Após ciclone, ajuda humanitária enviada para Moçambique ainda é insuficiente

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16 de mai de 2019

“Vejo, todos os dias, um povo que, diante da dor e do sofrimento, tem a coragem de recomeçar e a força de lutar por dias melhores, pois é assolado de muitas formas: pobreza, calamidades naturais, desafios na saúde e diferentes tipos de conflitos. Mas, mesmo assim, é capaz de celebrar a vida na firme esperança de que dias melhores estão por vir. Ver a beleza de um povo que vive uma triste lembrança da guerra do passado, a luta do presente e a grande e desejada esperança, de um futuro de paz e dias melhores, é marcante para mim”

A frase é do Frei Boaventura dos Pobres de Jesus Cristo, 36, do Instituto dos Pobres de Jesus Cristo, que é paulistano e está em Moçambique há um ano e doismeses, como missionário enviado pelo Instituto do qual faz parte.

Após a passagem do ciclone que atingiu a região norte do País, no dia 27 de abril, o Frade falou ao jornal O SÃO PAULO sobre a ajuda humanitária que tem chegado a Moçambique, e como os brasileiros podem colaborar com as pessoas afetadas, que já somam 254 mil.

Ao todo, 45 pessoas morreram com a ocorrência deste fenômeno climático em Moçambique, que, pela primeira vez, foi atingido por dois ciclones na mesma época chuvosa (de novembro a abril). Em março, outro ciclone atingiu a região central do País e deixou mais de mil mortos.

 

O SÃO PAULO – COMO TEM SIDO O DIA A DIA DA MISSÃO EM MOÇAMBIQUE?

Frei Boaventura dos Pobres de Jesus Cristo – Nossa equipe missionária é composta por quatro pessoas. Um padre, que sou eu; um religioso e duas irmãs religiosas. Assumimos, desde que chegamos a Moçambique, uma missão ao norte da província de Cabo Delgado, situada já na fronteira com a Tanzânia. Somos os primeiros missionários a residir no local de nossa missão. Nosso dia a dia é marcado por surpresas. Difícil dizer que existe uma rotina, pois, além dos horários que marcam o dia de um religioso, somos surpreendidos por muitas realidades: socorrer pessoas doentes por causa de casos graves de malária, cólera e tantas outras; visitar pessoas abandonadas pela sociedade e pelas famílias; acompanhar doentes que foram mutilados no tempo da guerra; fazer curativos por ocasiões diversas; atender as pessoas que vêm de outras aldeias para conversar e pedir ajuda; além de todos os serviços pastorais de nossa Paróquia, que possui 63 comunidades, divididas em um território de 200km de um extremo ao outro.

 

QUAL É A SITUAÇÃO DAS PESSOAS APÓS O CICLONE?

O ciclone foi um fato inédito, pois em menos de dois meses o centro do País passava por momentos de ganho de forças para se reestabelecer de um ciclone que devastou grande parte das províncias do centro e depois chegou até nós. Posso dizer que foram muitos estragos. Há poucos dias, quando passávamos nas estradas e pelas cidades mais atingidas, vimos o desespero das pessoas que perderam tudo: casas, bens, alimentos, plantações... Além de tudo, constatamos que 90% de três distritos, por causa da entrada do ciclone por terra, ficaram destruídos e vulneráveis em todos os sentidos, levando a óbito, até o presente momento, 45 pessoas. Nos distritos ao redor, as pessoas sentiram as consequências com ventos muito fortes e chuvas intensas que levaram casas ao chão, com grande número de árvores e postes de luz caídos, além de cortes em muitas estradas, até mesmo a queda de uma ponte que liga a região norte da província à cidade de Pemba. Na cidade, próxima do mar, houve muitos pontos de alagamento e destruição, levando muitas famílias a perder tudo e a necessitar de abrigos até a recuperação do básico para viver. Há, também, elevado aumento dos casos de cólera.

 

AS PESSOAS FORAM AVISADAS SOBRE A POSSIBILIDADE DE UM CICLONE?

