Com esperança de vida melhor, venezuelanos chegam a São Paulo

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13 de março de 2019

Depois de cerca de cinco horas de viagem aérea de Boa Vista (RR) a São Paulo (SP), com conexão em Brasília (DF), o grupo de sete imigrantes venezuelanos foi acolhido na casa preparada pela Pastoral do Migrante da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Episcopal Brasilândia, na sexta-feira, 8.

As primeiras a entrar na casa foram as crianças: Isabella Victoria Lezama Yepez, 9, Samantha Valentina Lezama Yepez, 7, e Juan Pablo Lezama Yepez, 4. Filhos do casal Cruz Angel Lezama Natera, 47, e Yussi Elizabeth Yepez de Lezama, 41, os pequenos fizeram uma festa quando entraram no quarto preparado pelas famílias e viram as camas repletas de brinquedos.

Já os irmãos Marvin Joel Arnal Gomez, 28, e Josué Manases Arnal Gomez, 22, estavam mais tímidos. Somente com a roupa do corpo, portavam apenas uma pasta com os documentos.

Os imigrantes chegaram a São Paulo com o desejo de conseguir emprego e logo ter condições de alugar uma casa e poder prover o seu sustento.

 

SOLIDARIEDADE

A casa foi mobiliada com doações, assim como os alimentos e utensílios domésticos. O aluguel e as despesas com água e energia elétrica serão pagos pelo Serviço Pastoral do Migrante (SPM), enquanto os paroquianos arcarão com as demais despesas do dia a dia.

No almoço oferecido pela comunidade, estavam alguns voluntários acompanhados pelo Pároco, Padre Edemilson Gonzaga. Durante a refeição, os imigrantes compartilharam com a reportagem do O SÃO PAULO o drama vivido em seu país e suas esperanças.

 

CRISE ECONÔMICA

Engenheiro eletrônico, Cruz partiu de sua terra natal para Roraima há um ano e meio. Com um bom cargo na empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), ele se viu obrigado a renunciar ao cargo e deixar o País após o agravamento da crise que desvalorizou enormemente a moeda local. Em 2007, Cruz recebia um salário equivalente a mil dólares. Dez anos depois, seu salário equivalia a 5 dólares. “Com isso, eu não poderia mais sustentar minha família, pagar a escola de minhas filhas, pois o ensino público era muito precário”, relatou.

Em uma de suas férias, Cruz foi com a família a Boa Vista para verificar a possibilidade de residir na cidade. Em seguida, deixou a esposa e os filhos na casa de uma cunhada que já morava lá, e retornou à Venezuela para formalizar seu desligamento da empresa, pagar contas pendentes e deixar de vez o País.

 

FALTA COMIDA

O casal destacou que a logística para conseguir alimentos era muito difícil, por meio de um programa do governo, cujos critérios de seleção dos beneficiários, segundo o relato deles, são mais políticos do que humanitários. “Há pessoas que não comem praticamente nada. Eu conheci famílias que ficam dias sem comer e estão muito debilitadas”, disse Yussi.

A venezuelana chegou a passar a noite nas filas intermináveis para comprar comida e produtos de necessidade básica. “A primeira vez que enfrentei essas filas foi há quase cinco anos, quando Juan Pablo estava prestes a nascer, para comprar fraldas”, lembrou.

Ainda segundo a mãe de família, a classe média praticamente não existe no País. “Ainda há famílias com boas casas, carros, mas sem dinheiro para mantê-los, sem sequer ter condições de comer.” Outro problema relatado é o alto índice de violência desencadeado pela crise. “Tínhamos medo de andar nas ruas. Havia gangues armadas em motos que assaltavam as pessoas”, completou a imigrante.

