CNBB lança texto sobre cuidado pastoral com as vítimas de abuso sexual

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07 de abril de 2019

Em sintonia com a crescente preocupação da Igreja com a prevenção, justiça e assistência aos menores vítimas de abusos sexuais cometidos por clérigos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou em março o texto “O Cuidado Pastoral das Vítimas de Abuso Sexual”, editado em forma de cartilha pelas Edições CNBB.

O material apresenta orientações às autoridades eclesiásticas, em especial aos bispos diocesanos, sobre procedimentos diante de denúncias ou fatos comprovados de abusos sexuais cometidos por clérigos contra menores. Também busca, “pastoralmente, promover a devida assistência às vítimas de tais abusos, ajudar o clérigo acusado para que se corrija, e formar a comunidade eclesial, a fim de que proteja os menores contra qualquer tipo de exploração sexual”.

O texto está estruturado em cinco capítulos e foi aprovado pela Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), que tem entre suas atribuições investigar crimes sexuais praticados por membros da Igreja.

 

REPÚDIO AOS ABUSOS

Na apresentação da cartilha, é destacado que “a Igreja rejeita energicamente quaisquer tipos de abusos, especialmente o abuso sexual contra menores”

Ainda nas páginas iniciais do texto, é recordado que a condenação de tais transgressões à sexualidade humana está alicerçada especialmente no sexto mandamento do Decálogo (Não cometer atos impuros).

Destaca-se, ainda, que os bispos do Brasil zelam para que as Igrejas, pastorais e instituições católicas sejam sempre lugares mais seguros para as crianças e as pessoas vulneráveis.

 

ASPECTOS PSICOLÓGICOS

No primeiro capítulo, há um detalhamento sobre os abusos sexuais que o menor está suscetível a sofrer em seu ambiente mais imediato, tais como incesto, violência carnal, conduta libidinosa e atos indecentes; e os abusos com propósito lucrativo, como a prostituição e a produção de material pornográfico infantil.

Também se abordam as razões que levam alguém a cometer tal prática, bem como os efeitos danosos provocados nas vítimas, entre os quais a redução da autoestima e a maior dificuldade de convivência social.

 

A PARTIR DA DENÚNCIA

A segunda parte do texto, a mais extensa, apresenta orientações sobre os procedimentos canônicos e civis diante dos abusos sexuais cometidos por clérigos contra menores. A referência principal sobre os procedimentos canônicos é o motu proprio Sacramentorum sanctitatis tutela, escrito por São João Paulo II, em 2001. A CDF fez acréscimos ao documento em 2010 e 2011.

Inicialmente, cabe ao bispo diocesano a responsabilidade de averiguar a veracidade da denúncia, ouvindo os denunciantes, as supostas vítimas (que desde o primeiro momento devem receber suporte pastoral), o clérigo acusado e as eventuais testemunhas.

Ao longo da investigação, devem ser protegidas a privacidade e a reputação de todos os envolvidos. No entanto, o Bispo pode, com prudência e cautela, limitar o exercício das funções sacerdotais do clérigo, proibi-lo de residir em determinado lugar e até mesmo proibir a sua participação pública na Eucaristia.

Uma vez que o bispo diocesano tenha convicção de que a denúncia é verdadeira, “enviará à Congregação para a Doutrina da Fé toda a documentação, com um relatório sobre a investigação prévia e com seu próprio parecer, sugerindo a conveniência de se escolher tratar a causa por via judicial ou, se as circunstâncias assim o aconselharem (por exemplo, em presença da intenção do réu de pedir dispensa de todas as obrigações sacerdotais, inclusive do celibato, ou quando houver exigência de maior celeridade), por via administrativa”, detalha o parágrafo 41 do texto.

Depois disso, o bispo aguardará as instruções da CDF, que poderá chamar para si a causa ou ordenar que este instaure o processo penal no seu próprio tribunal de primeira instância. Concluído o julgamento na primeira instância, o processo é enviado para a CDF a fim de que se julgue a questão em segunda instância.

“Quando consta manifestadamente a prática do delito e dada ao réu a faculdade de se defender, pode também a Congregação para a Doutrina da Fé enviar diretamente à decisão do Sumo Pontífice os casos mais graves, tendo em vista a demissão do estado clerical ou a deposição, com dispensa da lei do celibato”, informa o texto no item 46.

 

E NA JUSTIÇA COMUM?

No texto, aponta-se que “a comunicação de suposto crime à autoridade pública não é uma obrigação legal do Ordinário [bispo local]”, conforme parágrafo 59. De todo modo, nesse mesmo parágrafo, aconselha-se que o bispo consulte uma assessoria jurídica “para que eventualmente não se configure, da parte do Ordinário, a situação de favorecimento com o clérigo acusado”.

 

E SE O CLÉRICO FOR INOCENTE?

