‘Só é possível mensurar o drama da população de rua acompanhando-a diariamente’

Por
25 de julho de 2019

As baixas temperaturas nas madrugadas agravam ainda mais a situação da população de rua na cidade de São Paulo. Diante disso, o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) oferece um importante auxílio para essa população. O Sefras é formado pelo Sefras Pop Rua São Paulo, que é um espaço de acolhida, escuta e partilha, e o Serviço Franciscano de Reciclagem, o Recifran, na região do Glicério.
Frei José Francisco de Cássia dos Santos, Diretor-Presidente do Sefras, disse, em entrevista à rádio 9 de Julho, que são muitos os motivos que levam as pessoas para as ruas e que houve aumento dessa população e diminuição da quantidade de doações devido à crise econômica. O Franciscano explicou detalhes do trabalho realizado, sobretudo no Centro de São Paulo. “O Serviço Franciscano de Solidariedade visa oferecer conforto físico e espiritual para essas pessoas”, afirmou o Frei. 

 

O SÃO PAULO - QUAIS SÃO OS SERVIÇOS OFERECIDOS PELO SEFRAS ÀS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA?
Frei José Francisco dos Santos – Nós estamos, tradicionalmente, na região central da cidade, onde existe a maior concentração da população de rua. Temos dois serviços atualmente: o primeiro acolhe pessoas que estão no processo de saída do sistema de assistência social, a quem oferecemos uma oportunidade de geração de renda por meio da triagem da reciclagem. Com este trabalho e o acesso a alguma renda, ajudamos as pessoas, pouco a pouco, deixarem os equipamentos públicos, como albergues, para que possam ter acesso a uma moradia, mesmo que seja um pequeno quarto. Esse serviço atende cerca de 50 pessoas diariamente. 
Temos, contudo, um serviço de acolhida que tem atendido, em média, 800 pessoas diariamente, no Convento de São Francisco, no centro de São Paulo. As próprias pessoas em situação de rua intitularam este serviço de “Chá do Padre”, em que começamos o trabalho tradicional dos Franciscanos chamado “Pão dos Pobres de Santo Antônio”. O local foi se transformando em um ambiente de acolhimento, por oferecer, todas as tardes, um lanche composto de pão e chá. Com o tempo, conseguimos ampliar o serviço e oferecer banhos, sanitários e refeições, além de uma média de 300 almoços. 

QUAL O PERFIL DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA ACOLHIDA TODOS OS DIAS PELO SEFRAS?
Nossa experiência, nos últimos tempos, tem mostrado novas configurações e perfis de pessoas, devido à crise econômica que estamos vivendo e que tem consequência imediata na população de rua. Muitas pessoas estão nas ruas devido à crise econômica. Se, há cinco anos atrás, atendíamos 400 pessoas, esse número dobrou e o perfil dos atendimentos também se modificou. É muito difícil trabalhar com um único diagnóstico para tratar a população de rua. Também por esse motivo vemos que a gestão pública tem dificuldade e as políticas públicas são precárias. 
Para tratar a população de rua, não basta o encaminhamento simples, porque é algo complexo e a origem de uma pessoa na rua é muito diversificada. Há pessoas que vão para as ruas por causa do rompimento familiar, das drogas, da violência doméstica, do desemprego, da migração. Também há aquelas que saem de sua terra e, chegando a São Paulo, não têm onde ficar, e um grande número de egressos do sistema penitenciário, pessoas que saem sem nenhum tipo de encaminhamento e acabam ficando nas ruas.

