Governo fecha 21 hospitais administrados pela Igreja Católica

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24 de junho de 2019

Milhares de doentes em toda a Eritreia foram privados de cuidados médicos vitais depois do governo ter interditado três hospitais, dois centros de saúde e 16 clínicas, na última semana. As informações chegaram por meio de uma fonte da Igreja Católica local, que informou à Fundação Pontifícia ACN (Ajuda à Igreja que Sofre) sobre o ocorrido.

De acordo com a fonte, as pessoas correm risco de morte caso os serviços não sejam retomados rapidamente, sendo que muitos pacientes expulsos tiveram de percorrer até 25 quilômetros para acessar outra clínica.

O fechamento levou os quatro bispos da Eritreia a condenar a ação por meio de uma carta enviada ao ministro da Saúde da Eritreia, Amna Nurhusein. A carta enfatiza que o programa de confisco, que fechou todas as instalações do serviço de saúde da Igreja Católica, alguns deles com mais de 70 anos de atividade, é “profundamente injusta”.

A carta declara: “Privar a Igreja de cuidar dessas instituições é minar sua própria existência e expor seus trabalhadores à perseguição religiosa. Declaramos que não entregaremos nossas instituições e equipamentos de livre e espontânea vontade”, confirmando o que uma outra fonte local disse: “A equipe de algumas das clínicas se recusou a entregar as chaves para que os soldados invadissem as mesmas”.

O contato da ACN acrescentou: “Nossa mensagem ao governo é simples: deixe-nos em paz. É dever da Igreja cuidar dos doentes, dos pobres e moribundos. Ninguém, nem mesmo o governo, pode dizer à Igreja para não fazer o seu trabalho. Nossas instalações médicas estavam seguindo fielmente as diretrizes do ministério da saúde e, na maioria das vezes, os supervisores do ministério apreciavam muito o trabalho realizado”.

A fonte católica disse que o governo queria ser o único provedor de assistência médica, mas que a maioria das pessoas preferia institutos administrados pela Igreja, já que os serviços estatais geralmente têm equipamentos precários e falta de pessoal, e muitos procuram asilo no exterior. “Ao fornecer esses serviços, a Igreja não está competindo com o governo, mas está simplesmente complementando e auxiliando o que o governo faz”.

Não está claro se o regime pretende reabrir os institutos mais tarde. O contato da ACN disse que os centros de saúde católicos confiscados pelo governo há dois anos continuam fechados até hoje. Ele apelou à comunidade internacional, incluindo o governo do Reino Unido, para pedir ao governo do presidente Isaías Afewerki que procure o caminho da reconciliação.

Sobre a ACN (Ajuda à Igreja que Sofre)

A ACN (Ajuda à Igreja que Sofre) é uma instituição de caridade católica que auxilia a Igreja por meio de informações, orações e projetos de ajuda a pessoas ou grupos que sofrem perseguição e opressão religiosa e social ou que estejam em necessidade. Fundada no Natal de 1947, a ACN tornou-se uma Fundação Pontifícia da Igreja em 2011.

Todos os anos, a instituição atende mais de 5.000 pedidos de ajuda de bispos e superiores religiosos em cerca de 140 países, incluindo: formação de seminaristas, impressão de Bíblias e literatura religiosa, incluindo a Bíblia da Criança do ACN, com mais de 51 milhões de exemplares impressos em mais de 180 línguas; apoia padres e religiosos em missões e situações críticas; construção e restauração de igrejas e demais instalações eclesiais; programas religiosos de comunicação; e ajuda aos refugiados de conflitos e vítimas de desastres naturais.

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‘Testemunho de uma Igreja que sofre’

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05 de junho de 2019

O Paquistão é um país com quase 200 milhões de habitantes, sendo 95% muçulmanos. Os cristãos somam somente 2% da população. Nesta minoria, encontra-se o Arcebispo de Karachi, o Cardeal Joseph Coutts, que visitou o Brasil pela primeira vez, a convite da ACN, e participou da Assembleia Geral da CNBB. O Cardeal Coutts concedeu esta entrevista na sede da ACN Brasil, em São Paulo, e apresentou a realidade dos cristãos no Paquistão, abordando aspectos sobre preconceito e discriminação religiosa.

QUAL A REALIDADE DOS CATÓLICOS NO PAQUISTÃO?
De acordo com a Constituição, a liberdade religiosa é reconhecida, embora os altos cargos do Estado não sejam acessíveis às minorias religiosas no Paquistão. Nos últimos anos, porém, tem havido muitas mudanças na sociedade, e nós, católicos, somos chamados a ser testemunhas de uma Igreja que sofre.

