de Cristo.  

Diante da urgência de pastores para a evangelização da Amazônia, destacou-se a necessidade de maior valorização da vida consagrada, e também uma forte promoção das vocações sacerdotais autóctones ou de ordenar diáconos permanentes que, acompanhados por pastores, possam administrar os sacramentos próprios desse grau da Ordem (Batismo e Matrimônio), celebrar a Palavra de Deus e levar a comunhão eucarística aos fiéis.

(Com informações de Vatican News)

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Papa: coragem e prudência devem orientar os trabalhos do Sínodo

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08 de outubro de 2019

O primeiro dia de trabalhos da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônica, nesta segunda-feira, 7, contou com a presença do Papa Francisco, que em sua saudação inicial, destacou que o Espírito Santo é o protagonista do Sínodo.

O Pontífice pediu coragem para falar com liberdade e prudência para não se criar a impressão de que exista um “Sínodo dentro, que segue um caminho da Igreja Mãe, de cuidado dos processos”, e um “Sínodo fora”, que, por uma informação dada com rapidez e imprudência, “move os jornalistas a equívocos”.  

O Santo Padre também ressaltou que é preciso rezar muito, além de refletir, dialogar, escutar com humildade e discernimento.

INTERESSE DE TODA A IGREJA

Ao abrir a 1ª Congregação Geral da Assembleia, o Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, Cardeal Lorenzo Baldisseri, ressaltou a orientação desse caminho sinodal convocado pelo Papa é “identificar novos caminhos para a evangelização daquela parte do Povo de Deus, especialmente os indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta Amazônica, pulmão de suma importância para o nosso planeta”.

Nesse sentido, o Dom Lorenzo afirmou que, mesmo se referindo a uma área geográfica específica, este Sínodo interessa à Igreja universal. “Por este motivo, a participação foi ampliada a Bispos provenientes de outras Igrejas particulares e organismos eclesiais regionais e continentais. Em outras palavras, é toda a Igreja universal que quer dirigir o olhar à Igreja na Amazônia e assumir no coração os seus desafios, as suas preocupações e os seus problemas, porque no fundo todos nós devemos nos sentir parte desta aldeia global na qual vive e palpita a única Igreja de Jesus Cristo”, disse. 

NOVOS CAMINHOS PARA EVANGELIZAÇÃO

O Relator-Geral do Sínodo, Cardeal Cláudio Hummes, Arcebispo Emérito de São Paulo e Presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), fez um pronunciamento no qual destacou que o tema da assembleia ressoa grandes linhas pastorais características do Papa Francisco.

Ressaltando o conceito de “Igreja em saída” propagado pelo Santo Padre, Dom Cláudio afirmou que a Igreja não pode “ficar sentada em casa, cuidando de si mesma, cercada de muros de proteção”, muito menos, olhando para trás com certa nostalgia de tempos passados”. “Ela precisa abrir as portas, derrubar muros que a cercam e construir pontes, sair e pôr-se a caminho na história, nos tempos atuais de mudança de época, caminhando sempre próxima de todos, principalmente de quem vive nas periferias da humanidade”, sublinhou.

DESAFIOS MISSIONÁRIOS

Dom Cláudio recordou, ainda, que, na história da evangelização da Amazônia, a Igreja sempre contou com missionários, de ordens e congregações religiosas e padres diocesanos. “Ao lado dos missionários, houve também sempre numerosas lideranças leigas e indígenas que deram testemunho heroico”, reiterou.

“Por outro lado, a história da Igreja na Pan-amazônia mostra que sempre houve grande carência de recursos materiais e de missionários para um desenvolvimento pleno das comunidades, destacando-se a ausência quase total da Eucaristia e de outros sacramentos essenciais para a vivência cristã cotidiana”, acrescentou o Relator-Geral, ressaltando a carência de sacerdotes a serviço das comunidades locais. 

MINISTÉRIOS

Nesse sentido, Dom Cláudio lembrou que, durante a fase preparatória de escuta às comunidades locais, missionários e comunidades indígenas pediram que, “reafirmando o grande valor do carisma do celibato na Igreja, contudo, diante da gritante necessidade da imensa maioria das comunidades católicas na Amazônia, ali se abra caminho para ordenação presbiteral de homens casados, que residam nas comunidades”.

