Enxergar Cristo na pessoa do pobre

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10 de novembro de 2019

São Vicente de Paulo atuou com amor e zelo em relação aos mais pobres na França. Seu exemplo inspirou o nascimento da Sociedade São Vicente de Paulo pelo Beato Frederico Ozanan, há mais de 200 anos, também na França. A dedicação do Sacerdote francês, porém, ultrapassou os limites geográficos de Paris e, hoje, inúmeros religiosos vicentinos dedicam suas vidas à caridade com os mais vulneráveis. 
O vice-presidente da Conferência João Batista – grupo da Sociedade de São Vicente de Paulo, que atua na Paróquia Santa Luzia, do Setor Pastoral Freguesia do Ó, da Região Brasilândia –, Matheus Maciel, explicou à reportagem que o princípio fundamental do trabalho realizado com entrega de cestas básicas e medicamento, visitas missionárias e acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade social é o de contribuir com uma “mudança sistêmica”, fazendo com que a pessoa beneficiada se transforme em protagonista da sua realidade, resgatando, com isso, sua dignidade pessoal, profissional e religiosa.
Sua primeira visita missionária aconteceu a uma família que tinha seis crianças e que morava em uma casa de apenas um cômodo. Uma das crianças estava, por um motivo que ele não sabe explicar, pintada de azul, entretanto, mesmo com esta coloração, ele sentiu que aquela menina era invisível, o que segundo ele, fez despertar sua vocação vicentina.
Matheus Maciel rememorou, ainda, uma frase de São Vicente de Paulo para falar do carisma vicentino: “Amemos a Deus, meus irmãos, mas amemos à custa do suor dos nossos rostos e da força dos nossos braços”, e concluiu dizendo que “nós visitamos o Cristo Eucarístico na Comunhão, mas também o Cristo sofredor na pessoa do pobre”.


(Colaborou: Jenniffer Silva)

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Audiência Geral: "não amar é o primeiro passo para matar"

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17 de outubro de 2018

Cerca de 20 mil fiéis participaram esta quarta-feira (17/10) da Audiência Geral na Praça São Pedro.

Sob um céu nublado, o Papa fez a alegria dos peregrinos passando de papamóvel entre a multidão antes de pronunciar a sua catequese, dando prosseguimento ao ciclo sobre os 10 mandamentos.

Como na semana passada, Francisco aprofundou a quinta palavra do Decálogo: ‘não matarás’, recordando que aos olhos de Deus a vida humana é preciosa, sagrada e inviolável.

Desprezar é matar

Jesus no Evangelho revela um sentido ainda mais profundo para este Mandamento: a ira, o insulto e o desprezo contra um irmão é uma forma de assassinato. “Nós estamos acostumados a insultar. Isso faz mal, é uma forma de matar a dignidade de uma pessoa. Seria belo se este ensinamento de Jesus entrasse na mente e no coração. Não insultar mais ninguém: seria um bom propósito. Para Jesus, se você despreza, insulta e odeia, isso é homicídio.”

Quando vamos à missa, prosseguiu o Papa, deveríamos ter esta atitude de reconciliação com as pessoas com as quais tivemos problemas. “Mas às vezes falamos mal das pessoas enquanto esperamos o sacerdote. Isso não é possível. Vamos pensar na importância do insulto, do desprezo, do ódio. Jesus os insere na linha do assassinato.”

Para aniquilar uma pessoa, portanto, basta ignorá-la.

“ A indiferença mata. É como dizer ao outro: você é um morto para mim, porque você o matou em seu coração Não amar é o primeiro passo para matar; e não matar é o primeiro passo para amar. ”

De fato, desprezar o irmão é fazer como Caim que, quando Deus lhe perguntou onde estava seu irmão Abel, respondeu: “Por acaso sou guardião do meu irmão?” “Somos sim os guardiões dos nossos irmãos, somos guardiões uns dos outros!”, respondeu o Pontífice.

