Testemunhas do amor e da esperança que transformam o ambiente hospitalar

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12 de mai de 2019

Em um hospital, não há dúvidas de que a UTI é um dos lugares mais temidos. Essa sigla é imediatamente associada a um lugar repleto de dor, sofrimento, em que a ideia da morte está sempre presente, ainda mais quando se trata de uma UTI neonatal ou pediátrica. Definitivamente, ninguém suporta a ideia de ao menos pensar em uma criança sofrendo.

No entanto, depois de frequentar esse ambiente por alguns dias, entende-se o verdadeiro sentido do nome: unidade de terapia intensiva. E, de fato, esse é um lugar onde tudo é vivido de forma bastante intensiva, inclusive o amor e a esperança.

 

IMERSÃO 

Ao entrar pela primeira vez em uma UTI pediátrica de um hospital em São Paulo, em meio ao som dos monitores de sinais vitais, choros, da movimentação de enfermeiras, uma cena chama atenção: junto aos leitos, em pé, com visível cansaço, mas sem perder a esperança, estão elas, as mães. Elas acariciam seus filhos, quando possível, pegam-nos no colo, mesmo que presos aos eletrodos e sondas, ou, então, apenas contemplam com o olhar seus pequenos intubados, sedados, aguardando uma reação.

Depois de dez dias acompanhando a recuperação do meu filho, de 8 meses, após uma cirurgia cardíaca, pude conhecer de perto a vida dessas mães da UTI. E esta reportagem, em vista do Dia das Mães, comemorado no domingo, 12, busca contar um pouco sobre o quanto essas mulheres vivem a maternidade de forma intensa e sobre o quanto presença delas torna o ambiente hospitalar mais humano.

 

SEGUNDA CASA

Fora da UTI, há uma sala de apoio para os acompanhantes, com banheiro, poltronas e uma televisão. Lá, alguns ficam alguns minutos para descansar um pouco, recobrar as forças e deixar as lágrimas contidas quando estão junto dos filhos. “Eles precisam que estejamos bem, firmes. Isso os ajuda a se sentirem mais seguros”, comentava uma mãe com outra, enquanto comia uma barra de cereais.

Também é possível ver pais que revezam com suas esposas e, quando há necessidade, autorizam a permanência dos avós. No entanto, na maioria, os acompanhantes são as mães, até por razões naturais, como a necessidade de amamentação e o maior vínculo que possuem com os filhos.

A maioria desses pais havia programado ficar alguns dias apenas, mas, devido a complicações na saúde dos filhos, estão lá há semanas ou até meses. Aquele lugar virou a extensão de suas casas, quando não passa a ser o único lugar onde vivem por longos períodos.

 

HISTÓRIAS

A professora de Física Tenille Martins Victoria, 33, aprendeu a ser mãe dentro da UTI do Hospital Sepaco, em São Paulo. Quando sua filha, Catarina, nasceu, em 3 de fevereiro de 2017, a menina foi encaminhada direto para a terapia intensiva, por causa de uma série de malformações no coração, diagnosticada durante a gestação. Foram 60 dias diretos na UTI. 

Com 40 dias de vida, Catarina foi ao centro cirúrgico para ser submetida à sua primeira cirurgia. No entanto, logo após a aplicação da anestesia, a bebê sofreu uma parada cardíaca. Tentaram reanimá-la por 13 minutos, sem sucesso, a ponto de ser declarado o seu óbito. Então, quando o cirurgião abriu o peito da bebê para verificar a causa da morte, o coração voltou a bater. “Até hoje, ele não sabe explicar como isso aconteceu”, relatou Tenille.

Depois disso, Catarina ficou mais 15 dias na UTI sem os pais saberem quais seriam as consequências dessa complicação. “A princípio, estimavam que ela demoraria uma semana para acordar e provavelmente ficaria com sequelas. Só que ela acordou menos de 48 horas depois da parada, como se nada tivesse acontecido”, contou a mãe.

A cirurgia foi finalmente realizada após um mês, sendo bem-sucedida. Com 8 meses, Catarina passou por uma nova cirurgia e, em outubro de 2018, aconteceu a terceira e mais complexa cirurgia com dez horas de duração, no Instituto do Coração (Incor).

 

VÍNCULOS

Vivendo tanto tempo “internadas” com seus filhos, é inevitável que essas mães criem laços com outras mães e seus filhos, gerando uma verdadeira rede de amizade e solidariedade.

