Coleta Nacional da Solidariedade: gesto fraterno de conversão quaresmal

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08 de abril de 2019

Anualmente, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) faz um convite a todos os católicos e pessoas de boa vontade para participar da Coleta Nacional da Solidariedade, realizada todos os anos durante o Domingo de Ramos, que, em 2019, ocorrerá em 14 de abril, como gesto concreto da Campanha da Fraternidade.

Este ano, a Campanha da Fraternidade tem como tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema – inspirado no livro do Profeta Isaías – “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27). A Coleta da Solidariedade é, portanto, parte integrante da CF 2019.

Bispos, padres, religiosos (as) e agentes de pastoral são os principais motivadores para a realização da Coleta da Solidariedade, em suas comunidades, paróquias e dioceses. Em todo o Brasil, a Campanha da Fraternidade se expressa concretamente pela generosidade, partilha e fraternidade de todos os brasileiros.

Por meio dessa motivação, a Igreja Católica espera que todos os seus fiéis assumam o compromisso com a solidariedade, fazendo assim com que a Igreja se reconheça servidora do Deus da vida.

 

CONVERSÃO QUARESMAL

O texto-base da Campanha da Fraternidade 2019 reflete sobre a ligação do gesto de fraternidade com um caráter de conversão quaresmal, à qual todos são chamados neste período, por meio da penitência, jejum e caridade.

Assim, segundo o documento, é possível que nasça, verdadeiramente, um tempo novo, em que esteja em evidência a valorização da vida humana.

 

EM TODO BRASIL

Do total de valores angariados no Domingo de Ramos, oferecidos com ou sem o envelope da coleta, 40% são enviados ao Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), administrado pela própria CNBB, que realiza a análise da viabilidade e acompanhamento do desenvolvimento dos projetos enviados.

O Conselho Gestor do FNS é responsável pela supervisão da utilização do valor doado e pela aprovação dos projetos. O grupo é formado pelo Secretário-Geral da CNBB, pelo Bispo Presidente da Comissão Episcopal Pastoral da Caridade, Justiça e Paz, pelo Ecônomo da CNBB, pelo Secretário-Executivo da Campanha da Fraternidade, por um representante dos Secretários Executivos Regionais da CNBB, pelo Diretor Executivo Nacional da Cáritas Brasileira, pelo Assistente Social da CNBB e pelo Coordenador de projetos do FNS.

As organizações que desejarem receber o apoio do Fundo Nacional da Solidariedade devem primeiro verificar se estão de acordo com os critérios descritos no edital para a CF 2019 e, posteriormente, realizar o cadastro no site: www.fns.cnbb.org.br. Após essa primeira etapa, ainda é necessário o envio da documentação ao endereço: SE/SUL Quadra 801 Conjunto B – CEP 70200-014 – Brasília (DF). Para dúvidas, o e-mail de referência é fns@cnbb.org.br

Os que desejarem colaborar com o Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB ao longo de todo o ano, para ajudar projetos sociais, podem efetuar sua doação na conta bancária destinada para o FNS.

Os projetos selecionados serão aqueles que, preferencialmente, atendam às propostas da Campanha da Fraternidade de 2017, que teve como tema “Fraternidade: Biomas Brasileiros e Defesa da Vida” e lema “Cultivar e guardar a Criação”.

 

NAS DIOCESES

Os outros 60% do valor adquirido permanecem na própria diocese em que houve a coleta, a fim de contribuir com projetos locais de responsabilidade do respectivo Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS), que é gerido pelo Conselho Gestor Diocesano. Fazem parte do grupo membros da Caritas Diocesana - nos locais em que a instituição está inserida – um representante das Pastorais Sociais, a coordenação de pastoral diocesana, a equipe de animação das campanhas, o administrador diocesano e alguém de referência no tema da CF. O bispo diocesano, normalmente, é quem preside o Conselho e o constitui.

AÇÕES CONCRETAS

Em 2017, a Diocese de Caetité (BA) iniciou os trabalhos do Fundo Diocesano de Solidariedade, para colaborar com a ação social da Igreja Católica em seu território. Nos dois primeiros anos de instituição, 13 projetos já receberam a ajuda dos valores destinados, segundo informações da Cáritas Diocesana de Caetité.

 

ALGUNS PROJETOS APOIADOS EM 2017 E 2018 NA DIOCESE DE CAETITÉ:

- Fortalecimento do trabalho com as mulheres artesãs do Clube de Mães, da Paróquia Senhor Bom Jesus da Boa Vida, em Cordeiros (BA);

- Implantação de viveiros para a multiplicação de umbu (fruto pequeno e arredondado, de casca lisa ou com pequenos pelos, levemente azedo, usado na produção de polpas de fruta, sorvetes, geleias e doces), na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Botuporã (BA);

- Implantação de área verde no Bosque Nossa Senhora, da Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus e dos Homens, em Palmas de Monte Alto (BA);

- Movimento dos Atingidos pela Mineração – Comunidades atingidas por mineração de Caetité, Guanambi e Pindaí (BA);

- Capacitação de Karatecas, na Associação de Karatê Águias da Bahia, em Condeúba;

- Cursinho popular do Alto Sertão da Bahia, para o acesso ao ensino superior nas cidades de Guanambi e Caetité (BA);

- Projeto de educação financeira para o Clube de Mães da Paróquia de Cordeiros (BA);

- Compra de materiais para aulas de karatê realizadas na Paróquia Santa Rosa do Viterbo, em Guajeru (BA).

 

Para ajudar durante o ano todo com o Fundo Nacional de Solidariedade, faça seu depósito:

Banco Bradesco, Agência 0484-7 – Conta Corrente 4188-2 – CNBB. É necessário enviar o comprovante de depósito por e-mail: financeiro@cnbb.org.br ou por correspondência, no endereço: SE/Sul Quadra 801 Conjunto B – CEP: 70200-014 – Brasília (DF) e pelo telefone (61) 2103-8111 (financeiro).

 

LEIA TAMBÉM: Iniciativas de práticas quaresmais nas paróquias da Arquidiocese de São Paulo

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Palestrantes debatem sobre políticas públicas à luz da Doutrina Social da Igreja

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15 de março de 2019

Qual a concepção sobre o Estado e as políticas públicas a partir da Doutrina Social da Igreja? O que pensam sobre essa concepção um estudioso socialista e um liberal?