Se comprovada a falsidade da denúncia contra o clérigo, este “deverá ser publicamente reabilitado, principalmente se tiverem sido tomadas as medidas cautelares de que se falou acima [limitação das funções sacerdotais, proibição de residir em um determinado local, proibição de participar publicamente da Eucaristia etc.]. Pode ser de justiça promover um processo canônico e até civil, se for o caso, por calúnia e difamação contra o falso denunciante”, como consta no parágrafo 53 do texto.

 

COMUNICAÇÃO DOS CASOS

Na terceira parte do texto, recomenda-se que, assim que o bispo local se certificar da denúncia de um caso de abuso sexual cometido por um clérigo, que informe, também por meio da imprensa, sobre as medidas preventivas que estão sendo tomadas para evitar que aconteçam novas ocorrências e comunique como a diocese acompanha a formação dos futuros sacerdotes e está disposta a agir com firmeza diante de tais casos de abuso sexual.

 

CUIDADO PASTORAL

A quarta parte do documento apresenta orientações quanto à postura pastoral da Igreja com os envolvidos nos casos. Ao clérigo acusado, recomenda-se que tenha, com urgência, ajuda psicológica, espiritual e pastoral, e que, desde o início, o bispo tenha com ele um diálogo honesto e sincero, mostrando-lhe a gravidade do ato praticado.

Às vítimas e seus familiares, deve-se assegurar, o mais rápido possível, que recebam apoio psicológico e espiritual. Também com estes, o bispo buscará ter um diálogo honesto, corresponsável, para que retomem o caminho da vida e da esperança. “O perdão pode produzir uma cura verdadeira. Por meio do amor de Deus e do sacramento da Reconciliação, o perdão tem o poder de sarar as feridas profundas e reconstruir a dignidade do ser humano”, indica o parágrafo 77 do texto, no qual se pontua, também, que “perdoar não significa justificar a violência ou dispensar quem a cometeu de responder pelo seu crime”.

Também ao longo de todo o processo, deve-se manifestar à comunidade de fiéis que a Igreja, de modo algum, é conivente com tal crime, solidariza-se com as vítimas e seus familiares, trata do caso de forma sigilosa e transparente, e que possui um plano sério e seletivo de formação dos futuros sacerdotes, incluindo o acompanhamento psicológico.

 

RECOMENDAÇÕES FINAIS

Na quinta parte do texto, são feitas algumas recomendações quanto à seleção e formação presbiteral, para evitar a admissão ao sacerdócio de candidatos com anomalias graves e irreversíveis, sejam de ordem psíquica, sejam de ordem sexual. Também se recomenda que as dioceses estabeleçam programas para garantir que na Igreja os ambientes sejam protegidos e seguros para as crianças.

Aponta-se, ainda, que os bispos do Brasil trabalharão com maior empenho para implantar as “Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil” e para efetivar a Pastoral Presbiteral nas dioceses.

 

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Unir forças contra a chaga dos abusos

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27 de fevereiro de 2019

Responsabilidade, prestação de contas e transparência. Estes são os três pilares que devem nortear a ação da Igreja diante da chaga dos abusos sexuais contra menores e vulneráveis perpetrados por membros do clero. Um problema com o qual todos nós preferíamos não ter de lidar – igrejas, escolas, clubes, famílias, jornalistas –, mas que, a pedido do Papa Francisco, foi objeto de profunda reflexão entre 21 e 24 de fevereiro, no Vaticano.

O encontro intitulado “A proteção de menores na Igreja” reuniu 190 participantes, entre eles 112 bispos presidentes de conferências episcopais, além de especialistas e superiores religiosos e religiosas. O objetivo era claro: reconhecer o problema e encontrar meios para enfrentá-lo, com abertura e coragem, de forma conjunta e concreta. O evento também teve uma comovente liturgia penitencial, na qual pediram perdão pelos próprios pecados e por aqueles cometidos por outros membros da Igreja.

Uma série de fortes testemunhos de vítimas reforçou o caráter humano e urgente do tema. “Não podemos ignorar a voz das vítimas”, disse o Arcebispo de Malta, Dom Charles Scicluna, um dos principais organizadores. “Sem ouvir as narrativas das vítimas, você jamais compreenderá a gravidade do problema”, acrescentou. “Nossa falta de respostas ao sofrimento das vítimas, a ponto de rejeitá-las e acobertar o escândalo para proteger os abusadores e a instituição, dilacerou o nosso povo, deixando uma ferida profunda na nossa relação com aqueles a quem somos enviados para servir”, completou.

 

DA REAÇÃO Á AÇÃO

Também para o Papa, as vítimas são uma manifestação do Cristo crucificado. Para passar a uma postura proativa – em vez de reativa – participantes do encontro manifestaram ser essencial priorizar as vítimas, acolhendo-as, ouvindo-as e dando a elas o apoio e as informações necessárias para seguir em frente. Esse foi um dos pontos em uma lista com 21 tópicos de reflexão que o Papa entregou aos participantes no primeiro dia.

