Documento do Papa aos jovens: Deus os ama e a Igreja necessita da juventude

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02 de abril de 2019

“Cristo vive: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Por isso as primeiras palavras, que quero dirigir a cada jovem cristão, são estas: Ele vive e quer-te vivo!”

Assim começa a Exortação Apostólica pós-sinodal "Christus vivit" do Papa Francisco, assinada segunda-feira, 25 de março, na Santa Casa de Loreto, e dirigida “aos jovens e a todo o povo de Deus”.

No documento, composto por nove capítulos divididos em 299 parágrafos, o Papa explica que se deixou “inspirar pela riqueza das reflexões e diálogos do Sínodo dos jovens”, celebrado no Vaticano em outubro de 2018.

 

A vida de Cristo

Francisco aborda o tema dos primeiros anos de Jesus. Para ele, estes aspectos de Sua vida não deveriam ser ignorados na pastoral juvenil, “para não criar projetos que isolem os jovens da família e do mundo”.

O Pontífice retoma um de seus ensinamentos e explica que é necessário apresentar a figura de Jesus “de modo atraente e eficaz” e diz: “Por isso é necessário que a Igreja não esteja demasiado debruçada sobre si mesma, mas procure sobretudo refletir Jesus Cristo. Isto implica reconhecer humildemente que algumas coisas concretas devem mudar”.

Na Exortação, se reconhece que há jovens que sentem a presença da Igreja “como importuna e até mesmo irritante”. Há jovens que “reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe o tempo a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida, mas tampouco desejam que esteja sempre em guerra por dois ou três assuntos que a obcecam”.

Sobre a realidade juvenil, o Papa recorda os jovens que vivem em contextos de guerra, explorados e vítimas de sequestros, criminalidade organizada, tráfico de seres humanos, escravidão e exploração sexual, estupros. “Não podemos ser uma Igreja que não chora à vista destes dramas dos seus filhos jovens. Não devemos jamais habituar-nos a isto”, escreve.

Acenando a “desejos, feridas e buscas”, Francisco fala da sexualidade: “num mundo que destaca excessivamente a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afetivas”, mas lamenta que os jovens vejam na Igreja um espaço de julgamento e condenação.

A Exortação se detém em seguida sobre o tema do “ambiente digital”, que criou “uma nova maneira de comunicar”, mas é também um território de solidão, manipulação, exploração e violência. “A reputação das pessoas é comprometida através de processos sumários on-line. O fenômeno diz respeito também à Igreja e seus pastores.”

 

Migração, proteção dos menores, empenho social

Outro tema tocado pelo Pontífice são os migrantes e como os jovens estão diretamente envolvidos nas migrações. O Papa os alerta para a difusão de uma mentalidade xenófoba, contrapondo-os entre si.

O Papa fala também dos abusos sobre menores e expressa gratidão “a quantos têm a coragem de denunciar o mal sofrido”.

O abuso não é o único pecado dos membros da Igreja, recorda o Papa. Mas ela não recorre a cirurgias estéticas. “Lembremo-nos, porém, que não se abandona a Mãe quando está ferida.” Com a ajuda preciosa dos jovens, este momento pode ser uma oportunidade “para uma reforma de alcance histórico para se abrir a um novo Pentecostes”.

A todos os jovens, o Papa anuncia três grandes verdades. A primeira: “Deus que é amor”. A segunda: “Cristo salva-te”. A terceira verdade é que “Ele vive!”. Nestas verdades, aparece o Pai e aparece Jesus. E onde estão o Pai e Jesus, também está o Espírito Santo, escreve Francisco, aconselhando os jovens a invocarem todos os dias o Espírito Santo: “Não perdes nada e Ele pode mudar a tua vida”.

Francisco recorda ainda que a juventude não pode ser um “tempo suspenso”, porque é “a idade das escolhas”, por isso é importante buscar «um desenvolvimento espiritual. O Papa propõe “percursos de fraternidade” e a importância de ser jovens comprometidos, que buscam o bem comum.

“O empenho social e o contato direto com os pobres continuam a ser uma oportunidade fundamental para descobrir ou aprofundar a fé e para discernir a própria vocação”. Em outras palavras, os jovens são chamados a ser “missionários corajosos”.

Não poderia faltar a referência à “relação com os idosos”. Se “os jovens se enraizarem nos sonhos dos idosos, conseguem ver o futuro”. É preciso, portanto, “arriscar juntos”.

 

Pastoral juvenil

Um inteiro capítulo é dedicado à “Pastoral dos jovens”. A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade, explica, sendo um espaço onde não só recebam uma formação, mas lhes permitam também compartilhar a vida.

Serve “uma pastoral juvenil popular”, “mais ampla e flexível que estimula, nos distintos lugares onde se movem concretamente os jovens, as lideranças naturais e os carismas que o Espírito Santo já semeou entre eles”.

Outro ponto fundamental é o discernimento, seja para a vida familiar, seja para a consagração a Deus.

No que diz respeito ao trabalho, o Papa recorda que “é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal”.

A Exortação se conclui com “um desejo” do Papa Francisco:

“ “Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e medrosos. Correi atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre…A Igreja precisa do vosso ímpeto, das vossas intuições, da vossa fé...E quando chegardes aonde nós ainda não chegamos, tende a paciência de esperar por nós”. ”

 

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Sínodo dos Bispos: o que diz o Documento Final

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30 de outubro de 2018

É o episódio dos discípulos de Emaús, narrado pelo evangelista Lucas, o fio condutor do Documento Final do Sínodo dos Jovens. Lido na Sala alternando vozes do relator geral, cardeal Sérgio da Rocha, e os secretários Especiais, padre Giacomo Costa e padre Rossano Sala, juntamente com Dom Bruno Forte, membro da Comissão para a Redação do texto, o documento é complementar ao Instrumentum laboris do Sínodo, do qual toma a subdivisão em três partes.

Acolhido com aplausos, o texto - disse o cardeal Sérgio Da Rocha - é "o resultado de um verdadeiro trabalho de equipe" dos Padres Sinodais, juntamente com os outros participantes no Sínodo e "em modo particular os jovens." O Documento, portanto, recolhe as 364 formas, ou emendas, apresentadas. "A maior parte delas - acrescentou o Relator geral - foi precisa e construtiva". Todos os parágrafos do texto foram aprovados com pelo menos dois terços dos votos.

 

"Caminhava com eles"

Em primeiro lugar, portanto, o Documento Final do Sínodo olha para o contexto em que vivem os jovens, destacando os pontos de força e desafios. Tudo parte de uma escuta empática que, com humildade, paciência e disponibilidade, permite de dialogar realmente com os jovens, evitando "respostas pré-concebidas e receitas prontas". Os jovens, de fato, querem ser "ouvidos, reconhecidos, acompanhados" e querem que sua voz seja "considerada interessante e útil no campo social e eclesial". A Igreja nem sempre teve essa atitude, reconhece o Sínodo: muitas vezes sacerdotes e bispos, sobrecarregados por muitos compromissos, lutam para encontrar tempo para o serviço da escuta. Daí a necessidade de preparar adequadamente também leigos, homens e mulheres, capazes de acompanhar as jovens gerações. Diante de fenômenos como a globalização e a secularização, além disso,  os jovens movem-se em direção a uma redescoberta de Deus e da espiritualidade e isso deve ser um estímulo para a Igreja, para recuperar a importância do dinamismo da fé.

 

A escola e a paróquia

Outra resposta da Igreja às questões dos jovens vem do setor educacional: as escolas, as universidades, as faculdades, os oratórios, permitem uma formação integral dos jovens, oferecendo ao mesmo tempo um testemunho evangélico de promoção humana.

Em um mundo onde tudo está conectado - família, trabalho, tecnologia, defesa do embrião e do migrante - os bispos definem como insubstituível o papel desempenhado pelas escolas e universidades onde os jovens passam muito tempo. As instituições educacionais católicas, em particular, são chamadas a enfrentar a relação entre a fé e as demandas do mundo contemporâneo, as diferentes perspectivas antropológicas, os desafios técnico-científicos, as mudanças nos costumes sociais e o compromisso com a justiça. Também a paróquia tem o seu papel: "Igreja no território", é preciso um repensar na sua vocação missionária, pois muitas vezes resulta pouco significativa e pouco dinâmica, especialmente na área da catequese.

 

Migrantes, um paradigma do nosso tempo

O documento sinodal se concentra então no tema dos migrantes, "paradigma do nosso tempo",  como um fenômeno estrutural, e não uma emergência transitória. Muitos migrantes são jovens ou menores desacompanhados, fugindo da guerra, violências, perseguição política ou religiosa, desastres naturais, pobreza e acabam se tornando vítimas de tráfico, drogas, abusos psicológicos e físicos. A preocupação da Igreja é acima de tudo em relação a eles - diz o Sínodo – na ótica de uma autêntica promoção humana que passa pela acolhida de refugiados, e seja ponto de referência para tantos jovens separados de suas famílias de origem. Mas não só: os migrantes - recorda o Documento - são também uma oportunidade de enriquecimento para as comunidades e sociedades em que chegam e que podem ser revitalizados por eles. Ressoam, portanto, os verbos sinodais "acolher, proteger, promover, integrar" indicados pelo Papa Francisco para uma cultura que supere a desconfiança e o medo. Os bispos também pedem mais empenho em garantir àqueles que não desejam migrar, o direito de permanecer em seu próprio país. A atenção do Sínodo também se dirige àquelas Igrejas ameaçadas em sua existência, pela emigração forçada e pelas perseguições sofridas pelos fiéis.