Essas perguntas foram respondidas no primeiro ciclo de estudos “Políticas Públicas à Luz da Doutrina Social da Igreja”, realizado pelo Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP em parceria com a Oficina Municipal, no dia 13, no campus Monte Alegre da PUC-SP.

A mesa de abertura do ciclo consistiu em um diálogo entre o professor Dr. André Singer (cientista social e jornalista, professor da USP), o Professor Dr. Christian Lohbauer (doutor em Ciência Política, candidato à vice-presidência pelo Partido Novo) e pelo Prof. Dr. Francisco Borba, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, que debateu sobre o tema “Modelos de Estado e Políticas Públicas”, em diálogo mediado por Eder Brito, coordenador de projetos da Oficina Municipal.

O Estado e a Doutrina Social da Igreja

O primeiro expositor sobre o tema foi o professor Borba. Ele ressaltou que a Doutrina Social da Igreja (DSI) não é um programa político ou um projeto ideológico. “Ela deve ser entendida com um conjunto de critérios e discernimento nascidos da reflexão e da experiência da comunidade cristã ao longo dos séculos”, de modo que não procura traçar um modelo ideal de Estado, mas que se esforça em ajudar na construção de uma postura humana mais adequada para enfrentar os problemas da vida.

Como lembrou Borba, a postura humana esperada brota daquela pessoa que se descobre amada de forma gratuita e desproporcional e por isso se sente chamada a amar gratuitamente a todos, a se comprometer com o outro, que ainda que não o conheça.

O professor ressaltou que conforme da DSI, o protagonista de toda a ação política deve ser a pessoa, não no sentido de individuo isolado, mas da pessoa como um sujeito autônomo, mas que precisa do outro para se realizar.

Esse Estado, personalista, é democrático, equitativo (todos devem receber aquilo que é necessário para a sua plena realização como pessoa), não ideológico (pois a ideologia é uma visão redutiva do ser humano ou da realidade) e republicano (um estado que o tempo todo é construído pelos cidadãos).

A Doutrina Social da Igreja também indica para um modelo de Estado subsidiário, aquele em que em vez de centralizar ações para a construção do bem comum, o Estado se coloca a serviço das organizações sociais para que a própria sociedade construa o bem comum.

Fazendo menção a uma fala do Papa Emérito Bento XVI a respeito da ordem social, o coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP disse há uma estrutura tripartite: estado, mercado e sociedade civil organizada, sendo que esta última deveria ter a prerrogativa sobre os outros dois. “O que falta hoje no Brasil é uma sociedade civil organizada, participativa, capaz de conter os desmandos tanto do poder político do Estado quanto do poder econômico do mercado”, opinou Borba.

Singer: ‘O mercado desregulamentado é uma selva econômica’

Definindo-se como adepto do socialismo democrático, André Singer disse que há compatibilidade entre a DSI e este socialismo, na medida em que por esta concepção a vida em sociedade pressupõe cooperação entre as pessoas.

No entanto, diferentemente da DSI, o socialismo democrático acredita que há uma divisão social que precisa ser superada.  “Se cada classe for defender seus interesses e apenas seus interesses, sem aceitar nenhuma possibilidade de mediação, nós caminharemos para algum tipo de guerra civil, inviabilizando a existência da sociedade”, disse.

Singer considerou que ao menos nos últimos 30 anos tem havido uma ofensiva do mercado para desregulamentar a vida econômica e social em favor das forças produtivas: “Está se produzindo a exacerbação do espaço em que cada individuo e as classes podem defender os próprios interesses, em detrimento dos interesses coletivos. O mercado desregulamentado é uma selva econômica, em que se dá bem quem tem mais força”.

Ainda de acordo com o cientista político, tal desregulamentação tem exacerbado a desigualdade social e destruído qualquer laço de solidariedade social.

Singer também criticou uma postura de subsidiariedade que enalteça o empreendedorismo, pois isso tem levado as pessoas, em especial nas áreas periféricas a trabalha mais sem garantias trabalhistas, por exemplo. “Por mais que falemos em amor ao próximo, o que vai haver é ódio ao próximo”, concluiu.

Lohbauer: ‘A regulamentação excessiva inviabilizou o desenvolvimento e o acesso a renda’

De orientação política liberal, Christian Lohbauer enfatizou que toda a ação política ideal é aquela que proporcione o bem para todos. “Toda ação da política pública deve se voltar à pessoa e ao individuo para o bem estar coletivo”, afirmou.

Lohbauer destacou que alguém só pode ser generoso e solidário com o próximo se estiver com os próprios problemas solucionados: “Não dá para pensar em generosidade nem em amor ao próximo, se você está com fome, por exemplo. Dentro dessa perspectiva, quanto mais liberdade houver, mas solidariedade haverá, porque a liberdade é que vai proporcionar com que os indivíduos possam atingir a sua própria necessidade e, como consequência, optar pela generosidade, que não pode vir de um ente abstrato, que seria o Estado. O Estado não consegue impor às pessoas, a um grupo que sejam generosos”.

Ainda de acordo com o cientista político, proporcionar ao cidadão o acesso ao trabalho e renda é a melhor forma de satisfazer as vontades do indivíduo e promover a equidade. Lohbauer não considera ruim que as pessoas tenham interesse próprio. “O que se deve conter, na verdade, é a ganância e o materialismo. Isso não será contido pela força policial do Estado, mas sim por meio do convencimento dos próprios homens e grupos sociais que vivem entre si”, afirmou.

Ele também defendeu a democracia participativa, com instituições fortes, em contraposição ao populismo, e lembrou que na concepção liberal, o Estado “é o instrumento da vontade da sociedade e dos grupos sociais organizados, é subsidiário. O Estado não tem que dizer à sociedade o que fazer, é a sociedade que diz o tamanho que o Estado tem que ter e onde ele deve se envolver. O Estado só deve chegar aonde a sociedade por si só não conseguiu se organizar”, comentou.

