Dia de reafirmar a esperança na ressurreição e na vida eterna

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29 de outubro de 2019

Fazer memória daqueles que os precederam na fé é uma tradição dos cristãos desde as primeiras comunidades. No entanto, a reserva de uma data aos finados ocorreu oficialmente apenas no século XIV, em Roma. Em 1915, diante da grande quantidade de mortos nos conflitos da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), o Papa Bento XV recomendou que, a cada 2 de novembro, a Igreja realize a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos.
“A Igreja, desde os primeiros tempos, cultiva com grande piedade a memória dos defuntos e oferece por eles seu sufrágio, ou seja, oferece orações e missas para manter a comunhão com aqueles batizados que se foram”, recordou, ao O SÃO PAULO, o Padre José Arnaldo Juliano dos Santos, teólogo-perito em Eclesiologia. 

UNIDOS NA FÉ
Na Constituição Dogmática Lumen Gentium (LG), na referência à união da Igreja celeste com a Igreja peregrina, indica-se que “todos os que são de Cristo e têm o Seu Espírito estão unidos numa só Igreja e ligados uns aos outros Nele (cf. Ef 4,16). E, assim, de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo”. 
Nesse sentido, a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, em 2 de novembro, relembra aos viventes sua união com os que os precederam na fé, de modo que, “reconhecendo claramente esta comunicação de todo o Corpo místico de Cristo, a Igreja dos que ainda peregrinam venerou, com muita piedade, desde os primeiros tempos do Cristianismo, a memória dos defuntos; e, ‘porque é um pensamento santo e salutar rezar pelos mortos, para que sejam livres de seus pecados’ (2Mc 12,46), por eles ofereceu também sufrágios’ (LG,50)”, consta no Catecismo da Igreja Católica (CIC,958), “particularmente o sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus” (CIC,1032). 

INDULGÊNCIAS

Esse estrito sinal de fraternidade cristã entre os viventes e os já falecidos também pode ser demonstrado com a obtenção da indulgência plenária para a alma de quem já morreu. “Pelas indulgências, os fiéis podem obter para si mesmos e também para as almas do purgatório a remissão das penas temporais, sequelas dos pecados” (CIC, 1498)
Para tal, em 2 de novembro, o fiel deve seguir o que prescreve a Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, de São Paulo VI: confessar-se bem, rejeitando todo pecado; participar da Santa Missa e comungar com esta intenção; rezar pelo Papa ao menos um Pai-Nosso, Ave-Maria e o Glória; e visitar o cemitério e rezar pelo falecido, sendo que esta última condição pode ser cumprida entre 1º e 8 de novembro. 

‘NÓS CREMOS NA RESSURREIÇÃO DA CARNE’
O Dia de Finados também coloca o vivente diante de um dos pilares da fé cristã: a esperança na ressurreição da carne, o corpo, que, mediante o Batismo, tornou-se templo do Espírito Santo. 
“Na morte, separação da alma e do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, enquanto a sua alma vai ao encontro de Deus, embora ficando à espera de se reunir ao seu corpo glorificado. Deus, na sua onipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível aos nossos corpos, unindo-os às nossas almas pela virtude da Ressurreição de Jesus” (CIC,997). Assim como Cristo ressuscitou com o seu próprio corpo, mas não regressou a uma vida terrena, todos ressuscitarão com seu próprio corpo, transformado em corpo gloriosos, em corpo espiritual (cf. CIC,999). Como isso se dará “ultrapassa a nossa imaginação e o nosso entendimento; só na fé se torna acessível” (CIC,1000).
“A ressurreição da carne é a nova configuração de tudo aquilo que somos na Ressurreição do Cristo. Não há explicação, basta crer que ressuscitaremos com Cristo”, explicou Padre Arnaldo.
Segundo o Sacerdote, é importante que se tenha clareza que ressurreição da carne não significa reencarnação. “Os que creem na reencarnação pensam que nós retornamos para este mundo para purificar nossos pecados em uma outra vida. Isso é, indiscutivelmente, errado segundo a fé cristã. Nós morremos uma vez, vamos para a casa do Pai uma única vez, e lá, com os santos, esperamos a ressurreição da carne. Portanto, a reencarnação não é algo que está na doutrina católica e cristã em geral”, enfatizou.  