 

Firme compromisso contra todo tipo de abuso. Dizer a verdade e pedir perdão

Bastante ampla, também, a reflexão sobre os "diversos tipos de abuso" (de poder, econômicos, de consciência, sexuais) feitos por alguns bispos, sacerdotes, religiosos e leigos: nas vítimas – lê-se no texto – eles provocam sofrimentos que "podem ​​durar toda a vida e aos quais nenhum arrependimento pode colocar remédio".

Daí o apelo do Sínodo ao "firme compromisso com a adoção de rigorosas medidas de prevenção que impeçam o repetir-se, a partir da seleção e da formação daqueles a quem serão confiadas tarefas de responsabilidades e educativas". Por conseguinte, será necessário extirpar as formas - como a corrupção e o clericalismo – sob as quais estes tipos de abusos estão enraizados, contrastando também a falta de responsabilidade e transparência com que muitos casos foram geridos. Ao mesmo tempo, o Sínodo se diz agradecido a todos aqueles que "têm a coragem de denunciar o mal sofrido", porque ajudam a Igreja a "tomar consciência do que aconteceu e da necessidade de reagir com decisão". "A misericórdia, de fato, exige a justiça". Mas não devem porém ser esquecidos os numerosos leigos, sacerdotes, pessoas consagradas e bispos que a cada dia se dedicam, com honestidade, a serviço dos jovens, os quais podem verdadeiramente oferecer "uma ajuda preciosa" para uma "reforma de dimensão epocal" nesta área.

 

A Família "Igreja Doméstica"

Outros temas presentes no Documento dizem respeito à família, principal ponto de referência para os jovens, primeira comunidade de fé, "Igreja doméstica": o Sínodo chama a atenção, em particular, ao papel dos avós na educação religiosa e na transmissão da fé, e alerta para o enfraquecimento da figura paterna e  para aqueles adultos que assumem estilos de vida "juvenis". Além da família, para os jovens, a amizade com os colegas é muito importante, pois permite a partilha da fé e a ajuda recíproca no testemunho.

 

Promoção de justiça contra "cultura de desperdício"

O Sínodo concentra-se também em algumas formas de vulnerabilidade vividas pelos jovens em vários setores: no trabalho, onde o desemprego torna as jovens gerações pobres, minando a sua capacidade de sonhar; as perseguições até a morte; a exclusão social por motivos religiosos, étnicos ou econômicos; as deficiências. Diante dessa "cultura de descarte", a Igreja deve lançar um apelo à conversão e à solidariedade, tornando-se uma alternativa concreta às situações de dificuldade. Na frente oposta, não faltam áreas onde o comprometimento dos jovens consegue se expressar com originalidade e especificidade: por exemplo, o voluntariado, a atenção às questões ecológicas, o compromisso na política com a construção do bem comum, a promoção da justiça, pela qual os jovens pedem à Igreja "um compromisso firme e coerente".

 

Arte, música e esporte, "recursos pastorais"

Também o mundo do esporte e da música oferece aos jovens a possibilidade de expressarem-se da melhor forma: no primeiro caso, a Igreja convida a não subestimar a potencialidade educacional, formativa e inclusiva da atividade esportiva; no caso da música, por outro lado, o Sínodo fala sobre sobre seu “ser recurso pastoral" que interpela também a uma renovação litúrgica, porque os jovens têm o desejo de uma "liturgia viva", autêntica, alegre, momento de encontro com Deus e com o comunidade.

Os jovens apreciam celebrações autênticas em que a beleza dos sinais, o cuidado da pregação e o envolvimento da comunidade falem realmente de Deus": portanto, precisam ser ajudados a descobrir o valor da adoração eucarística e a compreender que" a liturgia não é puramente expressão de si mesma, mas ação de Cristo e da Igreja".

As jovens gerações, ademais, querem ser protagonistas da vida eclesial, colocando seus talentos e assumindo responsabilidades. sujeitos ativos da ação pastoral, eles são o presente da Igreja, devem ser encorajados a participar na vida eclesial, e não impedidos com autoritarismo. Em uma Igreja capaz de dialogar de uma forma menos paternalista e mais sincera, de fato, os jovens sabem ser muito ativos na evangelização de seus coetâneos, exercendo um verdadeiro apostolado, que deve ser apoiado e integrado na vida da comunidade.

 

"Seus olhos se abriram"

Deus fala à Igreja e ao mundo por meio dos jovens, que são um dos "lugares teológicos" onde o Senhor está presente. Portadora de uma santa inquietude que a torna dinâmica – lê-se na segunda parte do Documento – a juventude pode estar "mais à frente dos pastores" e isso deve ser acolhida, respeitada, acompanhada. Graças a ela, de fato, a Igreja pode se renovar, sacudindo "o peso e a lentidão". Assim, o chamado do Sínodo para o modelo de "Jesus jovem entre os jovens" e ao testemunho dos santos, entre os quais estão muitos jovens, profetas da mudança.

 

Missão e vocação

Outra "bússola segura" para a juventude é a missão, dom de si que leva a uma felicidade verdadeira e duradoura: Jesus, de fato, não tira a liberdade, mas a liberta, porque a verdadeira liberdade só é possível em relação à verdade e à caridade. Intimamente relacionado com o conceito de missão, está aquele da vocação: cada vida é vocação em relação com Deus, não é fruto do acaso ou um bem privado para gerir por conta própria - afirma o Sínodo - e cada vocação batismal é um chamado para todos para a santidade. Para isso, cada um deve viver a própria vocação específica em cada área: a profissão, a família, a vida consagrada, o ministério ordenado e o diaconato permanente, que representa um "recurso" a ser ainda desenvolvido mais plenamente.

 

O acompanhamento

Acompanhar é uma missão para a Igreja a ser realizada em um nível pessoal e de grupo: em um mundo "caracterizado por um pluralismo sempre mais evidente e por uma disponibilidade de opções cada vez mais ampla," buscar junto com os jovens um percurso voltado a fazer escolhas definitivas é um serviço necessário. Os destinatários são todos os jovens: seminaristas, sacerdotes ou religiosos em formação, noivos e recém-casados ​​envolvidos. A comunidade eclesial é um lugar de relações e contexto em que na celebração eucarística se é tocados, instruídos e curados pelo próprio Jesus. O Documento Final enfatiza a importância do Sacramento da Reconciliação na vida de fé e encoraja os pais, professores, lideranças, animadores, sacerdotes e educadores a ajudar os jovens, por meio da da Doutrina Social da Igreja, a assumir responsabilidades no âmbito profissional e sócio-político. O desafio em sociedades cada vez mais interculturais e plurirreligiosas, é indicar na relação com a diversidade uma oportunidade para a comunhão fraterna e o enriquecimento mútuo.

 

Não a moralismos e falsas indulgências, sim à correção fraterna

O Sínodo, portanto, promove um acompanhamento integral centrado na oração e no trabalho interior que valorize também a contribuição da psicologia e da psicoterapia, quando abertas à transcendência. "O celibato pelo Reino" – é a recomendação - deve ser entendido como um "dom a ser reconhecido e verificado na liberdade, alegria, gratuidade e humildade", antes da escolha definitiva. Que se invista e aposte em acompanhadores de qualidade: pessoas equilibradas, de escuta, fé, oração, que tenham se deparado com as próprias fraquezas e fragilidades, e sejam por isto acolhedoras "sem moralismos e falsas indulgências", sabendo corrigir fraternalmente, longe de comportamentos possessivos e manipuladores. "Esse profundo respeito – lê-se o texto - será a melhor garantia contra os riscos de plágio e abusos de qualquer tipos".

 

A arte de discernir

"A Igreja é o ambiente para discernir e a consciência – escrevem os Padres sinodais - é o lugar onde se colhe o fruto do encontro e da comunhão com Cristo": o discernimento, por meio de "um regular confronto com um diretor espiritual", apresenta-se portanto como o sincero trabalho de consciência", "pode ser entendido somente como autêntica forma de oração” e “requer a coragem de empenhar-se na luta espiritual". Banco de prova das decisões assumidas é a vida fraterna e o serviço aos pobres. De fato, os jovens são sensíveis à dimensão da diakonia.

 

“Partiram sem demora"

Maria Madalena, primeira discípula missionária, curada das feridas, testemunha da Ressurreição é o ícone de uma Igreja jovem. Dificuldades e fragilidades dos jovens "nos ajudam a ser melhores, seus questionamentos – lê-se - nos desafiam, as críticas nos são necessárias porque muitas vezes através deles a voz do Senhor nos pede conversão e renovação". Todos os jovens, mesmo aqueles com diferentes visões de vida, nenhum excluído, estão no coração de Deus. Os Padres ressaltam o dinamismo construtivo da sinodalidade, ou seja, o caminhar juntos: o final da Assembleia e o Documento final são apenas uma etapa porque as condições concretas e as necessidades urgentes são diferentes entre países e continentes. Daí o convite às Conferências Episcopais e às Igrejas particulares para prosseguir no processo de discernimento com o objetivo de elaborar soluções pastorais específicas.

 

Sinodalidade, estilo missionário

"Sinodal" é um estilo para a missão que exorta a passar do “eu” ao “nós” e a considerar a multiplicidade de rostos, sensibilidades, origens e culturas diferentes. Neste horizonte são valorizados os carismas que o Espírito dá a todos, evitando o clericalismo que exclui muitos dos processos de decisão e a clericalização dos leigos, que freia o ímpeto missionário.

