Papa pela unidade da família cristã: mais solidariedade, menos divisão

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18 de janeiro de 2019

"Começou hoje a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, na qual somos todos convidados a implorar de Deus este grande dom. A unidade dos cristãos é fruto da graça de Deus, pelo que nos devemos predispor a recebê-la com coração pronto e generoso. Nesta tarde, sinto-me particularmente feliz por rezar juntamente com os representantes das outras Igrejas presentes em Roma, aos quais dirijo uma cordial e fraterna saudação. Saúdo também a delegação ecuménica da Finlândia, os alunos do Instituto Ecuménico de Bossey que visitam Roma para aprofundar o seu conhecimento da Igreja Católica e os jovens ortodoxos e ortodoxos orientais que aqui estudam com o apoio do Comité de Cooperação Cultural com as Igrejas Ortodoxas, ativo junto do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

O livro do Deuteronómio oferece-nos a imagem do povo de Israel acampado nas planícies de Moab, prestes a entrar na Terra que Deus lhe prometeu. Lá Moisés, como pai solícito e chefe designado pelo Senhor, repete a Lei ao povo, instrói-o e lembra-lhe que deverá viver com fidelidade e justiça, quando se estabelecer na terra prometida.

A passagem que acabamos de ouvir indica como celebrar as três festas principais do ano: Pesach (Páscoa), Shavuot (Pentecostes), Sukkot (Tabernáculos). Cada uma destas festas convida Israel à gratidão pelos bens recebidos de Deus A celebração duma festa requer a participação de todos; ninguém pode ficar excluído: «Alegrar-te-ás na presença do Senhor, teu Deus, com os teus filhos, as tuas filhas, os teus servos e as tuas servas, o levita que viver dentro das portas da tua cidade, o estrangeiro, o órfão e a viúva, que estiverem junto de ti» (Dt 16, 11).

Por ocasião de cada festa, é preciso realizar uma peregrinação «ao santuário que o Senhor tiver escolhido para ali estabelecer o seu nome» (16, 2). O fiel israelita deve ir lá colocar-se diante de Deus; e, embora todo o israelita tivesse sido escravo no Egito, sem qualquer propriedade pessoal, «ninguém aparecerá com as mãos vazias diante do Senhor» (16, 16) e o dom de cada um será segundo a medida da bênção que o Senhor lhe tiver concedido. Assim, todos receberão a sua parte de riqueza do país e beneficiarão da bondade de Deus.

Não nos deve surpreender o facto do texto bíblico passar da celebração das três festas principais para a nomeação dos juízes. As próprias festas exortam o povo à justiça, lembrando a igualdade fundamental entre todos os membros, todos igualmente dependentes da misericórdia divina, e convidando cada um a partilhar com os outros os bens recebidos. O dar honra e glória ao Senhor nas festas do ano caminha de mãos dadas com o prestar honra e justiça ao seu vizinho, sobretudo se é vulnerável e necessitado.

Ao debruçar-se sobre a escolha do tema para esta Semana de Oração, os cristãos da Indonésia decidiram inspirar-se nestas palavras do Deuteronómio: «Deves procurar a justiça e só a justiça» (16, 20). Neles, está viva a preocupação pelo facto de o crescimento económico do seu país, animado pela lógica da concorrência, deixar muitos na pobreza, permitindo que se enriqueçam enormemente apenas alguns. Isto põe em perigo a harmonia duma sociedade onde vivem lado a lado pessoas de diferentes etnias, línguas e religiões que compartilham um sentido de mútua responsabilidade.

Mas isto não se aplica só à Indonésia; deparamo-nos com a mesma situação no resto do mundo. Quando a sociedade deixa de ter como fundamento o princípio da solidariedade e do bem comum, assistimos ao escândalo de pessoas que vivem em extrema pobreza ao lado de arranha-céus, hotéis imponentes e centros comerciais luxuosos, símbolos de incrível riqueza. Esquecemo-nos da sabedoria da lei mosaica, segundo a qual, se a riqueza não for partilhada, a sociedade divide-se.

São Paulo, quando escreve aos Romanos, aplica a mesma lógica à comunidade cristã: aqueles que são fortes devem ocupar-se dos fracos. Não é cristão «procurar aquilo que nos agrada» (Rom 15, 1). De facto, seguindo o exemplo de Cristo, devemos esforçar-nos por edificar os que são fracos. A solidariedade e a responsabilidade comum devem ser as leis que regem a família cristã.