E QUANDO SÓ HÁ AS CINZAS?
A Igreja recomenda que os corpos dos falecidos sejam sepultados em cemitérios ou em outro lugar sagrado com tal finalidade, mas não proíbe a prática da cremação, conforme reafirmou a Congregação para a Doutrina da Fé, em 2016, com a instrução Ad Resurgendum cum Christo: “Quaisquer que sejam as motivações legítimas que levaram à escolha da cremação do cadáver, as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica”.
Um dos locais onde as cinzas podem ser conservadas são os cinerários, como o que existe na Paróquia Nossa Senhora da Luz, no Tucuruvi, Região Episcopal Santana. De acordo com o Diácono Márcio José Ribeiro, estão no local cinzas de pessoas que foram cremadas assim que faleceram e de outras cuja cremação se deu após a exumação do corpo anteriormente sepultado. 
“Do corpo que é enterrado, com o tempo só restam os ossos. Na cremação, em vez dos ossos, restam as cinzas. Na eternidade, teremos um corpo glorioso que Deus reservou na sua obra salvífica”, explicou o Diácono. 
O depósito das cinzas no cinerário acontece em uma cerimônia específica e, regularmente, são celebradas missas na memória dos falecidos. Para a manutenção das cinzas por um período de 20 anos, prorrogável, é cobrada dos familiares do falecido uma taxa, destinada à conservação desse espaço. 
O Diácono alertou para procedimentos que têm se tornado comuns na sociedade, mas que estão em desacordo com as recomendações da Igreja, como a dispersão das cinzas na natureza ou sua distribuição entre os familiares do falecido. “Todas estas são práticas contrárias à fé cristã e à tradição da Igreja. As cinzas devem ser colocadas em lugar santo: cemitério, igreja ou local que o bispo local autorize”, enfatizou.

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No dia de finados, cemitérios de São Paulo têm programação de missas

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30 de outubro de 2019

REGIÃO EPISCOPAL SÉ
Cemitério Consolação (Rua da Consolação, 1.660 – Consolação)
Missas: 8h, 10h, 12h, 14h e 16h.
Cemitério São Paulo (Rua Cardeal Arcoverde, 1.250 – Pinheiros)
Missas: 10h e 16h.
Cemitério da Vila Mariana (Avenida Lacerda Franco, 2.012 - Vila Mariana)
Missas: 10h e 15h
Cemitério do Araçá (Avenida Dr. Arnaldo, 666 – Sumaré)
Missas: 10h
Cemitério Santíssimo Sacramento (Avenida Doutor Arnaldo, 1.200 – Sumaré)
Missa: 09h e às 11h
Cemitério da Ordem Terceira do Carmo (Rua Sergipe, 83 – Consolação)
Missas: 9h, 11h e 15h

REGIÃO EPISCOPAL SANTANA
Cemitério do Tremembé (Rua Maria Amália Lopes Azevedo, 2.930 - Vila Albertina)
Missa: 10h
Cemitério Parque dos Pinheiros (Rua Ushikichi Kamiya, 71 - Vila Nova Galvão)
Missas: 11h e 15h
Cemitério do Horto (Rua Luiz Nunes, 20 - Tremembé)
Missa: 10h e 15h
Cemitério Chora Menino (Rua Nova dos Portugueses, 141 – Imirim)
Missas: 10h, 12h e 15h
Cemitério da Cantareira (Rua Roberto Baldin, 5.005 - Jardim Uniserve)
Missa: 10h

REGIÃO EPISCOPAL BRASILÂNDIA
Cemitério Dom Bosco (Estrada do Pinheirinho, 860 - Perus)
Missas: 10h e 15h
Cemitério da Freguesia do Ó (Av. Itaberaba, 250 - Freguesia do Ó)
Missas: 10h
Cemitério Parque Jaraguá (KM 23,2, s/n, Via Anhanguera - Vila Sulina)
Missas: 11h e 15h 
Cemitério Gethsêmani Anhanguera (Rodovia Anhanguera, km 23,4 - Vila Sulina)
Missas: 8h (Com Dom Odilo Scherer), 10h e 15h (Com Dom Eduardo Vieira dos Santos)