O DESEMPREGO É O PRINCIPAL MOTIVO PARA O GRANDE NÚMERO DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA?
Nos últimos anos, com a crise econômica, vemos um número grande de pessoas que foi parar na rua porque perdeu o emprego e a condição de pagar aluguel. O problema da moradia também é algo muito sério. Desse modo, podemos afirmar que, hoje, as pessoas que estão em situação de rua, na sua maioria – entre tantas essas diversidades citadas anteriormente –, são os desempregados. Muitas pessoas trabalham informalmente, vendendo doces no semáforo, nas feiras de diversos produtos e mercadorias que acontecem na cidade, no comércio de roupas e outros objetos.
A maioria da população imagina que uma pessoa em situação de rua está nessa condição devido aos vícios. Uma parte sim, mas não todos. Pelo contrário, existem muitos que encontramos nessa condição transitando pela cidade e não possuem esse perfil. Então, muitas vezes, estamos lidando com uma nessa 
situação, mas não percebemos por não trazer aquela figura de uma pessoa decaída que, às vezes, até enfrenta uma saúde mental mais comprometida. Só é possível mensurar o drama da população de rua acompanhando-a diariamente.

COMO É MANTIDA ESSA OBRA?
Este ano, estamos passando por uma fase muito difícil e desafiadora, pois, no momento em que há uma crise, vivemos a angústia de ver a população de rua aumentar. Não só pelo ponto de vista da sociedade em geral, mas o próprio poder público tem diminuído o serviço de atendimento a essas pessoas. A política pública está cada vez menos atuante nos últimos tempos e tenho percebido a diminuição do atendimento e da disponibilidade de recursos para essas questões sociais da cidade. Como uma organização social, nós vivemos de parcerias com o poder público e empresas da iniciativa privada, que também têm seus fundos de investimento para área social.
Graças a Deus, nós temos várias pessoas que são doadores do Sefras e ajudam a manter as obras. Mas percebemos que essas pessoas de boa vontade que nos ajudam também passam por dificuldades financeiras. Todos os anos, conseguimos, durante o inverno rigoroso, fazer a pernoite para as pessoas em situação de rua no “Chá do Padre”, pois, normalmente, nós só atendemos durante o dia, mas no inverno nós procuramos atender durante a noite, para as pessoas não ficarem ao relento. Mas, para a realização desse atendimento, nós temos um custo, e este ano não conseguimos a parceria para isso acontecer e não tivemos o recurso necessário para oferecer esse pernoite. Este ano, nós estamos apenas com o trabalho durante o dia, que estamos conseguindo manter, mas com muitas dificuldades devido à escassez de recursos.

O QUE É MAIS NECESSÁRIO NESTE MOMENTO E ONDE AS DOAÇÕES PODEM SER LEVADAS?
Nós temos vários espaços na cidade que podem acolher essas doações: no próprio Sefras, na rua Riachuelo, 268, e ainda no Convento São Francisco e na Igreja Santo Antônio do Pari, na região do Brás. As pessoas também podem entrar em contato diretamente conosco para nós indicarmos a melhor forma. Às vezes, a pessoa deseja fazer a doação em dinheiro ou algum tipo de voluntariado. Nesse caso, ela pode entrar em contato por meio do número (11) 3291-4433. Nesse telefone, nós podemos orientar e acolher as pessoas de boa vontade que queiram ajudar nesse trabalho. No momento, temos maior necessidade de roupas de frio, sobretudo masculinas, como calças, blusas e cobertores.

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

Comente

Durante o inverno, Prefeitura amplia serviços a pessoas em situação de rua

Por
25 de julho de 2019

Calçadas, praças, jardins, debaixo de viadutos. Todos são lugares de habitação para milhares de pessoas que, por diversas razões, fazem da rua sua moradia. Apenas na cidade de São Paulo, segundo o último Censo da População em Situação de Rua, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – Fipe (2015), havia 16 mil pessoas em situação de rua. Estima-se que hoje, na Capital Paulista, existam de 20 mil a 25 mil pessoas nessa condição. 


Drogas, problemas de relacionamento, violência, desestrutura familiar são comumente relatados como motivações de muitos para estar na rua.  Mais recentemente, o desemprego tem aumentado esse contingente e diversificado o perfil de quem passou a viver ao relento. 


“O perfil não é daquela pessoa que estava em nosso imaginário. Hoje a maior parte da população de rua continua sendo masculina e aumenta muito o número de jovens. Há também um acentuado crescimento de pessoas idosas, de grupos familiares e mulheres com crianças. São pessoas com escolaridade, experiência profissional e com força de trabalho”, afirma o Padre Júlio Lancellotti, Vigário para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo. 


