‘Todos têm uma mesma identidade fundamental: pela graça, filhos de Deus’

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13 de dezembro de 2019

Coordenador nacional do apostolado Courage, Maurício Abambres, 49, percorre o Brasil para falar sobre o caminho proposto pela Igreja Católica aos homens e às mulheres que sentem atração pelo mesmo sexo e buscam viver a fé com sinceridade e liberdade. 

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o assessor jurídico do Tribunal de Justiça de São Paulo partiu de sua própria história de vida para explicar como é realizado o acompanhamento pastoral das pessoas com tendências homossexuais, assim como os desafios que existem dentro e fora da Igreja em relação a esse tema. Confira a entrevista. 

O SÃO PAULODESDE QUANDO VOCÊ PERCEBEU QUE TEM ATRAÇÃO PELO MESMO SEXO? 

Maurício Abambres – Para entender melhor minha caminhada, é preciso explicar um pouco da minha origem. Eu venho de uma família em que não havia uma referência masculina, digamos, saudável. Eu não conheci meu pai e meu avô era alcoólatra. 

Eu nunca me identifiquei muito com aquilo que era comum nos meninos da minha idade, como jogar bola, e sempre admirava os rapazes, desejava ser como eles, mas, para mim, era um mistério como os homens agiam. Ao mesmo tempo, tinha maior facilidade para ter amizade com as meninas, embora eu nunca tenha tido interesse pelas brincadeiras das meninas, me vestir ou me portar como elas. Apenas tinha uma afinidade maior. Sobretudo a partir da adolescência, a minha busca pela figura masculina foi ficando “sexualizada”.

VOCÊ JÁ FREQUENTAVA A IGREJA? 

Minha família sempre foi dos chamados “católicos de IBGE”, nunca viveram a religiosidade, de fato. Com 16 anos, eu me aproximei da Igreja por causa de um amigo que começou a ter uma prática religiosa mais intensa. Então, comecei a participar da Renovação Carismática Católica (RCC). 

Com 19 anos, conheci um monge beneditino que me perguntou se eu não queria seguir a vida monástica, e acabei ingressando no mosteiro, onde fiquei por quatro anos. Foi uma experiência muito boa e séria. Não tive problemas em relação à vivência da castidade, embora minha tendência persistisse e sempre fui transparente com o meu diretor espiritual a esse respeito, buscando seguir o caminho proposto. 

E POR QUE VOCÊ DEIXOU A VIDA MONÁSTICA? 

Deixei o mosteiro por outras razões relacionadas à vida comunitária com as quais não me identificava. Voltei a trabalhar e a participar do grupo da Igreja do qual fazia parte antes. Só que lá não havia muita abertura para tratar dessas questões. Só me diziam para viver a castidade segundo a Doutrina da Igreja, sem, de fato, responder às inúmeras dúvidas e questões que tinha dentro de mim. Não me via em um casamento e construindo uma família, tampouco como um religioso ou sacerdote. Perguntava-me qual seria o meu lugar na Igreja e no mundo. 

Ao mesmo tempo, trabalhava com um rapaz que vivia uma vida assumidamente gay, e isso me despertou uma curiosidade por esse universo. Com 27 anos, cansado de não ter respostas e um acolhimento, abandonei a vida da Igreja. De certa forma, encontrei um acolhimento no outro grupo. Com isso, passei a viver um estilo de vida gay até por volta dos 40 anos. Nesse período, tive relacionamentos estáveis, uma vida promíscua, usei drogas etc. Mesmo assim, nunca critiquei a Igreja. Procurei outras formas de viver a religiosidade em diferentes tradições religiosas. Nada disso, porém, me satisfazia realmente do ponto de vista da fé.  

QUANDO CONHECEU O COURAGE? 

Depois de muitos anos, eu voltei a me aproximar da Igreja. Ia à missa, mas não comungava, até porque eu vivia publicamente uma vida gay. Então, tomei coragem e terminei o relacionamento que tinha e procurei um sacerdote para me confessar. Só que, ao mesmo tempo, eu me questionava, pois sabia que teria que seguir os ensinamentos da Igreja, mas não sabia como. Comecei a pesquisar na internet sobre o assunto e encontrei o site do Courage, nos Estados Unidos, escrevi para eles e me informaram que havia um grupo no Brasil. 

No começo, tive receio, pois temia que fosse algo relacionado a grupos que se dizem “inclusivos”, que relativizam a Doutrina e a Moral católica, sendo que eu já sabia o que a Igreja ensinava, e só precisava de ajuda para viver esse ensinamento. Eu tomei coragem e participei do primeiro encontro em 2012 e, a partir daí, comecei a compreender mais o que a Igreja propõe para as pessoas com atração pelo mesmo sexo. Compreendi que vivendo como um leigo solteiro, consciente dessa tendência, eu posso ser útil para a Igreja a partir da vivência das metas indicadas pelo Courage. Depois de um tempo, fui indicado para coordenar o apostolado no Brasil e aqui estou. 

HOJE, COMO VOCÊ ENTENDE A HOMOSSEXUALIDADE? 

Depois de ler, estudar e fazer esse caminho no Courage, olhando para a minha vida e para a de muitos que participam desse apostolado, eu vejo que não é algo que tenha causas completamente definidas. Por isso, a Doutrina da Igreja usa sempre a expressão “inclinação desordenada”, ou seja, uma tendência que está fora da ordem natural. Outra coisa que precisa ficar clara é que a Doutrina católica não considera a atração pelo mesmo sexo um pecado. Uma inclinação desordenada pode levar ao pecado, mas não é um pecado em si. Por exemplo, se uma pessoa que tem a tendência a comer demais e se deixar levar por isso, cometerá o pecado da gula. 

Infelizmente, o mundo moderno reduz a sexualidade à genitalidade, mas é muito mais do que isso. O ser humano se realiza no dom de si a Deus por meio do próximo, e a sexualidade faz parte disso. Penso que a Psicologia poderia estudar essas questões com mais profundidade sem amarras ideológicas. 

COMO VOCÊ COMPREENDE A AFIRMAÇÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE OS HOMOSSEXUAIS, EM 2013?

Naquela ocasião, o Papa Francisco disse: “Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?” Essas frases não podem ser pinçadas do seu contexto. Nós temos que ir além e entender todo o magistério de Francisco, que, por exemplo, na Exortação Apostólica Amoris Laetitia recorda que Deus criou o homem e a mulher para se unirem e reafirma que as uniões entre as pessoas do mesmo sexo não são legítimas, assim como fala do acompanhamento pastoral dessas pessoas. No livro “O nome de Deus é misericórdia”, o mesmo Francisco recorda que “as pessoas não devem ser definidas apenas por suas tendências sexuais”, reforçando o que o então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa emérito Bento XVI, afirmou em uma Carta da Congregação para a Doutrina da Fé em 1986: “A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um ‘heterossexual’ ou um ‘homossexual’, sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: serem criaturas e, pela graça, filhos de Deus, herdeiros da vida eterna”. Portanto, o que significa buscar o Senhor? Se eu o busco, quero ouvir o que Ele me fala e, consequentemente, buscar viver o que Ele me pede.

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‘Nossa primeira terra de missão somos nós mesmos’

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01 de dezembro de 2019

Médico, doutor em Teologia Moral e sucessor do Apóstolos, Dom Antônio Augusto Dias Duarte, 71, é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro há 14 anos. Dentre as atribuições na Igreja carioca, ele é responsável por acompanhar a Pastoral Familiar. Em entrevista ao O SÃO PAULO, o Bispo falou sobre “Ser missionário antes mesmo de fazer uma missão”, tema de sua conferência no V Fórum Famílias Novas, no sábado, 16, em São Paulo. (LEIA TAMBÉMFórum destaca o papel das famílias na evangelização

Dom Antônio enfatizou que, para ter a eficiência divina, o anúncio do Evangelho necessita do “martírio” da coerência de vida e busca de santidade daquele que é chamado a ser missionário. Confira. 

O SÃO PAULOO QUE É NECESSÁRIO PARA SER MISSIONÁRIO HOJE? 

Dom Antônio Augusto Dias Duarte – Esse é um tema que todos devemos aprofundar, especialmente os jovens, porque nosso afã de evangelizar, às vezes, é tão grande, que acabamos nos envolvendo em muitas atividades, até bem organizadas, com uma eficácia comprovada, mas esquecemos que o cristão não é simplesmente um empreendedor, pois ele deve buscar a santidade. Portanto, ser santo é condição imprescindível para ser missionário. Nosso apostolado necessita da eficiência divina, e não apenas a eficácia humana. Por isso, temos que cuidar muito da nossa própria vida cristã. Fomos chamados à santidade para, assim, santificarmos o mundo. Nossa primeira terra de missão somos nós mesmos.

CONCRETAMENTE, COMO DEVE SER ESSA BUSCA? 

O missionário precisa ter vida interior, vida espiritual, ser uma pessoa de oração, que tenha intimidade com a pessoa de Cristo. Não transformaremos o mundo se não formos pessoas em contínuo processo de conversão. Já dizia Santo Tomás de Aquino: “O apostolado consiste em dar aos demais o que nós contemplamos”. Isso significa apresentar ao mundo um rosto de cristão, em que haja coerência entre o que creio e o que vivo.

A santidade consiste em corresponder ao amor de Deus. Nessa correspondência, há gradações. Na parábola do semeador, Jesus diz que as sementes que caíram em terra boa germinaram e deram 100%, 60% e 30%. Essa é a gradação da santidade. Humanamente, todos os santos, sejam os oficialmente declarados pela Igreja, sejam aqueles que nós comemoramos no Dia de Todos os Santos, chegaram ao céu com defeitos. Mas corresponderam ao amor de Deus, e, quando foram grandes pecadores, sentiram o amor de Deus e souberam se arrepender, receber o perdão de Deus, retificar a vida, recomeçar e lutar até o fim da vida. Não percamos de vista que a santidade é difícil, mas é acessível a todos. É mais fácil ser sábio do que ser santo, porém é mais acessível ser santo do que ser sábio.  