Ao mesmo tempo, ouviu-se nas consultas contidas no Instrumento de Trabalho do Sínodo, que, diante do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazônia, busque-se caminhos para o reconhecimento desse serviço e se procure consolidá-lo com “um ministério adequado” para essas mulheres, sem, no entanto, afirmar que se trate de um ministério ordenado.

ALTERNATIVAS

A respeito do tema dos ministérios, o Prefeito do Dicastério da Comunicação e presidente da Comissão para Informação deste Sínodo, Paolo Ruffini, explicou, durante a Conferência de imprensa desta segunda-feira, que essa “não é a única possibilidade”, ou seja, que não significa que essa seja a resposta a ser dada para o desafio da carência sacramental. No entanto, ele afirmou que seria errôneo da parte dos padres sinodais não considerar nas reflexões da assembleia um pedido proveniente da comunidade católica da Amazônia.

De igual modo, a Sala de Imprensa da Santa Sé esclareceu que o tema da falta de sacramentos nas comunidades amazônicas foi tratado durante a Assembleia, reconhecendo que se trata de uma nessesidade legítima, mas que não pode ser condicionada ao fato de repensar substancialmente a natureza do sacerdócio e sua relação com o celibato, previsto para a Igreja de rito latino. “Em vez disso, sugeriu-se uma pastoral vocacional entre os jovens indígenas, a fim de favorecer a evangelização até mesmo das regiões mais remotas da Amazônia, de modo que não sejam criados ‘católicos de primeira classe’ que possam se aproximar facilmente da Eucaristia, e ‘católicos de segunda classe’, destinados a permanecer sem o Pão da vida, por até dois anos consecutivos”, informou o comunicado.  

INSTRUMENTUM LABORIS

Sobre o Instrumento de Trabalho, o Cardeal Baldisseri lembrou que esse se constituirá “o ponto de referência e a base necessária da reflexão e do debate sinodal e não um texto para fazer emendas”.

Isso também foi ressaltado pelo próprio Papa Francisco, que o definiu como um texto “mártir, destinado a ser destruído”, pois é o ponto de partida para os trabalhos da Assembleia. 

PARTICIPANTES

O Sínodo conta com a participação de 185 padres sinodais, seis delegados fraternos, 12 enviados especiais, 25 especialistas, 55 auditores (homens e mulheres), entre os quais especialistas e agentes pastorais provenientes de todo o território pan-amazônico. “Entre eles, destaca-se a presença de 16 representantes de diversas etnias indígenas e povos originários que trazem a voz, o testemunho vivo das tradições, da cultura e da fé das suas populações”, frisou o Secretário-Geral. 

METODOLOGIA

A assembleia sinodal se realizará por meio das congregações gerais, dos círculos menores – que terão início em 10 de outubro, dos pronunciamentos dos participantes, da troca de opiniões “no espírito da comunhão fraterna”, até a elaboração do projeto do documento final que será apresentado à assembleia em 21 de outubro. No dia 26 será feita a votação do documento e a conclusão dos trabalhos. Esse Documento Final será entregue ao Papa que, posteriormente, poderá redigir uma exortação pós-sinodal, com suas decisões feitas a partir da escuta daquilo que foi refletido no Sínodo.

(Com informações de Vatican News - Fotos: Vatican Media)

 

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07 de outubro de 2019

Os trabalhos da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia começaram na manhã desta segunda-feira, 7, com um momento de oração diante do túmulo de São Pedro, na Basílica Vaticana, com a presença do Papa Francisco, seguido de uma procissão dos participantes do sínodo até a sala sinodal.

Na saudação inicial da Assembleia, o Santo Padre destacou que o Sínodo para a Amazônica tem quatro dimensões: pastoral, cultural, social e ecológica.

“A primeira [dimensão] é essencial porque abarca tudo e vemos a realidade da Amazônia com olhos dos discípulos, porque não existem hermenêuticas neutras, ascéticas, sempre estão condicionadas a uma opção prévia, e a nossa opção prévia é a dos discípulos. Mas também com olhos missionários, porque o amor que o Espírito Santo colocou em nós nos impulsiona ao anúncio de Jesus Cristo”, disse o Papa.