Entre esses novos casos, está o de Nilton, 52, que há cinco meses vive nas ruas da zona Sul da cidade. Após uma separação, foi viver em uma pensão, no Centro; com o desemprego, não conseguiu mais pagar o quarto. Guarda seus poucos pertences em uma bolsa da qual não se separa, pois quase já foi roubado. Na bolsa, há fotos, anotações de telefone e documentos pessoais para não esquecer que tem uma identidade, uma história, e também que, apesar do presente difícil, permanece a esperança de sair das ruas.


Todos os anos, o problema da população em situação de rua ganha maior visibilidade quando as temperaturas caem. Nesse momento, quem não vive sob um teto pode ser vítima preferencial de patologias preexistentes agravadas. Entre as políticas públicas, a Lei nº 12.316, de abril de 1997, determina que o poder público municipal deva prestar atendimento a essa população, garantindo-lhe padrões éticos de dignidade e não violência na concretização de seus direitos à cidadania.

Ação Municipal 
Nos meses mais frios do ano, durante o período de maio a setembro, a Prefeitura de São Paulo coloca em prática a Operação Baixas Temperaturas. Executada e planejada de forma intersecretarial, a operação é deflagrada quando há previsão de frio abaixo de 13ºC.

Diante de temperaturas menores de 10ºC, a cidade entra em estado de alerta. Nessas ocasiões, a fim de intensificar as ações de acolhimento, são disponibilizadas vagas emergenciais em abrigos, aumentam-se as equipes de abordagem à população de rua e é instituído um esquema especial do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), para socorrer possíveis vítimas de hipotermia ou com danos provocados pelas baixas temperaturas. Segundo a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), foram disponibilizados ônibus para facilitar o transporte das pessoas aos Centros de Acolhida em quatro regiões estratégicas: Sé, Mooca, Santo Amaro e Santana.  As Subprefeituras com grande concentração de pessoas em situação de rua foram orientadas a distribuir cobertores e garrafas de água a essa população.    


Apesar da intensificação da abordagem e o convite para ir a um Centro de Acolhida, a decisão de fazê-lo é da própria pessoa. Além das questões de higiene e segurança, citadas por alguns, nem sempre é fácil para essas pessoas se adaptar às regras dos abrigos.  “Eles (os locais) são massivos. Eles não levam em conta que a população de rua é heterogênea. Por exemplo, um casal que tenha crianças não consegue ficar junto. Existem critérios que eles usam, alguns até são válidos, como dar prioridade aos idosos, mas há muitos jovens que estão na rua e que, se não forem atendidos também, não têm onde ficar e vão se degradar cada vez mais”, avalia o Padre Júlio Lancellotti.  


Rafael Lessa, coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública de São Paulo, entende que os abrigos são necessários, mas não podem ser a única resposta das autoridades. Ele defende a ampliação de políticas públicas que deem mais autonomia à população em situação de rua, como as repúblicas, a locação social e o auxílio aluguel, que hoje não é oferecido à população de rua, apesar das reivindicações nesse sentido.  “O importante é que haja uma porção de formas de atendimento de modo a contemplar a especificidade de cada pessoa, que tem uma história própria. Muitas dessas pessoas, como se constata ao andar pelas ruas de São Paulo, não se adaptam aos esquemas dos Centros de Acolhida, o que as leva a não ir para esses locais”, pontua o Defensor Público. 