Com Tenille não foi diferente. “Logo que entrei na UTI pela primeira vez, eu dei de cara com os dois bebês prematuros. Eram muito pequenos, deviam pesar entre 600 e 700 gramas, pele avermelhada. Eles ficavam nas incubadoras ao lado da Catarina”, recordou.

Os recém-nascidos eram filhos da analista jurídica Karen Cristina Bonfim Guerreiro, 39, e de Diego Guerreiro Paulo, 40. Ela teve uma gestação tranquila até a 24ª semana. Quando estava para completar 25 semanas, entrou em trabalho de parto e deu à luz os prematuros Théo e Miguel.

As duas mães ficaram muito próximas, uma dando força para a outra nessa jornada de alegrias e tristezas. No mesmo dia em que Tenille comemorava a notícia de que Catarina receberia alta da UTI, ela consolava a amiga que chorava a morte de um de seus gêmeos, Théo, que não resistiu às complicações da prematuridade.

 

UM DIA DE CADA VEZ

“Quando nós descobrimos a gravidez, imaginamos tudo diferente, bonito. De repente, descobrimos o oposto. Não pude ver minha filha no momento do parto, não houve visitas no quarto do hospital. Foram meses em imersão total na UTI, sem ver outras pessoas”, desabafou Tenille.

Em situações como essa, por mais que os familiares quisessem ajudar, havia um limite. Os pais são os únicos que podem viver tudo de maneira plena. “Eu praticamente não conversava com ninguém de fora, tirei todas as minhas redes sociais do ar. Vivia inteiramente para a minha filha”, acrescentou a professora.

Nesse sentido, o suporte do pai de Catarina, Welingthon Rogério Baptista, foi fundamental. “Ele se preocupava com a minha alimentação para poder aguentar tudo e também para produzir leite para ela. Ele revezava comigo na UTI e sempre buscamos estar juntos nos horários de visita, pois também era importante para nossa filha”, salientou Tenille.

A mãe da Catarina reforçou que na UTI cada instante é muito importante. “No momento, pode estar tudo bem e, em dez minutos, a situação pode se reverter. Cada dia era uma vitória. Falavam para mim que ela ia nascer e morrer, mas viveu um dia, depois outro... Eu aprendi a viver um dia de cada vez e aproveitá-lo ao máximo”, destacou.

 

PEQUENAS CONQUISTAS

Se para toda mãe cada etapa do desenvolvimento dos filhos é uma conquista, para as mães da UTI isso tem um significado mais especial, como o primeiro sorriso e as primeiras respostas a estímulos. “Não me esqueço da primeira vez que vi minha filha, horas depois do parto; da primeira vez que a peguei no colo, após quatro dias; o primeiro banho que pudemos dar, depois de mais de um mês”, recordou Tenille.

Mas, na UTI, também outros sinais de superação são motivo de alegria, como a reação positiva a uma medicação, a volta de uma intubação, o primeiro som emitido pelo bebê depois da sedação, a primeira urina sem sonda, a liberação da alimentação via sonda e a primeira amamentação no seio materno. Cada um desses passos é comemorado não somente pelos pais, como pelas enfermeiras e médicos.

A passagem por uma UTI também muda a maneira de ver os profissionais da saúde que ali se dedicam. “Eu imaginava que esses profissionais fossem mais técnicos e práticos. Eram carinhosos a ponto de uma bebê estar toda intubada e a mãe não poder pegá-la no colo; de repente, uma médica, que está em plantão há 36 horas, levantar- -se só para pegá-la no colo. Esse é o nível de carinho desses profissionais”, salientou.

Karen confirma o papel fundamental dos profissionais da UTI. “Mesmo nos momentos tristes, quando perdi meu Théo, eu recebi muito carinho dos médicos, enfermeiras, técnicas e fisioterapeutas”, ressaltou.

 

ESPERANÇA

Quando questionada sobre o que a movia para enfrentar tudo isso, Tenille foi enfática: “Minha filha e o desejo de tirá-la de lá”. Em relação à fé, a mãe revelou que era algo que ela não tinha até o dia que o coração de Catarina voltou a bater após a parada cardíaca no centro cirúrgico. “A Medicina não explica por que ela voltou. A partir dali, eu passei realmente a ter fé.”

A rápida resposta e desenvolvimento de Catarina ao tratamento também são motivos para comemoração da família. Ao contrário das expectativas dos médicos, ela sempre se desenvolveu antes do esperado. Hoje, com 2 anos e 3 meses, Catarina vive como uma criança normal, com o auxílio de medicamentos e acompanhamento médico periódico.