Também nós, como povo santo de Deus, sempre nos encontramos prestes a entrar no Reino que o Senhor nos prometeu. Mas, estando divididos, precisamos de recordar o apelo à justiça que Deus nos dirigiu. Também entre nós, cristãos, há o risco de prevalecer a lógica conhecida pelos israelitas dos tempos antigos e pelo povo indonésio nos dias de hoje, ou seja, tentando acumular riqueza, esquecermo-nos dos vulneráveis e dos necessitados. É fácil esquecer a igualdade fundamental que existe entre nós: originariamente todos nós éramos escravos do pecado, mas o Senhor salvou-nos no Batismo, chamando-nos seus filhos. É fácil pensar na graça espiritual que nos foi dada como sendo nossa propriedade, algo que nos é devido e pertence. Além disso, é possível que os dons recebidos de Deus nos tornem cegos aos dons dispensados a outros cristãos. É um grave pecado desdenhar ou desprezar os dons que o Senhor concedeu a outros irmãos, pensando que estes sejam de algum modo menos privilegiados aos olhos de Deus. Se alimentarmos tais pensamentos, consentimos que a própria graça recebida se torne fonte de orgulho, injustiça e divisão. E então como poderemos entrar no Reino prometido?

O culto condizente a este Reino, o culto que a justiça exige, é uma festa que engloba a todos, uma festa na qual se disponibilizam e partilham os dons recebidos. Para realizar os primeiros passos rumo à terra prometida que é a nossa unidade, devemos, em primeiro lugar, reconhecer humildemente que as bênçãos recebidas não são nossas por direito, mas por dádiva, tendo-nos sido concedidas para as partilharmos com os outros. Em segundo lugar, devemos reconhecer o valor da graça concedida às outras comunidades cristãs. Consequentemente será nosso desejo participar nos dons dos outros. Um povo cristão, renovado e enriquecido por esta troca de dons, será um povo capaz de caminhar, com passo firme e confiante, pelo caminho que leva à unidade."

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Bento XVI: "diálogo com os judeus, e não missão"

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27 de novembro de 2018

Não se trata de "missão", mas de "diálogo": é o que Bento XVI diz numa "correção" enviada à revista católica alemã "Herder Korrespondenz" sobre um artigo assinado pelo teólogo de Wuppertal, Michael Böhnke, que na edição de setembro da revista havia comentado o pensamento do Papa emérito sobre a relação entre judeus e cristãos.
O judaísmo e o cristianismo - afirma Bento XVI - são "duas maneiras de interpretar as Escrituras". Para os cristãos, as promessas feitas a Israel são a esperança da Igreja e "quem se apega a elas não questiona de modo algum os fundamentos do diálogo judaico-cristão". As acusações contidas no artigo - continua -, são "absurdos grotescos e não têm nada a ver com o que eu disse sobre isso. Por isso rejeito seu artigo como uma insinuação absolutamente falsa".

Entre outras coisas, Böhnke escrevera que Bento XVI teria mostrado, em um artigo publicado em julho passado na revista "Communio", uma compreensão problemática do judaísmo e mantido silêncio sobre os sofrimentos que os cristãos causaram aos judeus.

Na sua "retificação", Bento XVI aborda - ao lado de outros aspectos teológicos – também a delicada questão da missão aos judeus, isto é, à questão se a Igreja deve anunciar aos judeus a Boa Nova de Cristo. "Uma missão aos judeus não está prevista e nem é necessária", escreve literalmente Ratzinger. É verdade que Cristo enviou seus discípulos em missão a todos os povos e culturas. Por essa razão, "o mandato da missão é universal - com uma exceção: a missão aos judeus não estava prevista e não era necessária simplesmente porque só eles, entre todos os povos, conheciam o 'Deus desconhecido'".

Quanto a Israel, portanto - explica Bento XVI - não se trata de missão, mas de diálogo sobre a compreensão de Jesus de Nazaré: é "o Filho de Deus, o Logos", esperado - de acordo com as promessas feitas ao seu próprio povo - por Israel e, inconscientemente, por toda a humanidade? Retomar esse diálogo é "a tarefa que nos coloca o momento presente".

A "correção", relatada por Kna, está incluída na edição de dezembro de "Herder Korrespondenz" e é assinada "Joseph Ratzinger-Bento XVI".