Acolhida e Fraternidade
O número 900 da rua Dr. Almeida Lima, no bairro do Brás, é um local de referência para a população de rua há mais de 20 anos.  Com o apoio do Governo do Estado de São Paulo e da Prefeitura do Município de São Paulo, o Arsenal da Esperança atende diariamente 1.200 homens. O local, gerido pelo SERMIG – Fraternidade da Esperança é um dos mais procurados pela localização e pela acolhida humanizada. “O Arsenal talvez seja a maior casa de acolhida da América Latina, uma casa sempre em movimento e que não recebe apenas pessoas em dificuldade material, mas também quem procura um lugar onde se engajar, onde possa fazer o bem”, comenta o Padre Simone Bernardi, missionário do Arsenal da Esperança. O Sacerdote diz que o Arsenal amplia a oferta de vagas para pernoite no inverno e há um grande esforço para atender todos os que os procuram.  A casa aceita doações de alimentos, produtos de higiene e o voluntariado é muito bem-vindo para atuar em diversas áreas: no bazar, na biblioteca, na lavanderia, na sala de medicação, na manutenção e como consultor nas áreas de administração e informática. 

Encaminhamento para abrigos 
A população de São Paulo pode solicitar uma abordagem social por meio da Coordenação de Pronto Atendimento Social (CPAS), que funciona 24 horas por dia, e pode ser acionada pela Central 156. No ato da ligação é gerado um número de protocolo. O cidadão não precisa se identificar, a solicitação de abordagem pode ser anônima, mas é importante ter algumas informações para facilitar a identificação: o endereço da via em que a pessoa em situação de rua está (o número pode ser aproximado); indicar pontos de referência; características físicas e detalhes de como a pessoa a ser abordada está vestida.

Defensoria Pública 
A Defensoria Pública do Estado de São Paulo mantém um serviço de atendimento à população de rua em diversos núcleos da cidade. As principais demandas desse público referem-se à solicitação de serviços públicos na área de saúde, emissão de documentos, busca por vagas fixas em albergues e a discussão em torno da moradia para a população de rua.  O endereço de referência do atendimento especializado à população em situação de rua é rua Boa Vista, 150, Centro.

Abrigos em São Paulo
148 pontos de acolhida, entre fixos e provisórios  
18.411 vagas de acolhimento
Fonte: Prefeitura de São Paulo  

Comente

Cuidados e benefícios da prática esportiva no inverno

Por
21 de agosto de 2018

As regiões sudeste e sul do Brasil são as mais afetadas com as características típicas do inverno, que, no Hemisfério Sul, tem início no dia 21 de junho e termina no dia 22 de setembro. A estação é caracterizada pelas baixas temperaturas, dias mais curtos, noites mais longas, e períodos com baixa umidade do ar. A prática esportiva durante essa estação requer cuidados. 

 

CUIDADOS

É ideal que os exercícios sejam rea- lizados na temperatura média dae 20 graus, pois marcas inferiores a 14 graus são prejudiciais à saúde. O aquecimento deve ser realizado antes de qualquer atividade, porém, no inverno, precisa ser feito com maior atenção, pois no frio a musculatura está mais contraída e tensa, o que aumenta o risco de lesões. 

A atividade física deve começar de forma leve e aumentar gradativamente. O professor e preparador físico Sandro Marcondes recorda que, durante o inverno, o corpo trabalha em dobro, pois se movimenta nas atividades físicas e precisa se manter aquecido. Por isso, é necessário tomar alguns cuidados. 

“No clima frio eu sempre recomendo utilizar um agasalho durante o treino. Se o clima estiver seco, beber bastante água, e procurar se exercitar nas primeiras horas do dia ou no início da noite, para conseguir um pouco de umidade do ar”, afirmou o professor em entrevista ao O SÃO PAULO. Sandro não recomenda a prática esportiva ao ar livre entre às 9h e 16h, principalmente em dias mais secos.

Por outro lado, segundo o professor, o mais importante é a sequência da atividade física, independentemente das condições climáticas, para o corpo “conseguir maior adaptação ao esporte”.

Por outro lado, segundo o professor, o mais importante é a sequência da atividade física, independentemente das condições climáticas, para o corpo “conseguir maior adaptação ao esporte”.