Precisamos de perdão

A vida humana necessita de amor, disse ainda o Papa, reiterando que o amor autêntico é o que Cristo nos mostrou, isto é, a misericórdia. Não matar é incluir, valorizar, perdoar.

Não podemos viver sem o amor que perdoa, que acolhe quem nos fez mal. Nenhum de nós sobrevive sem misericórdia, todos necessitamos do perdão. Não basta “não fazer nada de mal”, do homem se exige mais, ele deve fazer o bem, significa viver segundo o Senhor Jesus, que deu a vida por nós e por nós ressuscitou.

“Uma vez, repetimos todos juntos uma frase de um santo sobre isto: não fazer mal é coisa boa, mas não fazer o bem não é bom. Precisamos sempre fazer o bem, ir além”, disse ainda Francisco.

Eis então que a Palavra “não matarás” se torna um apelo essencial: é um apelo ao amor.

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Papa: onde existem crianças e jovens há futuro, alegria e esperança

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25 de setembro de 2018

Na tarde desta terça-feira, 25, o Papa Francisco encontrou-se com as pessoas assistidas pelas obras caritativas da Igreja, na Catedral dos Santos Pedro e Paulo, em Tallinn, na Estônia.

O Pontífice foi acolhido pelo administrador apostólico de Tallinn, pelo pároco da catedral, pela madre superiora das Missionárias da Caridade e por uma família com nove filhos ajudada pelas religiosas de Madre Teresa de Calcutá.

Francisco agradeceu a todos pelo acolhimento e a Marina e a Vladimir por terem partilhado o que trazem em seus corações.

 

 

 

Calor de estar em família

“Antes de mais nada, quero congratular-me com você, Marina, e com seu marido pelo belíssimo testemunho que nos deram. Vocês foram abençoados com nove filhos, com todo o sacrifício que isso implica como vocês nos fizeram notar. Onde existem crianças e jovens, há muito sacrifício, mas sobretudo há futuro, alegria e esperança. Por isso, é reconfortante ouvi-los dizer: «Damos graças ao Senhor pela comunhão e o amor que reina em nossa casa».”

“Nesta terra, onde os invernos são duros, não lhes falta o calor mais importante: o da casa, o que nasce de estar em família. Com discussões e problemas? Sim, mas com o desejo de prosseguir juntos. Não se trata de palavras bonitas, mas de um exemplo claro."

"Obrigado por terem partilhado também o testemunho dessas Irmãs que não tiveram medo de sair e ir aonde vocês se encontravam, para serem sinal da proximidade e da mão estendida do nosso Deus”, disse ainda o Pontífice.

 

Fé missionária

Segundo Francisco, “quando a fé não tem medo de deixar as comodidades, de se envolver e tem a coragem de sair, consegue manifestar as palavras mais bonitas do Mestre: amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês. Amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, construindo pontes; amor que nos permite construir uma grande família onde todos nos podemos sentir em casa, como nesta casa. Amor que é capaz de compaixão e dignidade”.

“A fé missionária vai, como essas Irmãs, pelas estradas de nossas cidades, de nossos bairros, de nossas comunidades, dizendo com gestos muito concretos: você faz parte da nossa família, da grande família de Deus onde todos nós temos um lugar. Não fique fora”, sublinhou.

 

Despertar o coração

O testemunho de Vladimir foi definido pelo Papa como um “milagre”.

“Você encontrou irmãos e irmãs que lhe deram a possibilidade de despertar o coração e ver que, a todo o momento, o Senhor o  procurava incansavelmente para vesti-lo de festa e celebrar porque cada um de nós é o seu filho predileto. A maior alegria do Senhor é nos ver renascer, por isso nunca se cansa de nos conceder uma nova oportunidade. Por este motivo, são importantes os laços, sentir que pertencemos uns aos outros, que toda a vida tem valor e que estamos prontos a gastá-la para a fazer valer.”