A SOCIEDADE CARECE DESSA SANTIDADE? 

Existe uma crise relativa de santidade, mas não objetiva. Estamos vivendo uma época de muitos santos, especialmente neste período do século XX e início do século XXI. Temos muitas causas de santos no Brasil. Em todo o mundo, vemos um movimento muito bonito em que as pessoas estão identificando a santidade no povo comum. Ao mesmo tempo, há muito a ser feito, pois o mundo precisa de mais santos.

O Papa Francisco, com a facilidade de criar expressões que lhe é própria, fala-nos da necessidade de percebermos os muitos santos que vivem na “porta do lado”, isto é, pessoas comuns com as quais cruzamos no dia a dia e que estão buscando a santidade. Claro que Deus chama todos à santidade, e a grande maioria dos membros da Igreja são os leigos que estão em sua vida cotidiana e, com a graça de Deus, fazem a semente do Batismo crescer, amadurecer e dar os frutos de santidade. 

QUAIS SÃO OS GRANDES DESAFIOS PARA VIVER ESSA SANTIDADE HOJE?

A santidade, a vida na graça de Deus, se dá, sobretudo, pelos sacramentos. Um dos grandes desafios é tornar mais acessível os sacramentos. Para isso, são necessários mais sacerdotes e uma maior promoção vocacional. Ao mesmo tempo, é importante que haja cada vez mais famílias com a consciência viva da vocação matrimonial e da sua missão de formar pessoas adultas na fé, que sejam capazes de atuar na sociedade, levando os valores cristãos às estruturas sociais. Famílias que sejam verdadeiras escolas de fé e berços de santidade. 

OS JOVENS, EM GERAL, DIZEM QUE O MUNDO PRECISA DE MAIS AMOR. QUAL É O AMOR ENTENDIDO PELO CRISTIANISMO

Nunca amamos o suficiente. Todos nós temos que aprender a amar até o fim da vida. Já dizia Santo Agostinho que “a medida do amor é amar sem medida”. É um desafio hoje não só conceituar o amor, mas vivê-lo com essa medida de Cristo, crescendo sempre na dimensão do amor doação, ágape, misericórdia, perdão. Os jovens são pessoas que estão em um processo de amadurecimento humano e espiritual. Mais do que palavras e definições, eles precisam ver pessoas que amem de verdade nessa doação incondicional. Além do ambiente familiar, que é a primeira grande escola de amor, os jovens precisam viver experiências de dedicação ao próximo com um amor desinteressado. Penso que muitos estão compreendendo isso se olharmos para as várias iniciativas de voluntariado com as pessoas marginalizadas, doentes e sofredoras. Eles estão aprendendo a amar amando. 

NESSA PERSPECTIVA, É POSSÍVEL DIZER QUE A IGREJA ACOLHE A TODOS

A Igreja sempre acolheu a todos, porque ela nasceu com essa identidade de ser uma grande família, na qual Deus é nosso Pai e todos somos irmãos, independentemente das mais diversas posições e âmbitos, morais, políticos, culturais, étnicos ou econômicos. Não podemos nos deixar levar por uma visão antagônica ou grupal. Temos em comum a mesma fé, a caridade e a moral, que, por sua vez, nunca foi excludente. Pode ser que ensinamentos mal compreendidos ou com uma didática errônea tenham agravado uma percepção excludente da moral. 

O Cristianismo não é um código de moral, é uma pessoa, Jesus Cristo, que veio para todos, acolheu a todos. A moral cristã, portanto, nada mais é que a vida de Cristo transformada em um ensinamento sistematizado, que deve ser transmitida de maneira cada vez mais clara e explícita, sem diluir sua essência. 

E ESSE ENCONTRO LEVA À CONVERSÃO... 

Sim, quem se encontra com a pessoa de Jesus Cristo, naturalmente, é chamado a transformar sua vida, a converter-se. E hoje, o primeiro sinal de conversão verdadeira é saber viver com os diferentes. Quando a Igreja acolhe a todos, ela não está aprovando tudo. Acolher pessoas que têm uma vida não compatível com Jesus Cristo não significa aprovar tudo o que fazem, mas, sim, dar às pessoas oportunidade de abrirem os olhos para tudo aquilo que Jesus veio ensinar com a sua vida e com as suas palavras. 

AÍ ENTRA O TESTEMUNHO

O cristão sempre foi, é e será mártir, no sentido exato da palavra, ou seja, aquele que testemunha Jesus Cristo, sua vida e seus ensinamentos. Não há evangelização mais eficiente do que o martírio. Quando se fala que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos, esse sangue não precisa ser necessariamente o físico, mas é a coerência. A coerência do cristão é a semente para levar Cristo a todas as partes do mundo. 

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‘Tenho o dever de transmitir esperança à Igreja em um contexto europeu de secularização’

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25 de outubro de 2019

O mês de outubro, além de ser tradicionalmente dedicado às missões, ganha um caráter ainda mais marcante este ano, com a convocação do Papa Francisco aos católicos do mundo todo para a vivência do Mês Missionário Extraordinário. O intuito é manter viva a consciência de todos os batizados acerca da natureza missionária da Igreja, uma vez que toda ação missionária é consequência não somente de uma fé amadurecida, como também da consciência do quanto a graça de Deus permeia a vida humana em todos os seus âmbitos. 
Nesse contexto, muitas são as regiões que necessitam de um impulso ainda maior no que diz respeito à presença da Igreja Católica e, consequentemente, de sua ação missionária. Um desses lugares é a Escandinávia, porção setentrional da Europa, que engloba os atuais territórios da Dinamarca, Noruega e Suécia. 
Na Suécia, país com 10 milhões de habitantes em que a fé luterana é majoritária e o ateísmo e o secularismo encontram terreno fértil, o catolicismo é praticado por uma baixíssima parcela da população, o que demonstra um vasto campo de missão a ser explorado. 
A fim de traçar um breve panorama de como se dá a presença da Igreja Católica naquele país, O SÃO PAULO conversou com Dom Lars Anders Arborelius, 70, primeiro cardeal da história da Suécia. Embora tenha nascido em Sorengo, na Suíça, ele é filho de pais suecos, cresceu em Lund, no sul do país escandinavo, onde foi viver com sua família. Inicialmente criado na Igreja luterana, abraçou a fé católica quando tinha 20 anos de idade, tornando-se, posteriormente, frade carmelita descalço. Estudou Filosofia em Bruges, na Bélgica, e Teologia em Roma, na Itália. Foi ordenado sacerdote e depois bispo para toda a Suécia em 17 de novembro de 1998, por São João Paulo II. De 2005 a 2015, foi Presidente da Conferência Episcopal Nórdica, que, além da Suécia, é composta pela Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia. O Papa Francisco, em 28 de junho de 2017, no respectivo consistório, o nomeou cardeal. A seguir, leia a íntegra da entrevista.

O SÃO PAULOCOMO BISPO DE UM PAÍS DE MINORIA CATÓLICA, QUAIS SÃO OS SEUS MAIORES DESAFIOS
Cardeal Lars Anders Arborelius – Em geral, para nós, católicos na 
Suécia, o maior desafio é a transmissão da fé às novas gerações, pois há um ambiente verdadeiramente secularizado, e os jovens vivem em um mundo muito diverso. Isso certamente acontece por toda a Europa, mas para nós [suecos] tem sido assim há um bom tempo. Ser católico na Suécia significa, muitas vezes, ser imigrante, por sermos minoria e o número de católicos estar mais relacionado aos estrangeiros que aqui residem. Há, por exemplo, mais poloneses católicos na Suécia do que propriamente suecos de origem. Encontrar esses católicos espalhados é um grande desafio; em uma paróquia pode-se chegar a cem nacionalidades diversas, algo que não é tão fácil de harmonizar e trabalhar. Temos, por exemplo, uma única paróquia, que territorialmente compreende uma província inteira, o que corresponderia ao tamanho de Portugal. Por ser minoria, a Igreja não está em todos os espaços geográficos, infelizmente. Unir todos os católicos é um objetivo para nós, pois se trata sempre de um desafio encontrá-los e inseri-los em comunidade. Enfim, explicar a fé a um mundo que não conhece Deus é sempre um desafio, bem como encontrar a linguagem e o melhor modo para evangelizar. 

COMO SE DÁ A ORGANIZAÇÃO ECLESIAL EM SEU PAÍS?
Há uma única diocese na Suécia. Apesar de grandes cidades como Estocolmo, a presença católica é discreta. Há somente nove paróquias na capital, por exemplo. A população é de cerca de 10 milhões de habitantes, entre os quais 120 mil são católicos registrados [oficializados], sendo possivelmente o mesmo número de não registrados. Possuímos um seminário em Uppsala, no sudeste do país, para a primeira etapa formativa, e posteriormente os candidatos vão a Roma, na Itália, à França ou outros lugares, como um do rito oriental (caldeu), que atualmente está no Iraque. Nossos seminaristas possuem uma origem muito diversa, pelo contexto imigratório católico. Participamos da conferência episcopal dos países nórdicos, com a Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia. Temos uma gratidão à igreja alemã, que muito nos tem ajudado nestes anos todos. 

DIANTE DA CONSTANTE SECULARIZAÇÃO NO OCIDENTE, O QUE TEM SIDO FEITO EM TERRAS SUECAS PARA ESTIMULAR A EVANGELIZAÇÃO? 
Posso dizer que todos os anos há conversões à Igreja Católica aqui, e penso que muitos buscam a tradição espiritual monástica [trata-se da pátria de Santa Brígida, importante religiosa mística do período medieval], pois no coração do sueco há uma abertura à via contemplativa, inclusive os protestantes suecos leem livros sobre os santos e místicos de nossa Tradição. Existe certo caminho, assim, para se chegar às pessoas; também a caridade, e o fato de nossa Igreja não ser imersa em alguns elementos difundidos da cultura social, como o aborto permitido. Isso faz da Igreja um sinal profético atraente, outra voz presente. 