 

BENEFÍCIOS

A atividade física faz bem para a mente e para o corpo. Os benefícios vão muito além de manter ou perder peso. Entre as vantagens, estão a redução do risco de hipertensão, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, diabetes, depressão e quedas em geral. Além disso, a atividade física fortalece ossos e músculos, reduz ansiedade, estresse, melhora a disposição e estimula o convívio social. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 150 minutos semanais de atividade física leve ou moderada (cerca de 20 minutos por dia) ou, pelo menos, 75 minutos de atividade física 
de maior intensidade por semana (cerca de 10 minutos por dia). Mas, a falta de tempo por conta da rotina apertada de trabalho e de estudo faz com que muitas pessoas não façam nenhuma atividade física. Para se ter uma ideia, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2017 mostrou que um a cada dois adultos não pratica o nível de atividade física recomendado pela OMS. Um estudo divulgado pela Organização estima que pessoas sedentárias têm de 20% a 30% mais risco de morte por doenças crônicas, como problemas no coração e diabetes, do que pessoas que realizam ao menos 30 minutos de exercícios três vezes por semana.

 

ALIMENTAÇÃO

A refeição pré-exercício tem como objetivo manter os níveis de glicose no sangue dentro da faixa de normalidade durante o treino, para um bom rendimento durante a atividade. A composição dessa refeição depende de fatores como horário de início dos exercícios, duração, intensidade e modalidade, e de questões individuais como facilidade de digestão dos alimentos e preferências.

“Costumo recomendar que a pessoa consuma mais alimentos, porque o próprio organismo pede isso, é o natural fisiológico nosso. No clima frio, você gasta mais energia, o corpo sente mais fome, e naturalmente você vai ingerir mais alimentos, mas com moderação e cuidado”, reiterou Sandro Marcondes. 

Tanto para os treinos aeróbios (corrida, ciclismo, natação) quanto para os de força (musculação), a sugestão é investir principalmente em fontes de carboidratos. Aposte nas frutas, sucos naturais, frutas secas, pães, batata doce e barras de cereais. Faça a ingestão entre 60 e 20 minutos antes da prática.

(Com informações de Ministério da Saúde e Hospital Albert Einstein)
 

 

 

Comente

E se fosse você?

Por
17 de julho de 2017

Após uma semana de temperatura alta e ar seco em São Paulo, os serviços de meteorologia informaram que o tempo começará a mudar na capital paulista a partir desta segunda-feira, 17.

Mas a virada do tempo vai acontecer mesmo na terça-feira, 18, quando a frente fria passa pelo estado e muda a direção dos ventos e trazem ar frio e úmido do mar para o continente. A previsão é de temperatura entre 10ºC e 15ºC.

Com a queda da temperatura aumentam os casos de mortes de pessoas em situação de rua, realidade que se repete todos os anos.

Na edição de 15 de junho de 2016, o jornal O SÃO PAULO publicou uma reportagem sobre as mortes do povo da rua por causa do frio e as ações de solidariedade promovidas por grupos da Igreja. Confira: 

Pouco se sabe sobre João Carlos Rodrigues, a não ser que ele tinha 55 anos e fazia pequenos “bicos” coletando material reciclável e montando a estrutura de palcos para shows da Prefeitura de São Paulo.

Com o dinheiro desses pequenos trabalhos, ele alugou um quartinho na região da estação Belém do Metrô, onde o valor médio do aluguel de um cômodo simples é próximo a R$ 500. Mas os “bicos” acabaram e João teve que voltar para a rua. E foi atrás das escadarias do terminal de ônibus dessa mesma estação, na zona leste de São Paulo, que ele foi encontrado morto, sozinho, na manhã da sexta-feira, 10 [de junho de 2016], dia em que os termômetros da Capital Paulista registraram temperatura mínima de 5ºC. Ao seu lado, havia apenas uma mochila na qual ele guardava roupas doadas e documentos.

“Nós o conhecíamos na convivência com o pessoal de rua, vinha na igreja buscar as coisas que necessitava”, relatou o Padre Julio Lancellotti, vigário episcopal para a Pastoral da Povo da Rua. Entre as coisas que João Carlos buscava na Paróquia São Miguel Arcanjo, na Região Belém, estava o cobertor com o qual ele foi encontrado enrolado.