PERIGO DAS IDEOLOGIAS

O Pontífice advertiu para o que chamou de “colonizações ideológicas” que destroem ou reduzem os costumes e identidades dos povos originários.  “As ideologias são uma arma perigosa”, afirmou, porque levam a visões redutivas, a entender sem admirar, sem assumir, sem compreender.

Contra o risco de medidas pragmáticas, o Papa propõe a contemplação dos povos, a capacidade de admiração e um pensamento paradigmático. “Se alguém veio com intenções pragmáticas, converte-se para atitudes paradigmáticas, que nasce da realidade dos povos”, destacou.

ESPÍRITO SANTO

O Sando Padre reiterou que não se reuniram em sínodo para “para inventar programas de desenvolvimento social ou custódia de culturas, do tipo museu, ou de ações pastorais com o mesmo estilo não contemplativo com o qual se estão levando adiante as ações de sentido oposto: desmatamento, uniformização, exploração”. “Viemos para contemplar, compreender, servir os povos e fazemos percorrendo um caminho sinodal, não numa mesa-redonda, em conferências ou em discursos, mas em sínodo. Porque um Sínodo não é um parlamento, um locutório, é um caminhar juntos sob a inspiração do Espírito Santo e o Espírito Santo é o protagonista do Sínodo”, afirmou.

INSTRUMENTO DE TRABALHO

Sobre o Instrumento de Trabalho do Sínodo, documento feito pelo conselho pré-sinodal, fruto das consultas às comunidades amazônicas, o Papa o definiu como um texto “mártir”, destinado a ser destruído, pois é o ponto de partida para os trabalhos da Assembleia. “Vamos caminhar sob a guia do Espírito Santo, deixar que Ele se expresse nesta assembleia, entre nós, conosco, através de nós e se expresse apesar da nossa resistência”, destacou.

Para assegurar que a presença do Espírito Santo seja fecunda, Francisco indicou antes de tudo a oração: “Rezemos muito”. “É preciso também refletir, dialogar, escutar com humildade, sabendo que eu não sei tudo e falar com coragem, com paresia, “mesmo que tenha que passar vergonha”, discernir e tudo isso dentro, custodiando a fraternidade que deve existir aqui dentro”, enfatizou.

ORAÇÃO

Para favorecer a atitude de reflexão, oração, discernimento, depois das intervenções haverá um espaço de quatro minutos de silêncio. “Pois estar no Sínodo é entrar num processo, não é ocupar um espaço na sala, e os processos eclesiais têm necessidade de ser custodiados, cuidados com delicadeza, com o calor da Mãe Igreja”, reiterou o Papa.

O Pontífice, então, indicou prudência ao falar com os jornalistas, para não se criar a impressão de que exista um “Sínodo dentro, que segue um caminho da Igreja Mãe, de cuidado dos processos”, e um “Sínodo fora que, por uma informação dada com rapidez, dada com imprudência,  que move os jornalistas a equívocos”.  “Uma informação imprudente leva a equívocos”, alertou.

Por fim, Francisco agradeceu a todos pelo trabalho. “Obrigado por rezar uns pelos outros e ânimo”.

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Pensar numa Igreja com rosto amazônico

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18 de junho de 2018

Renovar os ministérios e revelar uma espiritualidade com um verdadeiro “rosto amazônico”. A organização da assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, convocada pelo Papa Francisco, começa com forte espírito missionário. Divulgado na sexta-feira, 8, o Documento Preparatório fala da necessidade de se aumentar e solidificar a presença da Igreja na região e responder melhor às necessidades pastorais da população local, respeitando as culturas e adaptando algumas práticas. 

“Uma missão encarnada exige repensar a escassa presença da Igreja em relação à imensidade do território e à sua variedade cultural”, diz o Documento, cuja função é lançar questões e iniciar uma reflexão sobre o tema escolhido, “Amazônia, novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. 