Recordamos que o escrito do Papa emérito na revista "Communio" foi considerado como um aprofundamento de um novo Documento publicado em 2015 pela Comissão da Santa Sé para as relações religiosas com o judaísmo intitulado "Porque os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" Rom 11,29). Reflexões sobre questões teológicas relacionadas às relações católico-judaicas" por ocasião do 50º aniversário da Declaração conciliar Nostra aetate. O documento foi apresentado entre outros pelo cardeal Kurt Koch, presidente da Comissão para as relações religiosas com o Judaísmo. No parágrafo 6 do texto, lemos:

"É fácil entender que a chamada ‘missão dirigida aos judeus’ é uma questão muito difícil e sensível para os judeus, pois, aos seus olhos, diz respeito à própria existência do povo judeu. Também para os cristãos, é uma questão delicada, porque consideram de fundamental importância o papel salvífico universal de Jesus Cristo e a consequente missão universal da Igreja. A Igreja, portanto, deve entender a evangelização dirigida aos judeus, que acreditam no único Deus, de uma maneira diferente daquela dirigida àqueles que pertencem a outras religiões ou têm outras visões do mundo. Isto significa concretamente que a Igreja Católica não conduz ou encoraja qualquer missão institucional dirigida especificamente aos judeus. Tendo presente a rejeição - por princípio - de uma missão institucional dirigida aos judeus, os cristãos são chamados a testemunhar sua fé em Jesus Cristo também diante dos judeus; porém, devem fazê-lo com humildade e sensibilidade, reconhecendo que os judeus são portadores da Palavra de Deus e tendo em mente a grande tragédia da Shoah".

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Igreja Ortodoxa Russa rompe com o Patriarcado de Constantinopla

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04 de dezembro de 2018

Nesta segunda-feira (15/10) foi apresentada uma Declaração durante o Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa que se realiza em em Minsk, em Belarus, sob a guia do Patriarca Kirill, com a qual o Patriarcado russo rompe todos os vínculos com o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

O Santo Sínodo se reuniu para discutir sobre a decisão, anunciada em 11 de outubro passado pelo Patriarca Ecumênico de Constantinopla de conceder a autocefalia à Igreja da Ucrânia.

O Sínodo da Igreja de Constantinopla anulou o decreto que subordinava a Igreja Ucraniana à Russa com a intenção de "garantir a Autocefalia à Igreja da Ucrânia". A Autocefalia é o estado com o qual o bispo-chefe de uma igreja não se reporta a outro superior que tenha autoridade sobre outras igrejas.

A Declaração

Segundo a Declaração publicada no site do Patriarcado de Moscou anuncia-se “Com grande dor que os membros do Santo Sínodo consideraram impossível continuar em comunhão eucarística com o Patriarcado de Constantinopla”. A Declaração descreve os vários motivos que levaram Moscou a romper a comunhão: admitir em comunhão “os cismáticos” e “uma pessoa excomungada por outra Igreja local”, “interferência nos atos canônicos de outros”, “tentativa de recusar decisões e compromissos históricos já assumidos”.

“Tudo isso – afirma a Igreja Ortodoxa Russa– coloca o Patriarcado de Constantinopla fora do espaço canônico, e com grande dor, torna impossível continuarmos a comunhão eucarística com a sua hierarquia, clero e leigos”. “De agora em diante e enquanto o Patriarcado de Constantinopla não decidir abandonar as suas decisões anti-canônicas, será impossível para todo o clero da Igreja Ortodoxa Russa concelebrar com o clero da Igreja de Constantinopla e os leigos não poderão participar dos sacramentos administrados nas suas igrejas.

O metropolita Hilarion de Volokolamsk, chefe do Departamento para as relações externas do Patriarcado de Moscou, disse que “esperamos que a razão se imponha e que o Patriarcado de Constantinopla modifique a sua atitude, reconhecendo a realidade eclesiástica existente”. “No entanto, enquanto estiverem em vigor todas as decisões ‘ilegais’ de Constantinopla, não podemos retomar a comunhão eclesiástica”.

Uma decisão já tomada

 Em 11 de outubro passado, o Sínodo de Constantinopla, já tinha estabelecido “a renovação da decisão já tomada” e de “proceder “à decisão da autocefalia da Igreja da Ucrânia”.

