Bento XVI: "diálogo com os judeus, e não missão"

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27 de novembro de 2018

Não se trata de "missão", mas de "diálogo": é o que Bento XVI diz numa "correção" enviada à revista católica alemã "Herder Korrespondenz" sobre um artigo assinado pelo teólogo de Wuppertal, Michael Böhnke, que na edição de setembro da revista havia comentado o pensamento do Papa emérito sobre a relação entre judeus e cristãos.
O judaísmo e o cristianismo - afirma Bento XVI - são "duas maneiras de interpretar as Escrituras". Para os cristãos, as promessas feitas a Israel são a esperança da Igreja e "quem se apega a elas não questiona de modo algum os fundamentos do diálogo judaico-cristão". As acusações contidas no artigo - continua -, são "absurdos grotescos e não têm nada a ver com o que eu disse sobre isso. Por isso rejeito seu artigo como uma insinuação absolutamente falsa".

Entre outras coisas, Böhnke escrevera que Bento XVI teria mostrado, em um artigo publicado em julho passado na revista "Communio", uma compreensão problemática do judaísmo e mantido silêncio sobre os sofrimentos que os cristãos causaram aos judeus.

Na sua "retificação", Bento XVI aborda - ao lado de outros aspectos teológicos – também a delicada questão da missão aos judeus, isto é, à questão se a Igreja deve anunciar aos judeus a Boa Nova de Cristo. "Uma missão aos judeus não está prevista e nem é necessária", escreve literalmente Ratzinger. É verdade que Cristo enviou seus discípulos em missão a todos os povos e culturas. Por essa razão, "o mandato da missão é universal - com uma exceção: a missão aos judeus não estava prevista e não era necessária simplesmente porque só eles, entre todos os povos, conheciam o 'Deus desconhecido'".

Quanto a Israel, portanto - explica Bento XVI - não se trata de missão, mas de diálogo sobre a compreensão de Jesus de Nazaré: é "o Filho de Deus, o Logos", esperado - de acordo com as promessas feitas ao seu próprio povo - por Israel e, inconscientemente, por toda a humanidade? Retomar esse diálogo é "a tarefa que nos coloca o momento presente".

A "correção", relatada por Kna, está incluída na edição de dezembro de "Herder Korrespondenz" e é assinada "Joseph Ratzinger-Bento XVI".

Recordamos que o escrito do Papa emérito na revista "Communio" foi considerado como um aprofundamento de um novo Documento publicado em 2015 pela Comissão da Santa Sé para as relações religiosas com o judaísmo intitulado "Porque os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" Rom 11,29). Reflexões sobre questões teológicas relacionadas às relações católico-judaicas" por ocasião do 50º aniversário da Declaração conciliar Nostra aetate. O documento foi apresentado entre outros pelo cardeal Kurt Koch, presidente da Comissão para as relações religiosas com o Judaísmo. No parágrafo 6 do texto, lemos:

"É fácil entender que a chamada ‘missão dirigida aos judeus’ é uma questão muito difícil e sensível para os judeus, pois, aos seus olhos, diz respeito à própria existência do povo judeu. Também para os cristãos, é uma questão delicada, porque consideram de fundamental importância o papel salvífico universal de Jesus Cristo e a consequente missão universal da Igreja. A Igreja, portanto, deve entender a evangelização dirigida aos judeus, que acreditam no único Deus, de uma maneira diferente daquela dirigida àqueles que pertencem a outras religiões ou têm outras visões do mundo. Isto significa concretamente que a Igreja Católica não conduz ou encoraja qualquer missão institucional dirigida especificamente aos judeus. Tendo presente a rejeição - por princípio - de uma missão institucional dirigida aos judeus, os cristãos são chamados a testemunhar sua fé em Jesus Cristo também diante dos judeus; porém, devem fazê-lo com humildade e sensibilidade, reconhecendo que os judeus são portadores da Palavra de Deus e tendo em mente a grande tragédia da Shoah".

