“Ao abdicarem da ética, muitos tornaram-se protagonistas de um cenário desolador”, afirmam bispos

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19 de abril de 2018

Um dos documentos mais esperados da 56ª Assembleia Geral da CNBB foi a mensagem sobre as eleições deste ano de 2018, divulgada na tarde desta quinta-feira, 19 de abril, pela Presidência da Conferência. Nela, os bispos reconhecem que “Ao abdicarem da ética e da busca do bem comum, muitos agentes públicos e privados tornaram-se protagonistas de um cenário desolador“.

A apresentação da mensagem foi feita por dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador (BA) e Primaz do Brasil. Ele atendeu a imprensa, numa entrevista coletiva realizada no centro de Eventos Pe. Vítor Coelho de Almeida, localizado no pátio do Santuário Nacional, em Aparecida. Na companhia dele estava o arcebispo de Brasília (DF) e presidente da entidade, cardeal Sergio da Rocha e o arcebispo de Porto Alegre (RS), dom Jaime Spengler.

 

Leia mensagem na íntegra:

 

ELEIÇÕES 2018: COMPROMISSO E ESPERANÇA

MENSAGEM DA 56ª ASSEMBLEIA GERAL DA CNBB AO POVO BRASILEIRO

“Continuemos a afirmar a nossa esperança, sem esmorecer” (Hb 10,23) 

 

Nós, bispos católicos do Brasil, conscientes de que a Igreja “não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça” (Papa Bento XVI – Deus Caritas Est, 28), olhamos para a realidade brasileira com o coração de pastores, preocupados com a defesa integral da vida e da dignidade da pessoa humana, especialmente dos pobres e excluídos. Do Evangelho nos vem a consciência de que “todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a preocupar-se com a construção de um mundo melhor” (Papa Francisco – Evangelii Gaudium, 183), sinal do Reino de Deus.

Neste ano eleitoral, o Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum, razão da verdadeira política. A atual situação do País exige discernimento e compromisso de todos os cidadãos e das instituições e organizações responsáveis pela justiça e pela construção do bem comum.

Ao abdicarem da ética e da busca do bem comum, muitos agentes públicos e privados tornaram-se protagonistas de um cenário desolador, no qual a corrupção ganha destaque, ao revelar raízes cada vez mais alastradas e profundas. Nem mesmo os avanços em seu combate conseguem convencer a todos de que a corrupção será definitivamente erradicada. Cresce, por isso, na população, um perigoso descrédito com a política. A esse respeito, adverte-nos o Papa Francisco que, “muitas vezes, a própria política é responsável pelo seu descrédito, devido à corrupção e à falta de boas políticas públicas” (Laudato Sì, 197). De fato, a carência de políticas públicas consistentes, no país, está na raiz de graves questões sociais, como o aumento do desemprego e da violência que, no campo e na cidade, vitima milhares de pessoas, sobretudo, mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas.

Além disso, a perda de direitos e de conquistas sociais, resultado de uma economia que submete a política aos interesses do mercado, tem aumentado o número dos pobres e dos que vivem em situação de vulnerabilidade. Inúmeras situações exigem soluções urgentes, como a dos presidiários, que clama aos céus e é causa, em grande parte, das rebeliões que ceifam muitas vidas. Os discursos e atos de intolerância, de ódio e de violência, tanto nas redes sociais como em manifestações públicas, revelam uma polarização e uma radicalização que produzem posturas antidemocráticas, fechadas a toda possibilidade de diálogo e conciliação.

Nesse contexto, as eleições de 2018 têm sentido particularmente importante e promissor. Elas devem garantir o fortalecimento da democracia e o exercício da cidadania da população brasileira. Constituem-se, na atual conjuntura, num passo importante para que o Brasil reafirme a normalidade democrática, supere a crise institucional vigente, garanta a independência e a autonomia dos três poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – e evite o risco de judicialização da política e de politização da Justiça.  É imperativo assegurar que as eleições sejam realizadas dentro dos princípios democráticos e éticos para que se restabeleçam a confiança e a esperança tão abaladas do povo brasileiro. O bem maior do País, para além de ideologias e interesses particulares, deve conduzir a consciência e o coração tanto de candidatos, quanto de eleitores.