REGIÃO EPISCOPAL LAPA 

Cemitério Municipal da Lapa (R. Bergson, 347 - Vila Leopoldina)
Missa: 8h, 10h, 12h, 15h, (com Dom José Benedito) e 17h

REGIÃO EPISCOPAL BELÉM
Cemitério da Vila Alpina (Avenida Francisco Falconi, 837 - Vila Alpina)
Missa: 8h (com Dom Luiz Carlos Dias), 10h,  12h e 15h   
Cemitério da Vila Formosa (Avenida João XXIII, 2537 - Vila Formosa)
Missa:  6h,  8h,  10h (com Dom Luiz Carlos Dias), 12h, 14h e16h     
Cemitério da Quarta Parada (Avenida Salim Farah Maluf, 3303- Água Rasa)
Missa: 9h e 15h00 (com Dom Luiz Carlos Dias)

CATEDRAL DA SÉ
Missa: 9h, 11h (com Dom Odilo Scherer) e 17h
Concerto: 12h, Coro Luther King, a Camerata Sé e o Coral A Tempo apresentam o "Requiem de Mozart" na nave da Catedral, com regência de Walter Chamun e direção artística do Maestro Martinho Lutero Galati.
Cripita: Funcionamento das 9h às 18h - Entrada gartuíta 

(Apuração: Jenniffer Silva)

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Confira a programação de celebrações para o dia 2 de novembro nos cemitérios de São Paulo

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01 de novembro de 2018

REGIÃO EPISCOPA L SÉ
Cemitério Consolação (Rua da Consolação, 1.660 – Consolação)
Missas: 8h, 10h, 12h, 14h e 16h.
Cemitério São Paulo (Rua Cardeal Arcoverde, 1.250 – Pinheiros)
Missas: 10h e 15h.
Cemitério da Vila Mariana (Avenida Lacerda Franco, 2.012 - Vila Mariana)
Missas: 10h e 15h
Cemitério do Araçá (Avenida Dr. Arnaldo, 666 – Sumaré)
Missas: 9h, 12h e 15h
Cemitério Santíssimo Sacramento (Avenida Doutor Arnaldo, 1.200 – Sumaré)
Missa: 15h
Cemitério da Ordem Terceira do Carmo (Rua Sergipe, 83 – Consolação)
Missas: 9h, 11h e 15h
* Dom Eduardo Vieira dos Santos presidirá missa às 10h, na Paróquia Sagrado Coração de Jesus em Sufrágio das Almas (Rua Guaporé, 429 - Luz) e às 15h, no Cemitério Santíssimo Sacramento


REGIÃO EPISCOPAL SANTANA
Cemitério Vila Nova Cachoeirinha (Avenida João Marcelino Branco, s/n - Vila Nova Cachoeirinha)
Missas: 8h, 10h e 16h
Cemitério do Tremembé (Rua Maria Amália Lopes Azevedo, 2.930 - Vila Albertina)
Missa: 10h
Cemitério Parque dos Pinheiros (Rua Ushikichi Kamiya, 71 - Vila Nova Galvão)
Missas: 11h e 15h
Cemitério do Horto (Rua Luiz Nunes, 20 - Tremembé)
Missa: 10h
Cemitério Chora Menino (Rua Nova dos Portugueses, 141 – Imirim)
Missas: 8h, 10h, 12h e 15h
Cemitério da Cantareira (Rua Roberto Baldin, 5.005 - Jardim Uniserve)
Missa: 10h