O PAQUISTÃO FICOU MAIS INTOLERANTE ENTÃO?
Não o país, mas uma minoria extremista que deseja um estado muçulmano. Infelizmente, grupos islâmicos começaram a se fortalecer e pressionar os governos a introduzir leis islâmicas. Uma dessas leis, a Lei da Blasfêmia, introduzida em 1986, acabou se tornando um problema para os cristãos. De acordo com a lei, qualquer um que fale contra o Profeta Maomé ou manche seu nome por escrito ou de qualquer outra forma, deve ser sentenciado a morte. Essa lei também diz que se alguém corromper o Alcorão, deve ser condenado à prisão perpétua. Mesmo que o Corão caia acidentalmente das mãos, isso pode ser considerado uma profanação. O problema da Lei da Blasfêmia é a sua má interpretação. Até os muçulmanos moderados sofrem com acusações sobre blasfêmia. Embora esta lei tenha a intenção de proteger a honra do Profeta Maomé e do Livro Sagrado, ela pode ser facilmente usada de maneira imprópria. É muito fácil para um muçulmano acusar alguém de blasfêmia. Em muitos casos, trata-se de uma acusação infundada, mas o acusador usa a Lei da Blasfêmia como meio de vingança pessoal. Recentemente, tivemos o caso de Asia Bibi, uma pobre cristã condenada à morte por blasfêmia, que finalmente foi absolvida. 

EXISTEM MUITAS ACUSAÇÕES PELA LEI DA BLASFÊMIA?
O caso de Asia Bibi foi apenas o mais famoso, porém há muitos outros. Eu me lembro do massacre de Gojra, em 2009, quando crianças fizeram confetes com páginas de jornais que continham versos do Alcorão. Por causa disso, uma multidão irada atacou um bairro cristão e incendiou cerca de cem casas. Oito pessoas perderam a vida nas chamas. Também houve outros ataques semelhantes, por exemplo, em Lahore, em 2013. Várias pessoas foram espancadas até a morte sem que pudessem provar sua inocência. Mesmo que um tribunal declare uma pessoa inocente, o acusador tentará matá-la. Em um desses casos, um juiz muçulmano foi morto em seu escritório porque havia declarado um cristão inocente ao término de um processo.

QUAIS OUTRAS DIFICULDADES OS CRISTÃOS ENFRENTAM?
Outro problema que o governo é incapaz de impedir é o sequestro e conversão forçada ao Islã de meninas cristãs e hindus que são obrigadas a se casar com seus captores. Não há números oficiais a esse respeito, porém se acredita que todos os anos muitas meninas são arrancadas de suas famílias e forçadas a se converter.

ESSA DISCRIMINAÇÃO GERA O AUMENTO DO EXTREMISMO?
A discriminação alimenta uma sociedade cada vez mais intolerante e preconceituosa. Os extremistas enxergam o Ocidente como cristão, e esse pensamento radical do Islã não acredita na democracia, que é vista como um conceito ocidental. Eles querem que o Paquistão se torne um estado puramente islâmico e não hesitam em usar homens-bomba para atacar e matar quem quiserem. Eles representam uma ameaça real para os cristãos, pois nos consideram infiéis.

HÁ SINAIS DE ESPERANÇA?
Sempre haverá sinais de esperança quando se tem fé. Somos uma pequena minoria, mas isso não significa que somos ocultos ou silenciosos. Em nossas igrejas, escolas e instituições cristãs, realizamos um trabalho muito importante, também reconhecido por muitos muçulmanos. Tudo isso graças ao auxílio de muitas pessoas ao redor do mundo, que nos apoiam com ajuda econômica, jurídica e espiritual, por meio de orações.

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Um coração disposto ao sacrifício

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05 de junho de 2019

O Paquistão é um país de maioria islamica, onde os cristãos representam 2% da população, dos quais mais de 40% não sabem escrever nem ler; e onde a violência, a discriminação contra as minorias, bem como o fanatismo e o uso abusivo da Lei da Blasfêmia estão na ordem do dia. 


Mesmo no dia a dia, os cristãos enfrentam hostilidade e discriminação constante. Socialmente falando, a maioria dos cristãos está no patamar mais baixo da sociedade. Por isso, procuram a Igreja não somente para ajuda pastoral e espiritual, como também para todo tipo de necessidade. Na maioria das vezes, se morre um trabalhador rural, empregado de um rico proprietário de terra, sua esposa e filhos são mandados embora pelo proprietário. Pessoas como pais de crianças doentes, vítimas de ataques violentos e todos os que estão em necessidade, naturalmente, voltam-se para sua Igreja. Ser cristão no Paquistão significa, portanto, ter um coração disposto ao sacrifício, tanto para os fiéis quanto para as lideranças.