COMO É A RELAÇÃO ENTRE A IGREJA CATÓLICA E A SOCIEDADE CIVIL NA SUÉCIA? 
Possuímos uma relação cordial. Temos boas relações de diálogo, sobretudo por meio do Conselho Ecumênico, com quase 30 confissões cristãs diferentes. Deste modo, vemos que é mais fácil trabalharmos junto com os outros órgãos da sociedade para o diálogo. 

COMO É A CONTRIBUIÇÃO DOS LEIGOS NA IGREJA CATÓLICA NA SUÉCIA? 
Há bons colaboradores nas nossas paróquias, entre 500 e 600 catequistas, espalhados pelo país, no total. Temos leigos que contribuem com os jornais e periódicos, pessoas de cultura, entre ativos na vida diária paroquial e no campo intelectual de diálogo com a sociedade. Há um bom senso de unidade e caminho para isso. 

QUAIS FORAM SEUS SENTIMENTOS DIANTE DE SUA NOMEAÇÃO CARDINALÍCIA? 
Um verdadeiro espanto, afinal nunca tivemos um cardeal aqui. Estamos na periferia do mundo católico. Sabemos que o Santo Padre tem um amor pelas igrejas locais na periferia [geográfica e existencial]. Temos uma conferência episcopal com os cinco países nórdicos e mesmo na Idade Média [tempos de catolicidade em toda Europa], jamais a Suécia teve um cardeal; é um belo sinal de pertença e, ao mesmo tempo, um dever de transmitir esperança à Igreja, principalmente no contexto europeu de secularização. Possuímos a liberdade nacional de expressar a fé, um grande avanço após tempos de perseguição religiosa do passado; somos convidados a ter mais dinamismo e espírito missionário. É possível ser uma Igreja em diáspora, o que nos permite testemunhar nossa fé.

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Testemunhar os valores católicos no mundo da justiça

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30 de agosto de 2019

A União dos Juristas Católicos de São Paulo (Ujucasp) realizará na sexta-feira, 30, o 1º Congresso Nacional dos Juristas Católicos. O evento tem o objetivo de promover a integração e aprofundar temas de interesse dos profissionais da área do Direito a partir da ética e dos valores cristãos. 


Em entrevista ao O SÃO PAULO, o presidente da Ujucasp, Luiz Gonzaga Bertelli, falou sobre o trabalho da entidade e destacou os principais assuntos da programação do evento.  Leia a seguir. 

O São paulo Qual é o objetivo do 1º Congresso Nacional dos Juristas Católicos? 
Luiz Gonzaga Bertelli – Já há algum tempo, desejamos realizar um evento que promova uma maior integração entre as uniões de juristas católicos existentes no País, bem como da União Internacional dos Juristas Católicos. O evento também concretiza a missão da Ujucasp de contribuir com a atuação dos princípios da ética católica na ciência jurídica, na atividade judiciária, na legislativa e na administrativa, bem como em toda a vida pública e profissional. 

Como nosso estatuto diz, ocupamo-nos com os problemas do mundo contemporâneo e com as soluções e propostas que devem se pautar de acordo com a fidelidade ao Evangelho e à Tradição da Igreja, à luz de seu Magistério,  reconhecendo e respeitando o Direito natural e cristão da justiça e da caridade; afirmamos a dignidade humana e o apelo constante a seus deveres fundamentais e aos direitos decorrentes; defendemos e protegemos a vida humana desde a concepção até a morte natural; defendemos e promovemos a concepção natural e cristã da família. 
Difundimos, ainda, a Doutrina e o Ensinamento Social da Igreja, principalmente no domínio jurídico, promovendo sua aplicação para a justiça social; contribuímos para a afirmação dos princípios cristãos na Filosofia, na Ciência do Direito, na atividade legislativa, na judiciária, na administrativa, no ensino e na pesquisa, assim como na vida pública e profissional. 

Como será a programação do evento? 
Esse 1º congresso abordará diferentes assuntos sobre os quais temos atuado concretamente. Para isso, convidamos juristas e especialistas que nos ajudarão a aprofundar esses temas. O Desembargador Ricardo Dip, presidente da União Internacional dos Juristas Católicos, fará uma reflexão sobre fé, dignidade humana e justiça. A Desembargadora Maria Cristina Zucchi abordará a separação entre Igreja e Estado, apresentando um painel comparativo entre o Brasil e os Estados Unidos. Também convidamos a deputada federal Chris Tonietto para falar sobre o aborto e ativismo judicial, inviolabilidade do direito à vida. O Ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, do Tribunal Superior do Trabalho, falará sobre a Doutrina Social da Igreja e as modificações legislativas trabalhistas. Dom Sergio de Deus Borges, Bispo nomeado para a Diocese de Foz do Iguaçu (PR), irá tratar do tema da proteção dos menores e das pessoas vulneráveis na Igreja, e as principais alterações na legislação canônica. 


A discussão sobre a ideologia de gênero também será tratada no congresso, por meio de uma palestra do médico José de Lima Oliveira Júnior, estudioso no assunto. O evento também contará com a presença da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Ela fará uma conferência com o tema “Um ministério a serviço do ser humano e de sua primeira comunidade: a família”. Dom Carlos Lema Garcia, Bispo Auxiliar de São Paulo e Vigário Episcopal para a Educação e a Universidade, refletirá sobre o Ensino Religioso na escola pública, previsto na Constituição Federal e no Acordo Brasil – Santa Sé. 


Durante o evento, também lançaremos o quinto livro da coleção, que trata do tema da família na Constituição Brasileira, com a contribuição de diversos juristas e especialistas na área. Na ocasião, o professor Ives Gandra da Silva Martins, presidente emérito da Ujucasp, fará uma conferência sobre o assunto.  

Quais desses assuntos o senhor destaca? 


Todos esses temas merecem a nossa atenção. Contudo, eu destaco a atuação dos juristas católicos no debate sobre a questão do aborto. A Ujucasp atuou como amicus curiae na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442, no Supremo Tribunal Federal, que pede a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez, parada há um ano. Buscamos mostrar que a ação fere princípios jurídicos consagrados. O primeiro deles é o artigo 5º da Constituição, que diz ser o direito à vida inviolável. Ora, se a vida começa na concepção, há vida humana desde a concepção, pois no zigoto, primeira célula da união entre o espermatozoide e o óvulo, já estão definidas todas as características daquele ser humano, que o acompanharão até a morte. Não sem razão, o artigo 2º do Código Civil declara que todos os direitos do nascituro estão assegurados desde a concepção. Esperamos que a Suprema Corte, guardiã da Constituição, preserve o direito à vida. Alertamos que falta no Brasil uma curadoria do nascituro. Seria ridículo dizer que todos os direitos estão assegurados, menos o direito à vida!  


Atuamos, ainda, em questões pontuais, como em uma recente ação contra uma escola de samba que apresentou no desfile do carnaval uma encenação que ridicularizava a pessoa de Jesus Cristo. Também acompanhamos de perto as investigações que resultaram na prisão do então bispo diocesano de Formosa (GO) e alguns sacerdotes, em 2018, sobretudo no que diz respeito ao que rege o acordo firmado entre o governo brasileiro e a Santa Sé. E ainda assessoramos juridicamente as instituições eclesiásticas e seus membros em questões referentes ao patrimônio e legislação tributária. 

 

A atuação dos juristas católicos pode ser considerada uma missão? 


Nossa atuação não é religiosa ou diretamente de evangelização. Porém compreendemos que se trata de uma missão. Atuamos a partir do nosso campo profissional. Isso é previsto, inclusive nas entidades de classe. Defender a ética e os princípios morais da boa convivência humana não é só prerrogativa de um jurista católico. É preciso estabelecer uma distinção entre laicidade e laicismo. Não é porque o sujeito atua no âmbito do Estado laico que ele deve aceitar questões que contrariem princípios éticos e morais básicos como a família e a dignidade da vida humana. Portanto, diante dessas questões, não há problema que juristas que professam a fé cristã que rege tais valores, voluntariamente se empenhem em defendê-los. 


Essa é nossa missão como batizados, ser sal da terra e luz do mundo, a partir da nossa atuação profissional. Assim, colaboramos para que a sociedade compreenda mais os princípios e valores católicos, e também para auxiliar a Igreja a dialogar com o mundo da justiça. Acreditamos que experiências como a dos juristas católicos podem inspirar pessoas de outras áreas profissionais a se organizar e perceber sua profissão como um campo missionário.

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‘Só é possível mensurar o drama da população de rua acompanhando-a diariamente’

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25 de julho de 2019

As baixas temperaturas nas madrugadas agravam ainda mais a situação da população de rua na cidade de São Paulo. Diante disso, o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) oferece um importante auxílio para essa população. O Sefras é formado pelo Sefras Pop Rua São Paulo, que é um espaço de acolhida, escuta e partilha, e o Serviço Franciscano de Reciclagem, o Recifran, na região do Glicério.
Frei José Francisco de Cássia dos Santos, Diretor-Presidente do Sefras, disse, em entrevista à rádio 9 de Julho, que são muitos os motivos que levam as pessoas para as ruas e que houve aumento dessa população e diminuição da quantidade de doações devido à crise econômica. O Franciscano explicou detalhes do trabalho realizado, sobretudo no Centro de São Paulo. “O Serviço Franciscano de Solidariedade visa oferecer conforto físico e espiritual para essas pessoas”, afirmou o Frei. 

 

O SÃO PAULO - QUAIS SÃO OS SERVIÇOS OFERECIDOS PELO SEFRAS ÀS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA?
Frei José Francisco dos Santos – Nós estamos, tradicionalmente, na região central da cidade, onde existe a maior concentração da população de rua. Temos dois serviços atualmente: o primeiro acolhe pessoas que estão no processo de saída do sistema de assistência social, a quem oferecemos uma oportunidade de geração de renda por meio da triagem da reciclagem. Com este trabalho e o acesso a alguma renda, ajudamos as pessoas, pouco a pouco, deixarem os equipamentos públicos, como albergues, para que possam ter acesso a uma moradia, mesmo que seja um pequeno quarto. Esse serviço atende cerca de 50 pessoas diariamente. 
Temos, contudo, um serviço de acolhida que tem atendido, em média, 800 pessoas diariamente, no Convento de São Francisco, no centro de São Paulo. As próprias pessoas em situação de rua intitularam este serviço de “Chá do Padre”, em que começamos o trabalho tradicional dos Franciscanos chamado “Pão dos Pobres de Santo Antônio”. O local foi se transformando em um ambiente de acolhimento, por oferecer, todas as tardes, um lanche composto de pão e chá. Com o tempo, conseguimos ampliar o serviço e oferecer banhos, sanitários e refeições, além de uma média de 300 almoços. 