Lohbauer defendeu Estado eficiente e que suficiente, que só deva intervir na sociedade para assegurar a igualdade de oportunidades. Ele disse que o cidadão das periferias não quer mais ser prisioneiro de um sistema que o impede de trabalhar por conta da legislação trabalhista. “A regulamentação excessiva inviabilizou o desenvolvimento e acesso a renda, e como consequência o aumento da pobreza e a dificuldade de acender e enriquecer da sociedade”, concluiu.

Sequência do ciclo de estudos

Este ciclo de estudos promovido pelo Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, com o apoio da Oficina Municipal, está tem como motivação a temática da Campanha da Fraternidade 2019, cujo tema é “Fraternidade e Políticas Públicas”.

O ciclo de estudos é online e terá vídeos e textos disponibilizados, com debates acerca dos grandes temas das políticas públicas no Brasil, à luz da doutrina social da Igreja. A iniciativa também tem o apoio do jornal O SÃO PAULO, da TV PUC-SP e da ACN - Ajuda à Igreja que Sofre.

A mesa de encerramento do ciclo será realizada no dia 26 de março, das 19h30 às 22h00, também na PUC-SP. O tema “Gestão de Políticas Públicas” será debatido por José Mario Brasiliense Carneiro, diretor da Oficina Municipal, pelas professoras Aldaisa Spozati (PUC-SP) e Regina Pacheco (FGV-SP).

(Com informações do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e a Oficina Municipal)

 

 

 

 

 

 

 

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‘Que o sistema eleitoral traduza o desejo do eleitor na escolha de políticas públicas’

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26 de fevereiro de 2019

Em vista da Campanha da Fraternidade 2019, que tem como tema “Fraternidade e Políticas Públicas”, o professor José Álvaro Moisés, titular aposentado do Departamento de Ciências Políticas da USP, concedeu uma entrevista à série “Pátio da Cruz”, uma parceria entre O SÃO PAULO, o Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e a TV PUC, para falar a respeito impacto da situação política brasileira sobre as políticas públicas. O professor chamou a atenção para os problemas da democracia no País e a importância da participação da sociedade para garantir um bom desempenho daqueles que foram eleitos. Leia a entrevista.

 

O SÃO PAULO – COMO O SENHOR AVALIA A QUALIDADE DA DEMOCRACIA NO BRASIL HOJE?

José Álvaro Moisés – O ponto de partida dessa reflexão deve ser o reconhecimento de que, nestes últimos 30 anos, a partir de meados dos anos 1980, quando houve o processo de democratização na sociedade brasileira, a democracia foi progressivamente se consolidando. Mas essa consolidação não quer dizer que o processo está completo, porque há uma série de distorções e de déficits de funcionamento no sistema que fazem com que a promessa fundamental da democracia nem sempre se realize.

Na democracia, os eleitores são considerados os soberanos. Isso significa que duas exigências são as mais importantes: a de que o sistema eleitoral traduza o desejo do eleitor na escolha de políticas públicas; mas, ao mesmo tempo, o direito que o cidadão tem de controlar o desempenho de quem governa.

 

QUAIS SERIAM OS PROBLEMAS DA DEMOCRACIA BRASILEIRA?

Em primeiro lugar, o sistema eleitoral tem uma série de falhas. A mais importante delas é que o sistema de eleição proporcional não permite estabelecer uma conexão sólida entre o representado e o representante. Além disso, existem segmentos sociais importantes do Brasil que estão sub-representados no sistema político. O caso mais gritante é o das mulheres, que formam 52% da população brasileira e, nesta última eleição de 2018, alcançaram menos de 11% de representação no Congresso. Isso para não dizer das populações que têm origem afrodescendente. São 55% da população e têm menos de 25% de representação no Congresso. O sistema não é capaz de incorporar à cidadania contemporânea todos esses segmentos.

Nós temos tido no Brasil uma experiência da existência de um esquema sistêmico de corrupção, envolvendo partidos políticos muito importantes e envolvendo, principalmente, as grandes empreiteiras que são contratadas pelo Estado para políticas públicas. Esse esquema retirou recursos muito volumosos de políticas públicas. O tema da corrupção criou uma indignação e uma rejeição pela política muito consistentes neste último período. Eu penso que o resultado das eleições de 2018 teve muito mais uma conotação negativa, do eleitor negar alguma coisa que não queria, do que propriamente o eleitor escolher um conjunto de políticas públicas que não estavam claras.

 

NUMA SITUAÇÃO DESSAS, COMO A SOCIEDADE PODE REALMENTE PARTICIPAR DO PROCESSO POLÍTICO?

A participação depende de dois elementos importantes. Em primeiro lugar, o que chamamos nas Ciências Sociais de estrutura de oportunidades, para que haja participação, meios, mecanismos, espaços, instâncias, formas pelas quais as pessoas comuns são chamadas para dar sua opinião, são ouvidas nas decisões fundamentais que dizem respeito às políticas públicas e ao exercício do poder. Não é apenas o que se faz, mas também o como se faz que são importantes...

Há, ainda, um segundo elemento que é a cultura política dos brasileiros. A nossa cultura política tem aspectos importantes, pois tem havido, ao longo do tempo, uma permanência na escolha da democracia. Mas, ao mesmo tempo, há uma maioria relativamente silenciosa que pouco participa, a não ser em grandes momentos de manifestações ou nas eleições. Fora das eleições, as pessoas ficam na expectativa e, em certo sentido, numa dependência do que os políticos, o Estado e os partidos vão fazer. Nós precisamos mudar essa cultura, no sentido de criar condições para que as pessoas tenham informação, debate e maior esclarecimento.

 

CONCRETAMENTE, QUAIS SÃO OS EXEMPLOS DESSA PARTICIPAÇÃO QUE CONSTRÓI A DEMOCRACIA NO DIA A DIA?