Que a autoridade – são os votos - seja vivida a partir de uma perspectiva de serviço. Sinodal seja também a abordagem ao diálogo inter-religioso e ecumênico destinado ao conhecimento recíproco e à superação de preconceitos e estereótipos, e a renovação da vida comunitária e paroquial, para que encurte as distâncias jovens-igreja e mostre a íntima conexão entre fé e experiência concreta de vida. Formalizado o pedido diversas vezes feito na Aula para instituir, em nível de Conferências Episcopais, um "Diretório de pastoral da juventude em chave vocacional”, que possa ajudar os responsáveis diocesanos e os agentes locais a qualificar a sua educação e ação com e para os jovens", contribuindo  a superar uma certa fragmentação da pastoral da Igreja. Reiterada ainda a importância da JMJ, bem como a dos centros da juventude e oratórios, que precisam no entanto ser repensados.

 

O desafio digital

Há alguns desafios urgentes que a Igreja é chamada a enfrentar. O Documento Final do Sínodo aborda a missão no ambiente digital: parte integrante da realidade cotidiana dos jovens, "praça" em que eles passam muito tempo e se encontram facilmente, um lugar irrenunciável para alcançar e envolver os jovens também nas atividades pastorais, a web apresenta luzes e sombras.

Se por um lado permite o acesso à informação, ativa a participação sociopolítica e a cidadania ativa, por outro apresenta um lado obscuro - a assim chamada dark web - em que se encontram a solidão, a manipulação, a exploração, a violência, cyberbullying, pornografia. Daí o convite do Sínodo para habitar o mundo digital, promovendo o seu potencial comunicativo em vista do anúncio cristão e a "impregnar" de Evangelho as suas culturas e dinâmicas.

Faz-se votos de que sejam criados Escritórios e organismos para a cultura e a evangelização digital que, além de “favorecer a troca e e a disseminação de boas práticas, possam gerenciar sistemas de certificação de sites católicos, para conter a disseminação de notícias falsas (fake news) sobre a Igreja", emblema de uma cultura que "perdeu o sentido da verdade", encorajando a promoção de "políticas e instrumentos para a proteção dos menores na web".

 

Corpo, sexualidade e carinho

Então, o Documento enfoca o tema do corpo, da afetividade, da sexualidade: diante de desenvolvimentos científicos que levantam questionamentos éticas, de fenômenos como a pornografia digital, o turismo sexual, a promiscuidade, exibicionismo online, o Sínodo recorda às famílias e às comunidades cristãs da importância de fazer descobrir aos jovens que a sexualidade é um dom. Muitas vezes a moral sexual da Igreja é percebida como "um espaço de juízo e condenação", enquanto os jovens buscam "uma palavra clara, humana e empática" e "expressam um explícito desejo de confronto sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres, à homossexualidade".

Os bispos reconhecem a dificuldade da Igreja em transmitir no atual contexto cultural "a beleza da visão cristã da corporeidade e da sexualidade": é urgente buscar "modalidades mais adequadas, que se traduzam concretamente na elaboração de caminhos formativos renovados". "É preciso propor aos jovens uma antropologia da afetividade e da sexualidade capaz de dar o justo valor à castidade" para o crescimento da pessoa, “em todos os estados de vida". Nesse sentido, é pedido que se preste atenção à formação de agentes pastorais que sejam críveis e maduros do ponto de vista afetivo-sexual.

O Sínodo constata ademais a existência de "questões relativas ao corpo, à afetividade e à sexualidade que necessitam de uma elaboração antropológica, teológica e pastoral mais aprofundada, a ser realizada nas modalidades e níveis mais convenientes, daqueles locais aos mais universais.  Entre estes emergem aqueles relacionados à diferença e harmonia entre identidade masculina e feminina e às inclinações sexuais".

"Deus ama cada pessoa pessoas e assim faz a Igreja renovando seu compromisso contra qualquer discriminação e violência com base sexual". Da mesma forma - prossegue o Documento - o Sínodo "reafirma a determinante relevância antropológica da diferença e reciprocidade homem-mulher e considera redutivo definir a identidade das pessoas com base unicamente na sua orientação sexual".

Ao mesmo tempo, recomenda-se "favorecer" os "caminhos de acompanhamento na fé, já existentes em muitas comunidades cristãs", de "pessoas homossexuais". Nestes caminhos as pessoas são ajudadas a ler sua própria história; a aderir livremente e responsavelmente ao próprio chamado batismal; a reconhecer o desejo de pertencer e contribuir para a vida da comunidade; a discernir as melhores formas para que isso se realize. Desta forma, se ajuda a cada jovem, nenhum excluído, a integrar cada vez mais a dimensão sexual na própria personalidade, crescendo na qualidade das relações e caminhando para o dom de si".

 

Acompanhamento vocacional

Entre outros desafios apontados pelo Sínodo, encontra-se também a questão econômica: o convite dos Padres é o de investir tempo e recursos nos jovens com a proposta de oferecer a eles um período para o amadurecimento da vida cristã adulta, que "deveria prever uma separação prolongada de ambientes e relações habituais".
Além disso, enquanto se faz votos de um acompanhamento antes e depois do casamento, se encoraja a criação de equipes educativas, que incluam figuras femininas e casais cristãos, para a formação de seminaristas e consagrados, também com o objetivo de superar tendências ao clericalismo. Atenção especial é pedida à acolhida dos candidatos ao sacerdócio, que às vezes ocorre "sem um conhecimento adequado e uma releitura aprofundada da própria história": "a instabilidade relacional e afetiva, e a falta de raízes eclesiais são sinais perigosos. Negligenciando a normativa eclesial a este respeito – escrevem os Padres sinodais - constitui um comportamento irresponsável, que pode ter consequências muito graves para a comunidade cristã".

 

Chamado à santidade

"As diversidades vocacionais - conclui o Documento Final do Sínodo sobre os jovens – inserem-se no único e universal chamado à santidade. Infelizmente o mundo está indignado com os abusos de algumas pessoas da Igreja, antes que animados pela santidade de seus membros”. Por isso a Igreja é chamada a "uma mudança de perspectiva": por meio da santidade de tantos jovens dispostos a renunciar à vida em meio a perseguições para permanecerem fiéis ao Evangelho, pode renovar seu ardor espiritual e seu vigor apostólico.

 

O dom do Papa aos participantes do Sínodo

Por fim, como recordação do Sínodo dos Jovens, o Santo Padre deu a todos os participantes uma placa de bronze, com um baixo-relevo representando Jesus e o jovem discípulo amado. É uma obra do artista italiano Gino Giannetti, cunhada pela Casa da Moeda do Estado da Cidade do Vaticano, emitida em apenas 460 exemplares.

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Novo documento do Papa: Sínodo dos bispos a serviço do Povo de Deus

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18 de setembro de 2018

Faltando poucos dias para o início do Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens, foi publicada esta terça-feira, 18, a Constituição Apostólica do Papa Francisco Episcopalis communio sobre a estrutura do organismo instituído por Paulo VI em 1965.

Pelo bem de toda a Igreja

Francisco define a instituição do Sínodo como uma das “heranças mais preciosas do Concílio Vaticano II”, e destaca a “eficaz colaboração” do organismo com o Romano Pontífice nas questões de maior importância, isto é, que “requerem uma especial ciência e prudência pelo bem de toda a Igreja”. Neste momento histórico em que a Igreja abarca uma nova “etapa evangelizadora”, através de um estado permanente de missão, o Sínodo dos bispos é chamado a se tornar sempre mais um canal adequado para a evangelização do mundo de hoje.

 

A Secretaria Geral

Paulo VI havia previsto que, com o passar do tempo, esta instituição poderia ser aperfeiçoada; a última edição do Ordo Synodi é de 2006, promulgada por Bento XVI. Diante da eficácia da ação sinodal, nesses anos cresceu o desejo de que o Sínodo se torne sempre mais “uma peculiar manifestação e uma eficaz atuação da solicitude do episcopado para com todas as Igrejas”.

 

A escuta

O bispo, reitera o Papa, é contemporaneamente “mestre e discípulo”, num compromisso que é ao mesmo tempo missão e escuta da voz de Cristo que fala através do Povo de Deus. Também o Sínodo então “tem que se tornar sempre mais um instrumento privilegiado de escuta do Povo de Deus”, através da consulta dos fiéis nas Igrejas particulares, porque mesmo que seja um organismo essencialmente episcopal, não vive “separado do restante dos fiéis”.

Portanto, é “um instrumento apto a dar voz a todo o Povo de Deus justamente por meio dos bispos”, “custódios, intérpretes e testemunhas da fé”, mostrando-se, de Assembleia em Assembleia, uma expressão eloquente da “sinodalidade” da própria Igreja, em que se espelha uma comunhão de culturas diferentes. Também graças ao Sínodo dos bispos, ficará mais evidente que nela vige uma “profunda comunhão”, seja entre os pastores e fiéis, seja entre os bispos e o Pontífice.

 

A unidade do todos os cristãos

A esperança do Papa Francisco é que a atividade do Sínodo possa “a seu modo contribuir ao restabelecimento da unidade entre todos os cristãos, “segundo a vontade do Senhor”. Deste modo, o organismo ajudará a Igreja Católica, segundo o auspício de São João Paulo II expresso na encíclica Ut unum sint, a “encontrar uma forma de exercício de primado que, não renunciando de modo algum à essência de sua missão, se abra a uma nova situação”.

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Pastoral lança Relatório: “Hospitais-Prisão: notas sobre os manicômios judiciais de São Paulo”

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27 de agosto de 2018

“Dizem que não tem prisão perpétua no Brasil. Mas sabe onde tem? É aqui”. Esse foi o desabafo ouvido por uma equipe da Pastoral Carcerária em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico no interior de São Paulo. O relato foi feito por um portador de transtornos mentais. Ele cometeu um delito, adentrou o sistema penal, mas não pode ser responsabilizado por suas ações. Em um local que a Pastoral chama de “manicômio judiciário”, ele cumpre sua pena, mascarada por um nome: medida de segurança.