É preciso colocar-se “à escuta do Espírito Santo, e com docilidade à sua orientação, escutarmos o grito dos pequenos que pedem justiça”, disse. Em breve discurso de abertura, na quinta-feira, 21, Francisco afirmou que enfrentar os abusos com “medidas concretas” é uma responsabilidade pastoral e eclesial, “que nos obriga a discutir juntos, de maneira sinodal, sincera e aprofundada”. Embora já existam diretrizes, o encontro sinaliza uma ação coletiva na Igreja para que se fortaleça a mudança de mentalidade, e para que as normas existentes sejam desenvolvidas e aplicadas localmente.

Entre as propostas, falou-se em equipar as estruturas da Igreja, com material de formação, revendo-se periodicamente os protocolos já existentes; conscientizar a sociedade, e em especial bispos e superiores religiosos; abrir canais de denúncia; preparar caminhos pastorais nas comunidades paroquiais; estabelecer provisões para facilitar a participação dos fiéis leigos em comissões consultivas e investigativas; e melhorar o aspecto psicológico do processo seletivo de candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada.

 

RECONHECER A AMPLITUDE

Para ser concreto, é preciso, acima de tudo, reconhecer a amplitude do fenômeno. Entre alguns participantes do encontro havia, no início, a ideia de que a proteção de menores deveria ser uma prioridade dos locais mais atingidos – países como Estados Unidos, Irlanda, Austrália e Chile, por exemplo. Mas, segundo um dos organizadores, o Padre jesuíta Hans Zollner, ao fim do evento se percebia um consenso de que prevenir e ter protocolos claros é uma necessidade em todas as culturas. Isso, para ele, já valeu a reunião.

No discurso de encerramento, o Papa tocou nesse ponto. “Nosso trabalho nos levou a reconhecer, mais uma vez, que a gravidade da chaga dos abusos sexuais de menores é um fenômeno historicamente difuso, infelizmente, em todas as culturas e sociedades”, admitiu, observando que houve uma evolução na opinião pública sobre algo que era “considerado tabu”.

 

NOVAS PREOCUPAÇÕES

A Igreja pode se tornar um dos principais atores globais no combate à violência sexual, não só em suas próprias instituições, mas na sociedade. O Papa Francisco contextualizou o problema, identificando estatisticamente os mais diversos tipos de abuso, cometidos sobretudo por pais, parentes, maridos, treinadores e educadores.

Questão é ‘responsabilidade compartilhada’ e não ‘fixação’, diz professora

Três mulheres falaram à assembleia e suas palestras repercutiram fortemente entre os participantes e na imprensa. A primeira delas, Linda Ghisoni, teóloga italiana, é canonista e subsecretária do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida. Segundo a Professora, somente assumindo a “responsabilidade compartilhada” de leigos, religiosos e clero será possível enfrentar de forma eficaz o problema dos abusos sexuais.

“Tomar consciência do fenômeno e da própria responsabilidade não é uma fixação, não é uma ação inquisitorial acessória para satisfazer meras necessidades sociais, mas uma necessidade que surge da própria natureza da Igreja como um mistério de comunhão fundado na Trindade, como povo em caminho, que não evita, mas enfrenta com renovada consciência comunitária também os desafios ligados aos abusos ocorridos dentro dela”, disse.

A Irmã Veronica Openibo, nigeriana, criticou a “hipocrisia e a complacência” de membros da Igreja que nada ou pouco fizeram para resolver o problema. “É preciso romper com toda a cultura do silêncio e do sigilo entre nós, para fazer entrar mais luz na nossa Igreja. Reconheçamos nossa vulnerabilidade, sejamos proativos e não reativos ao enfrentar os desafios, e aprofundemos sem medo as questões”, declarou a Superiora-geral da Sociedade do Santo Jesus Menino.

Já a jornalista e escritora mexicana Valentina Alazraki, vaticanista há mais de 40 anos, desde o pontificado de Paulo VI, falou sobre a perspectiva da relação do clero com a imprensa. Abordando o tema também como mãe, ela defendeu que a Igreja esteja sempre do lado dos mais fracos: “Há outro caminho senão o de estar ao lado das vítimas, e não do carnífice? Se vocês são contra os que cometem abusos ou os encobrem, então estamos do mesmo lado. Nós [jornalistas e bispos] podemos ser aliados, não inimigos.”

 

E uma nova preocupação nasce no ambiente digital: “Uma parte muito considerável da produção pornográfica tem, tristemente, como objeto, os menores, que assim são gravemente feridos em sua dignidade”, avaliou. Outra preocupação do Pontífice é o turismo sexual – de acordo com a Organização Mundial do Turismo, todo ano, 3 milhões de pessoas viajam para ter relações sexuais com menores. “Os autores, na maior parte dos casos, não reconhecem que o que estão fazendo é um crime”, lamentou.