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Chefe da ONU elogia diálogo político promovido na Nicarágua pela Igreja Católica

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22 de mai de 2018

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, elogiou no sábado (19) o começo de um diálogo nacional na Nicarágua, liderado pela Igreja Católica. Desde abril, o país é palco de protestos contra o presidente Daniel Ortega, há 11 anos no poder. Manifestações foram reprimidas com uso de força letal. Grupos de direitos humanos relataram que pelo menos 65 pessoas, muitas delas estudantes, já foram mortas até o momento.

Segundo o vice-porta-voz do chefe da ONU, Farhan Haq, embora veja com otimismo as negociações capitaneadas pela Igreja, o secretário-geral “permanece preocupado com a violência recente”. O dirigente máximo do organismo internacional “chama todos os nicaraguenses a agir em acordo com o Estado de Direito, respeitar os direitos humanos e a resolução pacífica das diferenças”.

Guterres também celebrou a chegada à nação centro-americana de uma equipe da Comissão Inter-americana de Direitos Humanos (CIDH). O organismo é responsável por monitorar violações e abusos, promovendo e protegendo os direitos humanos em todos os países das Américas.

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Pastoral Fé e Política promove discussão sobre superação da violência institucional

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16 de fevereiro de 2018

A Campanha da Fraternidade organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 2018, tem como tema “Fraternidade e a superação da violência”. Dessa forma, a Igreja do Brasil é convidada a pensar maneiras de vencer as inúmeras formas de hostilidade existentes no país.

Em parceria com a Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e Coordenação para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, acontece na próxima terça-feira, 20, no auditório da PUC-SP (rua Ministro Godói, 969, Perdizes, São Paulo - SP), o evento “Pela superação da violência institucional: diminuição da população prisional, fim da política de “guerra às drogas”, e desmilitarização e não criminalização das pessoas pobres e das lutas populares”.

A programação tem início às 9h e segue até às 22h. Ao longo das atividades, serão trabalhados temas como superação da violência institucional, as vítimas da violência no Brasil contemporâneo, redução da população carcerária e descriminalização do usuário, além de exposição com filmes e documentários.

Durante toda a semana na recepção dos novos alunos, os calouros poderão visitar uma amostra com painéis sobre a Campanha da Fraternidade 2018, na PUC-SP.

Mais informações acesse: http://j.pucsp.br/noticia/fraternidade-evento-apoia-superacao-da-violencia

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Veja a programação completa

 

 

 

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Semana Mundial de Harmonia Inter-religiosa estimula compreensão entre religiões

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07 de fevereiro de 2018

A Organização das Nações Unidas celebra, de 1º a 7 de fevereiro a 8ª Semana Mundial de Harmonia Inter-Religiosa entre todos os credos, religiões e crenças. A Semana Mundial de Harmonia Inter-Religiosa (World Interfaith Harmony Week) foi proclamada pela Assembleia Geral em A/RES/65/5 resolução aprovada em 20 de outubro de 2010.

Na resolução, a Assembleia Geral, aponta que a compreensão mútua e o diálogo inter-religioso constituem dimensões importantes de uma cultura de paz e estabelece esta semana como uma forma de promover a harmonia entre todas as pessoas, independentemente de sua fé.

Segundo dom Francisco Biasin, que preside a Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), esta semana é uma preciosa ocasião para buscar harmonia, coexistência pacífica e colaboração fraterna entre os seguidores de diferentes caminhos de fé. “Independente da religião que professamos, somos todos seres humanos chamados a construir um mundo de paz”, disse.

Reconhecendo a necessidade imperativa do diálogo entre diferentes crenças e religiões para melhorar a compreensão mútua, harmonia e cooperação entre as pessoas, a Assembleia Geral incentiva os Estados a apoiarem, durante essa semana, a propagação da mensagem de harmonia inter-religiosa e boa vontade nas igrejas do mundo, mesquitas, sinagogas, templos e outros lugares de culto, numa base voluntária e de acordo com suas próprias tradições religiosas ou convicções.