Situações como esta estão registradas no relatório: “Hospitais-Prisão: notas sobre os manicômios judiciais de São Paulo que a Pastoral Carcerária da Arquidiocese de São Paulo lançou, dia 16 de agosto, na sede da Ação Educativa em São Paulo (SP). A publicação é fruto das ações e experiências de visita do Grupo de Trabalho a três hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico do estado de São Paulo que vem sendo realizadas deste 2014.

O que se viu, em visitas mensais e quinzenais aos hospitais de Franco da Rocha e Taubaté, foi que esses locais funcionam como o cárcere. Lá estão esquecidas pessoas com as quais o Estado não sabe ao certo como lidar. A situação, segundo o grupo de trabalho, é desumana.

O documento, de 67 páginas, enfoca o tema a partir de perspectiva ampla, colocando em evidência as dinâmicas de encarceramento, o papel do judiciário e as lógicas médico-jurídicas que ordenam não só os Hospitais de Custódia, mas a morte e varredura de indesejáveis na sociedade para dentro de penitenciárias, manicômios judiciários, comunidades terapêuticas, hospitais psiquiátricos, entre outros espaços de violência.

Padre Valdir João Silveira, coordenador nacional da Pastoral Carcerária, na apresentação do relatório destaca que o relatório marca a retomada de uma missão – o trabalho do GT “Saúde Mental e Liberdade” da Pastoral Carcerária, composto por agentes pastorais, mulheres e homens, comprometidos com a promoção da dignidade humana e com a defesa da vida. “Mesmo enfrentando incontáveis desafios, próprios da missão pastoral, o GT assumiu ser presença fraterna junto às pessoas privadas de liberdade, orientado pela Palavra de Deus, pela Doutrina Social e pelo Magistério da Igreja”, ressaltou.

Existem três hospitais de custódia no estado de São Paulo: dois localizados no município de Franco da Rocha e um na cidade de Taubaté. O relatório desta destacar que a localização dessas unidades não é desprovida de significado. Franco da Rocha é um município situado na região metropolitana de São Paulo e que possui uma história marcada pela privação de liberdade. Além de dois hospitais de custódia, a cidade possui três penitenciárias, um Centro de Detenção Provisória (CDP) Feminino, um Centro de Progressão Penitenciária (CPP) e unidades de internação da Fundação CASA, além do conhecido Hospital Psiquiátrico do Juqueri, concentrando, assim, milhares de pessoas confinadas.

Por sua vez, o HCTP de Taubaté funciona em um edifício datado de 1914 e que, ao longo da história, já abrigou distintas instituições de privação de liberdade, que vão desde o encarceramento correcional de crianças e adolescentes, até o Piranhão, como era conhecido o anexo destinado aos presos considerados de alta periculosidade.

O Grupo de Trabalho Saúde Mental e Liberdade, como parte integrante da Pastoral Carcerária, em seu relatório entende que tais instituições de confinamento em nada contribuem para a resolução de conflitos. Em consonância com a luta da Pastoral Carcerária Por um mundo sem cárceres, o GT reivindica a extinção dos manicômios judiciários. “Deixar-se levar pela ideia de uma suposta existência irrevogável dessas várias privações de liberdade é, inevitavelmente, legitimar o encarceramento e a institucionalização como formas eficazes de resolução de conflitos numa sociedade atravessada pela violência”, aponta um trecho das conclusões.

Para acessar relatório completo, clique aqui

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Francisco muda texto do Catecismo: pena de morte é ‘inadmissível’

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09 de agosto de 2018

Em decisão histórica, o Papa Francisco decretou uma revisão no texto do Catecismo que explica o ensinamento da Igreja sobre a pena de morte: a partir de agora, a punição capital é considerada “inadmissível” em qualquer caso. Até então, admitia-se a pena de morte em algumas situações, quando não houvesse outra saída possível para defender a sociedade de um agressor perigoso. Entretanto, desde o pontificado de São João Paulo II, a doutrina já vinha evoluindo rumo a uma maior rigidez, contrária à pena de morte. 

O chamado “Reescrito” do Papa foi apresentado, no dia 2, pelo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Francisco Ladaria. O novo texto afeta exclusivamente o número 2.267 do Catecismo. Ele agora diz que “a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa, e empenha-se com determinação a favor da sua abolição em todo o mundo.” 

O texto precedente do Catecismo dizia que “a doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.” No contexto anterior, a pena de morte não era recomendada, mas tampouco completamente condenada pela doutrina da Igreja.
 

ATUALIZAÇÃO DO MAGISTÉRIO

O novo artigo do Catecismo também afirma que “hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde, mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos”. Sobre isso, o Cardeal Ladaria enviou carta a todos os bispos do mundo, justificando que já os papas São João Paulo II e Bento XVI vinham fortalecendo a visão de que a Igreja não admite a pena de morte.

Em 1995, São João Paulo II escreveu na Encíclica Evangelium Vitae que “nem sequer o homicida perde a sua dignidade pessoal e o próprio Deus se constitui seu garante”.

O Cardeal Ladaria acrescentou que “a compreensão aprofundada do sentido das sanções penais aplicadas pelo Estado e o desenvolvimento dos sistemas de detenção mais eficazes que garantem a indispensável defesa dos cidadãos, contribuíram para uma nova compreensão que reconhece a inadmissibilidade da pena de morte e, portanto, apela à sua abolição”. 

Também o Papa Bento XVI, em 2011, chamou a atenção dos responsáveis da sociedade “para a necessidade de fazer todo o possível a fim de se chegar à eliminação da pena capital”. Naquele ano, ele pediu que as autoridades civis e a sociedade como um todo encontrassem formas de eliminar definitivamente a pena capital. 

Conforme escreveu Dom Ladaria, “tudo isso mostra que a nova formulação do n. 2267 do Catecismo expressa um autêntico desenvolvimento da doutrina, que não está em contradição com os ensinamentos anteriores do Magistério”.

 

53 PAÍSES AINDA REALIZAM A PENA DE MORTE

Entre eles, Estados Unidos, Japão, China, Cuba, Arábia Saudita, Egito, Coreia do Norte, Afeganistão, Iraque, Líbia, Irã, Taiwan, e Nigéria. De acordo com a Anistia Internacional, pelo menos 993 pessoas foram executadas no ano de 2017, em 23 países. Porém, como muitos casos não são registrados pelos governos não democráticos, o número de mortos é, provavelmente, ainda maior.

 

 

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Aborto: leia as íntegras dos discursos da CNBB no STF

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06 de agosto de 2018

Na manhã de segunda-feira (6), Dom Ricardo Hoepers, bispo de Rio Grande/RS, e padre José Eduardo de Oliveira, da Diocese de Osasco, representaram a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em Audiência Pública que discute a Descriminalização do Aborto no Brasil. Confira a íntegra dos discursos:


 

Dom Ricardo Hoepers, bispo de Rio Grande/RS:

 

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL 442

DISTRITO FEDERAL

 

PELA VIDA, CONTRA O ABORTO

“Não matarás, mediante o aborto, o fruto do seu seio”

(Didaquê, século I)

Exma. Sra. Ministra Carmen Lúcia, Presidente deste Supremo Tribunal Federal, Exma. Sra. Ministra Rosa Weber, relatora da ADPF 442, Sres. Ministros, Senhoras e Senhores,

  1. Razões de ordem ética, moral e religiosa

Eu quero iniciar com um ato de agradecimento à Sra. Exma. Ministra Rosa Weber, que no primeiro dia dessa Audiência a Sra. reconheceu que: “trata-se de um tema jurídico delicado, sensível, altamente polêmico enquanto envolvem razões de ordem ética, moral e religiosa”. Diante disso é estranho, mas querem nos desqualificar como fanáticos e fundamentalistas religiosos impondo sobre Estado Laico uma visão religiosa.

  • Onde está o fundamentalismo religioso em aderir aos dados da ciência que comprovam o início da vida desde a concepção?
  • Onde está o fanatismo religioso, em acreditar que todo atentado contra a vida humana é crime?
  • Onde está o fundamentalismo religioso em dizer que queremos políticas publicas que atendam saúde das mães e os filhos?

Por isso, a “Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reitera sua posição em defesa da vida humana com toda a sua INTEGRALIDADE (dado científico), DIGNIDADE (Art. 1º da Const.) e INVIOLABILIDADE (Art. 5º da Const.), desde a sua concepção até a morte natural” (Nota CNBB, 11/04/2017).

Isso é o mínimo de razoabilidade aceitável que nos permite estar aqui para discutirmos este tema com a recta ratio.

  1. Considerar os reais sujeitos a serem tutelados

Não podemos tratar o assunto negando, deletando, ignorando a existência do bebê. Parece que estamos falando de uma vesícula biliar, de um rim, ou um adendo que precisamos extirpar, que está causando a morte das mulheres. O foco está errado!!! Se é um problema de saúde publica, deve ser tratado e solucionado como tal. Mas não foram poucas vezes que ouvi nesta Audiência a ideia de que é necessário que a mulher supere e transcenda a imposição do papel materno. A ideia do desengravidar as mulheres… isso Exma. Ministra, não tem nada a ver com os artigos 124 e 126 do Código Penal.