Em primeiro lugar, as pessoas participarem das suas associações profissionais. Depois, não basta criticar os partidos se nós deixamos que os caciques dos partidos façam o que eles querem. Tem que ter participação, de alguma maneira, “arrombar” as portas dos partidos. Mas, além disso, há mecanismos da sociedade brasileira que exigem que as pessoas participem. Existem conselhos nas áreas da saúde, educação, segurança pública. Na maior parte desses casos, a presença da sociedade é muito pequena

Algo muito importante na fase de urbanização de São Paulo, por exemplo, foram as associações de bairros, que tiveram uma capacidade de democratização muito forte nos anos 1950 e 1960. Isso significa voltar para os problemas que organizam a vida do bairro, da comunidade, na sua relação com a prefeitura, com a subprefeitura, ou com o vereador ou deputado no qual o eleitor votou. É preciso que as pessoas usem as redes sociais para se comunicar com esses eleitos e, de alguma maneira, levar até eles aquilo que deve ser a ação do governo, do Congresso Nacional, da Câmara dos Vereadores, da Assembleia Legislativa. De certa forma, isso começou a acontecer no Brasil.

 

E COMO É A ACOLHIDA DAS LIDERANÇAS POLÍTICAS DE UM EVENTUAL CLAMOR POPULAR?

Eu vejo que começou a haver um sinal de mudança na política brasileira, no sentido de as pessoas deixarem aquele distanciamento enorme, que principalmente as oligarquias dos partidos estabeleceram, e que levou a não ouvir as pessoas e a definir programas de governo sem nenhuma participação. Vários grupos de jovens e de pessoas da sociedade civil criaram organizações com o objetivo de escancarar as portas dos partidos e dizer: “Nós temos propostas a fazer”. Esse é um mecanismo que pode levar à renovação.

Outra coisa que a experiência brasileira dos últimos anos mostra é que há uma camada de políticos portadores de uma cultura política distante da população, que só altera o seu papel quando é pressionado. Há vários exemplos recentes em que houve pressão por meio das redes sociais ou até mesmo de manifestações que fizeram com que alguns políticos mudassem de opinião. É um recurso que toma tempo, dá trabalho, mas ele tem, de alguma maneira, como pressionar os políticos para que se estabeleça uma relação de compromisso com a população para que permanentemente haja um esforço de ouvir.

 

O QUE O SENHOR CONSIDERA PERIGOSO PARA QUE A RENOVAÇÃO NÃO ACONTEÇA DA MANEIRA ESPERADA?

Eu penso que o perigo maior é que pessoas que se apresentam como portadoras da nova política cheguem ao Congresso, ao governo, ou às instâncias onde as decisões são tomadas, e adotem os mesmos costumes antigos que teoricamente ficaram para trás, não levando em conta a opinião da sociedade. Uma das questões para enfrentar a crise da democracia, que é mundial, é nos convencermos que só haverá solução se as sociedades voltarem a dar a sua marca para o funcionamento da democracia. No caso dos políticos que foram eleitos com essa promessa e não a cumprem, temos que ter muita atenção para que nas próximas eleições eles possam voltar para casa, se for o caso.

(Colaborou: Fernando Geronazzo)
 
 

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Campanha da Fraternidade 2019

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22 de fevereiro de 2019

Padre Erivaldo Dantas, religioso paulino, foi o vencedor do concurso feito para escolha da arte oficial da CF 2019. “O cartaz visa ser a imagem que norteará o desejo de a Igreja no Brasil ajudar a sociedade a refletir sobre a importância das políticas públicas, como meio de assegurar as condições mais elementares para construção e manutenção da sociedade, de modo que as pessoas possam viver dignamente nas suas várias realidades”, explicou o Padre.

A arte do cartaz, segundo Padre Erivaldo, expressa questões relacionadas à educação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento social. “Levando em consideração que a temática das políticas públicas é bastante ampla e interessa a toda a sociedade, não se pode falar de políticas públicas sem levar em consideração tais aspectos. Por isso, busquei de alguma forma representar, por meio de silhuetas, a presença de algumas dessas categorias que considero fundamentais para a discussão das políticas públicas”, disse.

 

Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza a Campanha da Fraternidade (CF) durante o período quaresmal. Em 2019, a CNBB apresenta o tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema inspirado no profeta Isaías “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27).

O Texto-Base da CF é composto em três partes: ver, julgar e agir, e faz parte de uma linha de subsídios preparados para a Campanha, que é composta do manual, dos círculos bíblicos, dos encontros catequéticos para crianças e adolescentes, além da Via-Sacra e um texto para vigília e celebração da misericórdia.

Na apresentação do Texto-Base da Campanha da Fraternidade, Dom Leonardo Ulrich Steiner, Bispo Auxiliar de Brasília (DF) e Secretário-Geral da CNBB, recorda as práticas propostas pela Igreja para a vivência dos exercícios quaresmais, que são a oração, a esmola e o jejum.

Ele explica que todos os anos a Conferência Nacional do Bispos do Brasil apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal. “Um caminho pessoal, comunitário e social que visibilize a salvação paterna de Deus”, descreve o texto.

 

O QUE SÃO POLÍTICAS PÚBLICAS?

O Texto-Base define política pública como “o cuidado do todo realizado pelo Governo ou pelo Estado. São aquelas ações discutidas, decididas, programadas e executadas em favor de todos os membros da sociedade. São ações de governo ou ações do Estado. De governo, porque ligadas a um determinado executor, portanto, é temporário. De Estado quando são ações permanentes, ligadas à educação, à saúde, à segurança pública, ao saneamento básico, à ecologia e outros. Elas visam especialmente as pessoas que são empurradas para as margens da sociedade e até excluídas”

O texto explicita ainda que política pública não é somente a ação do governo, “mas também a relação entre as instituições e os diversos atores, sejam individuais, sejam coletivos, envolvidos na solução de um determinado problema e, para isso, utilizam alguns princípios, critérios e procedimentos que podem resultar em ações, projetos ou programas para garantir os direitos e deveres previstos na Constituição Federal e em outras leis”.

 

TIPOS DE POLÍTICA PÚBLICA

Pertencem aos tipos de política pública as políticas sociais, como a política pública de saúde, da educação, da habitação, da Previdência Social, dentre outras. Além disso, as políticas públicas fiscais, monetárias, cambiais, industriais e comerciais pertencem ao grupo das políticas públicas macroeconômicas e há, ainda, um tipo de política pública administrativa, que engloba as ações para a democracia, descentralização das tomadas de decisões e a própria participação social. E, por fim, existem as políticas públicas específicas, como as do meio ambiente, as da cultura, as agrárias, as dos direitos humanos, as das mulheres, as dos negros, as dos jovens, dentre outras.