QUAL O PERFIL DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA ACOLHIDA TODOS OS DIAS PELO SEFRAS?
Nossa experiência, nos últimos tempos, tem mostrado novas configurações e perfis de pessoas, devido à crise econômica que estamos vivendo e que tem consequência imediata na população de rua. Muitas pessoas estão nas ruas devido à crise econômica. Se, há cinco anos atrás, atendíamos 400 pessoas, esse número dobrou e o perfil dos atendimentos também se modificou. É muito difícil trabalhar com um único diagnóstico para tratar a população de rua. Também por esse motivo vemos que a gestão pública tem dificuldade e as políticas públicas são precárias. 
Para tratar a população de rua, não basta o encaminhamento simples, porque é algo complexo e a origem de uma pessoa na rua é muito diversificada. Há pessoas que vão para as ruas por causa do rompimento familiar, das drogas, da violência doméstica, do desemprego, da migração. Também há aquelas que saem de sua terra e, chegando a São Paulo, não têm onde ficar, e um grande número de egressos do sistema penitenciário, pessoas que saem sem nenhum tipo de encaminhamento e acabam ficando nas ruas.

O DESEMPREGO É O PRINCIPAL MOTIVO PARA O GRANDE NÚMERO DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA?
Nos últimos anos, com a crise econômica, vemos um número grande de pessoas que foi parar na rua porque perdeu o emprego e a condição de pagar aluguel. O problema da moradia também é algo muito sério. Desse modo, podemos afirmar que, hoje, as pessoas que estão em situação de rua, na sua maioria – entre tantas essas diversidades citadas anteriormente –, são os desempregados. Muitas pessoas trabalham informalmente, vendendo doces no semáforo, nas feiras de diversos produtos e mercadorias que acontecem na cidade, no comércio de roupas e outros objetos.
A maioria da população imagina que uma pessoa em situação de rua está nessa condição devido aos vícios. Uma parte sim, mas não todos. Pelo contrário, existem muitos que encontramos nessa condição transitando pela cidade e não possuem esse perfil. Então, muitas vezes, estamos lidando com uma nessa 
situação, mas não percebemos por não trazer aquela figura de uma pessoa decaída que, às vezes, até enfrenta uma saúde mental mais comprometida. Só é possível mensurar o drama da população de rua acompanhando-a diariamente.

COMO É MANTIDA ESSA OBRA?
Este ano, estamos passando por uma fase muito difícil e desafiadora, pois, no momento em que há uma crise, vivemos a angústia de ver a população de rua aumentar. Não só pelo ponto de vista da sociedade em geral, mas o próprio poder público tem diminuído o serviço de atendimento a essas pessoas. A política pública está cada vez menos atuante nos últimos tempos e tenho percebido a diminuição do atendimento e da disponibilidade de recursos para essas questões sociais da cidade. Como uma organização social, nós vivemos de parcerias com o poder público e empresas da iniciativa privada, que também têm seus fundos de investimento para área social.
Graças a Deus, nós temos várias pessoas que são doadores do Sefras e ajudam a manter as obras. Mas percebemos que essas pessoas de boa vontade que nos ajudam também passam por dificuldades financeiras. Todos os anos, conseguimos, durante o inverno rigoroso, fazer a pernoite para as pessoas em situação de rua no “Chá do Padre”, pois, normalmente, nós só atendemos durante o dia, mas no inverno nós procuramos atender durante a noite, para as pessoas não ficarem ao relento. Mas, para a realização desse atendimento, nós temos um custo, e este ano não conseguimos a parceria para isso acontecer e não tivemos o recurso necessário para oferecer esse pernoite. Este ano, nós estamos apenas com o trabalho durante o dia, que estamos conseguindo manter, mas com muitas dificuldades devido à escassez de recursos.

O QUE É MAIS NECESSÁRIO NESTE MOMENTO E ONDE AS DOAÇÕES PODEM SER LEVADAS?
Nós temos vários espaços na cidade que podem acolher essas doações: no próprio Sefras, na rua Riachuelo, 268, e ainda no Convento São Francisco e na Igreja Santo Antônio do Pari, na região do Brás. As pessoas também podem entrar em contato diretamente conosco para nós indicarmos a melhor forma. Às vezes, a pessoa deseja fazer a doação em dinheiro ou algum tipo de voluntariado. Nesse caso, ela pode entrar em contato por meio do número (11) 3291-4433. Nesse telefone, nós podemos orientar e acolher as pessoas de boa vontade que queiram ajudar nesse trabalho. No momento, temos maior necessidade de roupas de frio, sobretudo masculinas, como calças, blusas e cobertores.

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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‘A evangelização tem o grande desafio de reaproximar as pessoas’

Por
27 de março de 2019

Popularmente conhecido como Dunga, Francisco José dos Santos, 52, natural de Pindamonhangaba (SP), é missionário, cantor, compositor, pregador, apresentador e, também, escritor. Famoso por ser idealizador do projeto PHN (Por hoje não vou mais pecar), ele é considerado um dos evangelizadores mais influentes da juventude católica.

Em entrevista ao O SÃO PAULO e à rádio 9 de Julho, Dunga falou sobre sua trajetória como missionário e também apresentou seu novo livro “Acredite! Cinco fases para ter sucesso e ser um vencedor”, lançado pela editora Academia. Confira a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO – COMO VOCÊ SENTIU O CHAMADO PARA ESSA MISSÃO?

Dunga – Eu me converti em 1983. Na época, eu tinha 18 anos. Eu era usuário de droga, um jovem muito ativo, jogava futebol, vôlei e basquete, tocava em banda marcial, fazia teatro. Porém, a droga me pegou e me escravizou durante cinco anos. Graças a Deus, pela intercessão da minha mãe e do meu pai, pela presença da minha família e da Renovação Carismática Católica, consegui, como que por um milagre, libertar-me das drogas e, dali para frente, eu entendi que Deus me queria falando para a juventude.

 

E COMO VOCÊ COMEÇOU A EVANGELIZAR?

Onde me convidavam eu estava lá, dizendo daquilo que Deus tinha feito na minha vida. De 1983 até hoje, eu não parei, e foram vários projetos. Eu fiquei de 1983 a 1991 na minha cidade, em Pindamonhangaba, servindo ali: montei a minha banda chamada Carisma, animava os grupos de oração e as missas de domingo. Até que em 1991, eu decidi investir tudo que eu era em uma vida missionária. Naquela época, eu já estava casado, tinha um filho, um bom emprego. Vendi tudo que tinha, tornei-me missionário e fui para a Canção Nova, que, naquela época, era uma comunidade pequena, não tinha a expressão que tem hoje. Lá, eu fiquei durante 27 anos. Em 1998, Deus me deu a inspiração de ensinar a juventude a dizer não ao pecado.

Eu visitava cadeias públicas, presídios de segurança máxima, casas de apoio a pessoas com o vírus HIV em fase terminal, casas de recuperação. O que eu mais vi nesses lugares foram jovens pagando um alto preço por um único pecado cometido, às vezes, pela primeira vez. Aí surgiu o “Por hoje não”. Eu convivia muito com as pessoas dos Alcoólicos Anônimos (AA), que tinham o “só por hoje”, mas eu queria abranger um pouco mais as situações do pecado, então “por hoje eu não vou mais pecar”. O PHN se tornou uns dois maiores eventos católicos para jovens do mundo, chegando a reunir 200 mil pessoas na Canção Nova. E, hoje, aquilo que era para a juventude passou a ser para os adultos também.

 

QUAIS OS DESAFIOS ATUAIS DA COMUNICAÇÃO COM A JUVENTUDE?

Hoje, o mundo vive os extremos. Nós temos os extremos dentro das comunidades, das famílias, da Igreja. Pessoas que pensam muito diferente umas das outras e nem sempre estão dispostas a dialogar. Nós estamos no mundo digital, em que as pessoas teclam mais do que falam, abreviam todas as palavras, relacionam-se muito com quem está longe e pouco com quem está perto. Hoje, a evangelização tem o grande desafio de reaproximar as pessoas, fazer com que as pessoas de novo se relacionem, que criem laços verdadeiros e profundos.

Vivemos em meio a uma pluralidade de pensamentos, de posicionamentos que, quando nós vamos pregar, já temos que ter cuidado com o que estamos falando, senão podemos ser processados. O grande desafio nosso como evangelizadores é reaproximar essas pessoas e fazer com que percebam as diferenças, que não são defeitos, não são coisas ruins, e sim riquezas. Eu me preocupo muito mais em aproximar pessoas do que em evangelizar. Primeiro, nós temos que cuidar desse humano que está adoecido para depois jogar a carga espiritual que ele também precisa para sobreviver.

 

PODE FALAR UM POUCO SOBRE OS CINCO PASSOS PARA O SUCESSO?

Às vezes, as pessoas têm medo da palavra “sucesso” e a interpretam mal. Mas é dessa palavra que vem a palavra “sucessão”, “suceder-se”. Toda pessoa que obtém sucesso e se torna uma pessoa vencedora nos deixa uma herança, um legado que vai ser sucedido por alguém. Eu quero deixar para o meu filho muitas coisas, quero ser sucedido por alguém. Eu fiz questão de colocar esse subtítulo justamente para atrair pessoas que nem mesmo na Igreja estão, mas que se interessam pelo livro, pelo subtítulo. Eu prego isso há dez anos. Eu fui observando as pessoas que estavam mais próximas a mim, como aquele que considero meu pai, o Monsenhor Jonas Abib [fundador da Canção Nova] e tantas outras que eu interpretava como pessoas de êxito, vencedoras. Analisando essas pessoas, percebi que elas tinham passado por cinco fases que eu numerei e renomeei como: “zombado”, “respeitado”, “considerado”, “admirado” e “referência”. Eu sempre dediquei uma palestra ou pregação para falar desse tema e eu cheguei às cinco fases.

