A vida para quem crê não é tirada, mas transformada’

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01 de novembro de 2019

O luto, diante da morte de uma pessoa querida, é, indiscutivelmente, uma fase difícil, para a maioria quase absoluta das pessoas. Dor que angustia e que, muitas vezes, parece não ter fim. E, embora o luto seja um sentimento universal, cada pessoa reage de uma forma e precisa de um tempo específico para sair dele. Em todos os casos, porém, o luto é indispensável e pode ser uma oportunidade para refletir sobre a vida e valorizá-la sempre mais.

AMOR DE MÃE
É a primeira vez que Claudia Lucena Grandini, 42, conta sua história para além do círculo de amigos e família. Ela perdeu a filha, Vanessa Grandini Ferreira, quase dois anos atrás, quando a jovem havia completado 20 anos. 
Era a manhã do dia 20 de novembro de 2017, quando os pais de Vanessa a encontraram no banheiro, já sem vida. Ela faleceu por consequência de uma embolia pulmonar, decorrente de uma trombose. 
“Mudamos para aquele apartamento havia cerca de três meses e estávamos ali para realizar um sonho da Vanessa, de morar perto de uma estação de metrô. Quando ela faleceu, não sabíamos o que fazer, para onde ir. Demoramos seis meses, e a mudança não foi fácil, pois tivemos que retirar todos os objetos dela e decidir o que fazer com eles. Foi uma segunda perda”, disse a mãe.
Diagnosticada com endometriose desde a adolescência, Vanessa tomava remédios que, possivelmente, causaram a trombose. Como ela tinha problemas respiratórios, não resistiu e, em questão de segundos, tudo aconteceu.
Vanessa estava namorando, cursava Relações Internacionais e tinha conseguido uma vaga de emprego em uma grande empresa. “Era um momento de realização. Ela estava muito feliz”, recordou Claudia.
Para a mãe, o mais difícil foi e, continua sendo, retomar a rotina. “Tenho comemorado cada pequena conquista. Às vezes, o fato de comer um doce que ela gostava ou ir a algum lugar que frequentávamos sempre, já me deixa feliz. À noite, quase não consigo dormir, pois lembro que a esperava chegar da faculdade. Além disso, ela me ligava perguntando o que eu ia fazer para o jantar e, no fim de semana, combinávamos um programa juntas. Era uma filha muito querida e sempre presente.”
Com o tempo e depois de buscar ajuda, Claudia começou a controlar o choro repentino e os momentos em que se sentia sufocada por uma dor angustiante. “Além dos amigos e da família, faço terapia e tomo remédios. Posso afirmar que a ajuda da comunidade católica também foi muito importante.”

APOIO E COMPREENSÃO
“Quando a Vanessa faleceu, num primeiro momento, eu culpei Deus, pois aquilo não era justo. Mas, com o tempo, percebi que, se não tivesse fé, eu não teria suportado. Um dia, fui ao Santuário São Judas Tadeu, no Jabaquara, para rezar. Ajoelhei-me aos pés da imagem de Nossa Senhora e pedi que ela – Mãe de Jesus – cuidasse da minha filha. De repente, todas as luzes ao redor da imagem se acenderam. Tive um sentimento muito forte de gratidão e acreditei que, verdadeiramente, minha filha estava com Deus, já que ela era uma pessoa tão iluminada e, por isso, só poderia estar junto Dele. Após este dia, eu me senti muito melhor.”
A fé, a oração e a participação na comunidade foram essenciais para Claudia. Além disso, ela foi apoiada por todos, inclusive na empresa em que trabalha. 
“Tive uma redução de carga horária para cuidar melhor de mim. Isso foi maravilhoso, pois eu não tinha mais forças para trabalhar o dia inteiro e, se eles não tivessem percebido isso, eu poderia estar fora do trabalho, o que seria mais uma perda”, explicou.
Claudia sonha em escrever um livro sobre sua história. “Eu li muita coisa sobre o luto, e o que mais me ajudou foram os testemunhos de outras mães. Por isso, eu quero escrever, para ajudar as pessoas, compartilhar a dor e o amor”, disse.