João Carlos não foi a única vítima do frio que atingiu a Cidade nos últimos dias. Na avenida Paulista, cartão postal de São Paulo, próximo ao cruzamento com a não menos conhecida avenida Brigadeiro Luís Antônio, Adilson Roberto Justino, de idade não identi cada, morreu na madrugada do domingo, 12. Uma testemunha chamou a Polícia Militar por volta das 4h, quando o encontrou sofrendo uma convulsão. Os policiais chamaram o socorro, mas Justino não resistiu.

No bairro de Santana, na zona Norte, dois corpos não identificados também foram encontrados. Um, localizado na rua Doutor Gabriel Piza, próximo ao metrô Santana, na quinta-feira, 9, é de um homem. O outro é de uma mulher, achado na avenida Cruzeiro do Sul, perto do Terminal Rodoviário do Tietê, no domingo, 12.

“Os dois casos de Santana, eu descobri quando estava indo ver a situação do morador morto na Paulista, e lá fiquei sabendo dessas duas pessoas que faleceram por conta do frio, o que acontece normalmente no período da manhã. Sempre há alguém que informa”, relatou o Frei Agostino, da Comunidade Voz dos Pobres, que também atua na Pastoral do Povo da Rua. Na madrugada da segunda-feira, 13, dia em que o Centro de Gerenciamento de Emergência (CGE) registrou a temperatura mais baixa dos últimos 12 anos em São Paulo (0º C), mais uma vítima foi encontrada, dessa vez diante do número 107 da rua Amazona, no Bom Retiro. Segundo a Polícia Militar, Nailson Paulo Batista, 51, passou mal no período da tarde. O Samu foi acionado, mas o rapaz já estava morto quando a equipe chegou ao local. Ele foi identificado por causa de uma carteirinha do posto de saúde que portava.
Quem serão os próximos ‘Joãos’, ‘Nailsons’, ‘Justinos’, vítimas da noite fria nas calçadas, praças, diante de comércios, residências e monumentos? Como ajudar os que mais sofrem com as baixas temperaturas na “selva de pedra”?

“O ‘problema dos pobres’ desafia toda a cidade de São Paulo a se mostrar acolhedora e sensível diante das necessidades do próximo. Mais do que seu patrimônio e riqueza mate- rial, vale cada ser humano, que nela habita e precisa ser acolhido amparado. A maior riqueza da cidade são as pessoas sensíveis e solidárias diante dos sofrimentos do próximo. Elas humanizam a vida da cidade”, afirma a nota da Arquidiocese de São Paulo, assinada pelo arcebispo metropolitano, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, e pelo Padre Julio Lancellotti. “Lembremos sempre as palavras de Jesus: tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes (cf. Mt 25,40). Isso mesmo também ensina a sabedoria popular: ‘o que se dá ao pobre, empresta-se a Deus’”, continua o texto.

Ajuda concreta

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Ana Maria da Silva Alexandre, agente de pastoral e colaboradora da Casa de Oração do Povo da Rua, entidade liga- da ao Vicariato Episcopal para o Povo da Rua, informou que além dos cobertores, meias e agasalhos, há a necessidade de doações de leite, chocolate, açúcar, margarina e água.

“Tudo que chega de doação é prontamente destinado aos irmãos em situação de rua. Distribuímos as doações para diversos grupos que acolhem esses irmãos”. Ana destacou, ainda, que todas as noites os grupos se revezam para realizar a visita pastoral nas ruas, levando alimentos, cobertores, indicando locais e abri- gos para os que desejam, e também evangelizando os irmãos.

Padre Giampetro Carraro, fundador da Missão Belém, também destacou a situação emergencial da comunidade que acolhe por dia aproximadamente 40 pessoas em situação de rua e precisa de 200 quilos de arroz para alimentá-las. A Missão Belém também busca doações de cobertores, agasalhos e roupas. Frei Tarcísio, da Fraternidade O Caminho, que também atua no acolhimento aos pobres, disse ao Semanário da Arquidiocese, em maio, sobre a preocupação com os que mais sofrem no inverno. “Para aqueles que estão em situação de rua, é muito mais difícil. Às vezes, um cobertor numa noite fria pode salvar uma vida”. Para o Frei, o ato de vestir os nus é mais que uma obra de misericórdia. “O que nos move para ir ao encontro do irmão é o próprio Evangelho, é olhar as pessoas com misericórdia e enxergar o Cristo que há em cada uma delas”, disse, complementando que é durante o inverno que eles acolhem muitas pessoas em situ- ação de rua com doenças respiratórias, como pneumonia e tuberculose.