 

PARA VOCÊ, O QUE É SER UM VENCEDOR?

Ser vencedor não tem nada a ver com dinheiro. Há muitas pessoas que têm dinheiro e não são vencedoras, porque ser vencedor engloba tudo. O livro vai explicar as cinco fases – cinco qualidades e cinco ferramentas. Para a primeira fase, ser zombado, a qualidade é saber ouvir; a ferramenta, a paciência. Na segunda fase, a pessoa passa a ser respeitada: A qualidade é dar exemplo, e a ferramenta é a firmeza. Na terceira fase, passa a ser considerada: A qualidade é elogiar pessoas, e a ferramenta é a alegria. Como faz falta gente alegre no nosso meio de trabalho! Na quarta fase, ela passa a ser admirada: A qualidade é o relacionamento, e a ferramenta é amar. Na quinta fase, ela se tornou uma referência, passou a liderar, e a ferramenta é a humildade. O livro vai trazer isso de forma bem detalhada, com exemplos e citações bíblicas.

 

QUAL MENSAGEM VOCÊ DEIXA PARA QUEM QUER SER SANTO NO DIA A DIA?

A maior alegria de Deus é ver acontecer na vida dos seus filhos aquilo que Ele sonhou para cada um deles. Além disso, a felicidade não é o lugar aonde se chega, mas a forma como se vai. Eu sou um homem feliz, pois a forma com que escolhi ir é respeitando as pessoas, amando meus filhos, fazendo amigos, escolhendo o certo, pois pecar significa errar o alvo. Então, eu não quero errar o alvo ou errar o mínimo possível. E lembre-se: Acredite! [seu novo livro] E uma ideia é aquilo que ainda ninguém pensou para resolver o meu problema, por isso quanto mais ideias tivermos, quanto mais inspirações, quanto mais transformamos em realidade os sonhos que tivermos, como José do Egito e José, pai adotivo de Jesus, quanto mais ideias tivermos, mais problemas da sociedade nós estaremos resolvendo.

(Colaborou: Jenniffer Silva)

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‘Nos cantos litúrgicos, as palavras com as quais rezamos vêm do próprio Deus’

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21 de março de 2019

Ele já compôs para os cantores italianos Mina e Andrea Bocelli, é o responsável pela trilha sonora de filmes como “Francisco e Clara” ou “Pompeia” e autor de cantos conhecidos e traduzidos em diferentes idiomas, sobretudo cantos litúrgicos.

A discografia do Monsenhor Frisina é composta também por um álbum com canções gravadas em Português e um hino inédito em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

Monsenhor Frisina está no Brasil durante este mês para uma agenda de conferências, celebrações e concertos. Durante o Congresso de Música Sacra (leia mais sobre o Congresso, a biografia do Monsenhor e o CD na página 12), ele concedeu uma entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO e falou sobre suas referências na música clássica e quais são as principais características da música litúrgica.

À Arquidiocese de São Paulo Monsenhor Marco Frisina desejou “que seja uma arquidiocese a caminho da animação litúrgica e musical de maneira convicta, pois a música é essencial para que o povo de Deus cresça na fé”

 

O SÃO PAULO – QUAL A PRINCIPAL DIFERENÇA ENTRE MÚSICA SACRA E MÚSICA LITÚRGICA?

Monsenhor Marco Frisina – Não se pode confundir música sacra e música litúrgica. Nós cantamos música litúrgica durante as celebrações eucarísticas. Nem todas as músicas sacras e canções religiosas podem ser incluídas no rito da celebração da Santa Missa. Elas são importantes e contribuem para a evangelização, mas devem ser cantadas em outro momento, não na liturgia.

O canto gregoriano é o canto que a Igreja produziu desde sempre e é interessante sobretudo porque foram criados trabalhos grandiosos, com características eternas. Em primeiro lugar, vem o texto, que é sempre retirado da Palavra de Deus. Os textos originais dos cantos gregorianos são sempre trechos da Palavra de Deus ou elaborados de outra maneira pela Teologia.

 

PODEMOS DIZER, ENTÃO, QUE O TEXTO É MAIS IMPORTANTE QUE A MÚSICA OU MELODIA NOS CANTOS LITÚRGICOS?

Sim. Há um primado do texto sobre a música, isso porque um canto quaresmal é diferente de um canto pascal ou natalino. Na liturgia, isso é indiscutível, porque nos cantos litúrgicos as palavras com as quais rezamos vêm do próprio Deus. E, assim, é necessário respeitar o primado do texto sobre a música. Podemos dizer que a música é importante, mas ela sempre presta um serviço ao texto.

 

COMO SE FORMA UM CORO E QUAL FUNÇÃO TEM?

Em primeiro lugar, não se trata de um coro de teatro. O coro de uma paróquia, comunidade ou diocese nada mais é do que a parte da assembleia que canta melhor. Aqueles que estudaram e que quiserem cantar podem entrar no coro, mas ele não está ali para fazer um espetáculo ou simplesmente um belo serviço. O coro está a serviço da assembleia e é, inclusive, uma parte da assembleia. Pode-se dizer que a assembleia dá ao coro a possibilidade de cantar. Mas todos cantam durante a liturgia, pois não há cristãos da série A e da série B... Não há divisões entre a assembleia. Contudo, é claro que a assembleia não pode cantar tudo quanto canta o coro, porque muitas vezes não consegue, devido a uma necessária preparação.

Aqueles que cantam melhor no coro são, por sua vez, os solistas. Entre estes, há um especial que é o salmista, aquele que proclama a Palavra de Deus cantando. Depois, há o padre, o presidente da celebração, que também deve cantar em momentos específicos da celebração, sobretudo aos domingos e em dias festivos.

 

PODEMOS FALAR DA MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE EVANGELIZAÇÃO?

O canto é uma escola de comunhão em que se aprende não somente a cantar, mas a crescer humanamente. Quando cantamos, prestamos atenção também às inimizades, às invejas. O coro deve ser o lugar em que todos estão felizes por estar juntos, não o contrário.

O canto litúrgico tem uma grande força de evangelização. Na Idade Média, as pessoas não sabiam ler nem escrever e viviam em muita pobreza, mas podiam aos domingos ouvir belíssimos cantos na igreja. Muitas vezes, não compreendiam as palavras pronunciadas em Latim, mas saíam edificadas. A música sacra tem um grande poder espiritual. No ano passado, encontrei-me com pessoas que não eram batizadas, mas amavam estar no coro da paróquia para cantar, pois a música as tocava e ali estavam sendo evangelizadas. Pensem em quando os bárbaros chegaram a Roma e, ao adentrarem as igrejas, ouviam músicas maravilhosas. Ali foram evangelizados.

A música litúrgica abre muitas possibilidades. Se toda paróquia tivesse música sacra, toda a comunidade se edificaria.

 

A VIA DA BELEZA É TAMBÉM UMA FORMA DE EVANGELIZAR...

Sem dúvida. Quem não sabia ler, podia ver os mosaicos em que estavam contadas histórias bíblicas nas igrejas, e ver a beleza e a grandeza de Deus. A evangelização por meio da via da beleza foi sempre um ponto forte da Igreja. A Igreja sempre viu a beleza como algo importantíssimo. No que se refere à música, hoje, podemos dizer que estamos atrasados, porque parecemos ter medo de fazer da nossa música algo que possa ser proposto a todos.

 

COMO FOI A EXPERIÊNCIA DE COMPOR EM PORTUGUÊS?

É a primeira vez que eu o fiz e foi muito belo, também porque o Hino a Nossa Senhora Aparecida é um ato de amor à Virgem Maria. Clayton Dias [diretor do Coro da Arquidiocese de Campinas (SP)] me ajudou para que eu tivesse a segurança com todos os acentos e particularidades do idioma. Foi uma experiência muito bela, porque cada língua tem sua alma e, portanto, quando sou convidado a escrever em outra língua, faço-o frequentemente e é sempre muito bom. Podemos dizer que as línguas não só têm uma alma, mas têm uma expressividade única, e esse é um modo para entrar no coração brasileiro. Para mim, o Português do Brasil, ainda mais que o Português de Portugal, tem uma doçura própria, uma cadência muito interessante.

 

QUAIS SÃO SUAS REFERÊNCIAS NO QUE DIZ RESPEITO À MÚSICA CLÁSSICA? O senhor TEM ALGUM COMPOSITOR PREFERIDO?

Não sei se tenho um compositor de música clássica, mas considero alguns grandiosos, como Mozart e Bach, que, para mim, desde sempre, são referências absolutas. Depois, há muitos outros, também do século XX, mas talvez esses dois sejam aqueles nos quais eu me apoio, inclusive para as composições de música sacra.

 

E ENTRE OS PADRES DA IGREJA?

Certamente Santo Agostinho é aquele que, mais do que todos, refletiu sobre a música. Há também grandes poetas cristãos, como Gregório Nazianzeno e todos aqueles padres que tiveram uma relação com a música e, sobretudo, com a poesia.

 

COMO É SEU PROCESSO CRIATIVO PARA COMPOR AS MÚSICAS? E SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA, HÁ UMA RECEITA DE COMO ELA DEVE SER FEITA?

Algumas vezes, as músicas que componho nascem espontaneamente, mas, na maioria das vezes, é necessário tempo, um tempo de “gestação”. Raramente, as composições nascem subitamente. Não há uma receita, mas algumas características indispensáveis no que se refere à música litúrgica: ela deve ser simples, expressiva, aderente ao texto e facilmente memorizável, para que o povo possa cantar

 

EXISTE ALGUMA MUDANÇA NA MÚSICA SACRA A PARTIR DO PONTIFICADO DE FRANCISCO?