Depois de “longas discussões”, o Sagrado Sínodo da Igreja de Constantinopla, presidido pelo Patriarca Bartolomeu I – segundo o comunicado – decidiu “anular o vínculo jurídico da Carta Sinodal do ano de 1686”, que subordinava a Igreja ucraniana à russa concedendo “o direito ao Patriarca de Moscou de ordenar o Metropolita de Kiev”, proclamando e afirmando a sua dependência canônica à Igreja Mãe de Constantinopla”.

O Sagrado Sínodo tinha lançado um apelo “a todas as partes envolvidas para que evitassem a apropriação de igrejas, mosteiros e outras propriedades, assim como evitar qualquer outro ato de violência ou de represália, para que a paz e o amor de Cristo possam prevalecer”.

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Papa visita igrejas perseguidas e promove ecumenismo nos países bálticos

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29 de setembro de 2018

Em viagem apostólica de quatro dias nos países bálticos, entre 22 e 25 de setembro, o Papa Francisco levou mensagens de unidade entre os cristãos e de memória aos que são perseguidos por causa da fé. Lituânia, Letônia e Estônia têm em comum o fato de que ficaram independentes da União Europeia só desde os anos 1990, mas são pequenas nações bem diferentes entre si. 

Embora a Lituânia tenha maioria católica, 80% da população, a Letônia está quase igualmente dividida entre católicos, ortodoxos e protestantes luteranos. Já a Estônia é considerada um dos países menos religiosos do mundo: a maioria da população não se importa com a religião. Entre os 16% que têm religião, só cerca de 5 a 6 mil estonianos são católicos.

 

PRESERVAR A IDENTIDADE CRISTÃ

O Papa foi recebido com grande devoção na Lituânia e, em discurso aos jovens na Praça da Catedral, em Vilnius, no sábado, 22, ele destacou justamente o valor de se manter uma identidade cristã, herdada pelas gerações anteriores. “Somos cristãos e queremos apontar para a santidade, a partir do encontro e da comunhão com os outros, atentos às suas necessidades. A sua identidade pressupõe o pertencimento a um povo”, disse.

Em referência ao passado marcado por ideologias autoritárias e antirreligiosas na região, o Papa acrescentou que “não existem identidades de laboratório”. O que existe, continuou, é um “caminhar juntos”, que deve ser radicado em uma identidade. “Não somos pessoas sem raízes”, exclamou. 

Francisco falou mais explicitamente sobre a perseguição aos cristãos, na homilia da missa campal em um parque na cidade de Kaunas, também na Lituânia, no domingo, 23. “A vida cristã atravessa sempre momentos de cruz, e, às vezes, parecem intermináveis”, afirmou, recordando as vítimas do autoritarismo. Ali, muitos prisioneiros foram enviados para o cárcere ou a morte na Sibéria.

Também na Estônia, ele recordou o horror das guerras vividas no País, seguidas da repressão política, da perseguição e do exílio. “Mas nem o regime nazista nem o soviético apagou a fé nos corações de vocês e, para alguns de vocês, não lhes fizeram desistir nem da vida sacerdotal, religiosa, a ser catequistas, e nem de diversos serviços na Igreja que colocavam as suas vidas em risco”, disse. 

Na Letônia, em visita à Catedral Luterana de Riga, o Papa pediu novamente que seja valorizada e preservada a fé cristã, que muitas vezes se manifesta por meio da colaboração entre as diferentes igrejas. Tomando o órgão dessa mesma Catedral como exemplo, um dos mais antigos da Europa, Francisco notou que o Cristianismo é muitas vezes tratado como algo a ser admirado, “como um turista”, mas sem a força da fé ou qualquer traço de uma “identidade”. Para ele, o risco é “fazer com que o que nos identifica se torne um objeto do passado, uma atração turística e de museu, com valor histórico, mas que parou de fazer vibrar os corações de quem escuta”.
 

ESCUTAR E BUSCAR

Em missa na Praça da Liberdade, em Tallinn, na Estônia, o Papa foi ao encontro de uma pequena comunidade de católicos, colocando em prática seu desejo de chegar às “periferias existenciais”. Na terça-feira, 25, Francisco disse a eles que o que marca um povo escolhido por Deus é sua capacidade de “escutar e buscar” os outros. 