 

RESPONSABILIDADE MORAL

Por outro lado, o Papa não relativizou a responsabilidade da Igreja e suas estruturas: “A desumanidade do fenômeno em nível mundial se torna ainda mais grave e mais escandalosa na Igreja, porque contradiz a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética. O consagrado, escolhido por Deus para guiar as almas à salvação, deixa-se subjugar pela própria fragilidade humana ou pela própria doença, tornando-se, assim, um instrumento de Satanás”, refletiu.

Em seu discurso, Francisco insistiu que é preciso reconhecer “humilde e corajosamente” que estamos diante do “mistério do mal, que ataca os mais fracos porque são imagem de Jesus”. E acrescentou que, nas últimas três décadas, a Igreja cresceu em consciência sobre o problema. Daqui para a frente, cada caso dessa “monstruosidade” será enfrentado com “a máxima seriedade”, garantiu.

 

Vaticano anuncia nova lei e ‘forçatarefa’ para proteção de menores

Após a conclusão do encontro, o Vaticano anunciou três medidas imediatas para ratificar o compromisso da Igreja com a proteção de menores, de acordo com o Padre jesuíta Federico Lombardi, moderador do encontro.

Primeiro, uma nova lei para a Cidade do Vaticano para o tema dos abusos sexuais de menores, com o objetivo de servir de exemplo a outras instituições; segundo, a publicação de um manual pela Congregação para a Doutrina da Fé, destinado a todos os bispos, para que “compreendam claramente seus deveres”; e, terceiro, a convocação de uma “força-tarefa” de pessoas competentes para orientar dioceses e conferências episcopais menos estruturadas ou com dificuldade para iniciativas em proteção de menores.

Já existem estruturas na Igreja para lidar com o problema, como a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, instituída pelo Papa Francisco em 2014, e o Centro para a Proteção de Menores, da Pontifícia Universidade Gregoriana, criado pelo Padre Hans Zollner, em 2012, sob o pontificado do Papa Bento XVI, além de normas que se tornaram mais exigentes ao longo da última década. Também as dioceses, os seminários e as instituições de educação já estão mais adaptados, e os casos de abuso diminuíram drasticamente desde os anos 1980.

 

DIREITO E PENAS

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o canonista Ricardo Gaiotti explicou que também já existe uma série de protocolos, tanto em âmbito universal, quanto nas igrejas locais. “Quanto à Igreja no Brasil, não foi diferente. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou um documento intitulado ‘Orientações e Procedimentos Relativos às Acusações de Abuso Sexual contra Menores’”, além da ‘Nota da Presidência da CNBB sobre o compromisso no combate aos crimes de abusos sexuais cometidos por membros do clero’”, lembrou.

Entre as penas que podem ser aplicadas, nas leis da Igreja, a um clérigo que comete abusos estão desde a suspensão temporária dos seus ofícios até a “demissão do estado clerical”, isto é, a perda completa da capacidade de representar a Igreja como sacerdote.

A Congregação para a Doutrina da Fé oferece ajuda aos bispos locais na preparação de diretrizes, destacando a necessidade da colaboração entre as autoridades da Igreja e civis, tendo em vista que o abuso sexual é também “um crime perseguido pela autoridade civil”. Gaiotti observou, ainda, que a Santa Sé é signatária da Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. Leia no osaopaulo.org. br a entrevista completa.

(Filipe Domingues e Daniel Gomes)
 

Diretrizes Propostas pelo Papa francisco

Ao fim do encontro, o Papa Francisco indicou oito diretrizes para prevenção dos abusos sexuais e seu combate. “É chegada a hora de trabalhar juntos para erradicar essa brutalidade do corpo de nossa humanidade, adotando as medidas necessárias já em vigor em nível internacional e eclesial”, disse.

1. Proteção das crianças: Impedir que se tornem vítimas de abuso psicológico e físico em todas as instituições.

2. Seriedade impecável: Combater a mentalidade “reativo-defensiva” e fazer justiça com qualquer pessoa que tenha cometido delitos.

3. Verdadeira purificação: Renovar o empenho pela santidade dos pastores.

4. Formação: Conciliar aspectos negativos e positivos da personalidade dos candidatos ao sacerdócio.

5. Reforçar e verificar diretrizes das conferências episcopais: Reafirmar a exigência de unidade dos bispos nos parâmetros e normas. Não bastam só orientações.

6. Acompanhar pessoas abusadas: A Igreja tem o dever de oferecer todo o apoio necessário, recorrendo a especialistas nesse campo.

7. Mundo digital: Estimular as autoridades a aplicar todas as medidas para limitar sites e aplicativos que ameaçam a dignidade humana, especialmente a dos menores, e aplicar regras mais rígidas para o clero.