“O respeito pela diversidade e o diálogo pacífico são essenciais para que a família humana seja capaz de cooperar a nível mundial para enfrentar as ameaças comuns e aproveitar as oportunidades comuns”, disse à época do lançamento da iniciativa, o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

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Evolucionismo e criacionismo: um diálogo entre fé e ciência

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03 de novembro de 2017

“Como conciliar evolução e Criação?” e “Paulo [o Apóstolo] compara Jesus a Adão. Sendo assim, podemos dizer que Adão realmente existiu?”, foram perguntas que surgiram após a palestra “Evolucionismo e criacionismo: um diálogo entre fé e ciência”. O evento foi promovido pelo Vicariato para Educação e a Universidade, o Núcleo de Fé e Cultura da PUC-SP e a Pastoral Universitária, e aconteceu na noite de 25 de outubro, no campus Perdizes da PUC-SP.
Eduardo Rodrigues da Cruz, Professor da PUC-SP, Doutor em Teologia pela Universidade de Chicago e dedicado à pesquisa sobre as relações entre Teologia, Religião e Ciências Naturais, e Padre Bruno Muta Vivas, formado em Ciências Biológicas pela USP e graduado em Teologia pela PUC-SP, apresentaram o tema e responderam às dúvidas dos participantes, que, em sua maioria, eram membros de paróquias e comunidades que queriam conhecer ou aprofundar o tema.
Como Biólogo, Padre Bruno declarou que “em suma, podemos definir a evolução como o processo de substituição, ao longo de numerosas gerações de certas variações genéticas por outras. Se não aceita, por qualquer motivo, a teoria da evolução como algo válido cientificamente, procura-se propor algo em seu lugar: justamente isso é o Criacionismo”, explicou.
Padre Bruno lembrou, também, que, de uma leitura da Criação a partir do relato do Gênesis, poderia surgir a pergunta se a Igreja não é criacionista. “Porém – continuou ele –, “a Igreja propõe a Criação como ato divino de conferir a existência aos seres, mas não diz nada sobre o como os seres passaram a existir, nem muito menos sobre os meios pelos quais a diversidade de espécies se deu. Ela simplesmente afirma que qualquer forma que tenha surgido e evoluído à vida foi por um ato divino”.
O Professor Eduardo, por sua vez, explicou que ambas são apenas teorias, hipóteses apresentadas por cientistas e teólogos, e lembrou que houve um histórico conflito entre as teorias e até mesmo entre diferentes pontos de vista dentro do criacionismo ou evolucionismo. Ele ressaltou, ainda, que “muitas vezes, a Igreja não aceitou de início alguma teoria científica, por não estar preparada ou esclarecida sobre o tema naquele contexto histórico, e não por ter restrições contra a ciência”.
Em entrevista ao O SÃO PAULO, Dom Carlos Lema Garcia, Vigário Episcopal para a Educação e a Universidade, salientou que o Vicariato, desde o seu início, pretende promover momentos para fomentar o diálogo entre a fé, ciência e cultura. “Esta é uma das missões da universidade. A universidade foi criada para a busca da verdade, para o encontro da verdade, para luta pela verdade. Nós não temos nenhum preconceito com relação à ciência, nem com a fé. Se um cientista trabalha com seriedade e profundidade, ele não vai chegar a conclusões contrarias à fé. Pelo contrário. Tanto a fé quanto à ciência provêm do mesmo princípio segundo nós entendemos, que é Deus. Deus criou o mundo e a ele se revelou. Se fizermos um trabalho cientifico sério, chegaremos a conclusões compatíveis com à fé”, disse o Bispo.
“Nós queremos aprofundar cientificamente diferentes temas, e, com isso, também chamar esses universitários a ter razões positivas para fundamentarem sua fé. Por isso, o Vicariato tem realizado, com frequência, esses encontros, aproveitando o apoio do Núcleo Fé e Cultura e da PUC-SP, que é uma universidade católica, sendo, portanto, um âmbito natural para a realização desses eventos”, declarou.

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Vaticano e Federação Luterana Mundial assinam declaração conjunta

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31 de outubro de 2017

O Vaticano e a Federação Luterana Mundial publicaram nesta terça-feira, 31, dia em que se encerra a comemoração comum pelos 500 anos da reforma protestante, uma declaração conjunta elogiando o clima de diálogo entre católicos e luteranos.

O documento, publicado pela sala de imprensa da Santa Sé, surge no dia em que se completam cinco séculos sobre a afixação das 95 teses de Martinho Lutero, na Alemanha. “Pela primeira vez, luteranos e católicos consideraram a Reforma por uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova visão sobre os acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação”, afirma a declaração.

O Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Santa Sé) e a Federação Luterana Mundial admitem “fracassos” do passado na relação entre Igrejas, mas mostram-se, sobretudo, agradecidos pelo caminho ecumênico percorrido nos últimos 50 anos. “Essa peregrinação, apoiada pela nossa oração comum, o culto e o diálogo ecumênico, resultou na eliminação de preconceitos, uma maior compreensão mútua e a identificação de acordos teológicos decisivos”, diz trecho da carta.

A nota recorda a declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, assinada em 1999, assumida por Metodistas e pela Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas, sendo hoje recebida pela Comunhão Anglicana.

O início da comemoração comum foi no dia 31 de outubro de 2016, quando o Papa e o presidente da Federação Luterana Mundial (LWF) assinaram na Suécia uma declaração comum, por ocasião da comemoração conjunta católico-luterana dos 500 anos da reforma protestante. 

Em Portugal, a data será relembrada neste sábado, 4, no Fórum Ecumênico Jovem (FEJ). Com o objetivo de dar continuidade à celebração do 500 anos da Reforma, o programa, que procurará colocar em evidência os dons espirituais deste marco histórico, proporcionará o encontro de jovens cristãos.

No ano passado, o texto firmado por Francisco e por Munib Yunan na catedral luterana de Lund pedia força e união entre as religiões. “Pedimos a Deus inspiração, ânimo e força para podermos continuar juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando todas as formas de violência”.

As principais divisões entre as Igrejas cristãs ocorreram no século V após os concílios de Éfeso e de Calcedónia (Igreja copta, do Egito, entre outras), no século XI com a cisão entre o Ocidente e o Oriente (Igrejas Ortodoxas), no século XV, com a reforma protestante (luteranos e calvinistas) e, posteriormente, a separação da Igreja da Inglaterra (anglicana).

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Cardeal Parolin vai em missão de diálogo à Rússia

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03 de setembro de 2017

Pela primeira vez na história, um secretário de Estado do Vaticano esteve na Rússia em visita oficial por quatro dias. Braço direito do Papa para as relações internacionais, Dom Pietro Parolin foi à Rússia entre 21 e 24 de agosto, com uma dupla missão que, na verdade, se resume a apenas uma: em primeiro lugar, melhorar as relações entre Santa Sé e o Estado russo para, entre outras coisas, pacificar áreas de conflito onde a Rússia tem grande poder. Em segundo lugar, reforçar os laços ainda frágeis da amizade entre cristãos católicos e ortodoxos russos. De qualquer forma, a viagem do Cardeal Parolin é mais um pequeno ladrilho na construção de uma longa estrada que pode levar – ainda que num futuro distante – a uma histórica visita papal à Rússia.

Conforme o comunicado oficial do Vaticano, o objetivo da viagem era “encontrar as mais altas autoridades civis e os vértices da Igreja Ortodoxa Russa”, além de “manifestar a proximidade espiritual do Papa à comunidade católica local”. Entre os principais temas discutidos estiveram questões de interesse bilateral, como “a busca de soluções pacíficas aos conflitos atuais, com especial atenção aos aspectos de caráter humanitário”. O Cardeal discutiu com o governo russo as questões internacionais que precisam de “soluções justas e duradouras”. Em coletiva de imprensa no dia 22, ele afirmou que uma atenção especial deve ser dada ao Oriente Médio, à Ucrânia e ao Norte da África. “Entre os temas sobre os quais a Santa Sé e a Federação Rússia encontram pontos de convergência, ainda que com abordagens diferentes, devese mencionar a forte preocupação com a situação dos cristãos em alguns países”, declarou.

O encontro com o Presidente Vladimir Putin, no dia 23, teve “clima positivo, cordial, de respeito e escuta recíproca”, resumiu o Vaticano. A guerra na Síria foi discutida de forma mais aprofundada, mas, segundo o Cardeal Parolin, também foram comentados os problemas na Ucrânia e na Venezuela. “Apresentamos algumas situações de dificuldade da comunidade católica. A Rússia, por sua posição geográfica, por sua cultura, pelo seu passado e presente, tem um grande papel a jogar na comunidade internacional. Tem uma responsabilidade especial na construção da paz”, disse Dom Parolin, em entrevista à rádio Vaticano .