A disponibilidade é o que não falta para os católicos de Issanagri, um dos vilarejos que pertence à Paróquia de Assunção, que fica no vilarejo Chak 7, na Diocese de Faisalabad. A Paróquia, como um todo, tem um total de 6 mil fiéis católicos, enquanto que Issanagri tem em torno de 300 famílias católicas ou, aproximadamente, 1,5 mil católicos. O vilarejo fica a dez quilômetros da Paróquia. Issanagri já tem uma capela, mas ela é muito pequena para o número de fiéis.


Agora, os fiéis católicos começaram, eles próprios, a construir uma igreja maior. Eles têm feito grandes sacrifícios para isso – coletando dinheiro, apesar de que eles mesmos são muito pobres, e trabalhando duro na construção, mesmo quando já têm que trabalhar duro para sustentar suas famílias. Apesar de todos os esforços e trabalho árduo, eles, por enquanto, só conseguiram construir parte da igreja. A Santa Missa ainda é celebrada ao ar livre, entre as paredes em parte construídas, onde não há abrigo contra o sol forte ou as chuvas torrenciais, ou o frio severo que pode ocorrer no inverno, mesmo no Paquistão.


O Pároco, Padre Wasseem Walter, escreveu à ACN pedindo ajuda para que eles possam finalmente terminar a igreja. Ele escreve que “é urgentemente necessário construir esta igreja”. A ACN prometeu a ajuda e o povo de lá ficou muito feliz por saber que não está sozinho nessa empreitada. A ACN precisa agora da contribuição de corajosos benfeitores que queiram ajudar esses corajosos católicos.

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Asia Bibi

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05 de junho de 2019

O início da liberdade de Asia Bibi deverá ser marcado pelo silêncio. “Mesmo depois de deixar o Paquistão e reiniciar a vida ao lado de sua família, no Canadá, Asia Bibi, seus familiares, os cristãos paquistaneses e também os muçulmanos moderados deverão se manter cautelosos”, comentou o Cardeal Joseph Coutts, Arcebispo de Karachi, durante sua visita ao Brasil, em maio. O cuidado de Dom Coutts não é à toa, muito menos excessivo, afinal, mesmo com a absolvição de Asia Bibi pela Suprema Corte do Paquistão, em janeiro deste ano, inúmeros protestos foram realizados por extremistas islâmicos, exigindo que a condenação fosse mantida. 


Durante os oito anos que permaneceu no corredor da morte, aqueles que tentaram ajudá-la morreram ou precisam de segurança provida pelo Estado. Salmaan Taseer, governador de Punjab, a província mais poderosa do Paquistão, foi morto após visitar Asia Bibi na prisão. “O governador a orientou a escrever ao presidente do País pedindo que lhe concedesse o perdão. Por esse gesto, ele foi assassinado na capital, Islamabad, porque os fanáticos o acusaram de ser um muçulmano ruim, pois ninguém pode perdoar um insulto ao Profeta”, contou o Cardeal Coutts.


O advogado de Asia Bibi, Saif ul-Mallok, foi forçado a deixar o País depois que a sentença de absolvição foi anunciada, em outubro de 2018, e só retornou para participar da audiência em que o Supremo Tribunal do Paquistão rejeitou o pedido de reabertura do processo de Asia Bibi, confirmando, assim, a sua absolvição. “Sou um homem morto que caminha. Eles me acusam de ser um mau muçulmano porque eu defendi uma cristã que foi culpada de blasfêmia. Meus amigos se recusam a entrar no carro comigo, pois sentem medo de serem assassinados comigo”, diz o advogado, que também lembra o quanto Bibi sofreu durante sua permanência no corredor da morte. “Não sei como ela conseguiu resistir tantos anos em uma sala de 8m², podendo sair apenas meia hora, duas vezes por dia”, diz Saif.


Asia Bibi, mãe católica de cinco filhos, foi a primeira mulher no Paquistão a ser condenada à morte por blasfêmia, acusada por extremistas islâmicos de contaminar um copo de água ao beber nele, simplesmente pelo fato de ser cristã. Cinco dias depois do ocorrido, Bibi foi arrastada de sua casa por uma multidão e espancada na presença de policiais antes de ser presa.