Graças a esta previsão, houve por parte de toda a Igreja Católica, instituições e órgãos do Governo uma grande mobilização e um grande movimento que teve o objetivo de avisar o povo em áreas de risco da necessidade de deixar os lugares, além de disponibilizar escolas e até mesmo os templos das Igrejas Católicas para servir de abrigo. Muitos cuidados foram tomados para evitar danos ainda maiores.

 

QUAIS AS PRINCIPAIS NECESSIDADES DAS PESSOAS HOJE?

As principais necessidades são de recursos que possibilitem às pessoas reconstruir suas casas e ter acesso a alimentos, água potável e roupas, e voluntários que possam orientar a população a se manter calma. Também profissionais que possam atender os doentes e feridos.

 

COMO TEM CHEGADO A AJUDA HUMANITÁRIA? É SUFICIENTE?

A ajuda humanitária tem chegado por meio do governo da província e do País. Mas não é suficiente. A situação se agrava devido às condições das estradas, e faltam meios que possibilitem o acesso aos lugares mais longínquos.

 

O MUNDO DEMOROU A SE VOLTAR PARA ESSA CATÁSTROFE EM MOÇAMBIQUE. A QUE O SENHOR ATRIBUI ISSO?

Creio que a África enfrenta muitas dificuldades em diversas áreas e situações. Diante de tantas tragédias que acontecem hoje, o mundo se acostuma a olhar de maneira indiferente para essas realidades e a cruzar os braços, por ver que estão muito distantes. Digo por experiência que ouvir falar somente de um desastre natural ou olhar fotos é bem diferente de estar com o povo que sofre e viver com ele todas essas realidades.

 

COMO OS BRASILEIROS PODEM AJUDAR?

A Diocese de Pemba e a Cáritas diocesana têm disponibilizado contas bancárias para esse fim.
 

SOS CÁRITAS

Para organizar a solidariedade brasileira com as populações atingidas, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Cáritas Brasileira lançaram a campanha SOS África. O SOS África conclama a sociedade brasileira, as dioceses, paróquias, comunidades, congregações religiosas, colégios e todas as pessoas de boa vontade para uma grande corrente de oração e solidariedade em favor das pessoas atingidas pelo ciclone. Os recursos arrecadados serão utilizados para ações de socorro imediato, como a disponibilização de água potável, alimentos, roupas, cobertores, kits de higiene, remédios, primeiros socorros e tendas, que serão coordenadas pela Cáritas Internacional, um organismo da Santa Sé. Com a solidariedade de cada pessoa, a Cáritas Internacional quer ainda ajudar na reconstrução de moradias e na melhoria dos meios de vida das populações afetadas.

Três contas bancárias que são geridas pela Cáritas Brasileira estão disponíveis para doações. Para DOC e TED, o CNPJ da Cáritas Brasileira é: 33.654.419/0001-16.

Banco do Brasil

Agência: 0452-9

Conta Corrente: 49.667-7

Caixa Econômica Federal

Agência: 1041 – Operação: 003

Conta Corrente: 4322-3

Santander

Agência: 3100

Conta Corrente: 13.061645-0

 

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Ajuda humanitária a Moçambique, Malawi e Zimbábue

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28 de março de 2019

O Papa Francisco doou 150 mil euros (R$ 660 mil) a Moçambique, Zimbábue e Malawi, três países africanos duramente atingidos pelo ciclone Idai. Regiões foram devastadas e o número de mortos pode chegar aos milhares. Há pelo menos 1 milhão de pessoas desabrigadas, feridas ou que passam fome.

De acordo com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, por meio do qual foi enviada a doação, a cidade de Beira, em Moçambique, foi arrasada pelo ciclone, que comprometeu redes hídricas, elétricas e sanitárias.

O Papa expressou sua dor e “confia as vítimas e famílias à misericórdia de Deus”. Diversas instituições da Igreja precisam de dinheiro para a reconstrução dos lugares, entre elas a Cáritas e a Fazenda da Esperança, que recebem doações em seus sites ou por depósitos bancários.

 

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