Apesar da dor da perda de um dos gêmeos, Karen não perdeu a fé e a esperança, e se dedicou inteiramente a Miguel, a quem define como seu “milagre”. Cada sinal de evolução do seu quadro lhe dava forças para continuar firme.

Miguel ficou com sequelas da prematuridade, a maior delas foi uma paralisia cerebral. Por conta disso, passa por inúmeras terapias. Mas a mãe faz questão de não ressaltar os aspectos negativos, olha sempre para as conquistas diárias. “Ele está se desenvolvendo no tempo dele. Essas crianças são tão fortes, são uma caixinha de surpresas”.

Para Tenille, é impossível passar pela UTI sem ter a vida transformada. “Todo mundo deveria passar uma semana em um lugar como esse, independentemente de ter um familiar ou não. A UTI nos torna pessoas melhores e mais humanas”, concluiu.

 

Benefícios da presença materna no hospital

Atualmente, especialistas reconhecem a importância da permanência dos pais no hospital e seu papel no envolvimento do processo terapêutico das crianças.

As crianças tendem a ficar transtornadas e angustiadas quando enfrentam a separação dos pais, e, quanto menor a idade, menor é a compreensão das razões dessa ausência. “A presença do acompanhante constitui fonte de proteção, apoio e segurança para o filho e possibilita um conjunto de estímulos agradáveis, tornando o ambiente da UTI menos agressivo”, ressalta um estudo da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (PR), feito com mães que tiveram filhos internados na UTI.

O estudo observou, ainda, que a liberação da permanência materna na UTI possibilita, “além do estreitamento do vínculo afetivo, a redução do estresse emocional tanto da criança como da família, e, como consequência, contribui para diminuir o tempo da internação hospitalar”.

 

AFETO E SEGURANÇA

Diante dos inevitáveis momentos de estresse da criança causados por vários fatores, como medo, dor, insegurança, longos períodos acordados, mudança de ambiente, notou-se que a família representada pela figura da mãe, além de fonte de afeto e segurança, age como mediadora e facilitadora da adaptação da criança ao ambiente hospitalar.

Em muitas instituições de saúde no Brasil e no exterior, a estrutura física das UTIs pediátricas é pensada apenas em função da criança. Aos poucos, as administrações hospitalares têm tomado consciência da importância de haver acomodações adequadas para os acompanhantes. De igual modo, os profissionais começam, na medida do possível, a envolver mais os pais nos cuidados básicos dos seus filhos internados, como na higiene pessoal, troca de fraldas e alimentação.

A participação das mães nessa terapia intensiva é, também, fundamental para dar segurança a elas e para dar continuidade aos cuidados dos filhos em casa após a alta hospitalar.

 

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Pastoral da Saúde organiza missa no Hospital Universitário da USP

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09 de janeiro de 2019

No dia 20 de dezembro, a Pastoral da Saúde da Região Episcopal Lapa organizou, no refeitório dos funcionários do Hospital Universitário da USP, na Cidade Universitária, na zona Oeste, uma missa presidida pelo Padre João Inácio Mildner, Assistente Eclesiástico da Pastoral da Saúde da Arquidiocese de São Paulo e do Regional Sul 1 da CNBB. 

Além dos agentes da Pastoral na Região, que é coordenada por Izabel Guimarães, participaram o Superintendente do Hospital, Prof. Dr. Luiz Eugênio Garcez Leme, o Assistente Técnico de Direção, Prof. Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos, médicos, funcionários, alunos e pacientes do Hospital. 

Durante a celebração, houve a participação do Coral Cristo Ressuscitado, da Paróquia Nossa Senhora dos Pobres, do Butantã, que existe há 17 anos e tem como regentes os professores de música Leo Camargos e Angela Salem. 

Padre João Inácio recordou que no dia de Natal não se deve ficar à espera apenas do Papai Noel, da troca de presentes, da tradicional ceia, mas, sobretudo, deve-se lembrar do nascimento de Jesus e da importância de sua vinda como Salvador de toda a humanidade. 

O Prof. Dr. Dalton Luiz enfatizou que o Hospital Universitário é público, e a Superintendência e a Pastoral da Saúde trazem sempre a Palavra e  a presença de Cristo aos enfermos e demais pessoas que estão na instituição, a fim de assisti-los social e espiritualmente.

 

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