Nas eleições, não se deve abrir mão de princípios éticos e de dispositivos legais, como o valor e a importância do voto, embora este não esgote o exercício da cidadania; o compromisso de acompanhar os eleitos e participar efetivamente da construção de um país justo, ético e igualitário; a lisura do processo eleitoral, fazendo valer as leis que o regem, particularmente, a Lei 9840/1999 de combate à corrupção eleitoral mediante a compra de votos e o uso da máquina administrativa, e a Lei 135/2010, conhecida como “Lei da Ficha Limpa”, que torna inelegível quem tenha sido condenado em decisão proferida por órgão judicial colegiado.

Neste Ano Nacional do Laicato, com o Papa Francisco, afirmamos que “há necessidade de dirigentes políticos que vivam com paixão o seu serviço aos povos, (…) solidários com os seus sofrimentos e esperanças; políticos que anteponham o bem comum aos seus interesses privados; que não se deixem intimidar pelos grandes poderes financeiros e midiáticos; que sejam competentes e pacientes face a problemas complexos; que sejam abertos a ouvir e a aprender no diálogo democrático; que conjuguem a busca da justiça com a misericórdia e a reconciliação” (Mensagem aos participantes no encontro de políticos católicos – Bogotá, Dezembro-2017).

É fundamental, portanto, conhecer e avaliar as propostas e a vida dos candidatos, procurando identificar com clareza os interesses subjacentes a cada candidatura. A campanha eleitoral torna-se, assim, oportunidade para os candidatos revelarem seu pensamento sobre o Brasil que queremos construir. Não merecem ser eleitos ou reeleitos candidatos que se rendem a uma economia que coloca o lucro acima de tudo e não assumem o bem comum como sua meta, nem os que propõem e defendem reformas que atentam contra a vida dos pobres e sua dignidade. São igualmente reprováveis candidaturas motivadas pela busca do foro privilegiado e outras vantagens.

Reafirmamos que “dos agentes políticos, em cargos executivos, se exige a conduta ética, nas ações públicas, nos contratos assinados, nas relações com os demais agentes políticos e com os poderes econômicos” (CNBB – Doc. 91, n. 40 – 2010). Dos que forem eleitos para o Parlamento espera-se uma ação de fiscalização e legislação que não se limite à simples presença na bancada de sustentação ou de oposição ao Executivo (cf. CNBB – Doc. 91, n. 40– 2010). As eleições são ocasião para os eleitores avaliarem os candidatos, sobretudo, os que já exercem mandatos, aprovando os que honraram o exercício da política e reprovando os que se deixaram corromper pelo poder político e econômico.

Exortamos a população brasileira a fazer desse momento difícil uma oportunidade de crescimento, abandonando os caminhos da intolerância, do desânimo e do desencanto. Incentivamos as comunidades eclesiais a assumirem, à luz do Evangelho, a dimensão política da fé, a serviço do Reino de Deus. Sem tirar os pés do duro chão da realidade, somos movidos pela esperança, que nos compromete com a superação de tudo o que aflige o povo. Alertamos para o cuidado com fake news, já presentes nesse período pré-eleitoral, com tendência a se proliferarem, em ocasião das eleições, causando graves prejuízos à democracia.

O Senhor “nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres” (Papa Francisco – Evangelii Gaudium, 205). Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, seja nossa fiel intercessora.

 

Aparecida – SP, 17 de abril de 2018.

 

Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília – DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

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Livro ressalta que a política é parte do cotidiano de todos

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13 de março de 2018

Em ano eleitoral, as discussões sobre política se multiplicam em todas as partes do País e, muitas vezes, são acompanhadas pelo discurso de descrédito em relação aos políticos, especialmente com as crescentes descobertas de esquemas de corrupção, envolvendo nomes de diferentes partidos. 

Em outubro de 2017, por exemplo, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostrou que 83% dos brasileiros não confiam no Presidente da República, 79% desconfiam dos políticos e 78% dizem não confiar nos partidos. 

A constatação de um cenário de desânimo dos brasileiros em relação à política motivou a editora Vozes (universovozes. com.br) a publicar o livro “Política: nós também sabermos fazer”, que será lançado na segunda-feira, 12, às 19h30, no Teatro Gazeta (Avenida Paulista, 900 – próximo ao Metrô Trianon-Masp), com um debate entre os quatro autores da obra: o jornalista Clóvis de Barros Filho, a filósofa e psicóloga Viviane Mosé, a economista Eduarda La Rocque e o filósofo Oswaldo Giacoia Jr.