REGIÃO EPISCOPA L BELÉM
Cemitério Vila Formosa (Avenida João XXIII, 2.537 - Vila Formosa)
Missas: 6h, 8h, 10h, 12h, 14h e 16h (com o Cardeal Odilo Pedro Scherer)
Cemitério da Quarta Parada (Avenida Salim Farah Maluf, 3.303 - Água Rasa)
Missas: 9h e 15h
Cemitério da Vila Alpina (Avenida Francisco Falconi, 837 - Vila Alpina)
Missas: 8h, 10h, 12h e 15h
* Dom Luiz Carlos Dias presidirá missas às 8h no Cemitério da Vila Alpina, às 10h no Cemitério da Vila Formosa, e às 15h no Cemitério da Quarta Parada


REGIÃO EPISCOPA L BRASILÂNDIA
Cemitério da Freguesia do Ó (Avenida Itaberaba, 250 - Freguesia do Ó);
Missa: 15h
Cemitério Dom Bosco (Estrada do Pinheirinho, 860 - Perus)
Missas: 10h e 15h
Cemitério Gethsêmani Anhanguera (Rodovia Anhanguera, km 23,4 - Vila Sulina);
Missas: 8h (com o Cardeal Scherer) e 15h (com Dom Devair Araújo da Fonseca)

REGIÃO EPISCOPAL LAPA
Cemitério da Lapa (Rua Bergson, 347 - Vila Leopoldina)
Missas: 8h, 11h, 15h e 17h

(Apuração: Jenniffer Silva e Rafael Costa)

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‘Maior do que a dor da morte é a nossa fé na ressurreição’

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10 de novembro de 2017

A manhã começou ensolarada e, às 8h, os fiéis já estavam reunidos no Cemitério Gethsêmani Anhanguera, da Arquidiocese de São Paulo, para celebrar a missa na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, na quinta-feira, 2. Presidida por Dom Devair Araújo da Fonseca, Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Episcopal Brasilândia, a missa foi preparada pelos fiéis da Paróquia Nossa Senhora das Graças, no bairro Morro Doce, e concelebrada por outros padres, entre eles, Padre Carlos André, Pároco da Nossa Senhora das Graças. 

Na homilia, o Bispo insistiu que, muito mais do que a dor ou o sofrimento, que também fazem parte da morte, o Dia de Finados deve ser marcado pela fé na Ressurreição. “Desde sempre, a humanidade tem uma pergunta sobre a morte e a resposta está em Cristo. Em Jesus Ressuscitado, temos a garantia da nossa ressurreição. Em Jesus Cristo, a nossa esperança não se decepciona”, afirmou Dom Devair. 

“A Palavra nos coloca diante da realidade da vida e da morte. E não são duas realidades opostas, que se contradizem. São realidades que fazem parte da pessoa humana. A morte, além do sofrimento, provoca algo que não desejamos, que queremos esquecer. Mas, todos nós nos encontramos com ela. Hoje estamos aqui para recordar justamente os nossos entes queridos, aqueles que agora estão junto de Deus”, continuou o Bispo. 

Sobre a ressurreição dos morros, Dom Devair afirmou que “quem não acredita na ressurreição, pode levar a vida de uma maneira muito difícil. Como é possível construir uma vida se não carregamos nada do que temos aqui? Será que vale a pena a vida? Será que existe algo depois da morte? Existe sentido no que estamos celebrando? Quem não tem esperança da ressurreição pensa que não existe nada depois da morte. A fé cristã nos coloca em outra dimensão. Quem tem esperança em Deus não se decepciona, não pensa que Deus está distante. Deus, em Jesus Cristo, assumiu a nossa condição humana, que exige também a morte. Jesus morreu na cruz. Deus experimentou a morte, para que nós não morrêssemos de forma definitiva. Para que nossa morte não fosse um vazio. Cristo morreu, mas não permaneceu na morte. Em Cristo, temos garantida a nossa ressurreição. Em Cristo, a nossa esperança será realizada plenamente”. 

Ele recordou, ainda, que finados não é só um dia de tristeza. “O que celebramos hoje não é simplesmente a tristeza da separação. Recordamos com tristeza a falta das pessoas que não estão mais entre nós e sentimos a morte, e isso faz parte da nossa vida. Não podemos dizer que quem tem fé não experimenta a dor da separação. Nós sentimos a dor, mas temos esperança na ressurreição. Maior do que a dor da morte é a nossa fé na ressurreição. A Eucaristia é o memorial deste grande acontecimento: da morte e da ressurreição de Jesus. E hoje devemos nos perguntar como nossa vida está sendo sinal de amor e ressurreição”, disse o Bispo.