Acredito que não haja uma mudança ou um efeito, mas, seguramente, Francisco está apontando o dedo sempre mais para a questão da reforma litúrgica conciliar e isso mostra, sobretudo, a importância da participação da assembleia. E é muito bonito e importante que o Papa insista sempre mais nesse argumento, para que possamos avançar no que se refere ao canto como uma oração do povo.

 

QUAL A OPINIÃO DO SENHOR SOBRE PADRES QUE SÃO CANTORES E FICAM CONHECIDOS POR SUA MÚSICA?

Eu escrevo a música, nunca a cantei. Mas acredito que Espírito Santo é original e pode suscitar essas experiências. Importante que não se perca de vista o sentido do ministério sacerdotal e que a música seja feita como se fosse uma pregação, ou seja, como se fosse uma conferência catequética ou teológica. O padre deve fazer a música sempre tendo em vista a evangelização e, como anúncio da própria fé deve buscar sempre o equilíbrio.

 

LEIA TAMBÉM: Monsenhor Marco Frisina conduz congresso sobre música sacra em São Paulo

 

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Por trás de uma cultura de morte, há uma arrogância de criar um mundo perfeito

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20 de julho de 2018

Francisco Razzo é graduado pela Faculdade São Bento, mestre em Filosofia pela PUC-SP, professor e palestrante. Em entrevista à radio 9 de Julho, ele contou sobre a inspiração para seu livro “Contra o Aborto”, que apresenta os desafios de tratar do tema no Brasil e fala sobre a cultura que permeia esse debate atualmente. Razzo é ainda autor do livro “A imaginação totalitária” também pela editora Record. Leia asseguir a integra da entrevista.

 

O SÃO PAULO - QUAL A COLABORAÇÃO FILOSÓFICA QUE O SENHOR PRETENDE DEIXAR COM O SEU LIVRO?

Francisco Razzo - Primeiro, é importante destacar que o título “Contra o Aborto”, na verdade, é uma defesa da vida. O título segue a ideia que eu estou participando de um debate público e tomando uma posição. Esse livro não tem como público-alvo as pessoas que passam pelo drama moral do aborto, nem, muito menos, para julgar quem pensa em fazer o aborto. É um livro de compreensão de um tema que está na ordem do dia. E é um livro que diz: “se você é a favor do aborto, eu sou contra, por esses motivos.”

Eu pretendo, nesse sentido, apresentar as razões que me fazem ser contra o aborto e analisar o posicionamento de quem é a favor. Encontro, assim, dois tipos de argumentos: aqueles que apresentam boas razões, e que merecem uma análise filosófica cuidadosa para se estabelecer um diálogo público, baseado na racionalidade; e aqueles que apresentam ataques ofensivos, retóricos. Esse posicionamento não pode ser acatado, é autoritário. Quem debate precisa de um nível de maturidade, de virtude pública que não pode só ser na reação agressiva. Umas das coisas mais importantes para mim é superar esses níveis de fala. Por isso, eu escrevi um livro.

 

O SENHOR RECEBEU CRÍTICAS POR SER UM HOMEM FALANDO SOBRE O ASSUNTO DO ABORTO?

Muitas críticas, mas críticas que considero ruins. É o tipo de crítica de quem não lê o livro. As pessoas que leram o livro, mesmo as que são favoráveis ao aborto, apresentaram críticas que são muito boas. Essas pessoas que dizem para mim que eu não posso falar de aborto porque sou homem têm como objetivo neutralizar o seu oponente. Mas quando você fornece justificativas para crenças, você não faz isso baseado na sua cor, na sua natureza social, no seu posicionamento político… você faz isso porque tem capacidade racional. O que faz com que nos tornemos seres que se comunicam não é o nosso traço, a nossa disposição social, étnica, financeira, econômica ou religiosa. O que nos determina é a capacidade de podermos justificar o que pensamos.

 

O SENHOR FALOU SOBRE AS CRÍTICAS DE PESSOAS QUE BUSCAM SILENCIAR SEUS OPONENTES, MAIS DO QUE DEBATER IDEIAS. CONSEGUE VER, NO BRASIL, ALGUM TIPO DE ABERTURA PARA O DIÁLOGO SOBRE O ABORTO?

Começo respondendo em um nível pessoal, pois o meu exemplo é um bom exemplo para essa pergunta. Eu, durante muito tempo, fui a favor do aborto! Não só a favor, como ajudei pessoas a abortarem. Eu, porém, mudei de opinião: fui estudar, fui conversar com pessoas, fui ler livros e percebi que eu estava filosoficamente e moralmente profundamente errado. Eu precisei rever minhas opiniões.

Em um nível cultural, existem excelentes obras favoráveis e contrárias ao aborto. Eu mostro posicionamentos de filósofos a favor do aborto, que apresentam suas razões. Mostro também filósofos contrários ao aborto, que estão produzindo, que estão debatendo e que não são só ativistas, militantes, mas fazem um processo intelectual importante. Não é só embate, é, também, debate. Este, na minha opinião, é muito rico, só que infelizmente fica muito reservado à academia, fica preso aos muros da universidade e não vai para o público.

 

O PRINCIPAL ARGUMENTO SOBRE O ABORTO SE FIA DO DEBATE ACERCA DO INÍCIO DA VIDA. NA OPINIÃO DO SENHOR, QUANDO ESTA COMEÇA?

 

Nós precisamos fazer uma boa distinção entre vida e pessoa. Quando falamos em vida, encontramos dois níveis de discussão: o biológico e o filosófico. O biológico é o conceito de vida como Homo sapiens; a vida como aqueles elementos que estão relacionados às leis da natureza. Quando falamos de vida no sentido antropológico, estamos pensando em vida como valor. A vida é digna pelo quanto ela vale. Nesse sentido, a vida da pessoa possui um valor insubstituível, um valor que eu não posso trocar por nada.

E quando eu digo pessoa, eu estou me referindo a algo que contém dignidade em si. Ser digno significa que essa entidade chamada de pessoa participa de uma comunidade, de uma comunhão. Eu olho para a minha filha como pessoa, para a minha esposa como pessoa, para os meus amigos como pessoas. Isso significa que nós entramos em uma comunidade, entramos em um reino de comunhão em que cada membro desse reino tem valor insubstituível, que cada membro desse reino tem valor acima de qualquer outro valor e ninguém vale mais que o outro.

A minha pergunta é: o embrião a partir de quando deve ser considerado pessoa? Do ponto de vista jurídico, a partir da concepção. O direito entendeu que a pessoa já na concepção merece uma garantia. Só que o direito, às vezes, está submetido à política. Temos, então, de nos perguntar: existe um momento que antecede a decisão política? Que momento é esse?

No meu entender, não consigo contemplar outro momento, senão a concepção. É preciso mostrar que uma mulher que toma consciência da sua gravidez, toma consciência de não outra coisa de estar grávida de um filho. Ela não está gravida de nenhum objeto, a não ser seu filho. Nenhuma mulher pergunta para si quando está grávida: "estou grávida do quê?" Não, não há um vácuo entre a concepção e qualquer outro momento.

 

ESTE, ENTÃO, É O CENTRO DO DEBATE QUE SE FAZ SOBRE ESSA QUESTÃO DO ABORTO: SE O EMBRIÃO É UMA PESSOA, ESSA PESSOA TEM UM DIREITO NATURAL À VIDA, E NÃO PODE SER DESTITUÍDA DESSE DIREITO?

 

É claro! Ninguém pode decretar, por qualquer tipo de esforço, por qualquer tipo de poder, que uma pessoa deixe de ser pessoa. Todas as vezes que isso aconteceu na história, acabou em tragédia: a escravidão, por exemplo, tratava os escravos como um objeto, uma coisa.

O termo técnico que se usa é justamente esse: natureza; é um direito que está na natureza humana. O que se tenta fazer atualmente é negar esse direito, motivado pelo calor do embate. Agora, se o direito é seu, não porque alguém lhe deu, porque é essencialmente seu, quem poderia tirá-lo? Toda aquele que quiser tirá-lo está cometendo um ato tirânico, um ato de barbárie

 

QUANDO AS PESSOAS ATENTAM CONTRA O DIREITO À VIDA, O SENHOR ENTENDE COMO ALGO ARTICULADO, UMA CULTURA DA MORTE, OU COMO UMA MERA PERVERSÃO DA SOCIEDADE?

Até podemos usar a ideia de cultura da morte. Mas é preciso registrar o termo que, pra mim, é mais importante, porque enverniza essa cultura da morte, que é o conceito de eugenia. Existe hoje uma cultura excessivamente humanista, que visa ser capaz de realizar o que é perfeito, o que é bonito, o que é saudável, a partir dos esforços humanos, como se nós tivéssemos a capacidade de trazer ao mundo a perfeição, e tudo aquilo que não é perfeito, que macula ou que suja o mundo, deve ser eliminado.

O que a eugenia tentar criar é um reino, de beleza, de paz, de segurança, de perfeição, pelos esforços humanos. Eu vou dar um exemplo, para ilustrar melhor: como se resolveu o problema da síndrome de Down nos países nórdicos? Foi encontrada uma cura? Não, você não precisa criar uma cura, mas somente eliminar esse tipo de pessoa… Não há mais pessoas com síndrome de Down lá porque abortaram todas.

Então, você percebe que há uma lógica, não no sentido de “quero matar essas pessoas”, mas de “quero melhorar a sociedade”. Nenhum abortista pensa que o aborto é um negócio de morte, porque eles não entendem que o embrião é uma pessoa. Contudo, você percebe que todos os argumentos são argumentos que supõem que dada pessoa vai sofrer, que vai ser infeliz; o que essa lógica mostra é a tentativa de controle de uma vida perfeita.

E isso é muito importante, porque essa cultura da morte, no fundo, se ampara numa prepotência de uma cultura da perfeição, que ao projetar um mundo perfeito, dentro da nossa imaginação, gera uma cultura justamente de morte. Você percebe, então, que há uma lógica perigosíssima. Há, por traz de uma cultura de morte, uma arrogância humana de criar um mundo perfeito, em que todo mundo é feliz, e vive em um mundo magico e sem sofrimento.

 

 

É QUASE A TENTAÇÃO ORIGINAL: “SEREIS COMO DEUSES!”, QUE A SERPENTE DISSE PARA EVA...