 

SITUAÇÃO POLÍTICA
 

Na percepção do grupo de imigrantes, a crise no País começou a ser percebida logo após a morte do presidente Hugo Chávez, em 2013. Para eles, o povo depositou uma esperança no líder que depois não se concretizou. “Antes, havia dois grupos políticos muito fortes que se alternavam no poder por décadas. Porém, ambos eram ruins e corruptos. Chávez surgiu com a promessa de ser uma alternativa a essa situação, como um salvador da pátria, sobretudo dos mais pobres. O que vemos hoje é o contrário. Os pobres são os que mais sofrem com a miséria.”

Os imigrantes reconhecem que muitas pessoas estão esperançosas com a ascensão do autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó. No entanto, eles ainda estão receosos de que a mudança possa vir por meio de outro “salvador da pátria”.

“O culpado por todos os problemas na Venezuela é o próprio venezuelano, porque não assumiu sua responsabilidade como pessoa, dando poder a alguém que não sabe governar para o bem de todos”, enfatizou Cruz.

 

FUTURO DO PAÍS

Quando perguntado se tem esperança de retornar em breve a seu País, Cruz abaixou a cabeça por um instante e disse que não crê que a situação se resolva tão logo, e que o processo não é simples. “É um problema muito complexo. A Venezuela não vai se reerguer em pouco tempo. Todas as estruturas do País estão corrompidas e debilitadas. Para se superar isso, são necessários recursos financeiros e humanos. A grande maioria dos profissionais com conhecimento técnico foi embora. Eu estou profundamente triste pela situação do meu País”, explicou.

 

EMPREGO

Os jovens irmãos Gomez estavam em Boa Vista havia quatro meses. Deixaram seus pais e irmãos em busca de condições de tirá-los do País.

“Nós queremos trabalhar no que for possível, construção civil, marcenaria, qualquer coisa. Temos esperança de ajudar os nossos familiares a sair da situação que estão vivendo em nosso País”, contou Josué. “A grande dificuldade em Roraima é que não há emprego, nem oportunidades para provermos o próprio sustento e ter uma vida melhor”, acrescentou Marvin.

Foi a falta de emprego em Roraima que também motivou a vinda da família de Cruz para o Sudeste. “Minha expectativa é conseguir um emprego. Eu não vim para pedir, eu vim para dar. Deemme a oportunidade de mostrar que posso ser útil para a sociedade”, afirmou o engenheiro.

“Na Venezuela, temos a nossa casa, mas não temos comida nem escola para nossos filhos. Não era o que desejávamos, deixar nosso lar, nossa vida na nossa terra. Essa situação toda que nos forçou a sair”, completou Yussi.

 

ACOLHIDA

No domingo, 10, os imigrantes foram acolhidos em uma das missas da Paróquia Santa Cruz. Na segunda-feira, 11, os agentes da Pastoral do Migrante começaram a ajudar o grupo a matricular as crianças na escola e no serviço público de saúde, além de ajudar os adultos a procurar emprego. A Paróquia também irá oferecer um curso de Português para eles.

“Que essa iniciativa possa inspirar outras comunidades a abrir seus corações para acolher esses irmãos que vieram para o Brasil em busca de uma vida mais digna”.

 

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Operação Acolhida a venezuelanos segue até 2020

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29 de janeiro de 2019

Foi anunciado pelo Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e pelo Governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), no dia 17, em Boa Vista (RR), que a Operação Acolhida - que promove a interiorização de imigrantes e refugiados venezuelanos - será prorrogada até março de 2020.

A decisão impossibilita o fechamento da fronteira com a Venezuela.

Na sexta-feira, 18, Denarium, Azevedo e Silva, e os ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta; da Educação, Ricardo Vélez; da Cidadania, Osmar Terra; e o titular da Controladoria-Geral da União, Wagner Rosário, estiveram na fronteira do Brasil com a Venezuela e analisaram as instalações utilizadas pelo programa no município de Pacaraima, que é considerado a principal porta de entrada dos refugiados.

O Ministro da Defesa descartou qualquer possibilidade de interrupção da operação que antes estava prevista para 31 de março. O projeto foi lançado pelo Governo Federal em março de 2018, com a proposta de combater a crise humanitária provocada pela intensa migração venezuelana.