Mas a questão jurídica dos números 124 e 126 do Código Penal foi recepcionada sim, por todas as mães que, pensaram em abortar, mas não o fizeram lembrando que é um atentado contra a vida. Se negarmos isso, negaremos a capacidade de discernimento de todas as mulheres que optaram por não abortar para salvaguardar seus filhos. O desacordo não é jurídico. Desabilitando os já referidos números do código penal, este STF estaria desacreditando na consciência reta que tutela a vida mais frágil e inocente que é a do bebê.

O problema que ninguém quer nominar esse inocente. Ele foi apagado, deletado dos nossos discursos para justificar esse intento em nome da autonomia e liberdade da mulher. Mas, a criança em desenvolvimento na 12º semana é uma pessoa, uma existência, um indivíduo real, único e irrepetível e, provavelmente, neste momento, a mãe já escolheu um nome para seu filho.

Nós, brasileiros e brasileiras vamos esperar ansiosamente essa resposta da Suprema Corte: afinal, atentar contra a vida de um ser humano inocente é crime ou não?

Se a questão é de saúde, (Salus – salvar), a lei teria que proteger a mãe e o filho proporcionalmente. Como este STF vai explicar a permissão da pena capital a um ser humano inocente e indefeso para justificar nossa incapacidade de políticas publicas de proteção à sua saúde reprodutiva da mulher?

É assim que o Supremo Tribunal Federal vai garantir a inviolabilidade do direito à vida? Dando uma arma chamada “autonomia” para que homens e mulheres ao seu bel prazer interrompam a vida das crianças até a 12º semana sem precisar dar nenhuma satisfação de seu ato predatório? Esperamos que não, pois,

“O direito à vida é o mais fundamental dos direitos e, por isso, mais do que qualquer outro, deve ser protegido. Ele é um direito intrínseco à condição humana e não uma concessão do Estado. Os Poderes da República têm obrigação de garanti-lo e defendê-lo.

“Não compete a nenhuma autoridade pública reconhecer seletivamente o direito à vida, assegurando-o a alguns e negando-o a outros. Essa discriminação é iníqua e excludente. (Nota CNBB, 11/04/2017).

  1. Propostas alternativas

Então poderíamos nos perguntar: o que fazer?

Urge combater as causas do aborto, através da implementação e do aprimoramento de políticas públicas que atendam eficazmente as mulheres, nos campos da saúde, segurança, educação sexual, entre outros, especialmente nas localidades mais pobres do Brasil” (Nota da CNBB 17/04/2017), e isto não é matéria para ser discutida nesta Suprema Corte e, sim no Legislativo.

Mas, em todo caso, eu convido a Sra., Exma. Ministra Rosa Weber, que antes de tomar sua decisão, conheça pessoalmente ao menos uma, das casas Pró-vida que começam a se espalhar pelo Brasil. Nelas, a Sra. não vai encontrar só mulheres que recepcionaram os números 124 e 126 do Código Penal, não atentando contra a vida inocente, mas também encontrará os filhos que elas não abortaram dizendo: “obrigado porque me deixaram viver!!!”.

A Sra. poderá mostrar ao mundo que nenhuma sociedade democrática está condenada e obrigada a legalizar o aborto por pressões externas. Poderá mostrar que nosso país não se rebaixa para interesses estrangeiros sobre nossa soberania.

Nós também somos capazes de construir projetos sociais alternativos para ajudar as mães a gerar e cuidarem de seus filhos. Essas iniciativas já estão demonstrando que é muito mais eficaz, menos oneroso ao Estado e altamente salutar às mães (mulher), salvaguardar a criança (nascituro), do que dar a essas mulheres mais um trauma e um drama pelo resto de suas vidas. É uma pena que o Estado e muitas Instituições ficaram tão obcecados e limitados com a estreita visão do aborto e da sua legalização que, se pensássemos o uso dessas verbas para projetos alternativos de cuidado e acompanhamento das casas de acolhida, hoje estaríamos com uma visão diferenciada.

Cito apenas algumas delas:

  1. Casa Pró-vida Mãe Imaculada (Curitiba – PR)
  2. Casa Luz (Fortaleza – CE)
  3. Casa mater Rainha da Paz (Canoinhas – SC)
  4. Associação Guadalupe (São José dos Campos – SP)
  5. Casa da Gestante Pró-Vida S Frei Galvão (Nilópolis – RJ)
  6. Pró-Vida de Anápolis (Anápolis – GO)
  7. Comunidade Santos Inocentes (Brasília – DF)

Estamos aqui, porque fazemos parte da maioria dos brasileiros que são movidos pela fé em Deus, mas também pelo cuidado e defesa da vida. Por essa fé, não medimos esforços nos gestos de verdadeira solidariedade, de justiça e de fraternidade.

Tem algo que Deus nos deu e ninguém pode nos roubar que é a esperança. Nossas comunidades, lá nas periferias do nosso país conhecem muito bem quem são as mulheres pobres, negras, sofridas… O que fazemos é mostrar outras saídas, outras alternativas para as mães desesperadas. São milhares de voluntários que, nas diversas pastorais, (gostaria de lembrar de quantas crianças nesse país Pastoral da Criança já salvou) acolhem, atendem, amam o que fazem e, isso não é fundamentalismo religioso, mas o fundamento da VIDA que é o AMOR, e quem ama cuida até o fim.

Pedimos, como CNBB, que esta Suprema Corte não permita a descriminalização do atentado contra a vida nascente.

O nome de muitas mulheres que infelizmente morreram por causa do aborto, aqui, foram lembrados… são perdas irreparáveis. Mas, nesse momento, a minha homenagem é para as crianças que morreram com suas mães, e que não sabemos seus nomes, mas com certeza, suas mães já o sabiam…

Essas crianças anônimas que a sociedade não tem a coragem de nominá-las e as esconde nos seus discursos e retóricas como se não existissem…ELAS EXISTIRAM E EXISTEM, nenhuma sã consciência pode negar isso.

Exma. Ministra Rosa Weber, um dia o grito silencioso desses inocentes calará fundo, pois a nossa nação, Pátria amada, mãe gentil, sentirá falta da alegria e do sorriso desses filhos que ela não deixou nascer. Permita-nos continuar cantando: “Dos filhos deste solo, és mãe gentil, Pátria amada Brasil”

Dom Ricardo Hoepers – Bispo do Rio Grande – RS

Expositor habilitado


 

Discurso do padre José Eduardo de Oliveira, da Diocese de Osasco:

 

Acerca do aborto, a CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
pronunciou-se de maneira absolutamente inequívoca por diversas ocasiões, reiterando

“sua posição em defesa da integralidade, inviolabilidade e
dignidade da vida humana, desde a sua concepção até a
morte natural”

e condenando, assim,

“todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o
aborto no Brasil”.

Pela limitação do tempo, quero fazer apenas quatro breves colocações em meu
pronunciamento.

Primeira colocação.

Esta audiência não se presta para o fim a que foi convocada. Presta-se apenas
para legitimar o ativismo desta Corte. Está-se fingindo ouvir as partes, mas na
realidade está-se apenas legitimando o ativismo que virá em seguida. A prova é que
os que defendem o reconhecimento do aborto como direito tiveram bem mais do que
o dobro do tempo e bem mais do que o dobro de representantes dos que defendem a
posição contrária. Isto não respeita o princípio do contraditório que está expresso na
Constituição. O artigo quinto inciso 55 da Magna Carta estabelece que aos litigantes
em processo judicial ou administrativo são assegurados o contraditório, – a igualdade
das partes no processo -, e ampla defesa. Esta audiência, ao contrário, é parcial. A
própria maneira pela qual esta audiência pública está sendo conduzida viola a
Constituição Federal.

Segunda colocação.

A ADPF 442 sequer deveria estar sendo processada. Deveria ter sido
indeferida de plano e imediatamente. A petição inicial é inepta porque a Lei 9882/99,
que é a lei que rege as ADPFs, estabelece como requisito essencial para o
processamento que a petição inicial venha instruída por controvérsia.

O artigo primeiro da Lei 9882 estabelece que

“caberá argüição de descumprimento de preceito
fundamental quando for relevante o fundamento da
controvérsia constitucional sobre lei ou ato normativo”.

O artigo terceiro estabelece que

“a petição inicial deverá conter a comprovação de existência
de controvérsia relevante sobre a aplicação do preceito
fundamental que se considera violado”.

Ora, é fato evidente que desde 1988 nunca houve controvérsia sobre a
constitucionalidade da norma impugnada. A controvérsia foi artificialmente fabricada
no voto do Habeas Corpus 124.306 redigido pelo Ministro Barroso, ex advogado de
organizações que defendem a despenalização do aborto. Até o voto não havia, em
qualquer obra de direito constitucional ou penal, nenhum registro de suspeita de
inconstitucionalidade da norma.

Terceira colocação.

O Supremo Tribunal Federal não pode legislar. Mas no nosso caso já não
estamos nem mais falando de legislar, mas de usurpar o Poder Constituinte
Originário. O artigo quinto da Constituição estabelece que a inviolabilidade do direito
à vida é cláusula pétrea, e seu parágrafo segundo estabelece que os direitos e garantias
expressos na Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios
por ela adotados, ou seja, proíbe qualquer interpretação restritiva dos direitos
consignados neste artigo, inclusive o direito à vida. A únicas restrições ao direito à
vida são aquelas estabelecidas no próprio texto da Constituição. Portanto, nem o
Congresso poderia diminuir estes direitos. Muito menos o Supremo Tribunal Federal.

Por estes motivos, tanto esta audiência pública, quanto este processo não são
legítimos.

Quarta colocação.