Um Contexto Complexo

A maioria das missões diplomáticas da Santa Sé no resto mundo tem estas duas faces: uma política e outra religiosa. No caso da Rússia, trata-se, atualmente, do mesmo desafio. A Igreja Ortodoxa Russa é praticamente vinculada ao Estado, e o presidente Vladimir Putin é, na verdade, o principal aliado do Patriarcado de Moscou.

Sob Putin, com a expansão da influência política e militar da Rússia no Oriente, a Igreja Ortodoxa Russa também tem crescido além das fronteiras de seu País. Vladimir Putin vê na fé um elemento essencial de sua agenda expansionista. Desse modo, ainda que sob o comando cada vez mais centralizador de Putin, cresce também a autoridade moral da Igreja Ortodoxa Russa.

Essa influência pode ter aspectos positivos e negativos para o catolicismo.

Por um lado, a religião e os valores cristãos voltaram ao centro da vida pública, diferentemente do que acontecia no Estado comunista e ateu da União Soviética. Hoje, há cerca de 140 mil católicos na Rússia, principalmente descendentes de poloneses, lituanos, alemães e ucranianos. Também as igrejas protestantes têm um melhor fluxo de fiéis. Em sua viagem ao Azerbaijão, há um ano, o Papa Francisco disse que as religiões são uma necessidade, com a missão “de nos fazer entender que o centro do homem é fora de si, que somos direcionados para o alto infinito e para o outro”. Por outro lado, em alguns países que fizeram parte da antiga União Soviética, como Ucrânia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão, as relações entre cristãos católicos e ortodoxos ligados à autoridade russa ainda hoje são tensas. Na Geórgia, as normas da Igreja Ortodoxa proíbem que cristãos ortodoxos rezem ou celebrem junto com católicos. Conflitos existem até mesmo no dia a dia, especialmente quando o assunto são templos e terrenos da Igreja Católica confiscados pela União Soviética, e que hoje estão nas mãos da Igreja Ortodoxa. Tocar nesse tema é a receita para uma calorosa discussão – e o Cardeal Parolin pediu aos russos que esses templos e terrenos sejam devolvidos.


A visita de Parolin é histórica

A missão de Dom Parolin acontece nesse contexto extremamente complexo. Mas, há interesse de todas as partes em fazer essa amizade dar certo. Nunca antes um representante vaticano foi recebido com tanta atenção, não só por líderes religiosos locais, mas também por ministros de relações exteriores e pela maior autoridade do Kremlin: o próprio Presidente Putin.

Soma-se, ainda, ao igualmente histórico encontro do Papa Francisco com o Patriarca de Moscou, Cirilo, em fevereiro de 2016, na ilha de Cuba. O cisma entre Oriente e Ocidente ocorreu em 1054, mas a sede metropolitana de Moscou foi criada somente no século XV. De qualquer forma, jamais o bispo de Roma e o patriarca ortodoxo de Moscou haviam se reunido, apesar de várias tentativas de reaproximação. Em declaração conjunta, prometeram trabalhar pela unidade dos cristãos.

Também o Cardeal Parolin se reuniu com o Patriarca de Moscou. “Falamos um pouco sobre esse novo clima que reina entre as Igrejas Católica e Ortodoxa. Essa nova atmosfera se instaurou nos últimos anos e teve um momento particularmente significativo e de forte aceleração graças ao encontro, em Havana, entre o Patriarca e o Papa”, explicou à rádio Vaticano .

O Cardeal Parolin também encontrou o Bispo Ortodoxo Metropolita Hilarion Alfeev, representante de relações exteriores da igreja russa, além de autoridades da Igreja Católica local. O Cardeal definiu sua visita à Rússia como “uma viagem útil, interessante e construtiva”. Talvez as relações entre Rússia e Vaticano, entre católicos e ortodoxos, entre Ocidente e Oriente ainda não estejam prontas para que um dia o Papa possa ir à Rússia, mas os passos para que isso possa acontecer estão sendo dados e, um dia, a visita histórica deve ocorrer.
 

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