 

Prosseguir criando laços

O Papa os “convidou a continuar criando laços, a sair pelos bairros dizendo a todos que encontrar: você também faz parte da nossa família. Jesus chamou os discípulos; e ainda hoje chama cada um de vocês, queridos irmãos, para continuarem semeando e transmitindo o seu reino. Ele conta com a sua história, a sua vida, as suas mãos para percorrer a cidade e partilhar a mesma realidade que vocês viveram. Ele pode contar com vocês?”

Francisco abençoou todos os presentes a fim de que “o Senhor continue fazendo milagres através de suas mãos”.

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Audiência Geral: "a verdadeira liberdade é o amor verdadeiro"

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12 de setembro de 2018

O amor verdadeiro é a verdadeira liberdade. A escravidão do próprio ego aprisiona mais do que uma prisão, mais do que uma crise de pânico, mais do que uma imposição de qualquer gênero. Assim, o terceiro mandamento nos convida a celebrar no repouso a libertação, trazida por Jesus.

Na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira, o Papa Francisco voltou a refletir sobre os dez mandamentos, retomando o terceiro, sobre o repouso,  sobre o qual havia começado a falar na semana precedente.

Dirigindo-se aos 12 mil presentes na Praça São Pedro, Francisco começou explicando “uma preciosa diferença” existente entre o Decálogo publicado no Livro do Êxodo e aquele publicado no Livro do Deuteronômio. Enquanto no primeiro o motivo do repouso “é a bênção da criação”, no segundo é comemorado “o fim da escravidão”. “Neste dia – observa -  o escravo deve repousar como o patrão, para celebrar a memória da Páscoa da libertação”, e acrescenta:

“Os escravos, na verdade, por definição, não podem descansar. Mas existem tantos tipos de escravidão, quer exteriores como interiores. Existem restrições externas como  as opressões, as vidas sequestradas pela violência e por outros tipos de injustiça. Existem depois, as prisões interiores, que são, por exemplo, bloqueios psicológicos, os complexos, os limites de caráter e outros mais”.

“Existe repouso nessas condições?”, pergunta o Papa. “Pode um homem preso ou oprimido permanecer livre? E pode uma pessoa atormentada por dificuldades internas ser livre?”.

 

Misericórdia traz liberdade interior

Francisco responde dizendo que existem pessoas que, mesmo no cárcere, “vivem uma grande liberdade de espírito”. Para ilustrar sua afirmação, cita São Maximiliano Kolbe e o cardeal Van Thuan, “que transformaram obscuras opressões em locais de luz. Assim como pessoas marcadas por grandes fragilidades interiores, que porém conhecem o repouso da misericórdia e sabem transmitir isso”:

"A misericórdia de Deus nos liberta e quando você se encontra com a misericórdia de Deus tem uma grande liberdade interior e tem capacidade de transmiti-la. Por isso é importante ser aberto à misericórdia de Deus para deixar de ser escravo de si mesmo".

 

A verdadeira liberdade

O que é então a verdadeira liberdade?

A liberdade de escolha, fazendo aquilo que se deseja, “não basta para ser realmente livres, e tampouco felizes. A verdadeira liberdade é muito mais”, afirma, explicando:

De fato, há uma escravidão que aprisiona mais que uma prisão, mais do que uma crise de pânico, mais do que uma imposição de qualquer tipo: a escravidão do próprio ego.  Aquelas pessoas que parece que durante todo o dia estão se refletindo no espelho para ver o ego. E o próprio ego tem uma estatura mais alta que o próprio corpo. São escravas do ego".

 

O ego, um torturador

"O ego - observa Francisco -  pode se tornar um torturador que tortura o homem onde quer que esteja e lhe causa a mais profunda opressão, aquela que se chama "pecado", que não é uma simples violação de um código, mas fracasso da existência e condição de escravos”.