“Nós pensamos que resgatar a ideia da política como participação social, como integração na sociedade, seria muito interessante. Começamos a pensar em autores que poderiam desenvolver uma reflexão mais conceitual e não partidária. A ideia básica é resgatar o ser humano como ser político”, explicou, ao O SÃO PAULO , Welder Lancieri Marchini, Mestre em Ciências da Religião, que coordena o trabalho editorial do livro. 

Welder, que também é teólogo e filósofo, destacou que a etimologia da palavra política remete a “pólis” – cidade, em grego – e, como todos vivem em sociedade, ninguém pode se considerar alheio à política, em um sentido mais amplo do que o entendimento comum de política partidária. “Nenhum dos autores fala do que seria um modo certo de fazer política. O mais importante é a ideia de que não há como não ser político, e que a pior maneira de fazer política é pensá-la como algo sujo e que, por isso, alguém não deva envolver-se com ela”, analisou. 

Para ele, um dos problemas atuais é a crença de que apenas os políticos eleitos e os candidatos fazem política. “A partir do momento que nós votamos em alguém, parece que ele é o único responsável, que nós não temos mais que acompanhar, não temos que participar da política. Isso está muito equivocado. A política não é profissão, o ser político também não. Talvez essa insatisfação com a política que os números mostram venha do equívoco de se delegar apenas para o político a função de fazer política. Nós deveríamos participar mais, acompanhar aquilo que é feito”, acrescentou.

Também na avaliação de Teobaldo Heidemann, Coordenador Nacional de Vendas da editora Vozes , “a política não deve ser pensada só no nível de esferas de governo”, mas por todos como parte do dia a dia. “O cidadão deve voltar a ser ativo na discussão política, para que a sociedade esteja representada nas decisões. Muitas vezes, quem toma a decisão o faz por interesses próprios ou em favor de alguém. Assim, é preciso que nós, como cidadãos, voltemos a pensar a política para equilibrar os interesses”. 

 

O QUE É POLÍTICA?

Responder a essa pergunta é o que faz Clóvis de Barros Filho. Ele destaca o ser humano como um ser político e apresenta reflexões sobre os modos atuais de participação política e o entendimento da política na mídia e entre os especialistas.

“Toda instituição cuja atuação interessa à pólis seria política; todo discurso de porta-voz legitimado pela pólis também seria político; o mesmo para todo representante ou candidato a governante na pólis; toda notícia que interessasse à pólis; todo grupo que pretendesse discutir o que é melhor para a pólis; todo livro que falasse da pólis... Perceba a extensão desses exemplos. Muito mais amplo do que diariamente é chamado de política pelos meios e seus consumidores. Um conceito estendido, portanto, que vai além do Estado e da atuação dos profissionais da política. Que implica mais gente. Todo mundo, a rigor. Assim, não se trata só de estar a par dos feitos e malfeitos das autoridades, aplaudir ou vaiar”, afirma em um dos trechos do livro.

 

LUTAS POLÍTICAS

“O Poder e as redes” é o tema tratado por Viviane Mosé, com uma reflexão sobre o fazer político e as maneiras de lutas políticas cotidianas, com destaque para as novas estratégias de ação política na sociedade em rede.

“Vivemos uma guerra da informação, que elege e depõe presidentes, cria e derruba ídolos, compromete ou salva políticos, torna mito ou algoz um cidadão comum. Como cegos em tiroteio, tentamos filtrar uma informação falsa, mas, afinal, nunca sabemos se um fato não foi construído apenas para sustentar uma notícia. Tem sempre um celular esperando um gesto, a qualquer hora, em qualquer lugar. Tem sempre algum discurso defendendo algo, ou algum fato sendo criado para justificar um discurso; não apenas notícias falsas, mas situações objetivamente manipuladas para serem registradas e postadas. Domina quem mais simula, distorce; ganha mais quem sabe inventar realidades, produzir verdades, fatos por encomenda”, consta no livro.

 

DEMOCRACIA E INFORMAÇÃO

Eduarda La Rocque discute o atual modelo democrático, que, segundo ela, está pautado no mercado de votos e negociatas. Ela aponta a democratização do acesso à informação qualificada como instrumento de resgate da democracia, bem como a intensa participação do cidadão nas decisões do poder público.