 

ASIA BIBI É APENAS UMA ENTRE MUITOS ACUSADOS DE BLASFÊMIA NO PAQUISTÃO

No Paquistão, além da Asia Bibi, 224 cristãos foram vítimas da Lei da Blasfêmia desde sua aprovação em 1986. A afirmação é de Cecil Shane Chaudhry, diretor executivo da Comissão Nacional de Justiça e Paz (NCJP) do Paquistão, que esteve com a ACN neste ano. Segundo estudo apresentado, 23 cristãos foram mortos por acusações de blasfêmia entre 1990 e 2017. Além disso, a Comissão documentou mais 25 casos de cristãos em julgamento. “A Lei da Blasfêmia é uma ferramenta poderosa que os fundamentalistas podem exercer em detrimento das minorias. Muitas vezes, essa lei é utilizada como meio de vingança pessoal e, quando as acusações são feitas contra os cristãos, toda a comunidade sofre as consequências”, disse Chaudhry.


Foi o que aconteceu em março de 2013 num distrito cristão em Lahore, depois que o jovem cristão Sawan Masih foi acusado de ter insultado o Profeta Maomé. Uma multidão de 3 mil muçulmanos incendiou todo o distrito. Foram destruídas quase 300 casas e duas igrejas. Enquanto os 83 instigadores do ataque foram todos libertados, Sawan Masih foi condenado à morte em 2014, e ainda aguarda a realização do processo de recurso.


As acusações contra ele foram trazidas por um de seus amigos muçulmanos, Shahid Imran, após uma discussão entre eles. Dois dias depois, apareceram outras testemunhas, que nem sequer estavam presentes no momento do suposto insulto. 
Enquanto isso, a esposa de Sawan está criando os três filhos sozinha. “Eu não sei por que eles acusaram meu marido. Só sei que o homem que o denunciou era um amigo dele com quem havia discutido. Sawan é inocente!”, informa a esposa.

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A santidade não se apagou

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05 de junho de 2019

Chegamos ao sexto mês deste ano. Tudo corre muito acelerado. Quase nem temos tido tempo para digerir bem um acontecimento e já somos sacudidos por outro de uma proporção maior e, às vezes, mais impactante. Em todas essas coisas, o que não nos deve faltar é a esperança, que nasce de uma fé cultivada por meio de uma profunda espiritualidade. 


Nós, que formamos a família ACN, queremos sublinhar, na grandeza dos muitos acontecimentos litúrgicos que celebramos como Igreja Católica, o imenso amor de Jesus pelo Pai e por nós, que nos encoraja a ser bem mais solidários, ou seja, ajudar aqueles que sofrem, que são perseguidos e maltratados. 


A ajuda constante dos benfeitores da ACN que, com muito amor, é destinada aos que mais precisam, confirma o quanto a santidade não se apagou neste mundo, tantas vezes denominado como mundo “injusto”. Queremos afirmar que, juntos aqui, acendemos “pequenos sinais” que são como velas, que iluminam e aquecem a vida de tantas pessoas que sofrem e precisam do nosso amor. A doação de cada um é o que não deixa que se apague a esperança na vida de tantos.


Você, que está conhecendo cada vez mais a ACN, tenha sempre uma certeza: a doação de cada um nasce de algo mais profundo: o amor que Jesus tem por nós e que também nos pede que tenhamos uns pelos outros. Esse é o rosto da ACN: ao ajudar os mais necessitados, enxugamos as lágrimas de Deus no mundo. 


Por outro lado, é verdade que, infelizmente, não conseguimos atender todos os pedidos que nos chegam. Lamentamos quando vemos alguma necessidade que não somos capazes de suprir naquele momento. No entanto, mantemos sempre a esperança de encontrar pessoas que queiram ajudar. Nas páginas seguintes, você verá o testemunho dos cristãos no Paquistão. Como definiu o Cardeal Joseph Coutts – Arcebispo de Karachi, no Paquistão – que nos visitou há poucos dias, “somos uma Igreja pequena e rezamos por vocês. E, vocês, que são uma Igreja grande, rezem por nós!” Esse pedido aumenta ainda mais a nossa esperança de que não estamos sozinhos e de que sempre encontraremos pessoas para ajudar os que mais sofrem.


Quero destacar ainda dois grandes acontecimentos que viveremos neste mês tão rico de espiritualidade: a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo e a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Nesses acontecimentos, assim como os santos juninos, também nós encontraremos o alimento saudável para “ajudar os que mais sofrem”. 


Lembre-se sempre: estamos unidos, pois fazemos parte da Igreja, mergulhados nesta imensa fonte de amor e graça, reservada a todos nós neste mês pleno de bênçãos. Dirijo a você e a toda sua família minha bênção, fortalecida na profundidade das orações que elevamos a Deus na festa dos santos e demais acontecimentos litúrgicos de nossa Igreja.