Outras duas missas foram celebradas no Cemitério ao longo do dia, uma presidida pelo Padre Juarez de Castro, Pároco da Paróquia da Assunção de Nossa Senhora, na Região Sé, e outra pelo Padre Marcos Roberto Pires, Pároco da Paróquia Santíssima Trindade, na Região Lapa.
 

 

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A dignidade do sepultamento Cristão

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01 de novembro de 2017

A morte foi percebida, desde sempre, como um drama para a humanidade. Ao longo dos anos, muitas tradições foram sendo incorporadas ao velório e ao sepultamento, de acordo com a realidade cultural de cada país ou região. Mas, afinal, o que a Igreja Católica orienta para que uma pessoa seja sepultada dignamente?  Nos primeiros tempos do Cristianismo, por exemplo, os cristãos construíam igrejas sobre os túmulos dos santos e mártires e, assim, mantinham viva não só a memória daqueles santos, mas também a esperança na vida eterna. 

No dia 2 de novembro, toda a Igreja celebra a Comemoração dos Fiéis Defuntos, popularmente conhecido como Dia de Finados. Nessa data, muitas pessoas recordam, uma vez mais, seus entes queridos e por eles rezam. O Catecismo da Igreja Católica, dos artigos 1680 a 1690, fala sobre os funerais cristãos e indica que “todos os sacramentos, principalmente os da iniciação cristã, têm por finalidade a última Páscoa do Filho de Deus, aquela que, pela morte, o fez entrar na vida do Reino”. 

O texto continua recordando que “o sentido cristão da morte é revelado à luz do mistério da Morte e Ressurreição de Cristo, em que repousa nossa única esperança”. Nessa perspectiva, a morte é sempre vista a partir da Páscoa de Cristo e, como disse Paulo à comunidade de Corinto, “assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem” (1 Coríntios 15, 20-21).

O Catecismo insiste, ainda, que a Celebração Eucarística é o “coração da realidade pascal da morte cristã”, mas que existem outros ritos realizados por ocasião dos funerais para que o mistério da morte seja iluminado pela Ressurreição de Cristo. “Ela [a Igreja] oferece ao Pai, em Cristo, o filho de sua graça e deposita na terra, na esperança, o germe do corpo que ressuscitará na glória. Essa oferenda é plenamente celebrada pelo Sacrifício Eucarístico. As bênçãos que a precedem e a seguem são sacramentais.” 

Dois são os objetivos principais da Igreja ao realizar o rito das exéquias: “exprimir a comunhão com o defunto e fazer a comunidade reunida participar das exéquias e lhe anunciar a vida eterna”. As missas – de corpo presente ou as de aniversário de sétimo ou trigésimo dia –  também são, de acordo com o Catecismo, “um acontecimento que deve fazer ultrapassar as perspectivas deste mundo e levar os fiéis às verdadeiras perspectivas da fé em Cristo Ressuscitado”.

 Já os costumes como a colocação das coroas de flores, o tempo destinado ao velório ou outros tipos de homenagens não fazem parte das orientações da Igreja acerca dos rituais de despedida. Eles são organizados de acordo com a disponibilidade de cada grupo familiar ou comunitário.

 

Dignidade sim, exagero não

Quando Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, morreu, vítima do terremoto que aconteceu no Haiti, em janeiro de 2010, seu corpo foi translado para o Brasil, onde aconteceu o funeral. Os familiares, comovidos e emocionados pela morte de uma pessoa tão conhecida e amada, pediram que todos os que tivessem o desejo de prestar uma homenagem a ela destinassem o dinheiro que, provavelmente, seria gasto na compra de flores, para a conta da Pastoral da Criança. O pedido foi atendido e a Pastoral arrecadou um valor significativo para dar continuidade à missão do organismo junto as crianças de todo o Brasil. 