A Comissão Episcopal da Pastoral Familiar da CNBB, em artigo publicado na
última sexta feira analisou os discordantes números aqui apresentados sobre as
estatísticas do aborto. Estes números acabaram se tornando a base de quase todas as
apresentações da audiência da sexta feira. Dezenas de representantes de organizações
falaram de um milhão de abortos por ano e de quinhentos mil abortos por ano.
A professora Débora Diniz disse explicitamente que o número anual de
abortos calculados no Brasil é de 503 mil por ano. Disse também que as pesquisas
constataram que metade destes abortos passam por internações na rede hospitalar. Isto
daria cerca de 250 mil internações, o que conferiria com os dados do SUS.
Ora, os dados do SUS são que há 200.000 internações por aborto por ano. A
estimativa dos médicos experientes é que destes, no máximo 25% seriam por abortos
provocados. Numerosas pesquisas apontam valores entre 12% e 25%. Em 2013 o
IBGE estimou que o número de abortos naturais corresponde a 7 vezes o número de
provocados.

Tomando o valor mais conservador de 25%, deveríamos concluir que se
houvesse no Brasil 250 mil internações por abortos provocados, deveria haver entre
um milhão e um milhão e meio de internações totais de abortos, e não apenas 200 mil.
Além disso, os livros de obstetrícia e patologia afirmam que o número de
abortos naturais, ocorridos em sua maioria no final do primeiro trimestre, é cerca de
10% do números de gestações, a maioria dos quais passam pelo SUS. Se as
internações por abortos fossem um milhão ou um milhão e meio, o número de
nascimentos no Brasil deveria ser 10 vezes maior. Nasceriam no Brasil entre 10 a 15
milhões de crianças por ano. Mas só nascem 2.800.000.

A realidade é que dos 200 mil abortos atendidos pelo SUS, no máximo 50 mil
são abortos provocados. Provavelmente bem menos. Então no máximo há 100 mil
abortos provocados por ano no Brasil. Os números que foram aqui apresentados são
10 ou mais vezes maiores do que a realidade. Toda esta inflação é para poder concluir
que onde se legalizou a prática, realizam-se menos abortos do que no Brasil.

Mas na Alemanha se praticam 120.000 abortos por ano. A Alemanha possui
apenas 80 milhões de habitantes. Se a Alemanha tivesse 200 milhões como o Brasil,
ali haveria 300 mil abortos por ano, três vezes os do Brasil.

Na Espanha se praticam 100 mil abortos por ano. A Espanha tem apenas 45
milhões de habitantes. Se possuísse duzentos milhões, ali se praticariam 400 mil
abortos por ano, quatro vezes mais que o Brasil.

Os Estados Unidos tem 320 milhões habitantes, e 900 mil abortos por ano. Se
tivessem 200 milhões de habitantes, praticariam 600 mil abortos por ano, seis vezes o
Brasil.

O Reino Unido tem 60 milhões de habitantes e 200 mil abortos por ano. Se
tivesse 200 milhões de habitantes, praticaria 700 mil abortos por ano, sete vezes o
número do Brasil.

A Suécia tem 10 milhões de habitantes e pratica 40 mil abortos por ano. Se
tivesse 200 milhões de habitantes, praticaria 800 mil abortos, oito vezes mais que o
Brasil.

A Romênia, de que tanto se falou aqui, possui 20 milhões habitantes e pratica
90 mil abortos por ano. Se tivesse 200 milhões, faria 900 mil abortos por ano, nove
vezes os do Brasil.

A China, com 1 bilhão e 300 milhões de habitantes e sete milhões e 400 mil
abortos. Se tivesse a população do Brasil, faria um milhão e duzentos mil abortos por
ano, mas isto é doze vezes o número do Brasil.

A Rússia possui 140 milhões de habitantes e um milhão e meio de abortos por
ano. Isto é 23 vezes mais do que no Brasil.

Em todos estes países o aborto foi legalizado. Praticam entre três a 23 vezes
mais abortos que o Brasil. Se examinarmos as estatísticas de outros países de que
temos dados confiáveis e onde o aborto está legalizado, como Georgia, Casaquistão,
Cuba, Estonia, Hungria, Ucrania, Islândia, Dinamarca, Noruega, Turcomenistão,
Nova Zelândia, Coréia do Sul, França, Israel, Grécia, Portugal, Finlândia, África do
Sul, Bélgica, Lituânia, Japão, Itália, Taiwan, Suiça, Uzbequistão, Canadá, Austrália,
Holanda e outros, obteremos dados em tudo semelhantes.

A conclusão é que, exatamente ao contrário do que foi sustentado aqui pelos
que estão interessados em promover o aborto, quando se legaliza o aborto o número
de abortos aumenta, e não diminui. É no primeiro mundo onde se praticam mais
abortos, e não no Brasil.

Por favor, não mintam para o povo brasileiro. Nós somos uma democracia.

Como disse o Ministro Barroso, democracia não é somente voto.

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Publicado o Documento de trabalho da XV Assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos

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19 de junho de 2018

Publicado o Documento de trabalho da XV Assembleia Geral ordinária do Sínodo dos Bispos, programado no Vaticano de 3 a 28 de outubro, sobre o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Isabella Piro – Cidade do Vaticano – Vatican News

Um bilhão e 800 mil pessoas entre 16 e 29 anos, isto é, ¼ da humanidade, são os jovens do mundo. No Instrumento de Trabalho do próximo Sínodo sobre a juventude, publicado esta terça-feira (19/06), os padres sinodais poderão encontrar a descrição de sua variedade, suas esperanças e dificuldades.

O Instrumentum Laboris é o momento de convergência da escuta de todos os componentes da Igreja e também de vozes que não pertencem a ela.

Estruturado em três partes – reconhecer, interpretar e escolher – o Documento busca oferecer as chaves de leitura da realidade juvenil, baseando-se em diferentes fontes, entre as quais um Questionário on line que reuniu as respostas de mais de 100 mil jovens.

Que querem os jovens da Igreja

Portanto, o que querem os jovens de hoje? Sobretudo, o que buscam na Igreja? Em primeiro lugar, desejam uma “Igreja autêntica”, que brilhe por “exemplaridade, competência, corresponsabilidade e solidez cultural”, uma Igreja que compartilhe “sua situação de vida à luz do Evangelho ao invés de fazer pregações”, uma Igreja que seja “transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa”. Enfim: uma Igreja “menos institucional e mais relacional, capaz de acolher sem julgar previamente, amiga e próxima, acolhedora e misericordiosa”.

Tolerância zero

Mas há também quem não pede nada à Igreja ou pede que seja deixado em paz, considerando-a um interlocutor não significativo ou uma presença que “incomoda e irrita”. Um motivo para essa atitude está nos casos de escândalos sexuais e econômicos, sobre os quais os jovens pedem à Igreja que “reforce sua política de tolerância zero”.

Outro motivo está no despreparo dos ministros ordenados e na dificuldade da Igreja em explicar o motivo das próprias posições doutrinais e éticas diante da sociedade contemporânea.

Sete palavras

Tudo isso se articula em sete palavras que o Istrumentum Laboris assim classificou:

1. Escuta: os jovens querem ser ouvidos com empatia.
2. Acompanhamento: espiritual, psicológico, formativo, familiar e vocacional.
3. Conversão: seja de tipo religioso, sistêmico, ecológico e cultural.
4. Discernimento: uma das palavras mais usadas no Documento, seja no sentido de uma “Igreja em saída” para responder às exigências dos jovens, seja como dinâmica espiritual.
5. Desafios: discriminações religiosas, racismo, precariedade no trabalho, pobreza, dependência de drogas e álcool, bullying, exploração sexual, corrupção, tráfico de pessoas, educação e solidão.
6. Vocação: repensar a pastoral juvenil.
7. Santidade: o Documento sinodal se concluiu com uma reflexão sobre a santidade, “porque a juventude é um tempo para a santidade”. Que a vida dos santos inspire os jovens de hoje a “cultivar a esperança” para que – como escreve o Papa Francisco na oração final do Documento – os jovens, “com coragem, tomem as rédeas de sua vida, almejem as coisas mais belas e mais profundas e mantenham sempre um coração livre”.

(Texto e foto: Vatican News)

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Pensar numa Igreja com rosto amazônico

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18 de junho de 2018

Renovar os ministérios e revelar uma espiritualidade com um verdadeiro “rosto amazônico”. A organização da assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, convocada pelo Papa Francisco, começa com forte espírito missionário. Divulgado na sexta-feira, 8, o Documento Preparatório fala da necessidade de se aumentar e solidificar a presença da Igreja na região e responder melhor às necessidades pastorais da população local, respeitando as culturas e adaptando algumas práticas. 

“Uma missão encarnada exige repensar a escassa presença da Igreja em relação à imensidade do território e à sua variedade cultural”, diz o Documento, cuja função é lançar questões e iniciar uma reflexão sobre o tema escolhido, “Amazônia, novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. 

Pessoas que vivem aquela realidade devem responder a um questionário. A consulta servirá de base para a elaboração de um Instrumentum laboris , texto que guiará os trabalhos dos padres sinodais. A assembleia, convocada pelo Papa Francisco, será em outubro de 2019. 

Além do enorme território da Amazônia, o Documento reconhece outras peculiaridades da zona do planeta chamada “pan-amazônica”. Entre elas, a grande variedade cultural, ambiental e a forte influência de interesses econômicos nacionais e internacionais que têm impacto direto sobre população e a natureza locais. 

 

IDENTIDADE AMAZÔNICA

O Documento insiste na necessidade de melhorar a vida das comunidades já existentes, tanto por meio de serviços sociais, como saúde, saneamento básico e obras sociais, quanto pelo desenvolvimento de uma identidade cristã contemplativa e ativa, que seja, de fato, característica da Amazônia. 