Fonte: Agência Brasil
 
 

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Setor Perus realiza último encontro do curso de acolhida

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13 de setembro de 2018

No sábado, 15, das 14h30 às 17h, o Setor Pastoral Perus realizará o último dos quatro encontros do curso de acolhida. A atividade acontecerá na igreja-matriz da Paróquia São José (Rua João Jacinto de Mendonça, 134, Jardim Russo).

O tema deste encontro será “Orientações práticas para as equipes de acolhida”, ministrado pela equipe da Paróquia São José e pelo Padre Cilto José Rosembach, Pároco.

Os três primeiros encontros trataram sobre “O que é a pastoral da acolhida?”; “A acolhida na Bíblia como Jesus acolhia” e a “A espiritualidade da acolhida”. Nessas ocasiões, a média de participação foi de 80 pessoas.

 

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Acolhida a venezuelanos avança no Brasil

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09 de setembro de 2018

O fluxo migratório de venezuelanos para o Brasil tem se mostrado um desafio constante às autoridades brasileiras. Por dia, entre 600 e 800 pessoas do país vizinho atravessam a fronteira com o Estado de Roraima, onde nem sempre encontram um ambiente acolhedor. Em 18 de agosto, por exemplo, em Pacaraima, venezuelanos foram expulsos pela população local após o suposto envolvimento de alguns deles em um assalto.

O Governo de Roraima já tentou autorização na Justiça para fechar a fronteira, mas o pedido foi negado pelo Supremo Tribunal Federal. No dia 29 de agosto, em uma entrevista de rádio, o presidente Michel Temer (MDB) sinalizou para uma possível política de distribuição de senhas aos imigrantes venezuelanos, mas negou que isso signifique fechar a fronteira.

Um dia antes, Temer assinou um decreto para o emprego das Forças Armadas, com poder de polícia, nas fronteiras e rodovias de Roraima. A medida vale, inicialmente, até 12 de setembro.

Em artigo publicado na agência de notícias EFE, na segunda-feira, 3, o Presidente da República voltou a afirmar que não fechará a fronteira com a Venezuela. Disse, ainda, que o Brasil tem dado suporte humanitário e jurídico para a permanência desses imigrantes e que atua junto a outros países do continente para fazer com que o governo venezuelano retome “o caminho da democracia, da estabilidade e do desenvolvimento. Passo importante foi a suspensão da Venezuela do Mercosul, em aplicação da cláusula democrática”.

 

RESTRINGIR O ACESSO RESOLVERIA?

Na avaliação de José Maria de Souza Júnior, professor de Relações Internacionais nas Faculdades Integradas Rio Branco e Mestre em Integração da América Latina pela USP, a estratégia de distribuir senhas aos imigrantes venezuelanos seria apenas um paliativo diante da falta de estrutura do Brasil para receber o atual contingente de imigrantes.

“Seria uma restrição bastante forte, mas não considero um fechamento de fronteira. É uma tentativa de controle, de amenizar a situação. A coordenação dessa política deveria ser feita via Polícia Federal e os ministérios da Defesa, Relações Exteriores, Gabinete da Presidência, Casa Civil e do Trabalho. Como está, não se consegue coordenar a atuação para outras políticas que seriam necessárias”, opinou ao O SÃO PAULO.

Para o Padre Paolo Parise, Scalabriniano, Coordenador da Missão Paz, que acolhe imigrantes de diferentes partes do mundo em São Paulo, estabelecer limites para a entrada dos venezuelanos no Brasil poderá agravar ainda mais a situação.

“Não funciona a ideia de fechar a fronteira nem a de colocar um limite de entrada. Isso somente incentivaria o gerenciamento por grupos de máfia, os chamados coiotes, que aproveitariam para ganhar dinheiro trazendo os imigrantes de outra forma. Já vimos o que aconteceu com os haitianos: quando o Brasil limitou a emissão de vistos, criouse uma rota via Equador, entrando pelo Acre, que levou à chegada de mais de 50 mil haitianos”, recordou.