“Às vezes, alguns pensam que a força de um povo seja medida por outros parâmetros. Há quem diga que com um tom mais alto, quem fala parecerá mais seguro, sem concessões ou hesitações. Há quem grite, ameace com armas e estratégias”, analisou. “Isso não é buscar a vontade de Deus. Esse comportamento esconde uma rejeição da ética e, com ela, de Deus.”

Nesse sentido, o Papa alertou os cristãos da Estônia a não se deixarem instrumentalizar, evitando tornar-se escravos do consumo, do individualismo ou “da sede de poder ou de domínio”. 

Em um encontro ecumênico com jovens na Catedral Luterana de Tallinn, o Papa trouxe para o centro do discurso a figura daquele que une as diferentes tradições cristãs: Jesus Cristo. “Ele continua a ser o motivo pelo qual estamos aqui. Sabemos que não há conforto maior do que entregar a Jesus as nossas opressões. Sabemos, também, que há muitos que ainda não o conhecem e vivem tristes e perdidos”, disse o Papa, acrescentando que é preciso demonstrar que o amor não está morto. 

“Jesus passou fazendo o bem, e, quando morreu, preferiu o gesto forte da cruz em vez de palavras. Nós estamos unidos na fé, em Jesus, e Ele espera que levemos a Ele todos os jovens que perderam o sentido da vida”, disse o Papa Francisco.

 

LEIA TAMBÉM: Na Audiência Geral, Papa Francisco relembra viagem a países bálticos

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Papa a simpósio ecumênico: "discernimento para chegar à vontade de Deus"

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05 de setembro de 2018

"O autêntico discernimento requer educar-se à paciência de Deus e aos seus tempos, que não são os nossos".

Assim pronunciou-se o Papa no telegrama assinado pelo cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, e enviado aos organizadores do XXVI Simpósio Ecumênico Internacional de Espiritualidade Ortodoxa, que inicia amanhã, quarta-feira, e conclui-se em 8 de setembro na Comunidade de Bose.

Francisco, como relatado pelo L'Osservatore Romano, concede a bênção apostólica aos participantes e faz votos de que estes “dias de intercâmbio fraterno, possam favorecer a busca de critérios de discernimentos pessoais e comunitários necessários para chegar ao conhecimento e à vontade de Deus, na qual reside toda a plenitude de vida”.

 

Discernimento e vida

"Discernimento e vida cristã" é o tema do encontro, que já se tornou uma etapa obrigatória no diálogo e na amizade com as Igrejas Ortodoxas. Compreender, discernir os sinais dos tempos é, de fato, uma dimensão fundamental da vida cristã e do cristão, que deve seguir e compreender a renovação, mesmo permanecendo firmemente enraizados nas raízes da fé, para melhor responder aos desafios contemporâneos.

Os trabalhos – dos quais tomarão parte eclesiásticos e especialistas de renome mundial, assim como delegações ecumênicas -  serão abertos pelo padre Enzo Bianchi – fundador do Mosteiro de Bose – e pelo bispo Irinej de Sacramento, com palestras sobre a dimensão bíblica e histórica do discernimento.

 

Conhecimento dos limites e do pecado

A saudar também com fervor o evento foi o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, que foca a sua mensagem no tríplice aspecto do discernimento – espiritual, teológico e pastoral – destacando a necessidade de “recolocar” as mãos nas chagas de Cristo como fez São Tomé, para consolidar a fé e indagar a humanidade ferida.

 

Bartolomeu I

Forte também o conteúdo do texto enviado pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, que descreve o discernimento como elemento próprio da vida da Igreja, “preciosíssimo dom de Deus, seu fundador” e virtude eclesial que “nutre e inspira todas as manifestações e os âmbitos do testemunho da Igreja no mundo”. Não somente, mas “o discernimento – prossegue o patriarca – é conhecimento dos nossos limites e da nossa realidade de pecado”.

 

Discernimento e missão

Em substância - sintetiza - Bartolomeu, "toda a vida da Igreja se desenvolve como discernimento". E isso é pedido porque podemos salvar "a autêntica tradição e podemos dar o belo testemunho agradável a Cristo em nosso tempo". Isso pressupõe, "como foi indicado pelo grande Sínodo da Igreja Ortodoxa, a evangelização do mundo, a missão, que não deve ser realizada de forma agressiva, mas na liberdade, no amor e no respeito pela identidade cultural dos indivíduos e dos povos". De fato, "requer discernimento o desejo de solicitar o diálogo entre cristãos e o diálogo com as religiões não-cristãs, bem como a organização de iniciativas comuns e de atividades concernentes aos grandes problemas contemporâneos".