NOS BRAÇOS DO FILHO
Era o dia 10 de setembro, quando Carmen Bonizol Bernardes, sorrindo, faleceu nos braços do filho, Jorge Bernardes, 62. Ela completava, naquele dia, 94 anos de idade e morreu após permanecer três meses acamada, pois caiu em casa e quebrou o fêmur, não conseguindo se restabelecer. 
O filho mais novo entre quatro irmãos é padre na Arquidiocese de São Paulo e pároco na Paróquia Santa Rita de Cássia, na Região Episcopal Ipiranga. Quando falou sobre a mãe, em entrevista ao O SÃO PAULO, ele recordou que ela não aparentava a idade que tinha e, mesmo após os 90 anos, zelava da casa e das flores e ainda cuidava dele e das irmãs, quando, por algum motivo, ficavam doentes.
“Minha mãe praticava tai chi chuan junto ao grupo de idosos do Sesc, ia sempre à missa e rezava o Terço todos os dias, às seis horas da tarde.” As lembranças, tão afetuosas, foram acompanhadas de muita emoção quando Padre Jorge falou sobre a morte da mãe e como tem vivido o luto.
Ele contou sobre como sua mãe era sociável e tinha se integrado bem à comunidade desde quando começou a frequentar a casa paroquial, na região da Água Rasa. “Ela me ajudou muito na casa, fazia compras com seu próprio dinheiro e era feliz por isso. Sabia os limites da sua maternidade, não invadia minha liberdade. Quando eu chegava à minha casa, cansado, encontrava a mesa posta e um sorriso aberto e compreensivo. Era como se ela visse meu coração, mais do que minha aparência.”
Três meses antes do falecimento da mãe, Padre Jorge resolveu que precisava cuidar dela e começou a passar parte da semana no hospital.  “Foram meses difíceis, pois ela quase não conseguia dormir. Rezávamos o Terço sempre e, quando percebemos que os remédios contra dor estavam causando perda em sua memória ou capacidade mental, por decisão dela, diminuímos os analgésicos, o que lhe causava ainda mais dor”, explicou.

FÉ E GRATIDÃO
“Eu pedi a Deus a graça de cuidar dela e Ele me permitiu fazer isso durante três meses. Pedi que a passagem dela não fosse marcada por sofrimento ou violência, e Ele me concedeu, pois a mãe morreu em casa. Pedi ainda que eu estivesse junto dela, quando ela morresse e assim aconteceu, pois ela morreu nos meus braços. Assim, enquanto eu viver, não me cansarei de render graças a Deus por tudo isso”, afirmou Padre Jorge.
O Sacerdote salientou que a morte de um ente querido, não importa a idade ou as circunstâncias, sempre será uma grande dor. “Precisamos aprender sobre a perda. Precisamos explicar ao corpo o que significa não ter mais a pessoa querida. Todos sofrem com a morte e, por isso, a dor nos iguala”, disse. 
Ele explicou ainda que o sentimento de perda vem da ordem das emoções e, por isso, não é possível ter controle sobre ele. “Por isso, mesmo pessoas de fé sofrem muito com a perda de um ente querido, porque a emoção vem a partir do desconhecido mundo psíquico. Já a fé é da ordem da razão e, por isso, é possível decidir que, mesmo diante de um grande sofrimento, é preciso estar de pé e acreditar que as pessoas queridas estão protegidas na presença de Deus”, disse. 
“É pela fé que decidimos continuar, pois acreditamos em Deus, que nos regenera e nos devolve o gosto pela vida. Pelo luto, tomamos conhecimento da morte, nos colocamos numa atitude de humildade e confiança e acreditamos que, um dia, estaremos também nós na presença de Deus”, continuou Padre Jorge.

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