8. Turismo sexual: Buscar justiça às autoridades, mas também apoio concreto e espiritual às vítimas desse fenômeno.

 

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Papa Francisco: escutemos o grito dos pequenos que pedem justiça

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21 de fevereiro de 2019

No início da manhã desta quinta-feira (21), o Papa Francisco introduziu os trabalhos do primeiro dia do encontro inédito sobre a proteção dos menores dentro da Igreja. A conferência reúne, pela primeira vez, os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo no Vaticano para abordar o tema.

O Papa começou o encontro afirmando do seu forte desejo de responsabilidade em interpelar Patriarcas, Cardeais, Arcebispos, Bispos, Superiores Religiosos e Responsáveis “diante da chaga dos abusos sexuais perpetrados por homens da Igreja em detrimento dos menores”. Todos juntos e “com a docilidade” da condução do Espírito Santo, “escutemos o grito dos pequenos que pedem justiça”.

“ O santo Povo de Deus nos vê e espera de nós não simples e evidentes condenações, mas medidas concretas e eficazes a serem realizadas. ”

Responsabilidade pastoral e eclesial

O Pontífice pediu que o encontro tivesse a incumbência do “peso da responsabilidade pastoral e eclesial que nos obriga a discutir juntos, de maneira sinodal, sincera e aprofundada sobre como enfrentar esse mal que aflige a Igreja e a humanidade. O santo Povo de Deus nos vê e espera de nós não simples e evidentes condenações, mas medidas concretas e eficazes a serem realizadas. São necessárias medidas concretas”, acrescentou Francisco.

O Papa enalteceu, então, que o percurso de todos através desse encontro, no Vaticano, começa “armados da fé e do espírito de máxima parresia, de coragem e concretude”.

Como subsídio, disse Francisco, “me permito compartilhar com vocês alguns importantes critérios, formulados pelas diversas Comissões e Conferências Episcopais que chegaram até nós. São orientações para ajudar a nossa reflexão que serão entregues a vocês. São um simples ponto de partida que veio de vocês e volta para vocês”.

Transformar o mal em consciência e purificação

O Papa Francisco, então, agradeceu a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, a Congregação para a Doutrina da Fé e os membros da Comissão Organizadora pelo “excelente trabalho desenvolvido com grande empenho em preparar este encontro”. E o Pontífice finalizou:

“ Peço ao Espírito Santo de nos sustentar nestes dias e de nos ajudar a transformar esse mal em uma oportunidade de consciência e de purificação. A Virgem Maria nos ilumine para buscar curar as graves feridas que o escândalo da pedofilia causou seja nos pequenos que nos crentes. ”

Ouvir as vozes das vítimas

Os trabalhos do encontro iniciaram com uma oração, durante a qual alguns testemunhos de vítimas foram compartilhados – de quem não pôde falar ou foi silenciado. Os presentes na conferência elevaram as próprias orações para que cada um pudesse ouvir aqueles que “foram violados e feridos, maltratados e abusados”, reconhecendo “as feridas do povo para que seja feita justiça”.

“Não consentir que os nossos fracassos”, foi a oração ao Senhor, “façam os homens perderem a fé em ti e no teu Evangelho”. Um longo e denso silêncio seguiu a uma das experiências que foram lidas:

“Ninguém me escutava; nem os meus pais, nem os meus amigos, nem depois as autoridades eclesiásticas. Não me escutavam e nem mesmo o meu choro. E eu me questiono: por quê? E me questiono por que Deus não me escutou?”

 

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Papa aos bispos dos EUA sobre crise de abuso: oração e discernimento

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04 de janeiro de 2019

O Papa Francisco enviou uma carta aos Bispos da Conferência Episcopal dos Estados Unidos reunidos desde a última quarta-feira (02/01) no seminário de Mundelein, na Arquidiocese de Chicago, para um retiro espiritual. Será uma semana de oração como pediu o Papa Francisco no convite dirigido a toda a Conferência episcopal do país, no contexto do escândalo dos abusos que atingiu a Igreja nos EUA.

Na sua carta o Santo Padre escreve que no último dia 13 de setembro, durante o encontro que teve com a Presidência da Conferência Episcopal, propôs “que fizéssemos juntos os Exercícios Espirituais: um tempo de retiro, oração e discernimento como elo necessário e fundamental no caminho para enfrentar e responder evangelicamente à crise de credibilidade que vocês atravessam como Igreja. Vemos isso no Evangelho, o Senhor nos momentos importantes de sua missão se retirava e passava a noite inteira em oração e convidava seus discípulos a fazer o mesmo”. “Sabemos – continua o Papa - que a importância dos eventos não resiste a qualquer resposta ou atitude; pelo contrário, exige de nós pastores a capacidade e sobretudo a sabedoria de gerar uma palavra, fruto de escuta sincera, orante e comunitária da Palavra de Deus e da dor do nosso povo. Uma palavra gerada na oração do pastor que, como Moisés, luta e intercede pelo seu povo”.