 

JULGAR

Ao adentrar na esfera do “julgar”, ou seja, a análise da questão, o Texto-Base apresenta a explicação sobre justiça bíblica. No artigo 110, o texto recorda que “a justiça é a razão pela qual nos preocupamos com os mais pobres dentre o povo, representados pela tríade: a viúva, o órfão e o estrangeiro, para que haja o direito na sociedade”.

O texto retoma o significado bíblico de justiça, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, e recorda, ainda, a contribuição da Doutrina Social da Igreja. “Interessa à Doutrina Social da Igreja olhar para a questão das políticas públicas a partir de três palavras que aparecem no objetivo geral desta Campanha, pois ao mesmo tempo em que elas lançam luzes ao tema, nos provocam à ação transformadora”.

O artigo 162 salienta que a Doutrina Social da Igreja evidencia a necessidade de uma participação ativa e consciente dos cristãos leigos na vida da sociedade. O artigo seguinte recorda que há a necessidade de um discernimento a ser levado a termo pelas comunidades cristãs.

“Essas exigências referem-se, antes de tudo, ao empenho pela paz, à organização dos poderes do Estado, a uma sólida ordem jurídica, à salvaguarda do ambiente, à prestação dos serviços essenciais às pessoas, alguns dos quais são, ao mesmo tempo, direitos do homem: alimentação, moradia, trabalho, educação e acesso à cultura, saúde, transportes, livre circulação das informações e tutela da liberdade religiosa. Não se há de olvidar o aporte que cada nação tem o dever de dar para uma verdadeira cooperação internacional, em vista do bem comum da humanidade inteira, inclusive para as gerações futuras” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 166).

 

AGIR

No que se refere às sugestões para uma vivência concreta da Campanha da Fraternidade, o Texto-Base, no artigo 195, recorda que todos os cristãos são convidados a participar da discussão, elaboração e execução das políticas públicas. Em primeiro lugar, o texto convida a superar a dualidade no que se refere à fé e política, depois apresenta os diferentes níveis de participação.

Outro aspecto sugerido pelo texto é a educação para o humanismo solidário. No artigo 232, há a recordação dos 50 anos da publicação da Encíclica Populorum Progressio, em que São Paulo VI convida todos os homens de boa vontade a olhar para as questões sociais e abraçar um modelo ético-social.

São sugeridas pistas de ação para políticas públicas que despertem para a cultura do diálogo, para a globalização da esperança, para a verdadeira inclusão e para as redes de cooperação. Além disso, a partir do artigo 251, fala-se sobre a promoção do bem comum: “Urge estabelecer políticas públicas de inclusão social a milhares de excluídos e promover uma renovação ampliada e imprescindível no quadro de agentes políticos responsáveis pela condução da coisa pública”.

A Constituição de 1988 possibilitou a participação direta da sociedade na elaboração e implementação de políticas públicas por meio de conselhos deliberativos, que foram propostos por leis complementares em quatro áreas: criança e adolescente; saúde; assistência social; e educação.

' A FAMÍLIA COMO VAI?'

 

Outros temas como “O Papel dos Atores Sociais nas Políticas Públicas” e “O Protagonismo dos Jovens”, além da colaboração dos movimentos sociais na elaboração das políticas públicas são tratados no Texto-Base da Campanha, bem como a questão da família.

“Em 2019, celebram-se os 25 anos da Campanha da Fraternidade que abordou o tema da família: “A família como vai?” Na ocasião, São João Paulo II dirigiu uma mensagem ao povo brasileiro que se faz ainda muito atual: ‘Urge, caros irmãos, restaurar o sentido cristão do Matrimônio. Urge considerá-lo, especialmente dentro da Pastoral das Famílias, como uma vocação à santidade nas realidades ordinárias da vida conjugal; recordem os casais que é sinal revelador da autenticidade do amor conjugal a abertura à vida, mesmo quando Deus não envia prole. Naturalmente, as responsabilidades da procriação se estendem também ao empenho de fazer crescer os filhos em uma vida humana e cristã, por meio de uma sadia e contínua obra educadora’” (CF, artigo 106).

 

O QUE É?

ESTADO: é a estrutura político-administrativa de um determinado país. No Brasil, está organizado em três poderes: Legislativo (vereadores, senadores, deputados); Executivo (prefeito, governador e presidente) e Judiciário (STF, STJ, TST, TSE, STM).

 

GOVERNO: é a autoridade governante de uma nação ou unidade política, que tem como finalidade regrar e organizar a sociedade.

 

AGENTE POLÍTICO: é o sujeito eletivo que necessitou de votos para estar no cargo ou aquele que ocupa cargos de confiança.

 

AGENTE PÚBLICO: é funcionário do poder público que está no cargo mediante concurso público.

 

(Com informações do Texto-Base da CF 2019 e CNBB)

 

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Estudo sobre a Campanha da Fraternidade é feito com colégios católicos

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06 de dezembro de 2018

A Igreja Católica no Brasil está empenhada em propagar a Campanha da Fraternidade de 2019, que terá como tema “Fraternidade e políticas públicas” e lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça (Is 1,27)”.

No sábado, dia 1o, cerca de 300 educadores das escolas católicas do Estado de São Paulo participaram, no Centro Universitário São Camilo, em São Paulo (SP), de um estudo sobre a CF 2019, organizado pela Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC) - Regional SP.

Padre Roberto Duarte Rosalino, CMF, Diretor do Colégio Claretiano e da ANEC - Regional SP, iniciou o encontro, enfatizando sobre a importância dos colégios católicos estarem em comunhão com a Campanha da Fraternidade.

A dinâmica do estudo baseou-se nos três momentos da metodologia pastoral: ver, julgar e agir. No primeiro momento, os educadores assistiram uma peça de teatro, que foi um disparador para a segunda parte: o julgar, no qual foram convidados quatro palestrantes ligados às realidades das políticas públicas. Por fim, os educadores propuseram os planejamentos escolares o que poderiam realizar em 2019.