 

Kirill: contra o obscurecimento da consciência

O desejo de que o encontro de Bose recorde "com nova força aos cristãos os princípios ascéticos fundamentais do correto desenvolvimento espiritual de cada pessoa e da sociedade como um todo", é expresso por sua vez pelo Patriarca de Moscou Kirill, no telegrama assinado pelo Metropolita Hilarion.

Depois de ter recordado como "nos escritos patrísticos o discernimento espiritual é muitas vezes definido como a fonte e a raiz de todas as virtudes - o maior dom da graça divina, porque ajuda a pessoa a viver de acordo com a vontade de Deus, protegendo-a do engano insidioso do diabo" - ele destaca como hoje "o perigo do obscurecimento da consciência ameaça a humanidade". De fato – prossegue -  "no mundo contemporâneo, cada indivíduo é investido por um fluxo enorme de informações, em que nem sempre é fácil orientar-se; é imposto a ele um estilo de vida, dificilmente compatível com o ensinamento cristão, e inúmeras tentações o assediam".

 

Cooperação entre Igrejas

A missão da Igreja na contemporaneidade – insiste Kirill - é precisamente a de ensinar às jovens gerações a distinguir o bem do mal, a verdade das mentiras, aquilo que realmente conta do que é efêmero, transitório, banal. Nesse sentido, é destacado como "um trabalho comum nessa direção pode tornar-se uma importante contribuição para a cooperação entre as Igrejas na pregação do Evangelho de Cristo ao mundo".

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Papa Francisco reza com o Oriente Médio

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10 de julho de 2018

No último sábado, 07, o Papa Francisco visitou a cidade italiana de Bari. A cidade que abraça uma devoção à São Nicolau reuniu os líderes das Igrejas e das comunidades Cristãs do Oriente para que, pela intercessão do padroeiro, a paz, a conciliação, o perdão e a misericórdia fossem difundidos ao Oriente Médio. O encontro ecumênico de oração não alcança somente aos fiéis católicos, mas todas as pessoas assoladas por situações adversas, situação de sofrimento e condições de escassez e fragilidade.

O gesto do Pontífice reconheceu a generosidade e prontidão dos líderes religiosos, mas sobretudo quando fala de proximidade quer justamente apontar para uma cultura do encontro. São Nicolau, bispo do Oriente, viveu um grande testemunho ao mostrar, com sua vida, o caminho do Sol Nascente, onde brotou a fé e nasceu Jesus Cristo.

A Doutrina Social da Igreja toma forma com as incontáveis obras pastorais ao redor do mundo. Outros Papas dispuseram-se a um ardor missionário indo ao encontro do Médio Oriente: o ecumenismo é a ponte entre o conflituoso mundo oriental e a Paz como vocação da humanidade. O Papa Francisco, portanto, no gesto de reunir os representantes em um claro apelo à Paz, põe-se a serviço desta Paz; O discurso e a ação unidos para atender ao apelo oriundo do berço do Catolicismo Romano.

A Comunidade Internacional espera um posicionamento da Igreja, que não apenas se mobiliza em palavras – essenciais, por sua vez – mas envia seu líder a peregrinar pela Paz. Logo no primeiro ano de Pontificado (2013), evidenciou-se a preocupação do Santo Padre com uma agenda central para o Oriente Médio: o reconhecimento da Palestina como Estado.

 

Para ti haja Paz!

A importância de atos concretos não significa apenas uma proximidade com causas humanitárias, mas o coração da Igreja se volta à “terra de gente que deixa a própria terra” como afirmou o Santo Padre na ocasião em Bari. A crise dos refugiados, as guerras que se multiplicam, recursos vitais e estratégicos ameaçados, são algumas das conjunturas enfrentadas na região. O contexto geopolítico revela, se o ser humano for melhor observado, a urgência de anunciar a Paz seguindo o apelo de Deus e da humanidade.