Pessoas que vivem aquela realidade devem responder a um questionário. A consulta servirá de base para a elaboração de um Instrumentum laboris , texto que guiará os trabalhos dos padres sinodais. A assembleia, convocada pelo Papa Francisco, será em outubro de 2019. 

Além do enorme território da Amazônia, o Documento reconhece outras peculiaridades da zona do planeta chamada “pan-amazônica”. Entre elas, a grande variedade cultural, ambiental e a forte influência de interesses econômicos nacionais e internacionais que têm impacto direto sobre população e a natureza locais. 

 

IDENTIDADE AMAZÔNICA

O Documento insiste na necessidade de melhorar a vida das comunidades já existentes, tanto por meio de serviços sociais, como saúde, saneamento básico e obras sociais, quanto pelo desenvolvimento de uma identidade cristã contemplativa e ativa, que seja, de fato, característica da Amazônia. 

Por um lado, há o forte vínculo entre “o elemento social e o elemento ambiental”, diz o texto, remetendo à Encíclica Laudato Si’ , do Papa Francisco. “Portanto, o processo de evangelização da Igreja na Amazônia não pode ser separado da promoção do cuidado do seu território (natureza) e de seus povos (culturas)”, afirma o Documento. 

Por outro lado, há que se pensar com criatividade nas práticas pastorais, na administração dos sacramentos e nos vários ministérios eclesiais. “A Igreja é chamada a aprofundar sua identidade, colocando-se em relação com as realidades dos territórios em que vive e a acrescentar a própria espiritualidade, colocandose à escuta da sabedoria dos povos que a compõem”, sugere o Documento. Por esse motivo, a assembleia “é chamada a identificar novos caminhos para fazer crescer o rosto amazônico da Igreja”.

 

ESTABELECER PRIORIDADES

O Documento fala em se “estabelecer uma hierarquia das urgências” pastorais na região. Por exemplo, há grande dificuldade para que as pessoas possam participar da missa, ser batizadas ou participar de um curso de noivos, seja por falta de sacerdotes ou por causa do isolamento geográfico de algumas comunidades. “É preciso projetar novos caminhos para que o povo de Deus possa ter um acesso melhor e frequente à Eucaristia, centro da vida cristã”, recorda. 

Entre as prioridades a serem avaliadas, o texto menciona “especificar os conteúdos, métodos e comportamentos de uma pastoral inculturada” e “propor novos ministérios e serviços para os diversos agentes pastorais, que respondam às tarefas e responsabilidades da comunidade”. 

Nesse contexto, “é necessário identificar que tipo de ministério oficial possa ser conferido à mulher, considerando o papel central que as mulheres revestem hoje na Igreja amazônica” - aparentemente, uma referência às inúmeras religiosas, missionárias e pessoas leigas que, além de acompanhar o dia a dia das comunidades podem, de maneira excepcional, na falta de sacerdotes e diáconos, receber permissão para celebrar a Palavra, distribuir a comunhão ou presidir algumas cerimônias.

“É necessário, ainda, sustentar o clero indígena e nativo do território, valorizando a sua identidade cultural e os valores próprios”, completa o texto.

 

OBJETIVOS E PARTICIPAÇÃO

Conforme explicou o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da Rede Eclesial Pan-amazônica (Repam), em vídeo apresentado no lançamento do Documento, “o objetivo principal dessa convocação do Papa Francisco é identificar novas estradas para evangelização daquele povo de Deus, especialmente os indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno”.

Dom Cláudio lembrou que a Floresta Amazônica vive um momento de crise, embora seja “de capital importância para o nosso planeta”. Portanto, em suas palavras, é preciso “atualizar e reforçar a evangelização, percorrendo novos caminhos e, paralelamente, proteger a casa comum neste território tão especial e ao mesmo tempo tão ameaçado”.

Participarão da assembleia todos os bispos da região – são 102, sendo 57 do Brasil – além de membros nomeados pessoalmente pelo Papa, representantes da Repam, alguns bispos da América Latina, membros da Cúria Romana, especialistas leigos, observadores de outras religiões e confissões cristãs, e religiosos e religiosas dedicados ao povo da Amazônia.
 

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