“Há algum tempo, este encontro sobre a CF já existe, mas era muito baseado no discurso, focado em palestras. A proposta não era aprofundar, mas criar o desejo nos professores de se aprofundar no texto da CF. A gente pensou numa dinâmica do ver, julgar e agir, que, realmente, fosse vivencial, mas baseados até nas pedagogias que a gente está discutindo, que são as metodologias ativas, e não somente em discursos”, explicou Fernando Martins, membro do comitê organizador do encontro.

“A gente se distanciou das nossas lutas. A partir do momento que a gente conquistou algumas políticas públicas, a gente acabou se distanciando da questão da participação popular. A gente ver hoje conselhos esvaziados, fóruns que foram extintos, conferências com pouca participação popular. Eu acho que a Igreja e os movimentos se afastaram da luta. Da luta do conhecimento e da participação popular. É importante que os educadores se aproximem mais do que preconiza a Legislação, que é a participação popular, de verdade.  Se a gente não cobrar, nada sai”, destacou Elisabete Bento, do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto.

Dora Martins, juíza de segundo grau do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e membro da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJ-SP, salientou a quão é importante que as pessoas tenham a consciência, especialmente os educadores, de que  criança e adolescente é um sujeito de direito.

“Nós, como Estado, na qualidade de Judiciário, Legislativo e Executivo, temos o dever de garantir essas políticas públicas que vão beneficiar esses sujeitos de direito. Porque ele é um sujeito de direito, mas é um sujeito que ainda precisa de proteção, tanto que o sistema é de proteção integral para a criança. É muito importante entender, hoje, que essas questões estão ligadas à rede municipal de bem estar da criança. Devemos ter uma rede social que funcione com os três poderes e a comunidade”.

De acordo com o Frei José Hugo, OFM.Conv, é sempre um desafio conciliar fé e política. É sempre um desafio entender que a nossa fé tem que se traduzir em gestos concretos que mudem, de fato, a vida da nossa sociedade. “Não podemos apenas identificar problemas, que foi uma das grandes chaves de leitura deste encontro, mas precisamos ir atrás das soluções desses mesmos problemas. Acredito que hoje nós fizemos uma pequena contribuição para tudo isso, e espero que os próximos passos que nós dermos enquanto escolas católicas, enquanto comunidades cristãs católicas, favoreçam uma vida mais justa, digna e fraterna a todos os cidadãos de boa vontade. Esse foi o grande desejo desse encontro”, concluiu.

(Por Diego Monteiro)

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Formação destaca a temática da Campanha da Fraternidade 2019

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19 de outubro de 2018

A Região Episcopal Ipiranga deu formação para leigos e o clero sobre a Campanha da Fraternidade (CF) de 2019, que terá como tema “Fraternidade e Políticas Públicas”.

O Padre Antônio Aparecido Alves, da Diocese de São José dos Campos (SP) e formado em Doutrina Social da Igreja, foi um dos responsáveis pela redação do texto-base da CF 2019, conduziu as formações para os leigos, no encontro do Conselho Regional de Pastoral (CRP), no dia 6, e no Encontro Geral do Clero, no dia 9, que aconteceram na sede regional. 

Padre Antônio recordou a Encíclica Sollicitudo Rei Socialis, de São João Paulo II, que diz que “a estimulante preocupação pelos pobres – os quais, segundo a fórmula significativa, são ‘pobres do Senhor’ – deve traduzir-se a todos os níveis, em atos concretos até chegar decididamente a uma série de reformas necessárias”. Em outras palavras, segundo Padre Antônio “que agora aqueles que cantam ‘deixa a luz do céu entrar’ devem fazer com que a luz do céu, que já entrou em nós, se irradie, além de deixar que esse céu se expanda, para que outros possam ter, portanto, a presença da luz de Deus”. 

 

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Arabesque, ballet para todas no Jardim Brasil

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05 de março de 2018

A música clássica acompanhou o trajeto até a sala onde se podia ouvir: Plié... Relevé e a voz de Talyta Amaral, conduzindo um grupo de meninas. Vestidas com collant e calçando sapatilhas elas se equilibravam nas barras colocadas sobre o linóleo, tapete utilizado especialmente para dança. São 60 meninas, de 5 a 20 anos, que fazem parte do projeto “Arabesque – Ballet para todas”, criado e coordenado pelas irmãs Talyta e Tairine Amaral. Há cinco anos, elas começaram o projeto e hoje utilizam as salas que fazem parte do complexo da Paróquia Nossa Senhora da Livração, no Jardim Brasil, na zona Norte de São Paulo, para realizar o sonho de muitas meninas: dançar ballet.

“Éramos da Pastoral da Juventude e fazíamos apresentações de dança em eventos da Pastoral. Eu sempre era a responsável pelas coreografias”, recordou Talyta, que é professora de História e está terminando sua formação em dança clássica. Entre as jovens do grupo, uma delas sonhava em dançar ballet, mas esbarrava na questão financeira, pois o ballet é uma dança cara. “Comecei a perceber o quanto crianças e adolescentes da comunidade cultivavam esse sonho e, então, minha irmã, que é formada em dança, e eu juntamos algumas delas e começamos a dar aulas”, continuou.

O sonho de Thays Pereira, hoje com 19 anos, foi realizado, e o projeto saiu do papel.  “Abraçamos a causa, e o Arabesque foi crescendo. Quando você fala para seus amigos que faz ballet, eles pensam que você faz numa academia e investe muito dinheiro, mas tenho orgulho de explicar que é tudo gratuito e ver a admiração deles”, contou a jovem.

A movimentação é intensa aos sábados pela manhã, e as meninas, acompanhadas pelos familiares, vão chegando para participar das aulas que são dadas tendo como referência o método russo, escolhido pelas professoras por valorizar mais a força e os movimentos de braço. São seis turmas, que acontecem das 8h30 às 13h, e, além de Talyta e Tairine, a jovem Sâmia Mercedes, 17, está dedicando-se ao projeto.

“Fiz quatro anos de ballet em outro projeto, antes de conhecer o Arabesque. Aqui tive oportunidade de transmitir o que aprendi e comecei a dar aulas para as pequenininhas. Tudo é voluntário e fazemos isso porque realmente amamos a dança”, afirmou Sâmia, que sonha em cursar Medicina Veterinária e continuar dançando. 