Exatamente! Para mim, do ponto de vista teológico, é um exemplo prático de um tipo de poder, oferecido por Satanás, que dá a capacidade de controlar quem merece ou não merece viver. Como assim, quem merece ou não merece viver? Isso é um absurdo! Só porque a pessoa tem um defeito físico, só porque uma mulher vai ter uma dificuldade em criar o seu filho… Gente, pelo amor de Deus! As pessoas há 40 anos se viravam bem. Se antes a vida era uma bênção para as pessoas, hoje ela se tornou motivo de vergonha. Então, a cultura da morte, na verdade, é a cultura da arrogância, da prepotência, é a cultura que, para projetar um reino de paz, entrega um reino de morte.

 

 

 

 

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‘Não se pode viver em sociedade se formos intolerantes’

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10 de julho de 2018

Rafael Ruiz, professor adjunto de História da América da Universidade Federal de São Paulo, acaba de publicar o livro “Alienação e Intolerância”, pela editora Cultor de Livros. Nesse livro, faz uma análise do pensamento moderno, de seus avanços e contradições, sobretudo a partir da tensão entre a esfera pública e a privada. Ao fazer isso, ilumina uma série de problemas, que muitas vezes parecem obscuros, da sociedade contemporânea e permite compreender melhor o papel e os desafios da religião na atualidade. A seguir, a entrevista dada por ele ao jornal O SÃO PAULO.

 

O SÃO PAULO - Logo no início de seu livro, o senhor retoma um comentário do articulista João Pereira Coutinho, para quem “os cristãos falam uma linguagem que o ‘espírito do tempo’ não entende”. Joseph Ratzinger, em seu livro “Introdução ao Cristianismo” (São Paulo, Loyola), usa uma metáfora semelhante, ao comparar os cristãos a um palhaço que avisa a cidade que um incêndio se aproxima, mas não é levado a sério, até que o fogo chegue e destrua tudo. Pode nos explicar melhor o que essas comparações significam para os cristãos de hoje?

Rafael Ruiz - Acho que podemos falar ainda de outras metáforas mais conhecidas, pelo menos no mundo cristão: o sal para os alimentos, a levedura para o pão, a semente jogada a esmo nos caminhos...Penso que todas elas estão querendo dar a dimensão da mensagem cristã. Nem todos irão aceitá-la, entendê-la ou vivê-la. Mas penso também que isso não é algo próprio de hoje, mas de todos os tempos. Sempre foi assim e imagino que será assim. O que me parece que não faz sentido nenhum é receber e aceitar a mensagem cristã e isolar-se num canto para poder vivê-la melhor. Se se pensa mesmo nessas metáforas, então, o que eu concluo é que se trata de assumir que poucos, ou como diria Henrique V, na tragédia de Shakespeare, momentos antes da batalha de Azincourt (eram três franceses para um inglês), “nós poucos, poucos e felizes” acabarão por fermentar toda a massa. Quando? Não faço a mínima ideia. Acho que isso corresponde a Deus, que é o senhor do tempo. Aos cristãos nos corresponde viver de acordo com essa mensagem no mundo que nos toca viver e em convivência harmoniosa e pacífica com todos aqueles que não gostam ou não aceitam ou simplesmente não querem ouvir falar dessa mensagem. Todos temos o direito de viver de acordo com a nossa consciência. E acredito que o Espírito sopra onde quer e quando quer.

 

As duas palavras usadas no título do livro, Alienação e intolerância, são muito usadas nos tempos de hoje, mas uma é pouco entendida (alienação) e outra frequentemente é usada de forma esquemática (intolerância). O que o senhor entende por alienação e por que a escolheu para estar no título de sua obra?

O que quero dizer com “alienação”, e mais concretamente com “alienação da consciência”, é um estilo de vida que me parece ser extremamente comum na sociedade atual: em lugar de pensar e de refletir sobre as consequências dos nossos atos, e de ver se o que queremos fazer está certo ou errado, preferimos “terceirizar” a nossa decisão e, em lugar de decidir pessoalmente, acabamos fazendo o que diz a lei, ou uma pesquisa de opinião, ou uma emissora de tv ou algum parâmetro ou norma de conduta escrita em algum Código profissional...Preferimos que haja alguma instância ou sistema ou modelo que nos diga o que devemos fazer. E o fazemos sem pensar o mais mínimo naquilo que estamos fazendo. E, dessa forma, ficamos tranquilos, sem problemas de consciência, em paz...Ou seja, ficamos alienados.

 

E a intolerância? Como o senhor a vê e por que a escolheu?

Parece-me que é um dos maiores males da sociedade atual. Não se pode viver em sociedade se formos intolerantes. Em algum momento, as relações sociais ficarão tão tensionadas, que, provavelmente, em lugar de uma sociedade, o que teremos, no máximo, será uma série de bandos amontoados tentando se impor pela força uns sobre os outros.

Escolhi essa palavra porque me parece que, de maneira geral, ela sempre aparece associada ao fenômeno “religioso” e, nesse sentido, sempre que se utiliza ou se ouve esse termo pensa-se, erradamente, em algum fundamentalista (esse é o termo que se usa) que pode ser muçulmano, judeu, cristão...E o que eu quis destacar é que há um tipo específico de intolerância que foi sendo construído ao longo dos tempos modernos e que tem uma origem civil, política, acadêmica...ou seja, não religiosa. E sobre essa intolerância fala-se muito pouco. E existe. E é bem forte. É sobre isso que fala o artigo de Coutinho e acredito que muitas pessoas tenham experiência desse tipo de intolerância na sua vida diária: pelo fato de ter uma crença religiosa, a pessoa é desqualificada, hostilizada e, muitas vezes, impedida até de manifestar em público a sua opinião com o argumento de que “como é alguém que acredita numa religião, não pode falar, portanto, na esfera pública”. Acho que aí está uma das grandes doenças atuais e que atrapalha a vida em sociedade. Se, de fato, vivemos numa democracia, não vejo por que alguém não possa falar o que pensa pelo simples fato de ser alguém que acredita. E que, pelo contrário, só se admita como “ser pensante” e “ativo” na vida social e política de um País apenas aqueles que não creem em nada.

 

Nossa organização social moderna se estrutura, em grande parte, na distinção entre os espaços público e privado. Como entender a tensão e a relação entre esses dois âmbitos?

E acho ótimo! Parece-me que essa separação foi uma das grandes realizações da Modernidade. Se isso não tivesse acontecido, acredito que não poderíamos falar de uma “cultura ocidental”. Contudo, acho que, ao longo de todo o processo histórico dos tempos modernos, foi-se perdendo o sentido que essa separação tinha na origem (estamos falando dos séculos XVI e XVII). Naqueles séculos, essa separação era vista como algo imbricado e, ao mesmo tempo, tensionado. Em que sentido? No sentido de que o homem é um ser pessoal e unitário. Os atos humanos são atos de um “eu” pessoal e, portanto, muitas vezes haverá uma tensão, um conflito interior e exterior, entre o que diz a lei e o que diz a minha consciência, entre o que todos fazem e o que eu acho que é bom fazer.... E essa tensão é boa. Ela não pode ser eliminada. Essa tensão é precisamente a base e a sustentação da democracia, porque essa tensão nos encaminha para o debate. É por isso que a sociedade deve estar sempre aberta ao debate. De todos e não apenas de alguns. Tem de ser um debate inclusivo e não excludente. É o debate democrático que tem poder e capacidade para moderar a tensão. Quando isso não é assim, ou quando não foi assim na História, quando ou o Estado ou a Igreja quis impor um único modo de pensar e de atuar, chegamos, muitas vezes, a situações injustas e desumanas. A tensão entre o que é público, externo, social e político, e aquilo que é pessoal, privado e íntimo, tem de ser preservada e, até agora, o Ocidente encontrou na democracia a fórmula para que fosse preservada. Quando não é assim, e é sobre isso que alerto no meu livro, estamos eliminando ou, se não, asfixiando a ideia de Ocidente.

 

Muitos autores consideram que a mentalidade do brasileiro, em particular, caracteriza-se pela noção do público como o espaço de sujeição às leis e responsabilidade do Estado, enquanto o privado seria o espaço da liberdade individual e da responsabilidade pessoal. O senhor concorda com essa imagem?

Concordo com que essa é a imagem criada, mas não me parece que seja especificamente do brasileiro. Acho que é a imagem corriqueira de todo aquele que vive dentro do modelo do Estado liberal contemporâneo. Os ingleses são assim, os norte-americanos também, os franceses, espanhóis... Não acho que seja peculiaridade brasileira. Se concordo? Não. Não concordo. Parece-me que tudo isso começou com Locke quando aconselhou nas suas obras a distinguir na conduta humana dois âmbitos: o individual, que seria o da liberdade de consciência e que deveria ser vivido apenas dentro do âmbito privado e doméstico; e o âmbito público, em que se deveria seguir sempre a lei, mesmo injusta. Penso que está aqui a origem de muitas neuroses modernas e daquilo que chamo de alienação da consciência. É uma falácia opor liberdade ou consciência contra lei civil ou penal. A maior parte das pessoas, pelo menos aquelas que poderíamos chamar de “pessoas comuns”, se não roubam ou não matam não é porque estejam sendo obrigadas a isso por força da lei penal, mas porque simplesmente, na sua consciência mais íntima, não querem ter esse tipo de conduta.

 

No livro, o senhor fala do relativismo atual e da mentalidade marcada pela “pós-verdade”, uma situação na qual nenhuma afirmação pode ser considerada como mais justa ou condizente com a realidade que as demais. Nesse contexto, como situar a afirmação evangélica “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32)?

Penso que é como se fosse dito em chinês. Embora possa fazer sentido, não temos mais instrumentos que nos permitam entendê-lo. Volto à pergunta inicial e ao artigo do Jorge Pereira Coutinho. É estranho e incompreensível, em muitos lugares onde isso não deveria soar nem ser estranho, como o campo político e o mundo acadêmico, falar de verdade e, mais ainda, afirmar que é precisamente a verdade aquilo que nos tornará livres. Parece-me que a questão se coloca precisamente porque, hoje, estamos pouco dispostos a debater, a conversar e a dialogar. Contentamo-nos com clichês, frases feitas e “twitadas”. Dessa forma, fica muito difícil entender uma frase como essa e mais difícil ainda tentar explicá-la.