No encontro, - escreve o Papa Francisco – “expressei ao cardeal DiNardo e aos bispos presentes o meu desejo de acompanhá-los pessoalmente por alguns dias, nestes Exercícios Espirituais, o que foi acolhido com alegria e esperança. Como sucessor de Pedro, gostaria de unir-me a vocês e com vocês implorar ao Senhor que envie o seu Espírito capaz de "renovar todas as coisas" e mostrar os caminhos de vida que, como Igreja, somos chamados a seguir para o bem de todas as pessoas que nos foram confiadas. Apesar dos esforços realizados, devido a problemas logísticos, não poderei acompanhá-los pessoalmente. Esta carta – sublinha o Santo Padre - quer compensar, de alguma forma, a viagem não realizada. Também me alegra que vocês tenham aceitado a oferta que seja o pregador da Casa Pontifícia a guiar os Exercícios Espirituais com sua sábia experiência espiritual.

Com estas linhas, desejo estar mais perto de vocês e como irmão refletir e compartilhar alguns aspectos que considero importantes, e também estimulá-los na oração e nos passos que vocês dão na luta contra a "cultura do abuso" e na maneira de enfrentar a crise de credibilidade.

“Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos” (Mc 10, 43-44). Estas palavras, com as quais Jesus encerra a discussão e ressalta a indignação que nasce entre os discípulos quando ouvem Tiago e João pedir para sentarem-se à direita e à esquerda do Mestre, servirão como guia nesta reflexão que desejo realizar com vocês.

Francisco evidencia na sua carta que o Evangelho não tem medo de revelar e destacar certas tensões, contradições e reações que existem na vida da primeira comunidade de discípulos; pelo contrário, parece fazê-lo ex-professo: busca pelos primeiros lugares, ciúmes, invejas, arranjamentos e acomodações. Assim também como todas as intrigas e complôs que, às vezes secretamente e outras publicamente, se organizavam em torno da mensagem e da pessoa de Jesus pelas autoridades políticas, religiosas e dos mercadores da época. Conflitos que aumentavam à medida que se aproximava a Hora de Jesus no seu dom de si mesmo na cruz, quando o príncipe deste mundo, o pecado e a corrupção pareciam ter a última palavra contaminando tudo de amargura, desconfiança e murmúrio.

Como profetizou o idoso Simeão,  - continua o Papa Francisco na sua carta - os momentos difíceis e cruciais têm a capacidade colocar à luz os pensamentos íntimos, as tensões e as contradições que habitam pessoal e comunitariamente nos discípulos. Ninguém pode ser considerado isento disso; somos convidados como comunidade a vigiar para que, nesses momentos, nossas decisões, opções, ações e intenções não sejam viciadas (ou menos viciadas possível) por estes conflitos e tensões internas, e sejam, acima de tudo, uma resposta ao Senhor que é vida para o mundo. Nos momentos de maior turbamento, é importante prestar atenção e discernir para ter um coração livre de compromissos e de aparentes certezas para ouvir o que mais agrada ao Senhor na missão que nos foi confiada. Muitas ações podem ser úteis, boas e necessárias e até podem parecer corretas, mas nem todas têm "sabor" de Evangelho. Se vocês permitem dizer de modo coloquial: é preciso fazer atenção para que "o remédio não se torne pior do que a doença". E isso requer de nós sabedoria, oração, muita escuta e comunhão fraterna.

Na continuação da carta o Papa Francisco destaca os dois pontos: 1 “Entre vós não deve ser assim”. 2 “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos”.

O Papa destaca que nos últimos tempos, a Igreja nos Estados Unidos foi abalada por muitos escândalos que afetam sua credibilidade no sentido mais profundo. Tempos tempestuosos na vida de tantas vítimas que sofreram em sua carne o abuso de poder, de consciência e sexual por parte de ministros ordenados, consagrados, consagradas e fiéis leigos; tempos tempestuosos e de cruz para essas famílias e todo o povo de Deus.

A credibilidade da Igreja tem sido fortemente questionada e debilitada por esses pecados e crimes, mas especialmente pelo desejo de dissimulá-los e escondê-los, o que gerou um maior sentimento de insegurança, de desconfiança e de falta de proteção nos fiéis. A atitude de ocultação, como sabemos, longe de ajudar a resolver os conflitos, permitiu-lhes perpetuar-se e ferir mais profundamente o entrelaçamento de relações que hoje somos chamados a curar e recompor.

Estamos conscientes – continua Francisco - de que os pecados e os crimes cometidos e todas as suas repercussões em nível eclesial, social e cultural criaram uma marca e uma ferida profunda no coração do povo fiel. Encheram-no de perplexidade, desconcerto e confusão; e isso serve muitas vezes como uma desculpa para continuamente desacreditar e questionar a vida doada de tantos cristãos que "mostram o imenso amor pela humanidade inspirada no Deus feito homem" (Evangelii gaudium, n ° 76). Sempre que a palavra do Evangelho atrapalha ou se torna desconfortável, não são poucas as vozes que pretendem silenciá-la, sinalizando o pecado e as incongruências dos membros da Igreja e, mais ainda, de seus pastores.