A peregrinação do Papa Francisco contou com dois momentos extremamente significativos representando essa condição; A vela de chama única foi acessa mostrando que o cristão é chamado a ser sal da terra e luz do mundo,

“ nos momentos escuros da história não se resignam com a escuridão que tudo envolve, e alimentam o pavio da esperança com o azeite da oração e do Amor [...] e quando se estende a mão para o irmão sem buscar o interesse, arde e resplandece o fogo do Espírito[...] Disse o Santo Padre. ”

A segunda ação soube fortalecer a centelha da esperança sob o clamor do mundo de tantos sofrimentos; jovens voluntários uniram-se para acender velas e entregar a cada um dos líderes religiosos presente durante a ocasião, confiando eles a missão de protagonistas no anúncio da Paz.

Em 2017 quando questionado pelo Sociólogo Dominique Wolton sobre qual seria o principal obstáculo à Paz na atualidade, o Papa Francisco foi taxativo em sua resposta : “o dinheiro”. Os interesses econômicos exacerbados alicerçados no interesse próprio formam um triste silêncio agravado pela desigualdade. A Igreja responde a um chamado de Deus, e da mesma maneira o Senhor responde ao chamado dos homens, cada vez mais necessitados no Oriente Médio, mas profundamente marcados pela fé viva e vivencial.

É evidente a centralidade da Paz nas principais buscas da humanidade, e se a Paz é o próprio Jesus Cristo, a visita do Papa Francisco a Bari mostra ainda mais responsabilidades cristãs nas relações internacionais. O Pontífice ainda atentou para o risco que os cristãos correm na região, seja por perseguições, ameaças ou discordâncias, no entanto superando as barreias o Papa afirma que “a indiferença mata, queremos ser voz que contrasta com o homicídio da indiferença, queremos dar voz a quem não tem voz [...] hoje o Oriente médio chora e emudece”, as palavras do Santo Padre estão voltadas ao Ocidente, que muitas vezes suprime o grito do Oriente enquanto o “espezinham à procura de poder e riquezas”.

 

A Comunidade Internacional

O Papa Francisco protagoniza o interesse da Igreja Católica frente aos territórios por onde está todo o povo de Deus. Enfrentar com coragem e perseverança, com atos concretos, os desafios da humanidade mostram uma exortação em seu testemunho, mas uma ação de Política Externa firmada no evangelho.

A ênfase criticando interesses econômicos, intransigências políticas, escândalos humanitários quer – com firmeza – mobilizar uma verdadeira mudança indiferente do país atingido pelas declarações. Não houve uma responsabilização sobre as condições do Oriente Médio, mas o coração da Igreja se volta em oração, em atenção, caridade e misericórdia para atender os principais anseios daqueles que mais sofrem e colaborar com a Paz verdadeiramente.

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Papa: o ecumenismo é sempre mais uma necessidade e um desejo

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04 de junho de 2018

A semana do Papa Francisco começou com o tema do ecumenismo. O Pontífice recebeu no Vaticano uma delegação da Igreja Evangélica Luterana Alemã, guiada pelo bispo Ulrich.

Em seu discurso, Francisco recordou “com alegria” os momentos vividos juntos no ano passado por ocasião da Comemoração comum da Reforma.

“Graças a Deus, constatamos que os 500 anos de história que nos contrapuseram – às vezes muito dolorosa e em conflito –, deixaram espaço nos últimos 50 anos a uma crescente comunhão.”

 

Lógica do Evangelho

Os encontros fraternos, acrescentou o Papa, foram realizados segundo a lógica do Evangelho e não de estratégias humanas – o que permitiu superar antigos preconceitos de ambas as partes.

Francisco destacou que a Comemoração da Reforma confirmou que o ecumenismo continuará a marcar o caminho conjunto, pois está se tornando sempre mais uma necessidade e um desejo.

“Não podemos nos esquecer de partir da oração, para que não sejam os projetos humanos a indicar o caminho, mas o Espírito Santo.”

 

Ecumenismo de sangue e da caridade

O Papa voltou a falar do ecumenismo de sangue e do ecumenismo da caridade. Católicos e luteranos são chamados antes de tudo a se amarem intensamente, mas são chamados também a aliviar juntos as misérias dos necessitados e dos perseguidos.

“Os sofrimentos de tantos irmãos oprimidos por causa da fé em Jesus são também um premente convite a alcançar uma unidade sempre mais concreta e visível entre nós.”

 

Diálogo teológico

Francisco encorajou o diálogo teológico, propondo como temas a Igreja, a Eucaristia e o ministério eclesial. Pediu ainda que o ecumenismo não seja elitista, mas envolva o mais possível os inúmeros irmãos e irmãs na fé, “crescendo como comunidade de discípulos que rezam, amam e anunciam”.