 

No final do livro, o senhor explica que o escreveu pensando nos muitos que sempre lhe perguntam “como pode alguém que tem um credo religioso ter a pretensão de dar a sua opinião na vida pública?”.  Para entender sua resposta, sem dúvida, é necessário ler o livro, mas poderia nos dar uma síntese breve do que responder a essas pessoas?

Como disse, penso que uma das maiores conquistas da Modernidade foi construir a separação tensionada entre o público e o privado e, ao mesmo tempo, encontrar o sistema democrático como forma de tornar possível que essa tensão, em lugar de desembocar em conflito, possa seguir as trilhas de uma convivência moderada, temperada e pacífica. O próprio Habermas que, durante tanto tempo, defendeu a ideia de um espaço público sem interferência alguma do elemento religioso, mudou de opinião e tornou pública essa opinião precisamente no debate aberto com o Papa Bento XVI. O que me estranha é que, curiosamente, se antes se falava tanto do Habermas para não permitir o ingresso de pessoas religiosas no debate público, por quê agora não se fala tanto dele? Parece-me que essas pessoas que têm um credo religioso, em primeiro lugar, não pensam todos da mesma forma e, em segundo lugar, para ter “carta de autorização” para entrar na esfera pública devem usar argumentos explicitados e justificados de forma racional e não de forma religiosa nem sobrenatural. Também me parece uma falácia, que muitas vezes vivi na pele, dizer que o que uma pessoa crente fala é sempre uma “fala religiosa”. Acho uma falácia cômoda e excludente. Primeiro, é preciso deixar falar, depois é preciso ouvir, mais tarde é preciso debater e, então, e só então, se poderá concluir o conteúdo do que se está falando. E, finalmente, e é nisso que consiste a democracia: poder votar, escolhendo dentre as diferentes opiniões e propostas, aquela que cada um considerar mais conveniente, mais justa ou mais adequada para aquela sociedade e aquele momento.

 

 

Serviço:

Título: Alienação e Intolerância.

Autor: Rafael Ruiz

Editora: Cultor de Livros

Páginas: 154

Formato: 14 x 21 cm

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‘Todos necessitamos dar e receber hospitalidade, mas somente Deus é o anfitrião’

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20 de junho de 2018

Durante sua rápida visita a São Paulo, na quinta-feira, 14, o Cardeal Luis Antonio Tagle, Arcebispo de Manila, nas Filipinas, e Presidente da Caritas Internationalis, concedeu entrevista ao O SÃO PAULO, na qual falou sobre a “cultura do encontro” diante dos desafios da migração, tema do Seminário Internacional de Migrações e Refúgio, realizado pela Cáritas Brasileira, entre os dias 12 e 14, em Brasília (DF), do qual participou. 

Cardeal Tagle destacou que o serviço da caridade promovido pela Igreja deve ser motivado pelo amor que nasce da experiência de fé no próprio Cristo e que a atuação da Cáritas precisa ir para além dos centros diocesanos e penetrar as comunidades paroquiais. Confira a íntegra da entrevista a seguir.

 

O SÃO PAULO - QUAIS AS QUESTÕES QUE MAIS LHE CHAMAM A ATENÇÃO EM RELAÇÃO À MIGRAÇÃO?

Cardeal Luis Antonio Tagle - Com mais de 65 milhões de pessoas movendo-se em todo o planeta, porque é tão difícil encontrá-los? Como podemos perder a oportunidade de encontrar um imigrante forçado ou um refugiado quando há milhões deles? Se contarmos as vítimas do tráfico ou contrabando de pessoas e as novas formas de escravidão, como podemos deixar escapar a oportunidade de encontrar ao menos um deles? Como podem ser invisíveis milhões de pessoas em contínuo movimento? É aqui que se faz necessário refletir sobre a cultura do encontro.

Em setembro de 2017, a Caritas Internationalis , como federação, inaugurou a campanha “Compartilhe a Viagem”, a partir da proposta do Papa Francisco de desenvolver uma cultura do encontro pessoal com os migrantes e refugiados, porque há uma tendência de encarar a migração apenas como um conceito. No entanto, tratase de um fenômeno que diz respeito ao ser humano. Cada migrante é uma pessoa que busca braços abertos, ouvidos que escutem sua história, pessoas próximas, irmãos e irmãs que estão prontos para dividir seu caminho.

 

COMO SE DESENVOLVE A CAMPANHA?

“Compartilhe a Viagem” se inspira nos princípios orientadores do Papa Francisco: acolher os migrantes e refugiados, melhorando canais seguros e legais para eles e assegurando que sua decisão de emigrar seja voluntária; protegê-los, assegurando sua dignidade e seus direitos, especialmente o direito à vida; promover seu desenvolvimento humano integral, para que ninguém seja deixado para trás ou seja excluído; e integrá-los na sociedade, possibilitando que compartilhem seus valores e sua cultura enquanto aprendem os da comunidade que os acolhe.

 

NO SEMINÁRIO EM BRASÍLIA, O SENHOR AFIRMOU QUE ‘TODOS NÓS, DESDE QUE NASCEMOS, SOMOS MIGRANTES NO MUNDO’. POR QUÊ?

É uma interpretação bíblica e ao mesmo tempo existencial. Todos nós estamos em viagem rumo à pátria definitiva. Nenhuma pessoa pode dizer a outra “eu sou proprietário desta terra e você é estrangeiro”. Todos nós estamos em viagem, só o Senhor Deus é o “proprietário” do mundo enquanto nós estamos em caminho. Todos necessitamos dar e receber hospitalidade, mas somente Deus é o anfitrião... A Igreja com os migrantes deve exercer a hospitalidade de Deus.

Jesus, foi um refugiado no Egito com Maria e José, e, inclusive, não teve onde dormir durante seu ministério. Ele se identifica com os migrantes: “Fui um estrangeiro e me acolhestes” (Mt 25,35). A atitude em relação aos estrangeiros pode impactar em seu destino para sempre. No entanto, o temor ao estranho prevalece frequentemente. Como podemos superar este medo do outro? A menos que tenhamos uma experiência de encontro pessoal com o outro, nenhum diálogo funcionará. O temor nos cega para a humanidade do outro... Seria uma grande ajuda reconhecer no outro a mesma debilidade, fragilidade e impotência que nós mesmos experimentamos.

 

O PAPA FRANCISCO AFIRMA QUE A IGREJA NÃO É UMA ONG. EM QUE A CÁRITAS SE DISTINGUE DAS DEMAIS INSTITUIÇÕES HUMANITÁRIAS?

Antes de mais nada, é preciso dizer que as organizações não governamentais (ONGs) fazem um bem enorme. Porém, sua motivação é humanística. Sem dúvida isso é bom. No entanto, a Cáritas tem uma motivação de fé, de amor, que tem um nome: Jesus Cristo. A fé e a caridade são combinadas. A fé dá esperança não somente para as pessoas às quais a Caritas serve, mas também para o pessoal que atua na Caritas. Nesse sentido, é muito importante a formação humana e espiritual de todos os que trabalham na Cáritas. Um dos objetivos estratégicos da Caritas Internationalis nos últimos quatro anos é a formação do coração do pessoal da entidade, pois há uma tendência e até um perigo de se tornar apenas uma instituição de serviço humanitário. Todos os dias, seus agentes se deparam com a pobreza e a miséria. Sem a fé, há a tentação de perder a esperança, de serem pessoas aborrecidas ou desesperadas. Ou, por exemplo, a relação com os migrantes e refugiados atinge um nível de transação legal. Mas quando há fé, há sempre um encontro pessoal, há uma vivacidade que nutre essa relação. Tanto o Papa [Emérito] Bento XVI quanto o Papa Francisco afirmam que a Cáritas é a expressão do coração da Igreja, que nasce do coração de Jesus. Por isso, é importante formar as pessoas para a caridade.

 

EM SUAS VISITAS, O SENHOR TEM ENFATIZADO A IMPORTÂNCIA DE EQUIPES PAROQUIAIS DA CÁRITAS. POR QUÊ?

Para organizar e coordenar a caridade na Igreja particular, deve haver uma estrutura diocesana. Isso é muito importante. Porém, o serviço da caridade também deve penetrar as comunidades paroquiais. A Igreja local é constituída das paróquias e de suas pequenas comunidades de base. Existe a tendência de as paróquias passarem a responsabilidade do serviço da caridade apenas para um centro diocesano. Quando, por exemplo, uma pessoa pobre vai à paróquia buscar auxílio, é orientada a procurar o centro diocesano. Ou quando surge alguém com a necessidade de ser ouvida, dizem a ela: “Vá a esse local central que há uma mulher que escuta e orienta as pessoas”. A paróquia é o lugar do primeiro contato com o pobre. Por isso, é preciso formar uma pequena equipe paroquial como uma espécie de “pronto-socorro”, para as pessoas serem atendidas em suas primeiras necessidades e depois serem encaminhadas para um atendimento mais específico, desenvolvido pelo órgão diocesano.

 

QUAL AS SUAS IMPRESSÕES SOBRE O TRABALHO REALIZADO PELA CÁRITAS NO BRASIL?

Eu tive muito pouco contato com o trabalho concreto da Cáritas no Brasil. Mas, em Brasília, pude ouvir os testemunhos e partilhas de muitos daqueles que desenvolvem o serviço da caridade, bem como seus desafios. Eu fiquei muito encorajado ao ver e ouvir a bondade do povo da Cáritas Brasileira, e sua disponibilidade em fazer algo de bom para as pessoas mais necessitadas, especialmente pelos migrantes e refugiados, como aqui em São Paulo. Eu fiquei muito tocado por esse testemunho. Por isso, encorajo a todos a andarem avante e a não desanimarem. O caminho é longo, com tantos desafios, mas é a via justa.

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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