O pecado, no final das contas - explica - é dizer e fazer ego: "Eu quero isto, isto, isto e não me importa se existe um limite, se existe um mandamento, nem mesmo me importa se existe amor. Ego! Este é o pecado." Pensemos nas paixões humanas:

"O guloso, o lascivo, o avarento, o zangado, o irascível, o invejoso, o preguiçoso, o soberbo, e assim por diante,  são escravos de seus vícios, que os tiranizam e os atormentam. Não há trégua para o guloso, porque a gula é a hipocrisia do estômago, que nos faz acreditar que está vazio. O estômago hipócrita nos faz gulosos, somos escravos do estômago hipócrita. Não há trégua para o guloso".

E o lascivo, que deve viver de prazer, a ânsia de possuir destroi o avarento, sempre acumulando dinheiro, fazendo mal aos outros.  O fogo da ira e o caruncho da inveja arruínam as relações; a preguiça que evita qualquer esforço torna incapazes de viver; o egocentrismo soberbo escava um fosso profundo entre si e os outros.”

E as pessoas invejosas. "Os escritores dizem que a inveja deixa amarelo o corpo e a alma. Como quando uma pessoa tem hepatite fica amarela, os invejosos tem amarela a alma, porque nunca podem ter o frescor da saúde da alma. A inveja destroi".

 

Celebrar no repouso a libertação em Jesus Cristo

“Queridos irmãos e irmãs, quem é, portanto, o verdadeiro escravo? Quem é aquele que não conhece repouso? Quem não é capaz de amar!”

O Senhor Jesus nos liberta da escravidão do pecado, tornando o homem capaz de amar. Assim, o terceiro mandamento nos convida a celebrar no repouso esta libertação.

 

O verdadeiro amor

O verdadeiro amor, portanto,  é a resposta para a pergunta “o que é a verdadeira liberdade?”:

O amor verdadeiro é a verdadeira liberdade: desapega da posse, reconstrói as relações, sabe acolher e valorizar o próximo, transforma todo esforço em um dom alegre e torna-o capaz de comunhão. O amor  torna livres mesmo na prisão, ainda se fracos e limitados”.

Esta é a liberdade – disse o Santo Padre ao concluir -  que recebemos de nosso Redentor, Jesus Cristo.

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Papa aos Cavaleiros de Colombo: caridade e Evangelho da família

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10 de agosto de 2018

O Papa Francisco renovou aos cavaleiros de Colombo, por ocasião da convenção anual deles realizada nos dias 7 a 9 de agosto em Baltimor, nos EUA, gratidão pelo compromisso em “proclamar o Evangelho da família” – às vésperas do encontro mundial de Dublin – e pelo apoio aos cristãos do Oriente Médio que “suportam preconceitos e perseguições por causa de sua fé”.

Dois mil herdeiros espirituais do Venerável Pe. Michael McGivney – representando os quase dois milhões hoje presentes no mundo inteiro – se reuniram pela 136ª vez na arquidiocese primacial estadunidense, escolhendo este ano como lema “Cavaleiros de caridade”.

 

União inseparável de fé e caridade

Numa mensagem em inglês ao cavaleiro supremo Carl A. Anderson – assinada pelo cardeal secretário de Estado Pietro Parolin –, o Pontífice evoca o carisma fundacional e a admirável história da ordem, com “a união inseparável de fé e caridade” que levou os primeiros cavaleiros a trabalhar por uma sociedade fraterna através da formação cristã e o apoio recíproco dos membros.

Uma realidade ainda atual, observa a mensagem pontifícia, visto que em nossos dias, o Santo Padre pede a toda a Igreja uma renovada consciência da “nossa responsabilidade de ser custódios uns dos outros e de viver concretamente a fé que se expressa através do amor”.

 

Solicitude pelos mais pequeninos dos irmãos e irmãs

E ao fazê-lo, mediante a recente exortação apostólica sobre o chamado à santidade, “Francisco fala das bem-aventuranças como “carta de identidade” que mostra que somos verdadeiros seguidores de Cristo”. Ademais, “nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida” (Gaudete et Exsultate, 63), de modo especial através da amorosa solicitude pelo menor dos irmãos e das irmãs.