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Filipinas: História de sucesso

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07 de mai de 2019

Cerca de 80% da população das Filipinas é católica, mas, no sul do país, na segunda maior ilha no arquipélago, Mindanao, há uma percentagem grande de muçulmanos. Desde 2017, grupos terroristas islâmicos têm tentado estabelecer um “Estado Islâmico Mindanao”. Centenas de islâmicos ocuparam e quase destruíram a cidade de Marawi, que já era um centro de fé muçulmana. Eles mataram muitas pessoas, fizeram muitos reféns e quase destruíram a Catedral Católica de Santa Maria de Marawi. Muitos dos reféns capturados eram cristãos e os terroristas queriam também o Bispo de Marawi, Dom Edwin de la Penha, que, por sorte, não estava na cidade naquele dia. Eles capturaram o Vigário Geral, Padre Teresito Suganob, e outros fiéis católicos. Alguns muçulmanos também foram levados, acusados de colaborar com os cristãos.

Por cinco meses, os jihadistas ocuparam Marawi, mas a cidade foi libertada pelo exército do governo. Infelizmente, a devastação foi ainda maior. Milhares de habitantes foram forçados a deixar a cidade, muitos dos quais ainda vivem em tendas ou com familiares. Durante o conflito, a ACN providenciou ajuda de emergência para os refugiados e depois auxiliou os traumatizados pelo conflito. Conduzido pela diocese, a ACN apoia um projeto que ajuda 200 homens, mulheres e crianças que ficaram prisioneiros durante meses, submetidos a torturas físicas e espirituais. Há, inclusive, muitas mulheres e meninas jovens que foram estupradas por seus captores. A ajuda é dada a cristãos e muçulmanos.

Outra iniciativa organizada pela diocese local é o projeto “Juventude pela Paz”. Nele, 184 estudantes cristãos e muçulmanos visitam os campos de refugiados, onde ainda estão vivendo milhares de pessoas que fugiram da cidade. Os estudantes ajudam os refugiados, não importando de qual religião sejam; dessa forma, lutam para testemunhar que é possível a coexistência pacífica, mesmo depois dos terríveis acontecimentos. Para Dom Edwin de la Penha, o diálogo e a reconstrução da coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos é uma prioridade absoluta.

 

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As três missões

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07 de mai de 2019

Soa como uma “missão impossível” quando, após a sua Ressurreição, Jesus envia os apóstolos ao mundo inteiro para pregar o Evangelho a toda criatura. Entretanto, o que era aparentemente impossível – considerando os meios de comunicação, de transporte e de tecnologia da época – foi feito pelo Espírito Santo com o seu poder.

Hoje, temos nas mãos inúmeras possibilidades para a missão. Com nossos recursos, meios de comunicação e aviões a jato, podemos atingir os recantos mais distantes do mundo com a mensagem de Cristo em segundos. Tudo isso, porém, permanece sem efeito se nos faltar a força propulsora do Espírito Santo. A “primeira missão” é, portanto, invisível e puramente espiritual. Quer dizer: “Permanecei em mim. Então produzireis muitos frutos” (Jo 15,5).

Só podemos realizar essa “primeira missão” no silêncio, no encontro pessoal com Deus. Santa Teresa de Calcutá escreveu em seu testamento espiritual: “Causa-me preocupação o fato de que algumas de vocês ainda não se encontraram realmente com Jesus – a quatro olhos, só vocês e Jesus. Será que vocês realmente perceberam, com os olhos da alma, com quanto amor Ele olha para vocês? Enquanto vocês não escutarem como Jesus fala no silêncio dos seus corações, não poderão escutá-lo dizendo nos corações dos pobres: ‘Tenho sede’.”

Também a “segunda missão” tem um caráter bastante íntimo, porque ela acontece em nossas famílias e comunidades, no círculo de nossos amigos, conhecidos, colegas, nos lugares em que nós vivemos e trabalhamos. Ela consiste no esforço do amor mútuo, na reconciliação e na unidade. Jesus reza ao Pai também por isso: “para que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17,21). Essa unidade é que nos dá força e a credibilidade necessária para a “terceira missão”: anunciar o Evangelho a todos os homens.

Caros amigos, nem todos têm a vocação de ir a terras estrangeiras e de pregar publicamente o Evangelho. No entanto, a missão universal é impossível sem a missão da oração e da unidade, para a qual todos nós somos chamados. Dessa As três missões forma, o missionário não está sozinho, pois sua missão é sustentada pelo poder do Espírito Santo. Para isso, vale a pena usar também meios modernos de comunicação e de transporte.