A luta contra a cultura do abuso,  - escreve ainda o Santo Padre - a ferida na credibilidade, bem como o desconcerto, a confusão e descrédito na missão exigem, e exigem de nós, uma nova e decisiva atitude para resolver o conflito. "Vocês sabem que aqueles que se consideram governantes - nos diria Jesus - dominam as nações como se fossem os patrões, e os poderosos fazem sentir sua própria autoridade. Isso não deve acontecer entre vocês". A ferida na credibilidade requer uma abordagem particular, porque não se resolve por decretos voluntários ou simplesmente estabelecendo novas comissões ou melhorando os organogramas de trabalho como se fôssemos chefes de uma agência de recursos humanos. Uma similar visão acaba reduzindo a missão do pastor da Igreja a uma mera tarefa administrativa/organizacional no "empreendimento da evangelização. “Sejamos claros, muitas dessas coisas são necessárias, mas insuficientes, porque não conseguem assumir e enfrentar a realidade em sua complexidade e correm o risco de acabar reduzindo tudo as problemas organizacionais”.

A ferida na credibilidade toca em nível neurológico os nossos modos de se relacionar, escreve o Pontífice. “Podemos constatar que existe um tecido vital que foi danificado e, como artesãos, somos chamados a reconstruir. Isso implica a capacidade - ou não - de termos como comunidade de construir vínculos e espaços saudáveis e maduros, capazes de respeitar a integridade e a intimidade de cada pessoa. Implica a capacidade de convocar para despertar e infundir confiança na construção de um projeto comum, amplo, humilde, seguro, sóbrio e transparente. E isso requer não apenas uma nova organização, mas também a conversão de nossa mente (metanoia), de nossa maneira de rezar, de administrar poder e o dinheiro, de viver a autoridade e também de como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo”.

Uma nova época eclesial precisa basicamente de pastores mestres de discernimento na passagem de Deus para a história de seu povo e não de simples administradores, pois as ideias se debatem, mas as situações vitais são discernidas. Portanto, em meio à desolação e à confusão que as nossas comunidades vivem, nosso dever é - em primeiro lugar - encontrar um espírito comum capaz de nos ajudar no discernimento, não para obter a tranquilidade fruto de um equilíbrio humano ou de um voto democrático que faça "vencer" uns sobre os outros, isso não!

Mas um modo colegialmente paternal de assumir a situação atual que proteja - acima de tudo - do desespero e da orfandade espiritual o povo que nos foi confiado. Isso nos permitirá mergulhar melhor na realidade, tentando entendê-la e ouvi-la de dentro, sem permanecer prisioneiros.

Sabemos – sublinha o Papa - que os momentos de dificuldade e de provação geralmente ameaçam a nossa comunhão fraterna, mas também sabemos que podem ser transformados em momentos de graça que fortalecem nossa dedicação a Cristo e a tornam crível. Essa atitude nos pede a decisão de abandonar como modus operandi o descrédito e a deslegitimação, a vitimização e a reprovação no modo de se relacionar e, ao contrário, dar espaço à brisa suave que só o Evangelho pode nos oferecer.

Não nos esqueçamos que "a falta de um reconhecimento sincero, sofrido e orante de nossos limites é o que impede à graça de agir melhor em nós, pois não se deixa espaço para provocar esse possível bem que se integra em um caminho sincero e real de crescimento".

Todos os esforços- enfatiza o Papa Francisco - que faremos para romper o círculo vicioso de repreensão, deslegitimação e descrédito, evitando o murmúrio e a calúnia, em vista de um caminho de aceitação orante e vergonhosa dos nossos limites e pecados e estimulando o diálogo, o confronto e o discernimento, tudo isso nos permitirá encontrar caminhos evangélicos que despertem e promovam a reconciliação e a credibilidade que nosso povo e a missão exigem de nós. Faremos isso se conseguirmos deixar de projetar nos outros nossas confusões e insatisfações, que são obstáculos à unidade e se nos atrevermos a nos ajoelhar diante do Senhor, deixando-nos interrogar pelas suas feridas, através das quais poderemos ver as feridas do mundo.

2. “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos”.

Francisco destaca na sua longa carta que “o Povo fiel de Deus e a missão da Igreja já sofreram e sofrem muito, por causa dos abusos de poder, consciência, sexuais e da má administração, para acrescentar-lhes o sofrimento de encontrar um episcopado desunido, concentrado em desprestigiar-se mais do que em encontrar formas de reconciliação. Essa realidade nos impele a olhar para o essencial, a nos despojar de tudo que não ajuda a tornar o Evangelho de Jesus Cristo transparente”.