“Os grandes santos, cuja imitação de Cristo continua nos inspirando, uniam diariamente fé, oração e caridade prática” – prossegue a mensagem.

 

Solidariedade para com os pobres e necessitados

Por esse motivo, o Papa “encoraja os esforços perseverantes dos cavaleiros de Colombo, em todos os níveis, para testemunhar o amor de Deus através do amor concreto e a solidariedade para com os pobres e os necessitados”.

Daí, o enaltecimento pelos “inúmeros atos de caridade praticados habitualmente de modo silencioso” pelos membros dos Conselhos – as articulações locais da ordem – que “mostram a verdade das palavras de madre Teresa de Calcutá”: Deus “abaixa-Se e serve-Se de nós, de ti e de mim, para sermos o seu amor e a sua compaixão no mundo... Ele depende de nós para amar o mundo e demonstrar-lhe o muito que o ama” (Gaudete et Exsultate, 107).

 

Iniciativas tragam frutos de uma caridade criativa

Com a esperança expressa pelo Pontífice de que o programa dos cavaleiros “Fé na ação”, acompanhada da outra iniciativa “Ajudar as mãos”, tragam os frutos de uma caridade criativa sempre mais apta às novas formas de pobreza e de necessidade humana que emergem na sociedade atual.

Em particular, a mensagem faz referência às famílias: efetivamente, ao tempo em que se prepara para ir à Irlanda para o encontro mundial, o Papa agradece aos cavaleiros de Colombo do mundo inteiro pelo encorajamento deles “aos homens em sua vocação de maridos e pais católicos e a defesa deles à autêntica natureza do matrimônio e da família no seio da sociedade”.

E faz votos de que eles continuem sendo guia sobretudo para os jovens, “que num mundo repleto de luzes contrárias ao Evangelho, buscam permanecer fiéis discípulos de Cristo e fiéis filhos da Igreja”.

 

Caridade em prol dos cristãos perseguidos no Oriente Médio

Por fim, Francisco louva a caridade da ordem “em favor dos nossos irmãos e irmãs” cristãos perseguidos no Oriente Médio e pede que continuem rezando pela paz na região, a conversão dos corações, o diálogo e a justa resolução dos conflitos.

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Coleta da Sexta-feira Santa: solidariedade à Síria

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27 de março de 2018

Na manhã desta terça-feira, 27, 43 refugiados sírios desembarcaram no aeroporto romano de Fiumicino graças aos corredores humanitários.

Trata-se de núcleos familiares provenientes de Aleppo, Homs, Raqqa e Edlib; mais da metade são crianças. Na quarta-feira, está prevista a chegada de mais 47 cidadãos sírios.

Os corredores humanitários são um programa de acolhimento na Itália dirigido a migrantes em especiais condições de vulnerabilidade. A iniciativa nasceu em 2016 de uma parceria entre o Ministério das Relações Exteriores e a Comunidade de Santo Egídio, a Federação das Igrejas Evangélicas e os valdeses. A finalidade é garantir uma imigração segura, sem que tenham que recorrer a traficantes de seres humanos.

 

As pedras vivas do Oriente Médio: os cristãos

A guerra na Síria completou sete anos. Nos últimos dias, organizações como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Save the Children lançaram apelos em prol da infância no país.

Segundo Fr. Bruno Varriano, reitor e guardião da Basílica da Anunciação, em Nazaré, uma parte da coleta da Sexta-feira Santa é destinada à população da Síria.

 

Vatican News

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Da mesma massa do pão

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21 de julho de 2017

Eles vivem com a mão na massa, literalmente. Gilson Alves de Lima é o padeiro e auxiliado por Luiz Carlos da Silva fazem uma média de 1.300 pães por dia na padaria do Sítio São Miguel Arcanjo, que fica no município de Jarinu (SP). O Sítio é um dos cinco na região que acolhe e acompanha pessoas com dependências químicas, sobretudo o crack, idosos ou com alguma deficiência mental, encontrados em situação de rua pelos membros da Missão Belém.