Não existe meta mais sublime do que levar a salvação a todas as pessoas. Por isso, a doação dos benfeitores – bem como o tempo e dedicação dos voluntários – da ACN serve não apenas para uma boa finalidade, mas ela produz frutos de eternidade. Ela traz em si a força da sua oração e do seu amor. É essa a nossa “dívida” de uns para com os outros (cf. Rm 13,8). O que existe de mais grandioso do que poder doar vida eterna? Esta é a quintessência do amor, a força impulsionadora do Espírito Santo, o objetivo da missão: quero que não morras nunca, quero que vivas.

 

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Rosas e Cruz

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16 de abril de 2019

A Páscoa é uma festa do novo nascimento, uma festa da nova vida. Por isso, existe uma profunda conexão entre o mistério pascal e a maternidade da mulher. Este mês, portanto, falaremos de uma maternidade especial: a vocação das religiosas.

A Igreja, que nasceu do sofrimento do Salvador, é chamada a ser mãe. Mas para isso ela precisa do carisma da mulher. Foi uma mulher, Maria, que ficou debaixo da cruz e se tornou a mãe de toda a humanidade. Foram as mulheres que primeiro chegaram ao sepulcro, que viram o Ressuscitado, tornando-se dessa forma apóstolas para os apóstolos. A dimensão mariana da Igreja precede a dimensão petrina.

Faz parte da natureza da mulher transmitir a vida, física ou espiritual. A mulher perscruta o mais íntimo da pessoa, preocupa-se com as coisas mais concretas da vida, pensa e sente de forma abrangente, age sobre o todo. Proteger, guardar, preservar, nutrir, promover o crescimento, compartilhar a vida: tudo isso são virtudes naturais da mulher. O mártir Cardeal Mindszenty disse certa vez: “Sempre que vejo uma cruz adornada de flores, vejo nela um símbolo da mulher. A vida e a vocação da mulher são, ao mesmo tempo, rosas e cruz. Ela vive para os outros, buscando a felicidade deles, até mesmo ao preço de seu sangue.”

A discussão sobre a dignidade e o papel da mulher na sociedade e na Igreja é um tema constante. A emancipação da mulher pertence ao nosso tempo. Na história, a mulher foi muitas vezes ferida na sua dignidade, desfigurada nos seus valores, marginalizada e até mesmo escravizada. Regressar ao modelo de mulher totalmente dependente do homem está fora de cogitação. No entanto, em nome dessa “independência” do homem, a característica da mulher não pode se perder. Essa emancipação é frequentemente equiparada à eliminação das diferenças entre os sexos e à libertação sexual. Mas, dessa forma, perde-se a riqueza da feminilidade; é como se a transmissão da vida fosse envenenada pela raiz e se desencadeasse uma epidemia espiritual.

Caros amigos, se estamos apresentando a vocês a vocação e o trabalho das religiosas, é porque queremos recordar o “feminino”, sem o qual a Igreja, como mãe, não produz frutos duradouros. Por meio da dedicação esponsal das religiosas a Jesus, sua feminilidade não é abolida, mas, ao contrário, torna-se especialmente fecunda. O múltiplo ministério delas – o solene louvor a Deus, as obras de misericórdia, a difusão da fé, o cuidado pelas crianças e pelos jovens, a Adoração silenciosa - envolve todas as pessoas com o amor de Cristo. Elas são as mães e irmãs universais. Agradecemos a Deus por essas mulheres extraordinárias e a todos os benfeitores da ACN que as ajudam, porque é com a ajuda dos benfeitores que podemos sustentá-las em todo o mundo.

 

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Dom Cristóbal López Romero: ‘A igreja Católica existe no Marrocos, e é samaritana’

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03 de abril de 2019

A universalidade da Igreja Católica torna-se palpável em muitos lugares onde o Cristianismo é uma minoria, incluindo o Marrocos, País com 37 milhões de habitantes, 99,9% dos quais muçulmanos e apenas 0,08% católicos.

Uma pequena, mas grande Igreja, realiza seu trabalho pastoral entre os fiéis católicos no País. A Igreja apoia os mais desfavorecidos entre a população marroquina e os milhares de jovens que atravessam o deserto da África Subsaariana à procura de um futuro na Europa idealizada.

No último fim de semana, dias 30 e 31, o Papa Francisco viajou para a região situada na fronteira entre a África e a Europa. Em resposta a um convite do rei Mohammed VI e dos bispos do País, o Pontífice visitou as cidades de Rabat e Casablanca.

 

VIVER E TRABALHAR NO NORTE DA ÁFRICA

Em uma entrevista televisiva à Ajuda à Igreja que Sofre (ACN, na sigla em Inglês), Dom Cristóbal López Romero, Arcebispo de Rabat, falou sobre o que significa viver e trabalhar nesta nação norte-africana.