Por um lado, há o forte vínculo entre “o elemento social e o elemento ambiental”, diz o texto, remetendo à Encíclica Laudato Si’ , do Papa Francisco. “Portanto, o processo de evangelização da Igreja na Amazônia não pode ser separado da promoção do cuidado do seu território (natureza) e de seus povos (culturas)”, afirma o Documento. 

Por outro lado, há que se pensar com criatividade nas práticas pastorais, na administração dos sacramentos e nos vários ministérios eclesiais. “A Igreja é chamada a aprofundar sua identidade, colocando-se em relação com as realidades dos territórios em que vive e a acrescentar a própria espiritualidade, colocandose à escuta da sabedoria dos povos que a compõem”, sugere o Documento. Por esse motivo, a assembleia “é chamada a identificar novos caminhos para fazer crescer o rosto amazônico da Igreja”.

 

ESTABELECER PRIORIDADES

O Documento fala em se “estabelecer uma hierarquia das urgências” pastorais na região. Por exemplo, há grande dificuldade para que as pessoas possam participar da missa, ser batizadas ou participar de um curso de noivos, seja por falta de sacerdotes ou por causa do isolamento geográfico de algumas comunidades. “É preciso projetar novos caminhos para que o povo de Deus possa ter um acesso melhor e frequente à Eucaristia, centro da vida cristã”, recorda. 

Entre as prioridades a serem avaliadas, o texto menciona “especificar os conteúdos, métodos e comportamentos de uma pastoral inculturada” e “propor novos ministérios e serviços para os diversos agentes pastorais, que respondam às tarefas e responsabilidades da comunidade”. 

Nesse contexto, “é necessário identificar que tipo de ministério oficial possa ser conferido à mulher, considerando o papel central que as mulheres revestem hoje na Igreja amazônica” - aparentemente, uma referência às inúmeras religiosas, missionárias e pessoas leigas que, além de acompanhar o dia a dia das comunidades podem, de maneira excepcional, na falta de sacerdotes e diáconos, receber permissão para celebrar a Palavra, distribuir a comunhão ou presidir algumas cerimônias.

“É necessário, ainda, sustentar o clero indígena e nativo do território, valorizando a sua identidade cultural e os valores próprios”, completa o texto.

 

OBJETIVOS E PARTICIPAÇÃO

Conforme explicou o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da Rede Eclesial Pan-amazônica (Repam), em vídeo apresentado no lançamento do Documento, “o objetivo principal dessa convocação do Papa Francisco é identificar novas estradas para evangelização daquele povo de Deus, especialmente os indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno”.

Dom Cláudio lembrou que a Floresta Amazônica vive um momento de crise, embora seja “de capital importância para o nosso planeta”. Portanto, em suas palavras, é preciso “atualizar e reforçar a evangelização, percorrendo novos caminhos e, paralelamente, proteger a casa comum neste território tão especial e ao mesmo tempo tão ameaçado”.

Participarão da assembleia todos os bispos da região – são 102, sendo 57 do Brasil – além de membros nomeados pessoalmente pelo Papa, representantes da Repam, alguns bispos da América Latina, membros da Cúria Romana, especialistas leigos, observadores de outras religiões e confissões cristãs, e religiosos e religiosas dedicados ao povo da Amazônia.
 

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‘Dar o melhor si’ no esporte e em toda vida

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23 de setembro de 2019

Apresentar um olhar da Igreja sobre os múltiplos aspectos que envolvem os esportes atualmente é a proposta do documento “Dar o melhor de si”, lançado no dia 1º, no Vaticano, pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

Estruturado em cinco capítulos, o texto fala dos propósitos e motivações do diálogo entre Igreja e esporte, resgata as origens da prática esportiva e sua incidência atual, aprofunda a compreensão antropológica sobre o esporte, trata de desafios para a promoção esportiva mais justa e humana, e apresenta os esforços contínuos da Igreja com vistas a garantir a humanização dos esportes.

Leia também: "A Igreja já está em campo"

 

POR QUE O INTERESSE POR ESSE TEMA?

De acordo com o texto, a Igreja deseja contribuir com a construção de um esporte que seja cada vez mais autêntico e humano, na medida que este “é universal e tem alcançado um novo nível de importância em nosso tempo e também, por isso, encontra um eco no coração do povo de Deus”.

Em uma das partes, recorda-se um discurso do Papa Francisco à Federação Italiana de Tênis, em maio de 2015, no qual o Pontífice ressalta que “a Igreja se interessa pelo esporte porque o homem lhe interessa, todo homem, e reconhece que a atividade esportiva incide na formação da pessoa, em suas relações e em sua espiritualidade”. Nesse sentido, a Igreja não só apoia o esporte, mas quer nele estar por considerá-lo um moderno pátio dos gentios e um areópago para o anúncio da Boa Nova. 

 

MAS A IGREJA NÃO É CONTRA O ESPORTE?

Logo nas primeiras linhas do documento, é enfatizado que por conta da postura de alguns católicos na idade média e na idade moderna, disseminou-se uma interpretação equivocada de que a Igreja tem um ponto de vista negativo sobre o esporte. O texto pontua que, na verdade, a Igreja está em diálogo com o esporte desde a sua existência, e cita como exemplo as metáforas que São Paulo Apóstolo usava para explicar a fé e a vida cristã a todos os povos. Lembra, ainda, que desde o começo da idade moderna, a Igreja tem interesse pelo potencial educativo do esporte. Também é recordado que no século XX, os papas Pio XII e Paulo VI intensificaram o diálogo da Igreja com o mundo do esporte, ao destacarem aspectos comuns à prática esportiva e à vida cristã. 

 

CARACTERIZAÇÃO E POTENCIALIDADES

O texto lembra que não há uma definição consensual sobre o que seja esporte, mas destaca que essa prática tem cinco características básicas: refere-se ao corpo humano em movimento, é lúdica, está sujeita a regras, é competitiva e deve garantir a igualdade de oportunidades aos participantes. 

O esporte tem um valor em si “como um campo de atividade humana, onde virtudes como a sobriedade, humildade, valentia e paciência podem encontrar-se e fomentar a beleza, a bondade, a verdade e onde se pode testemunhar a alegria”. 

 

EM FAVOR DO SER HUMANO

A perspectiva cristã perante o esporte tem como ponto de partida o fato de que toda a pessoa é criada por Deus, em uma unidade de corpo, alma e espírito. 

O esporte ajuda no desenvolvimento de cada ser humano na medida em que faz com que este “se sinta capaz de criar um ambiente que combine liberdade e responsabilidade, criatividade e respeito pelas regras, entretenimento e solidariedade. Esse ambiente é gerado por meio da colaboração e acompanhamento mútuo no desenvolvimento dos talentos individuais”. 

Nesse ponto, o documento cita aspectos dos esportes que sempre devem ser valorizados, tais como o fair play e o jogo limpo, com obediência às regras e à justiça no trato com o adversário; o jogo em equipe - “nos esportes, os dons e talentos de cada pessoa em particular se põem a serviço da equipe”; o sacrifício em busca de uma meta; o estímulo à alegria daqueles que praticam ou acompanham os esportes; o desenvolvimento harmonioso da pessoa, a valentia (enquanto uma escolha corajosa de sempre agir de modo correto); a igualdade; o respeito entre as pessoas; e a prática da solidariedade. 

 

‘BOLAS FORAS’

O texto alerta que, por vezes, o esporte pode se voltar contra a dignidade e os direitos do ser humano, e nesse sentido há a exortação de que todos os envolvidos com as práticas esportivas se perguntem se seus atos estão a serviço da humanidade e da justiça. 

Entre os riscos apontados estão o uso do esporte para propósitos políticos, demonstração de poder, busca de benefício econômico ou autoafirmação nacionalista. Também há críticas ao comportamento de buscar a vitória a qualquer custo, ferindo a dignidade dos esportistas; aos abusos físicos, sexuais e emocionais contra crianças; e a todo tipo de discriminação. 

Especialmente quatro riscos são lembrados diante do atual cenário de busca desenfreada pelo êxito e de interesses econômicos no esporte: a degradação do corpo, para que não seja reduzido a um objeto ou utilizado como uma máquina em busca dos melhores resultados; o doping, seja físico ou mecânico (quando da alteração irregular de equipamentos esportivos em busca de melhores resultados); a corrupção - “o esporte não deve parecer um espaço sem direitos no qual não se aplique os padrões morais de coexistência leal e humana”; e a postura dos torcedores, que pode se tornar desrespeitosa com os árbitros e adversários, redundando em violência verbal ou física, e até  em disseminação de racismo e de ideologias extremistas. 

 

RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA

Para que o esporte não seja conduzido a tais situações, o documento aponta ser indispensável a ação de diferentes agentes sociais. “A responsabilidade não recai somente sobre os atletas ou participantes, mas em muitas outras pessoas, como seus familiares, treinadores e seus auxiliares, médicos, dirigentes, espectadores e muitos atores conectados ao esporte por meio de outras áreas, como os pesquisadores do esporte, líderes políticos e empresários ou os representantes da mídia”. 

 

AÇÃO PASTORAL NO ESPORTE

A última parte do documento aponta que a Igreja sente-se corresponsável pelo desenvolvimento e destino do esporte e, por isso, busca dialogar com as diferentes organizações esportivas e governos. 

“O esporte é um âmbito em que se experimenta de forma muito concreta o convite a ser uma Igreja que vai ao encontro, não para construir muros e fronteiras, mas sim pontes e ‘hospitais de campanha’”, aponta o texto. 