REALIDADE

O Jardim Brasil, situado na zona Norte de São Paulo, tem índices altos de violência e aparece entre os bairros mais perigosos de São Paulo quando o assunto é estupro ou lesão corporal, por exemplo. De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública e organizados pelo jornal Estado de S. Paulo , em 2017, os departamentos de Polícia do Jaçanã e da Vila Gustavo, mais próximos geograficamente do Jardim Brasil, ocuparam o 3º e o 4º lugares – respectivamente – em casos de estupro, e o Jaçanã ficou em 3º lugar com maior quantidade de crimes qualificados como lesão corporal, além do 11º lugar no ranking do tráfico de drogas.

O bairro já passou por situações de extremo risco acerca do aliciamento de adolescentes e jovens para o tráfico. Uma matéria publicada em 2004 pelo jornal Folha de S.Paulo trouxe a realidade da convivência diária com traficantes no trajeto entre casa e escola, que fez com que o Jardim Brasil fosse – à época – a região da Capital Paulista com o maior número de internos na Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), atual Fundação Casa, por narcotráfico. 

SUPERAÇÃO

Para crianças, adolescentes e familiares, a questão é clara: o envolvimento com a arte e a dança é capaz de transformar a vida das pessoas e afeta diretamente no envolvimento das crianças, adolescentes e jovens em situações de violência.

Foi o que constatou Regina Celia Gonçalves do Lago, mãe da Gabriela Aparecida do Lago, 10, que participa do Arabesque há mais de três anos. “Minha filha gosta de ouvir música clássica, graças ao ballet. Além disso, ela é mais dedicada em tudo o que faz. Hoje, por exemplo, acordou bem cedo e sozinha”, disse a mãe, que agradeceu a atenção dispensada pelas professoras para ajudar quando as famílias têm dificuldades na compra de uniformes e outros itens necessários para a dança.

A mudança de comportamento e o comprometimento são atitudes comuns entre as bailarinas. Talyta relatou que percebeu tais mudanças em sua própria vida e que isso é um testemunho recorrente dos familiares. “O ballet traz envolvimento para a vida delas. Cresce o interesse pela arte e, devido à disciplina que o ballet exige, muda também o comportamento em casa”, continuou.

Com o apoio da comunidade e inspiradas no Ballet Paraisópolis, outro projeto de ballet que acontece em um bairro da periferia da cidade, as duas irmãs desejam que o Arabesque cresça e atinja mais pessoas e, para isso, estão trabalhando na criação de um CNPJ, que permitirá o recebimento de doações e patrocínios mais facilmente. “Temos total apoio da Paróquia [Nossa Senhora da Livração], mas acolhemos crianças e adolescentes de todas as denominações religiosas, e nosso critério é sempre geográfico, para que possa atingir principalmente a comunidade”, explicou Talyta. É o caso de Letícia Hermínio, 20, e Isabel Oliveira Santos, 13, que moram bem perto da Paróquia e participaram das primeiras oficinas, antes mesmo de o Arabesque ter esse nome.

E assim, partilhando os uniformes que não cabem mais e tentando fazer com que a ponta da sapatilha não quebre, para durar o maior tempo possível, as meninas do Jardim Brasil continuam a cultivar o sonho de serem bailarinas ou de simplesmente continuar dançando. São muitos limites a serem enfrentados: do corpo, do tempo e do dinheiro. A bailarina é aquela que usa a força para transmitir leveza, que transforma dor e sofrimento em beleza.
 

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PUC-SP e Arquidiocese promovem evento sobre a superação da violência

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23 de fevereiro de 2018

Para refletir e aprofundar o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)  e a Arquidiocese de São Paulo, em parceria com a Coordenação para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, promoveram um dia de atividades sobre a “Fraternidade e Superação da Violência”, na terça-feira, 20.

“Pela superação da violência institucional: diminuição da população prisional, fim da política prisional, desmilitarização e não criminalização das pessoas pobres e das lutas populares” foram as linhas centrais abordadas nas palestras que aconteceram das 9h às 12h e das 19h às 22h. No período da tarde, a programação contou com atividades culturais como filmes, documentários e debates.

Os estudantes, principalmente os recém-chegados à Universidade, participaram em grande número, bem como os demais estudantes de diferentes cursos, professores e membros de pastorais, organizações e movimentos sociais. Pela manhã, após a saudação da Professora Alexandra Geraldini, Assistente Doutora que representou a Professora Maria Amália Abib, Reitora; de Dom Luiz Carlos Dias, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo na Região Episcopal Belém; e do Professor Luiz Antônio Amaral, Assessor da Pastoral da Educação no Regional Sul 1 da CNBB, os convidados para a mesa puderam expor o tema conforme a programação.

Dom Luiz Carlos recordou a história da Campanha da Fraternidade, iniciada em uma pequena comunidade do Rio Grande do Norte, na década de 1960. “A Campanha da Fraternidade difunde a cultura da fraternidade e deseja instalar uma base para superar os males que nos atingem”, disse. Ele salientou também o fato de a Igreja estar atenta às realidades sociais contemporâneas e propor caminhos de superação para problemas como a violência, por exemplo.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Dom Devair Araújo da Fonseca, Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Brasilândia e Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação, explicou os objetivos principais da Campanha da Fraternidade e que o tema deste ano foi escolhido porque a Igreja tem a consciência de que a violência nunca é uma resposta justa. “Toda violência ultrapassa os limites – fere a dignidade das pessoas e, por isso, não pode ser um recurso nem uma opção válida e digna diante de qualquer situação, qualquer que seja a situação”, disse o Bispo que também foi um dos debatedores do evento.

Ele chamou atenção para a cultura da violência que parece estar enraizada, muitas vezes, na prática das pessoas e recordou os referenciais contidos na Palavra de Deus e na Doutrina Social da Igreja: “A Igreja é defensora dos marginalizados, dos mais fracos, e isso tudo constitui um patrimônio que não é apenas dela. É bom ressaltar que a violência não é um acontecimento exclusivo dos nossos tempos. A Igreja, ao longo da sua história, já vivenciou e enfrentou muitas formas de violência contra as pessoas.”