Rafael Alberto, 33, passou por uma experiência que o fez pensar sobre o quanto a carga emocional vivida no momento da morte de um ente querido pode fazer com que as pessoas se preocupem mais com questões práticas e materiais do que com as questões espirituais. 

Quando morreu seu tio-avô, na manhã do dia 15 de outubro, Rafael ficou, durante todo o dia, tratando de questões, como a espera da liberação do corpo do Instituto Médico Legal (IML) e do atestado de óbito. “Quando, às 20h, fui até a agência para realizar a escolha da urna funerária e a taxa de sepultamento, no nosso caso, do crematório, eu estava exausto e nem questionei ao agente que me ofereceu os pacotes qual era o valor de cada item. Sei que o conjunto dos serviços ficou em torno de R$ 2 mil – o pacote mais barato. Uma parte – R$ 932 – eu paguei ali e a outra deveria pagar no local onde seria o velório”, contou Rafael à reportagem. 

Quando Rafael e seus familiares chegaram ao lugar do velório era quase meia-noite e apenas às 2h viria o carro que levaria o corpo para o Crematório de Vila Alpina. “Antes de chegarem as flores, perguntei aos funcionários que estavam colocando o caixão na sala, para quem eu deveria pagar o restante e eles me mostraram o recibo onde constava que todas as taxas estavam já pagas. O valor que faltava, de R$ 1 mil, era pelo serviço de floricultura. Foi quando me dei conta de que pagaria R$ 1mil por duas coroas de flores que seriam colocadas numa sala minúscula e ficariam ali por não mais que duas horas. Quando as flores chegaram, não duvidei. Disse que não tinha ficado claro para mim que pagaria tanto por aquele serviço e o dispensei”, continou.

Depois de uma conversa com o dono da floricultura, o serviço foi enfim dispensado e, logo em seguida, chegou o carro que faria o translado do corpo. “Quando passou tudo, me dei conta de que o caixão e todas as taxas – como o transporte, a cremação, as velas e até mesmo as flores postas sobre o corpo ou o véu que foi colocado sobre o rosto do meu tio – ficaram no valor de R$ 932. Pensei em quanto, por desconhecimento, as pessoas acabam pagando muito mais e não têm noção sobre o quanto, de fato, custa realizar um funeral na cidade de São Paulo”. 

Rafael comentou, também, que, ainda hoje, para muitas pessoas, a dignidade e a homenagem prestada à uma pessoa querida são medidas pelo luxo do caixão ou o tipo de flores colocadas ao redor do morto. “Nós chamamos um padre para que ele realizasse o rito das exéquias e todos estávamos muito unidos naquele momento. Tudo foi simples, mas bonito e digno e a situação me fez pensar muito sobre o quanto as pessoas podem até ser enganadas, porque, no momento de dor e emoção, nem sabem exatamente o que estão pagando”, comentou ao O SÃO PAULO.

 

Máfia das funerárias em São Paulo

Desde 2012, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) investiga pessoas que podem estar envolvidas na “máfia do serviço funerário na cidade de São Paulo”. De acordo com a reportagem publicada em junho de 2015, pelo site de notícias G1 , o que acontece é a ação de atravessadores que “tentam ganhar dinheiro oferecendo a quem perdeu parentes ou amigos serviços funerários mais caros e feitos por empresas particulares, o que é considerado ilegal [pois no município de São Paulo este serviço é prestado exclusivamente pela Prefeitura]. A ação acontece em agências funerárias municipais, cemitérios, hospitais e ocorre com a ajuda de funcionários públicos”. 

A reportagem procurou o Ministério Público de São Paulo para saber sobre o andamento da investigação e recebeu a seguinte resposta, via assessoria de imprensa: “Chegou até o MPSP uma representação no dia 15 de setembro [de 2017] para apurar o Serviço Funerário de São Paulo em relação ao favorecimento a cooperativas funerais. A apuração está no começo para cumprimento de algumas diligências. Ainda não é inquérito civil e sim representação.”  Sobre a investigação que começou em 2012, não houve resposta até o fechamento desta edição.