O documento menciona que o diálogo entre Igreja e esporte tem produzido uma proposta multifacetada sobre o cuidado pastoral, em especial em colégios, paróquias e associações católicas.

Em sua ação pastoral no âmbito esportivo, a Igreja tem a missão de lembrar aos pais que eles são os primeiros educadores de seus filhos na fé e no esporte; nas paróquias e dioceses podem ser promovidos grupos e atividades esportivas; os sacerdotes devem ter conhecimento razoável sobre as realidades e tendências esportivas, especialmente as que afetam a juventude; deve haver um plano pastoral adequado para o acompanhamento de atletas, ex- -atletas e torcedores; além de um diálogo com os que atuam na ciência e medicina esportiva, bem como os treinadores.

Ressalta-se, ainda, que os agentes pastorais no esporte devem estar treinados e motivados “para redescobrir o sentido do esporte em um contexto educativo e envolver-se para conseguir em sua missão dar uma visão cristã ao esporte”. 

 

DAR O MELHOR DE SI

Na conclusão, é recordado que “o esporte é um contexto em que muitos jovens e adultos, de todas as culturas e tradições religiosas, aprendem a dar o melhor de si mesmo” e que, “por meio da prática do esporte se pode experimentar a alegria, o encontro com pessoas diferentes e a construção de um sentido de comunidade”.
 

 

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A Exortação Apostólica "Gaudete et Exsultate" do Papa Francisco

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11 de abril de 2018

Nós nos tornamos santos vivendo as bem-aventuranças, o caminho principal porque "contra a corrente" em relação à direção do mundo. O chamado à santidade é para todos, porque a Igreja sempre ensinou que é um chamado universal e possível a qualquer um, como demonstrado pelos muitos santos "da porta ao lado".

A vida de santidade está assim intimamente ligada à vida de misericórdia, "a chave para o céu". Portanto, santo é aquele que sabe comover-se e mover-se para ajudar os miseráveis e curar as misérias. Quem esquiva-se das "elucubrações" de velhas heresias sempre atuais e quem, entre outras coisas, em um mundo "acelerado" e agressivo "é capaz de viver com alegria e senso de humor."

 

Não é um "tratado", mas um convite

É precisamente o espírito de alegria que o Papa Francisco escolhe colocar na abertura de sua última Exortação Apostólica.

O título "Gaudete et Exsultate", "Alegrai-vos e exultai," repete as palavras que Jesus dirige "aos que são perseguidos ou humilhados por causa dele”.

Nos cinco capítulos e 44 páginas do documento, o Papa segue a linha de seu magistério mais profundo, a Igreja próxima à "carne de Cristo sofredor."

Os 177 parágrafos não são – adverte -  "um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções", mas uma maneira de "fazer ressoar mais uma vez o chamado à santidade", indicando "os seus riscos,  desafios e oportunidades"(n. 2).

 

A classe média da santidade

Antes de mostrar o que fazer para se tornar santos, o  Papa Francisco se detém no primeiro capítulo sobre o "chamado à santidade" e reafirma: há um caminho de perfeição para cada um e não faz sentido desencorajar-se  contemplando "modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis" ou procurando  “imitar algo que não foi pensado para ele”. (n. 11).

"Os santos, que já chegaram à presença de Deus" nos “protegem, amparam e acompanham" (n. 4), afirma o Papa. Mas, acrescenta, a santidade a que Deus nos chama, irá crescendo com "pequenos gestos" (n. 16 ) cotidianos, tantas vezes testemunhados por “aqueles que vivem próximos de nós", a "classe média de santidade" (n. 7).

 

Razão como um Deus

No segundo capítulo, o Papa estigmatiza aqueles que define como "dois inimigos sutis da santidade", já várias vezes objeto de reflexão, entre outros, nas missas na Santa Marta, na Evangelii gaudium, bem como no recente documento da Doutrina da Fé, Placuit Deo.

Trata-se de "gnosticismo" e "pelagianismo",  duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade (n.35).

O gnosticismo – observa - é uma autocelebração de "uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações”.

Para o Papa, trata-se de uma "vaidosa superficialidade”, que pretende “reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo”. E ao desencarnar o mistério, preferem - como disse em uma missa na Santa Marta - “um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo "(nn. 37-39).

 

Adoradores da vontade

O neo-pelagianismo é, segundo Francisco, outro erro gerado pelo gnosticismo. A ser objeto de adoração aqui não é mais a mente humana, mas o "esforço pessoal", uma vontade sem humildade que “sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas" ou por ser fiel "a um certo estilo católico" (n. 49).

"A obsessão pela lei", “o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas”, ou "a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja" são para o Papa, entre outros, alguns traços típicos de cristãos que “não se deixam guiar pelo Espírito no caminho do amor”. (n. 57 ).

Francisco, por outro lado, lembra que é sempre o dom da graça que ultrapassa "as capacidades da inteligência e as forças da vontade humana" (n. 54). Às vezes, constata, "complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos de um esquema". (Nº 59)

 

Oito caminhos de santidade

Além de todas as "teorias sobre o que é santidade", existem as Bem-aventuranças. Francisco coloca-as no centro do terceiro capítulo, afirmando que com este discurso Jesus "explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo" (n. 63).

O Papa as repassa uma a uma. Da pobreza de coração - que também significa austeridade da vida (n. 70) - ao reagir “com humilde mansidão” em um mundo onde se combate em todos os lugares. (n. 74).

Da "coragem" de deixar-se "traspassar" pela dor dos outros e ter "compaixão" por eles - enquanto " o mundano ignora, olha para o lado" (nn 75-76.) - à sede de justiça.

“A realidade mostra-nos como é fácil entrar nas súcias da  corrupção, fazer parte desta política diária do “dou para que me deem”, onde tudo é negócio. E quantos sofrem por causa das injustiças, quantos ficam assistindo, impotentes, como outros se revezam para repartir o bolo da vida”. (nn. 78-79).

Do "olhar e agir com misericórdia", o que significa ajudar os outros "e até mesmo perdoar" (nn. 81-82), "manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor” por Deus e o próximo, isto é santidade. (n.86).

E finalmente, do "semear a paz" e "amizade social" com "serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza" - conscientes da dificuldade de lançar pontes entre pessoas diferentes (nn. 88-89) – ao aceitar também as perseguições, porque hoje a coerência às Bem-aventuranças "pode ser mal vista, suspeita, ridicularizada" e, no entanto, não se pode esperar, para viver o Evangelho, que tudo à nossa volta seja favorável" (n. 91).

 

A grande regra do comportamento

Uma dessas bem-aventuranças, "Bem-aventurados os misericordiosos", contém para Francisco "a grande regra de comportamento" dos cristãos, aquela descrita por Mateus no capítulo 25 do "Juízo Final".

Esta página, reitera, demonstra que "ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase" (n. 96), mas viver Deus por meio do amor aos últimos.

Infelizmente, observa o Papa, existem ideologias que "mutilam o Evangelho". Por um lado, cristãos sem um relacionamento com Deus, que transformam o cristianismo “numa espécie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante" vivida por São Francisco de Assis, São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá. (nº 100).

Por outro, aqueles que "suspeitam do compromisso social dos outros", considerando-o como se fosse algo de superficial, mundano, secularizado, imamentista, "comunista ou populista", ou "o relativizam" em nome de uma determinada ética.

Aqui o Papa reafirma que “a defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada” (n. 101).

Mesmo a acolhida dos migrantes - que alguns católicos,  observa, gostariam que fosse menos importante do que a bioética - é um dever de todo cristão, porque em todo estrangeiro existe Cristo, e "não se trata da invenção de um Papa, nem de um delírio passageiro" (n. 103).

 

"Gastar-se" nas obras de misericórdia

Assim, observou que "gozar a vida" como nos convida a fazer o "consumismo hedonista", é o oposto do desejar dar glórias a Deus, que pede para nos "gastarmos" nas obras de misericórdia (nn. 107-108).

No quarto capítulo, Francisco repassa as características "indispensáveis" para entender o estilo de vida da santidade: "perseverança, paciência e mansidão", "alegria e senso de humor", "audácia e fervor".

O caminho da santidade vivido como caminho "em comunidade" e "em constante oração", que chega à "contemplação", não entendida como “evasão que nega o mundo que nos rodeia” (nn. 110-152).

 

Luta vigilante e inteligente

E porque, prossegue, a vida cristã é uma luta “constante" contra a "mentalidade mundana" que "nos engana, atordoa e torna medíocres" (n. 159).

O Papa conclui no quinto capítulo convidando ao "combate" contra o "Maligno que, escreve ele, não é "um mito", mas" um ser pessoal que nos atormenta” (n. 160-161).

“Quem não quiser reconhecê-lo, ver-se-á exposto ao fracasso ou à mediocridade”. As suas maquinações, indica, devem ser contrastadas com a "vigilância", usando as "armas poderosas" da oração, a adoração eucarística, os Sacramentos e com uma vida permeada pela caridade (n. 162).

Importante, continua Francisco, é também o "discernimento", particularmente em uma época "que oferece enormes possibilidades de ação e distração" - das viagens, ao tempo livre, ao uso descontrolado da tecnologia - "que não deixam espaços vazios onde ressoa a voz de Deus ". Francisco pede cuidados especiais para os jovens, muitas vezes "expostos a um constante zapping", em mundos virtuais distantes da realidade (n. 167).

"Não se faz discernimento para descobrir o que mais podemos derivar dessa vida, mas para reconhecer como podemos cumprir melhor a missão que nos foi confiada no Batismo." (174)

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