Segundo o Censo da População em Situação de Rua de 2015, feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) da Prefeitura de São Paulo, são 15.905 pessoas em situação de rua na Cidade. Dessas, 13.046 são do sexo masculino e 52,7% do total estão na região da Subprefeitura Sé. Para Frei Agostino, esse número é maior. “A Prefeitura fala em 15 mil, mas segundo a Pastoral do Povo de Rua são 20 mil pessoas”. De acordo com o Padre Julio, que acompanha há mais de 20 anos essa realidade, a Prefeitura não disponibiliza abrigos emergenciais em toda a Cidade para acolher os irmãos.

Vença o frio com solidariedade

As notícias das mortes por conta do frio geraram uma onda de solidariedade entre as pessoas, grupos, famílias, associações, entidades e igrejas, com iniciativas em favor dos irmãos de rua. Nas redes sociais, as pessoas têm se mobilizado em campanhas de arrecadação de agasalhos, cobertores, meias e alimentos.

A Arquidiocese de São Paulo, por meio da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, do Jornal O SÃO PAULO e da rádio 9 de Julho, iniciou em maio a Campanha do Agasalho 2016, orientando que as paróquias, comunidades, colégios e instituições coloquem uma caixa de papelão em lugar visível para arrecadação dos agasalhos. A campanha acontecerá enquanto o frio persistir. O material arrecadado pode ser distribuído no entorno das comunidades e poderá também ser enviado às seguintes entidades sociais: Centro de Referência para Refugiados, Aliança de Misericórdia, Missão Belém, Arsenal da Esperança, Casa do Migrante, Casa de Oração do Povo da Rua, ou para algumas outras das vá- rias organizações da Igreja que trabalham com a população em situação de rua e abrigamento.

O Centro de Juventude da Companhia de Jesus no Brasil (Anchie- tanum), dedicado à formação e ao acompanhamento da juventude, e o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) estão realizando a Campanha “Doar é gesto de Solidariedade”, que arrecadará agasalhos, meias, roupas e cobertores para serem doados em diversos pontos da Cidade. A arrecadação ocorrerá até o m de junho, podendo ser estendida até julho, nos dias de semana das 8h às 19h, ou em dias de atividade do Anchietanum. O endereço para a entrega das doações é na rua Apinajés, 2.033, Sumarezinho, próximo à estação Vila Madalena do Metrô.

Campanhas de arrecadação de dinheiro via internet têm mobiliza- do diversas pessoas. Este é o exemplo da iniciativa do jornalista André Graziano, no site “Vakinha” (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/co- bertores-2016), que arrecada dinheiro para a compra de meias e cobertores para as pessoas em situação de rua. A Campanha começou em 1o de maio e se encerra em 15 de agosto, com o objetivo de bater a meta de R$ 5 mil.

Também a página do Facebook “Calor Humano” é voltada para arrecadar dinheiro a ser utilizado para comprar cobertores e meias, que serão distribuídos para entidades ligadas à Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.

O Arsenal da Esperança há muitos anos vem acolhendo moradores, abrindo suas portas diariamente para 1.200 homens que se encontram em dificuldades, o assim chamado “povo em situação de rua”: jovens e adultos que sofrem pela falta de trabalho, casa, alimentação, saúde e família. Segundo o Padre Lorenzo Nacheli, membro do Sermig – Fraternidade e Esperança, a média de pessoas acolhidas nestes tempos frios subiu para 1.250 homens por noite.

 

Publicado em O SÃO PAULO, edição 3106, de 15 a 21 de junho de 2016.

Comente

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.