“A Igreja Católica existe no Marrocos”, disse orgulhosamente o Arcebispo no começo da entrevista. “É uma Igreja vibrante e jovem, abençoada com misericórdia e com um forte desejo de testemunhar.”

O País do norte da África tem duas catedrais, uma em Tânger e uma segunda em Rabat. A primeira foi construída durante o tempo do protetorado espanhol, a segunda durante o tempo do protetorado francês. Dom Cristóbal, salesiano de Dom Bosco, continuou: “Mais jovens do que pessoas idosas vêm a nossas igrejas, mais homens que mulheres, mais negros que brancos”.

Os membros da Igreja no Marrocos são, em sua maioria, estrangeiros, fiéis de mais de cem países diferentes. Eles geralmente trabalham em empresas que operam subsidiárias no Marrocos. Além disso, muitos vêm de países ao sul do Saara, como o Congo, o Senegal ou a Costa do Marfim. Eles se mudam para o Marrocos para prosseguir seus estudos e encontrar o “sentimento de segurança” que estão procurando com a Igreja Católica.

Os religiosos católicos que lá estão são de mais de 40 países diferentes. Dom Cristóbal explica: “Ser católico significa ser universal, global”. Essa universalidade exige que as pessoas deixem de lado aquilo que as torna distintas e se concentrem no que é compartilhado. “Nós procuramos o que é importante, essencial. As diferenças nos enriquecem. Nós somos abertos uns com os outros e vemos as diferenças como uma oportunidade, não um problema.”

 

É COMO UMA IGREJA SAMARITANA

A Igreja marroquina e as instituições de caridade com que trabalha recebem e ajudam quem é mais fraco, independentemente do seu passado. Principalmente, eles são ativos dentro da sociedade marroquina e para os imigrantes vindos de países ao sul do Saara, que estão tentando alcançar a Europa ou permanecer no norte da África. “A Igreja aceita e cuida dos necessitados, ou seja, é uma Igreja samaritana”, disse o entrevistado.

Por meio da Caritas local, o Marrocos cuida de milhares de migrantes que atravessam o Saara e, depois de completarem essa difícil travessia, “permanecem presos” no País, sem poder continuar para a Europa. “Essas pessoas precisam de cuidados e de um ouvido solidário. A maioria delas está doente quando chegam e muitas mulheres estão grávidas. A Igreja os “absorve, protege, promove e integra, assim como o Papa Francisco nos pediu”, afirma o Bispo. O trabalho da Igreja no Marrocos é tão importante que “até as autoridades muçulmanas apreciam seus esforços”.

 

MIGRAÇÃO E DESIGUALDADE

Quando perguntado por que os jovens estão fugindo da África, Dom Cristóbal explicou que as razões econômicas são o principal impulso para a maioria dos jovens migrantes. Eles estão fugindo da pobreza e do desemprego, mas muitos também estão fugindo de guerras, hostilidades, perseguições ou desastres naturais. De acordo com o Arcebispo de Rabat, o problema da migração na África será impossível de resolver, contanto que “30% dos alimentos produzidos continuem a ser jogados fora na Europa”, e as pessoas continuem a viver “em excessos e grandeza”, enquanto que, ao mesmo tempo, esperam que aqueles “que vivem em circunstâncias miseráveis aceitem passivamente seu destino” e a sociedade permaneça inconsciente de seu comportamento. “Certamente, não é cristão e pode até ser chamado de desumano que a Europa proteja suas fronteiras para que não tenha que compartilhar o que pertence a todos e o que a Europa se apropriou”, expressou sua indignação.

O Arcebispo lembrou as palavras do Papa Francisco: “O capitalismo mata”. “Em vez de fornecer ajuda, devemos pagar pelas matérias-primas que exploramos. Devemos ter certeza de que as corporações multinacionais pagam os impostos que devem.” Ele acredita que a África não pode ser ajudada com “migalhas, mas com planos de justiça e desenvolvimento. Nós não somos nada sem amor, somos menos ainda sem justiça.”

Ainda segundo Dom Cristóbal, “o jovem marroquino está preso em seu próprio País”. O Marrocos está sofrendo por causa de sua localização geográfica, pelo fato de não haver uma maneira realista de deixar o País. Para o sul está o vasto deserto do Saara; para o oeste, o Atlântico; para o leste, a Argélia – e a fronteira para esse País está fechada devido à guerra – e para o norte, a Europa. “Muitos jovens do Marrocos apontam para a Espanha e perguntam: ‘Por que eles podem vir aqui, mas eu não posso ir lá?’”.