Gilson tem 35 anos, dois filhos e, há seis meses, conheceu a Missão Belém. Trabalhou 18 anos em padarias na cidade de São Paulo e atualmente sua família mora no Itaim Paulista, bairro no extremo da zona Leste na capital. Sentado, com um caderninho quadriculado sobre a pequena mesa, Gilson marcava os pedidos de pão das casas onde moram os cerca de 420 internos do Sítio e logo mais iria para uma delas almoçar pontualmente ao meio-dia.

Disciplina, partilha de vida, trabalho e momentos de espiritualidade fazem parte da rotina daqueles que desejam se recuperar de um vício que, na maioria das vezes, os afastou da família e da profissão. A Missão Belém, que no dia 1º de outubro completou 10 anos em São Paulo, começou ali, naquele lugar escondido em Jarinu, a partir da inspiração do Padre Giampietro Carraro, que reuniu um grupo de moradores de rua e, com muitas doações, iniciou a construção de uma casa.

Além do São Miguel Arcanjo, há o Sítio Pai Ernesto, com atividades exclusivamente agrícolas, a Vila São Pedro e Santa Marta, o Rainha da Paz e o Nossa Senhora de Fátima, este último para as mulheres. Ao todo são mais de mil internos homens e cerca de 80 mulheres. Logo na entrada, a reportagem foi acolhida com um cafezinho e um lugar para se abrigar da chuva, que aquele dia não deu trégua em São Paulo. Ainda assim, todos trabalhavam em alguma das diversas oficinas do Sítio.

Maicon Lourenço Carmona estava na marcenaria terminando de fazer a réplica em miniatura de uma igreja com a qual iria presentear a esposa. Ali são feitos ou reformados todos os móveis utilizados nas casas, a maioria a partir de madeiras doadas. Logo à frente, estavam Moracy Moraes, mecânico, e Antônio Souza, funileiro na Oficina Mecânica, onde vão para o concerto os carros da instituição. Na serralheria, Francisco José Ramos trabalhava na produção de mais um beliche. Ele tem um filho e está no Sítio há quase um ano, mas pretende voltar para Mauá (SP), onde mora a família, após seu processo de recuperação.

A vida do Márcio, após sete anos

A reportagem foi acompanhada na visita às oficinas por Márcio Antônio dos Santos, que tem 52 anos e, aos 45 anos, conheceu a Missão Belém quando estava em Santos (SP). Márcio nasceu no interior de Minas Gerais, mas veio ainda bem pequeno para São Paulo com a família que era muito pobre. Aos 15 anos, ele começou a usar maconha e após a morte da mãe, passou também traficar, até que, com 25 anos, conheceu o crack. Aos 21, ele tinha conhecido uma moça e com ela chegou a se casar e ter uma filha. “Quando minha esposa soube do meu vício, tentou me ajudar, mas eu não aceitei”, contou. Ele, então, se afastou da família e entrou para o crime. Fez parte de uma quadrilha que roubava as estações de metrô de São Paulo e, em um dos assaltos à bilheteria da estação Trianon, foi preso.

Condenado a 20 anos, Márcio conseguiu a liberdade após oito anos cumprindo pena, quando resolveu morar em Santos. Lá, depois de um ano trabalhando, foi convidado por algumas pessoas que conheceu na prisão a roubar terminais de carga. “Era um tempo de muito perigo e dinheiro também. Às vezes, saía de um assalto com 50, 60 mil reais. Gastava todo o dinheiro com boates, drogas e prostitutas. Depois, partia para novos assaltos. Fui perseguido e baleado pela polícia, mas não conseguiram me prender novamente.”