“A formação dos cidadãos se dá na ação, na participação. A única saída para a democracia é criar instâncias efetivas de participação, a partir de uma base de informação qualificada. Só assim, emergirá uma nova cidadania; forte, ativa, com a transformação do eleitor em cidadão. A democracia requer representatividade, que só se obtém com participação efetiva e uma composição do saber; ou seja, a partir da composição de diferentes saberes”, afirma no livro. 

 

ÉTICA E POLÍTICA

Uma reflexão sobre ética e política é o que oferece Oswaldo Giacoia Jr., no artigo que encerra a obra. Ele mostra como o debate ético nasce da crise contemporânea e como a Filosofia pode trazer alguma clareza para momentos conturbados: “...a pergunta pelo futuro do humano não pode prescindir, em nossos dias, de uma reflexão aprofundada sobre as consequências éticas, sociais, políticas e culturais geradas pelo desenvolvimento das ciências e das tecnologias. Uma vez que o desenvolvimento produziu não apenas uma alteração substancial de nossa cosmovisão, mas também uma mudança radical na autocompreensão ética da espécie humana, parece que se apresenta hoje a necessidade de repensar limites éticos para evitar as consequências potencialmente catastróficas do desenvolvimento técnico-científico...”, consta em um dos trechos do livro.

(Com informações da editora Vozes e FGV)
 

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Cardeal pede eleições transparentes como remédio para a crise

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11 de janeiro de 2018

O Cardeal Jorge Urosa Savino, Arcebispo de Caracas, pediu, em sua mensagem de Ano Novo, por eleições “com transparência e em cujos resultados o povo possa confiar”.

“O ano de 2017 foi trágico para a Venezuela, marcado por violência política e um total de mais de 120 pessoas mortas em ataques a manifestações populares”, disse o Cardeal. No entender de Dom Jorge, para resolver a crise venezuelana – que afundou o País na superinflação, carência de alimentos e medicamentos básicos e aumento da violência – “é preciso realizar as eleições determinadas pela constituição. Mas, para isso, é necessário garantir condições justas e razoáveis para eleições com transparência e em cujos resultados o povo possa confiar”.

Fonte: CNA
 

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Eleições para assembleia constituinte

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29 de julho de 2017

No domingo, 30, serão realizadas eleições para escolher os responsáveis por reescrever a onstituição venezuelana. As eleições foram convocadas pelo Presidente Nicolás Maduro e, segundo a oposição, o procedimento é ilegal e tem como objetivo aumentar o poder do governante e permitir que ele continue no comando do País.

A Procuradora-Geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, denunciou a ilegalidade da convocação da assembleia constituinte da forma como está sendo feita por Maduro. Ela foi rotulada de “golpista” e o Ministério Público foi destituído de suas funções, que passaram à Defensoria do Povo.  A Procuradora foi proibida de deixar o País e seus bens e contas bancárias estão congelados. Funcionários do Ministério Público passaram a ser perseguidos e atacados pelos “coletivos” que apoiam o governo.

A Assembleia Nacional, sob con-trole da oposição, está em confronto aberto com o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), acusando seus representantes de violarem a constituição para favorecer o Presidente. O TSJ tentou fechar a Assembleia Nacional no dia 29 de março, mas voltou atrás três dias depois. A Assembleia nomeou 33 novos juízes para o TSJ, mas a Corte rejeitou as nomeações e declarou que elas são juridicamente nulas. Nicolás Maduro afirmou que os magistrados nomeados pela Assembleia Nacional serão presos e terão seus bens e contas bancárias congelados. Um deles, Ángel Zerpa, já foi detido por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin).

Enquanto isso, os protestos contra o governo se intensificam e, com eles, a repressão do governo. Uma greve geral de 24 horas foi realizada na quinta-feira, 20. Apenas naquele dia, foram presas 261 pessoas. A oposição promoveu uma consulta popular, colhendo 7,5 milhões de assinaturas contra a convocação de uma assembleia constituinte.

Desde o início dos protestos, a repressão do governo já matou 98 pessoas. Mais de 1,4 mil venezuelanos foram feridos e mais de 3,5 mil foram detidos.  O Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, condenou a violência de grupos ligados ao governo contra as pessoas que estavam próximas à Igreja do Carmo, em Caracas, participando da consulta popular da oposição. Os participantes se refugiaram na igreja. Uma pessoa morreu, vítima do ataque. O Arcebispo de Caracas, Cardeal Urosa Savino, ficou com os manifestantes no local e negociou com as autoridades até que todos pudessem sair em segurança.

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