 

INTERIORIZAÇÃO

Desde abril, o Governo Federal tem promovido a interiorização dos imigrantes venezuelanos que chegam a Roraima, viabilizado a ida dessas pessoas para outros estados. A ação conta com o apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), da Agência da ONU para as Migrações, do Fundo de População das Nações Unidas e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Souza Júnior considerou a interiorização como indispensável, mas alertou para possíveis limites desse processo. “O Brasil está em crise. Há no país quase 13 milhões de desempregados. A maior parte dos venezuelanos que chega a Pacaraima é de pessoas sem qualificação, pois os mais qualificados já buscam cidades mais populosas. Não sei em que medida há condições de absorver os venezuelanos no Brasil”, comentou.

Até agora, mais de mil imigrantes venezuelanos foram transferidos para outros estados.

 

MISSÃO PAZ

Um dos locais de acolhida em São Paulo é a Missão Paz, mantida pelos Missionários Scalabrinianos. Atualmente, junto a imigrantes de diferentes países, ali vivem 47 venezuelanos transferidos de Roraima pelo processo de interiorização e outros que chegaram ao local por conta própria.

Segundo o Padre Paolo Parise, desde o início ano, foram acolhidos 2.925 imigrantes de diferentes nacionalidades, 248 dos quais venezuelanos. Muitos destes já melhoram sua condição de vida e deixaram o local.

“Temos aqui um programa de mediação de trabalho para os imigrantes. As empresas vêm contratá-los, de modo que todos os imigrantes venezuelanos que aqui chegaram em abril e maio pela interiorização já estão trabalhando, saíram daqui e alugaram lugares para morar. Dos que vieram em julho, metade já está trabalhando”, garantiu o Sacerdote.

Padre Paolo enfatizou que todo o trabalho é mantido sem aporte financeiro dos governos Federal, Estadual ou Municipal. As verbas provêm da própria Congregação Scalabriniana e de doações individuais, de colégios e paróquias da Arquidiocese.

A Casa do Migrante, que é o serviço de abrigamento da Missão Paz, tem capacidade para acolher até 110 pessoas. Além de um ambiente para dormir, os imigrantes contam com sala de tevê e brinquedoteca, aulas de Português e acompanhamento psicossocial. A Missão Paz também auxilia na regulamentação da documentação e lhes disponibiliza atendimento jurídico, médico, psicológico, encaminhamento para cursos profissionalizantes, palestras interculturais e mediação para ingresso no mercado de trabalho. Também atua na incidência política, na perspectiva da construção de legislações que garantam a dignidade dos imigrantes em todo o Brasil.
Interessados em colaborar com a Missão Paz podem obter outros detalhes pelo telefone (11) 3340-6950 ou pelo site

 

OUTROS PONTOS DE ACOLHIDA EM SÃO PAULO

A Prefeitura de São Paulo também participa do processo de interiorização dos imigrantes venezuelanos.

“Até o momento, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) acolheu 212 venezuelanos, sendo 185 homens e 27 mulheres, entre os Centros Temporários de Acolhimento São Mateus, Butantã e o Centro de Acolhida Especial Penha”, informou a assessoria de imprensa da Prefeitura à reportagem.

A SMADS tem atuado em conjunto com as secretarias de Direitos Humanos e Cidadania, Trabalho e Empreendedorismo, Saúde, Educação e Relações Internacionais. Há também a capacitação de funcionários que atuam diretamente com os imigrantes, além de encaminhamento destes para a regularização da documentação e para cursos voltados ao mercado de trabalho. “Não há um tempo de permanência limite dentro dos serviços de acolhida para os venezuelanos. Alguns, inclusive, conseguiram trabalho e já saíram da rede de atendimento”. Também têm sido ofertadas aulas de Português e já houve “mutirões de atendimento médico e odontológico, estética e massagem e corte de cabelo e barba para todos eles”.

 

(Com informações da Agência Brasil, Planalto e G1)

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