Uma manhã, porém, após três dias em um hotel com uma mulher, Márcio sentiu que aquela vida não tinha mais sentido para ele. Pediu que a mulher fosse embora e levasse com ela a pedra de crack que eles estavam usando. Ele começou a rezar. Pediu a Deus que o ajudasse. “Saí sem rumo e comecei a perambular pelas ruas de Santos. Foi quando entrei numa igreja. Vi alguns irmãos limpando a Igreja, mas não tive coragem de falar com ninguém. Eles saíram e voltaram e eu ainda estava lá. Então, um deles se aproximou e me chamou para conhecer a Missão Belém. Relutei no início, mas acabei aceitando, com o objetivo de voltar logo. Quando cheguei à casa, começaram a me oferecer roupa, comida, me convidaram para rezar com eles. Fiquei impressionado, pois nunca os tinha visto antes.”

Márcio resolveu ficar e nunca mais voltou para a rua. Desde lá, já são sete anos. Hoje ele é o coordenador e responsável jurídico de todos os sítios da Missão Belém que estão em Jarinu e também daquele das mulheres, em Jundiaí (SP). Reaproximou-se da esposa e da filha, tem quatro netos e pretende continuar sendo voluntário na Missão Belém em Jarinu ou em outro lugar que precisarem dele.

O almoço com arroz, feijão, linguiça e salada da horta foi preparado por um dos acolhidos voluntários da casa onde Márcio mora atualmente. Do Sítio São Miguel, a reportagem seguiu para Jundiaí, para visitar o sítio feminino. Logo mais Gilson e Luiz iriam recomeçar a preparar a massa do pão que eles colocam no forno mais ou menos às duas horas da manhã. Juntos, eles fizeram um enorme bolo para o aniversário de 10 anos da Missão. “Estou aprendendo muito com o Gilson”, comentou Luiz. “Eu tinha feito um curso de auxiliar de padeiro, mas nem se compara à experiência vivida aqui. Da mesma massa, ele faz mais de sete receitas, apenas acrescentando mais ovos, leite ou açúcar. É incrível”, continuou o paulista, que está há sete meses no Sítio e pretende trabalhar como padeiro quando sair.

Percursos desconhecidos

De Jarinu até Jundiaí, onde está localizado o sítio Nossa Senhora de Fátima que acolhe mulheres, a reportagem do O SÃO PAULO foi acompanhada por Joana D’arc Silva de Oliveira, que aos 27 anos decidiu doar seu tempo e seus conhecimentos como voluntária para a Missão Belém. Ela formou-se em educação física e mora em Itatiba (SP) com a família, mas todos os dias, com uma ajuda de custo, se desloca até as casas em Jarinu para desenvolver atividades de ginástica com os internos, sobretudo os idosos e pessoas com deficiência.

Durante o percurso, Joana indicou uma barraquinha na estrada. “Essa banca de verduras é de responsabilidade dos internos do Sítio Pai Ernesto. Eles plantam, colhem e vendem aqui”, explicou. Lá estava Carlos Eduardo Dias da Silva, com suas hortaliças fresquinhas. Por causa da chuva, a conversa com Carlos foi interrompida e a viagem prosseguiu até Jundiaí por mais 40 minutos.

Cicatrizes e sentimentos

Ali, naquele espaço amplo e bonito funcionava uma granja. Mas o dono decidiu doar para que crescesse algo mais que o alimento do corpo. São mais de 70 mulheres no Sítio Nossa Senhora de Fátima em cinco casas independentes uma da outra. Cada uma tem sua coordenadora e monitora, assim como nos alojamentos masculinos. Em uma delas, o milho estava sendo cozido no fogão de lenha e o chá de erva cidreira espalhava seu cheiro por todos os lados. As mulheres estavam lá, ao redor do fogão

O atual espaço da igreja estava com as horas contadas, pois no dia seguinte seria derrubado para a construção de uma nova. Outras três casas também estão sendo construídas, o que ampliará o número de vagas para cerca de 150. Sheila de Jacinto é a responsável pelo Sítio. Aos 36 anos, por causa do vício do álcool, ela se afastou da família e dos filhos e hoje pretende continuar como missionária na instituição. “Quando cheguei aqui, fiquei responsável pela casa onde estão as idosas e no início foi muito difícil, pois eu não tinha nenhuma paciência. Mas com o tempo, fui me afeiçoando tanto por elas que, quando saí, senti muita falta”, contou.