 

LIBERDADE RELIGIOSA?

Uma questão totalmente diferente, com a qual o Papa Francisco foi confrontado, durante sua viagem, é o status da liberdade religiosa no País. Como a fundação pontifícia ACN concluiu no Relatório Liberdade Religiosa no Mundo de 2018, de acordo com a sua constituição, o Reino do Marrocos é um Estado soberano muçulmano. O Artigo 3 diz: “O Islã é a religião do Estado, com a garantia a todos ao livre exercício de crenças”. No entanto, a Constituição proíbe partidos políticos, parlamentares ou emendas constitucionais que infrinjam o Islã. O Parlamento Europeu reconhece que a liberdade religiosa está consagrada constitucionalmente no Marrocos, mas acrescenta que “os cristãos e especialmente os muçulmanos que se converteram ao Cristianismo enfrentam numerosas formas de discriminação e não podem pisar em uma igreja”. Sob o Código Penal marroquino, proselitismo para os não muçulmanos, isto é, “abalar a fé” da população muçulmana, é ilegal. A distribuição de materiais religiosos não islâmicos também é restringida pelo governo.

 

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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Na distante Amazônia...

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11 de março de 2019

“Uma criança, que já estava morrendo por conta de uma picada de cobra, estava com quase 42 °C de febre. O pai precisou de um dia e meio para levá-la até o posto de saúde, mas o posto não tinha o soro antiofídico porque não possuía energia elétrica para conservá-lo. O outro posto ficava a 70 quilômetros. Entramos no barco, percorremos o rio em alta velocidade e chegamos a tempo de ele tomar o soro, já era por volta da meia noite”.

Quem conta esta história é o Frei Gino Alberati, missionário capuchinho que vive no Amazonas desde 1970 e atende dezenas de comunidades no Rio Solimões, quase na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Ele só pôde ajudar o menino – e tantas outras urgências – porque há 15 anos a ACN doou um barco de alumínio para o Frei Gino. “Antes, minha embarcação era bem precária. Eu sabia quando saía, mas nunca sabia quando voltaria ou se voltaria. Com este barco, além de todo o trabalho pastoral, também salvamos vidas”.

O barco é mantido com muito cuidado por ele, justamente por saber que no barco está a doação de cada benfeitor que acreditou em seu trabalho. “Os benfeitores da ACN possibilitam muitas missões acontecerem”.

Quem vive nas grandes cidades do Brasil geralmente não encontra dificuldades para participar da celebração de uma missa. Por isso mesmo, talvez seja até difícil de imaginar que, na Amazônia, muitos católicos só conseguem participar da missa uma vez por mês. Não raramente, muitas comunidades apenas recebem a visita de um sacerdote uma vez ao ano. Lá, frequentemente um sacerdote tem até 80 comunidades para visitar e, muitas delas, ficam a dias de distância de barco da igreja-matriz da Paróquia.

Desde a primeira visita da ACN ao Brasil, na década de 60, que a Amazônia esteve no coração da Fundação Pontifícia. Um dos maiores projetos da história da obra foi justo nessa região. Sabendo das dificuldades que os missionários enfrentavam para levar o Evangelho na Amazônia, em 1973 a ACN enviou para o Brasil 320 caminhões adquiridos do exército suíço. O clero local mal podia acreditar quando viu os caminhões chegando no porto de Belém do Pará, que dali partiam para as várias dioceses da Amazônia. O projeto foi crucial para impulsionar a Igreja na Amazônia brasileira. Foi a partir dele que muitas regiões receberam pela primeira vez uma visita da Igreja. O Evangelho ganhou rodas.

Após esse primeiro projeto, surgiram centenas de outras iniciativas. Uma das mais recentes foi em Tefé, no coração geográfico do Amazonas, um projeto que atendeu ao apelo do Papa Francisco no Ano da Misericórdia. Lá, os padres levavam até cem horas de barco para visitar uma única comunidade. Os barcos de madeira eram velhos, consumiam muito combustível e corriam o risco de afundar por conta dos constantes problemas mecânicos. A ACN ajudou, então, a Prelazia de Tefé com quatro novos barcos de alumínio, que usam a metade do tempo – e combustível – dos antigos barcos, por serem mais leves e terem motores mais potentes.

Os projetos da ACN são pensados para ser uma solução a longo prazo, como o barco do Frei Gino, há 15 anos funcionando para levar o Evangelho e também ajudar em urgências como a do pequeno menino. Fazer parte da ACN é estar diariamente apoiando a missão, mesmo que distante, por meio da informação, da oração e da ação. É a oportunidade de fazer algo concreto pelo irmão que mais precisa.

 

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