“Que o Senhor nos acompanhe, para que o nosso ser cristão seja mais centralizado Nele e corajoso na missão; para que o cuidado pastoral se enriqueça de serviço”, concluiu o Pontífice.

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Semana de Oração pela Unidade Cristã busca reconciliação e comunhão

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15 de mai de 2018

Com o intuito de estimular todos os cristãos, das mais diversas confissões, a expressar o grau de comunhão que já atingiram e a orar juntos por uma unidade cada vez mais plena, igrejas de todo o Brasil (católicas, anglicanas, batistas, luteranas, metodistas, ortodoxas, presbiterianas, entre outras) celebram, até o próximo dia 20 de maio, a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC).

 

HISTÓRIA

Idealizada há 110 anos e promovida no mundo inteiro pelo Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, a ação é uma resposta direta à oração de Jesus em João 17,21, que diz: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste”, e acontece em períodos diferentes nos dois hemisférios.

No hemisfério norte, por uma iniciativa ecumênica instituída pelo reverendo anglicano Paul Watson, esse evento ocorreu pela primeira vez entre os dias 18 e 25 de janeiro de 1908, em Graymoor (Nova York), entre a festividade da cátedra de São Pedro (em Roma) e a da conversão de São Paulo.

No hemisfério sul, por sua vez, as Igrejas geralmente celebram a Semana de Oração no período de Pentecostes, considerado um momento simbólico para a unidade da Igreja, como foi sugerido pela Comissão “Fé e Ordem”, do Conselho Ecumênico das Igrejas, em 1926. No Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) lidera e coordena as iniciativas para a celebração da Semana de Oração em diversos estados.

 

TEMÁTICA

Como acontece desde 1966, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e o Conselho Ecumênico das Igrejas estabeleceram não somente a adoção de um lema bíblico para nortear os trabalhos a cada ano, como também a preparação conjunta dos textos oficiais para a Semana de Oração, trabalho confiado cada vez a um grupo ecumênico local diferente. Para este ano, tal atividade foi entregue às Igrejas do Caribe, que se reuniram em Nassau, nas Bahamas, tendo por base o lema “A mão de Deus nos une e liberta” (Ex 15,1-21).

 

DIVULGAÇÃO

Baseado no tema bíblico escolhido a cada ano, é desenvolvido um cartaz alusivo à situação que será o centro das reflexões da respectiva Semana de Oração, utilizado para promover a divulgação desta. Este ano, o cartaz traz pessoas em barcos que simbolizam, sobretudo nesses tempos de crise migratória, pessoas refugiadas que vivem cada vez mais à deriva dos poderes constituídos. Em muitos casos, sem políticas sociais que possam devolver-lhes a dignidade roubada, essas pessoas são submetidas a situações de trabalho análogas à escravidão ou, então, comercializadas como escravos.

A arte remete, por um lado, ao fato de que muitas dessas pessoas refugiadas contam com a "mão" de Deus que, de uma forma ou de outra, as ampara. Por outro lado, é também a mão de Deus, presente em águas revoltas, que movimenta os cristãos a agir em favor de uma humanidade que não se conforma com a violação dos direitos humanos e com o desrespeito à dignidade de irmãos de diferentes culturas e etnias. 

O barco, símbolo do movimento ecumênico, também faz alusão à comunidade cristã, que tem como desafio navegar, ecumenicamente, rumo à unidade. Entretanto, essa unidade almejada apenas será concreta se todas as pessoas tiverem acesso à justiça, além do direito de viver em seus territórios de origem, bem como o direito de viver sua cultura e espiritualidade.

 

INICIATIVAS

Em São Paulo, algumas celebrações ecumênicas promovem a unidade e a reconciliação entre os cristãos, tendo começado no dia 14 de maio, às 20h, na Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras (Alameda Jaú, 752 – Jardim Paulista). Haverá ainda as celebrações no dia 16, às 20h, na Capela Anglicana da Anunciação (Rua Imoroti, 142 – travessa da Rua Alencar de Araripe – Sacomã) e no dia 17, tanto às 19h30min, na Paróquia Sant’Anna (Rua Voluntários da Pátria, 2060 – Santana) como às 20h, no Santuário Santa Cruz da Reconciliação (Rua Valdomiro Fleuri, 180 – Butantã). 

 

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