No Sítio, há também uma pequena padaria, mas as mulheres ganham uma doação do pão já feito e só é necessário assar. Além da horta, elas estão montando uma oficina de costura, que ensinará o ofício para as mulheres que desejarem e, naquela tarde, estava acontecendo também uma formação para coordenadoras e monitoras. Adriana de Lima é coordenadora da Casa Maria Mãe de Deus e está no Sítio há três meses. “Fiquei 20 anos na Cracolândia e fui presa durante seis meses por uma tentativa de homicídio. Foi na cadeia que eu conheci a Missão Belém. No fim de 2014, cheguei a vir para cá, mas voltei para rua e foi pior do que antes. Tive uma amnésia e até hoje não me lembro onde morava”, disse.

Ela tem três filhos, uma menina com 23 anos, outra de 15 e um menino que tem 10 anos, mas há sete meses não tem notícias dos filhos. “Dou graças a Deus que não estou morta, pois fui ameaçada muitas vezes, inclusive pela polícia.” Adriana nasceu em Campinas (SP) e foi a terceira criança a ser achada no lixão da cidade, em 1986. “Fui desencantada pelos médicos, mas depois de um ano, fui adotada pelos próprios médicos que fizeram o parto da minha mãe. Vivia numa grande família, mas quando cheguei à adolescência, queria sair, conhecer o mundo e minha mãe não permitia. Comecei, então, a fugir de casa e a usar drogas. Primeiro cola, depois tíner e benzina e fui direto para o crack. Tudo isso com menos de 15 anos.”

Ela ficou na rua durante cerca de oito anos. “Sofri estupro, aborto e minha vida é cheia de fatos ruins. Aos 38 anos, nunca consegui ficar em pé, sempre indo e voltando, mesmo com apoio da minha família. Ultimamente, tinha até uma barraca para vender crack na Cracolândia; mas agora, sinto que estou recomeçando porque eu quero. A pessoa precisa querer recomeçar. Se amo meus filhos e minha família, tenho que me cuidar primeiro”, reconheceu Adriana, enquanto mostrava as cicatrizes do último conflito com a polícia, e um quadro pequeno que pintou durante a permanência no Sítio. “Aqui, descobri que pinto e ganhei telas e tintas para desenvolver meu dom”, disse sorrindo a paulista que, enquanto estava cumprindo sua pena participou de um concurso de música e ganhou um violão, roubado após dois dias que ela deixou o cárcere.

Nos alojamentos masculinos, a permanência chega a 63%, mas no feminino esse percentual é significativamente menor. Todos os dias, chegam e vão embora meninas do Sítio Nossa Senhora de Fátima. Sheila acredita que um dos motivos é a maior facilidade que a mulher tem de sobreviver na rua. A vida delas em Jundiaí está em constante transformação, mesmo que algumas feridas demorem a cicatrizar. Lá, se pode ver as construções que uma a uma vão dando ao lugar uma cara nova. O pão para o lanche da tarde tinha acabado de sair do forno quando deixamos o lugar. Belém em hebraico significa “casa do pão”, e assim, as portas das casas da Missão Belém, seja no interior do Estado ou na Capital, estão sempre abertas para quem quer colocar a mão na massa, sobretudo naquela massa que faz modificar o coração e o desejo para crescer a liberdade.

Publicado originalmente no jornal O SÃO PAULO, edição 3075, de 28 de outubro a 3 de novembro de 2015.

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