 

A Igreja Católica proíbe a cremação? 

Quando o assunto é morte, muitas dúvidas surgem e algumas delas precisam ser respondidas com rapidez para ajudar familiares e amigos a compreenderem e viverem o momento do luto, para além do desespero ou da dor.

Uma questão que tem sido vivenciada pelas famílias, principalmente nas grandes cidades, é a opção por sepultar ou cremar o corpo do falecido. Na cidade de São Paulo, para as famílias que não têm jazigos próprios, a Prefeitura disponibiliza covas em cemitérios que devem ser utilizadas por prazos determinados. Após um tempo de três anos, por exemplo, a família precisa retirar os restos mortais – caso o corpo já tenha se decomposto inteiramente – e dar outra destinação para os ossos.

Em relação à cremação, contudo, no dia 25 de outubro de 2016, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu a Instrução Ad resurgendum cum Christo (para ressuscitar com Cristo), sobre o sepultamento dos falecidos e a conservação das cinzas da cremação.

Na apresentação da Instrução, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, explicou que a norma vigente em matéria de cremação de cadáveres é regulada pelo Código de Direito Canônico e diz que “a Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos, mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã”.

A Igreja recomenda, contudo, que os corpos dos falecidos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado. Em entrevista ao O SÃO PAULO , escrita logo após a publicação da Instrução, em novembro de 2016, o Cônego Antonio Manzatto, Doutor em Teologia e Professor da PUC-SP, falou sobre a importância de se tratar, com o máximo respeito, os restos mortais de uma pessoa. “É verdade que as pessoas não estão resumidas no corpo, mas o corpo foi a sua maneira de estar no mundo. Portanto, respeitar seus restos mortais é, de alguma forma, respeitar as pessoas e sua dignidade”, explicou.

Na ocasião, ele disse, ainda, que “se tratamos de qualquer maneira os restos mortais, isso significa que não valorizamos nada daquilo que está no mundo. E a Igreja sempre foi favorável de que se valorizem as coisas que estão no mundo, uma vez que o ser humano existe nele. É uma maneira de ter presente que o mundo não começou conosco. Não somos as primeiras pessoas do mundo, viemos não só de alguns lugares, mas de algumas pessoas, de seus projetos e suas ideias. Nós somos antecedidos por pessoas que prepararam o mundo, que nos testemunharam sua fé. Respeitar seus restos mortais é uma forma de respeitar sua memória”, acrescentou o Cônego.

 

Sobre a Conservação Das Cinzas

•  Em relação ao sepultamento, a Igreja recorda que independentemente da escolha feita – enterro do corpo ou cremação – não se pode ofender os ritos próprios, ou seja, comportamentos e ritos que envolvam concepções errôneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reencarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da “prisão” do corpo;
•  Outra recomendação é a de que as cinzas sejam conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica. A conservação das cinzas em casa não é consentida. Somente a Conferência Episcopal ou o Sínodo dos Bispos das Igrejas Orientais poderão autorizar a conservação das cinzas em casa em casos especiais;
•  As cinzas, por sua vez, também não podem ser divididas entre núcleos ou membros familiares, e deve ser sempre assegurado o respeito e as adequadas condições de conservação delas;
•  Por fim, não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou em qualquer outro lugar. Exclui-se, ainda, a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos.

Quanto Custa morrer em São Paulo?

As informações sobre os custos da realização de funerais na Capital Paulista estão disponíveis no site da Prefeitura. Ao procurar por “Serviço Funerário” e clicar em “tabela de preços”, o usuário terá a opção de acessar as páginas do Diário Oficial da União, onde estão publicados os valores. O preço de uma urna funerária, por exemplo, varia de R$ 138 a R$ 10.889, e as demais taxas estão relacionadas proporcionalmente ao valor da urna. O atestado de óbito é sempre gratuito, além disso, as pessoas que comprovarem baixa renda e não tiverem condições de arcar com as despesas de funeral são dispensadas das taxas. Com um valor em torno de R$ 1 mil é possível pagar todas as despesas com velório e sepultamento ou cremação.



 

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