“Essa instituição [PUC-SP] tem por tradição a questão dos direitos humanos. O evento de hoje é bastante inspirador, pois teremos muitas perspectivas: a religiosa, a social e a jurídica.  Preparamos uma programação diversificada com momentos de descontração, culturais, palestras e a constante discussão de temas relevantes para todos nós”, afirmou a Professora Alexandra Geraldini.

Dados
“As múltiplas formas de violência no Brasil contemporâneo” foram comentadas pelo Professor Pedro Estevam Serrano, Docente da Faculdade de Direito da PUC-SP, que apresentou, como ele mesmo disse, “apenas uma pequena parte” de uma pesquisa mais ampla que desenvolve acerca do tema.
Sobre a questão das prisões, o Professor Serrano recordou que o Brasil é o terceiro País que mais aprisiona no mundo. “Da década de 1990 até hoje, nós mais que quadruplicamos o número de presos e chegamos a 750 mil. Crescemos 7% ao ano.”

Para ele, a sociedade está regredindo quando precisa defender princípios básicos de civilização. “O fato de não reconhecermos os 60 mil mortos por ano no Brasil como uma forma de genocídio faz com que esses mortos percam a dignidade. Eles não têm memória nem nome. O nosso papel, na universidade, é dar nome a esse tipo de fenômeno, é mostrá-lo”, continou.

Fábio Pereira, estudante de Ciências Sociais e membro da Associação de Amigos e Familiares de Presos (Amparar), apresentou casos de violência dentro das prisões. Ele disse ser importante refletir antes de repetir chavões acerca do sistema prisional brasileiro, e comentou o fato de as pessoas serem mantidas em situação de cárcere antes de serem julgadas e a necessidade de apoio às famílias, algo que, poucas vezes, é dado pelo Estado.

Gustavo Diniz Junqueira, Defensor Público e Docente da Faculdade de Direito da PUC-SP, que falou sobre a não criminalização das pessoas pobres e das lutas sociais, recordou dados como o de a pena para o furto de um veículo automotor ser, por exemplo, maior do que a praticada por crimes de tortura ou a de manutenção de pessoas em situação análoga à escravidão.

“Esses desequilíbrios da legislação mostram que ela tende a servir mais a uma tutela patrimonial do que à tutela da dignidade, da integridade, da vida, da honra, da liberdade, da autonomia etc. E partindo daí, se o direito penal tem essa inclinação, é uma consequência quase inevitável a criminalização da pobreza”, afirmou Junqueira.

Outro exemplo trazido pelo Defensor foi o fato de ser comum que o suspeito fique preso por não conseguir provar residência fixa nem emprego formal. “Mas é claro que não, em um País de tantas e tantos milhares de sem--teto, quando o sujeito vai provar residência fixa? Ele não a tem, por isso vai ficar preso; e a não prova do trabalho formal, igualmente, é motivo reiterado nos Tribunais para se manter alguém preso”, explicou.

Alternativas
Já o tema da desmilitarização foi apresentado pelo Tenente Coronel Adilson Paes de Souza. Membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e Mestre em Direitos Humanos pela USP, ele comentou sobre a necessidade de se repensar a segurança pública no Brasil. Alguns caminhos foram apontados para que isso aconteça, como a aplicação do Programa Estadual de Direitos Humanos, proposta de ação do Governo do Estado de São Paulo aprovada em 1997, mas, mesmo depois de 20 anos, ainda não aplicada.

“Também é importante que o Ministério Público exerça o controle da atividade policial, e precisamos começar a pautar a discussão sobre a unificação das polícias”, afirmou o Coronel, autor do livro “Guardião da Cidade - Reflexões Sobre Casos de Violência Praticados por Policiais Militares”.

Sobre as alternativas que contribuam para mudar uma cultura de criminalização da pobreza, Junqueira disse que não vê um mecanismo que consiga isso a curto prazo. “Parece-me que, a médio e longo prazo, uma série de medidas podem ser tomadas em tantos campos de atuação e dentro da Universidade, como por exemplo, um ensino mais crítico sobre o papel do jurista e do operador do Direito. Até que ponto o Direito deve ser apenas um instrumento de manutenção como sempre
foi? Ou pode ter um papel transformador?”, questionou.

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Assembleia Legislativa de São Paulo realiza apresentação da CF 2018

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17 de fevereiro de 2018

A Campanha da Fraternidade (CF) 2018, que teve início na Quarta-feira de Cinzas em todo Brasil, será apresentada na próxima terça-feira, 20, na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

A iniciativa do evento é do Padre Afonso Lobato, Deputado Estadual pelo Partido Verde, e tem como objetivo de envolver o Parlamento paulista na superação da violência. 

O tema proposto este ano é “Fraternidade e superação da Violência” e o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), com o objetivo geral de construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da palavra de Deus.

A primeira Campanha da Fraternidade (CF) em âmbito nacional, foi realizada em 1964, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Desde lá, muitos temas foram propostos para a reflexão quaresmal no País.

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Pastoral Fé e Política promove discussão sobre superação da violência institucional

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16 de fevereiro de 2018

A Campanha da Fraternidade organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 2018, tem como tema “Fraternidade e a superação da violência”. Dessa forma, a Igreja do Brasil é convidada a pensar maneiras de vencer as inúmeras formas de hostilidade existentes no país.

Em parceria com a Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e Coordenação para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, acontece na próxima terça-feira, 20, no auditório da PUC-SP (rua Ministro Godói, 969, Perdizes, São Paulo - SP), o evento “Pela superação da violência institucional: diminuição da população prisional, fim da política de “guerra às drogas”, e desmilitarização e não criminalização das pessoas pobres e das lutas populares”.

A programação tem início às 9h e segue até às 22h. Ao longo das atividades, serão trabalhados temas como superação da violência institucional, as vítimas da violência no Brasil contemporâneo, redução da população carcerária e descriminalização do usuário, além de exposição com filmes e documentários.

Durante toda a semana na recepção dos novos alunos, os calouros poderão visitar uma amostra com painéis sobre a Campanha da Fraternidade 2018, na PUC-SP.

Mais informações acesse: http://j.pucsp.br/noticia/fraternidade-evento-apoia-superacao-da-violencia

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Veja a programação completa

 

 

 

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