Hoje nos é pedido uma nova presença no mundo conforme à Cruz de Cristo, que se cristalize no serviço aos homens e mulheres do nosso tempo. Lembro-me das palavras de São Paulo VI no início de seu pontificado: "Devemos nos tornar irmãos de homens no ato mesmo que queremos ser seus pastores e pais e mestres. O clima de diálogo é a amizade. Ou melhor, o serviço. Tudo isso devemos recordar, estudar e praticar de acordo com o exemplo e preceito que Cristo nos deixou”.

Esta atitude não reivindica para si os primeiros lugares nem mesmo o sucesso e aplauso para nossos atos, mas pede, a nós pastores, a opção fundamental de querer ser semente que germinará quando e onde o Senhor quiser.

Trata-se de uma opção que nos salva de cair na armadilha de medir o valor de nossos esforços com os critérios de funcionalidade e eficiência que governam o mundo dos negócios; antes, o caminho é abrir-nos à eficácia e ao poder transformador do Reino de Deus que, como um grão de mostarda - a menor e mais insignificante de todas as sementes - é capaz de se transformar em um arbusto que serve para proteger. Não podemos nos permitir, no meio da tempestade, perder a fé na força silenciosa, diária e operante do Espírito Santo nos corações dos homens e da história.

Credibilidade nasce da confiança, e a confiança vem do serviço sincero e cotidiano, humilde e gratuito para todos, mas especialmente para os prediletos do Senhor. Um serviço que não pretende ser de marketing ou estratégico para recuperar o lugar perdido ou o vão reconhecimento no tecido social, mas - como eu quis salientar na última Exortação Apostólica Gaudete et exsultate - porque pertence "à própria substância do Evangelho de Jesus".

Que altíssima tarefa temos em nossas mãos, irmãos; não podemos calá-la e anestesiá-la por causa de nossas limitações e defeitos! Lembro-me das sábias palavras de Madre Teresa de Calcutá, que podemos repetir pessoalmente e em comunidade: "Sim, tenho muitas fraquezas humanas, muitas misérias humanas. [...] Mas Ele se abaixa e faz uso de nós, de você e de mim, para ser seu amor e sua compaixão no mundo, apesar de nossos pecados, apesar de nossas misérias e nossas falhas. Ele depende de nós para amar o mundo e mostrar o quanto ele o ama. Se nos ocupamos muito de nós mesmos, não haverá tempo para os outros"(Madre Teresa de Calcutá).

Caros irmãos, o Senhor sabia muito bem que, na hora da cruz, a falta de unidade, a divisão e a dispersão, bem como as estratégias para se livrar daquela hora, teriam sido as maiores tentações que seus discípulos teriam vivido; atitudes desfigurariam e dificultado a missão. Por isso Ele mesmo pediu ao Pai que cuidasse deles para que naqueles momentos eles fossem uma só coisa e ninguém se perdesse. Confiantes e imersos na oração de Jesus ao Pai, queremos aprender com Ele e, com determinada deliberação, começar este tempo de oração, silêncio e reflexão, de diálogo e de comunhão, de escuta e discernimento, para deixar que Ele forje o coração à sua imagem e ajude a descobrir sua vontade.

Neste caminho não prosseguimos sozinhos, Maria acompanhou e apoiou desde o início a comunidade dos discípulos; com sua presença materna, ajudou a garantir que a comunidade não se "perdesse" ao longo dos caminhos dos fechamentos individualistas e a pretensão de salvar-se si mesma. Ela protegeu a comunidade dos discípulos da orfandade espiritual que leva à auto-referencialidade e com sua fé permitiu que ela perseverasse no incompreensível, esperando que chegasse a luz de Deus. Pedimos a ela que nos mantenha unidos e perseverantes, como no dia de Pentecostes, para que o Espírito seja derramado em nossos corações e nos ajude em todos os momentos e lugares a dar testemunho de sua ressurreição.

 

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Cardeal DiNardo após encontro com o Papa: trabalhar juntos para curar as feridas

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13 de setembro de 2018

“Somos gratos ao Santo Padre por ter-nos recebido em audiência. Partilhamos com o Papa nossa situação nos EUA, como o corpo de Cristo foi dilacerado pelo mal dos abusos sexuais.” Assim tem início a declaração do bispo de Galveston-Houston e presidente dos bispos dos EUA, cardeal Daniel DiNardo, “sobre a recente crise moral na Igreja católica estadunidense”,  feita ao término da audiência privada com o Papa Francisco.

“Escutou-nos do mais profundo de seu coração”, prossegue o purpurado na declaração publicada no site da Conferência Episcopal dos EUA. “Foi um diálogo longo, frutuoso e bom. Assim que terminou rezamos juntos o Angelus pedindo a misericórdia de Deus e a força no trabalho em conjunto para curar as feridas. Temos a intenção de continuar ativamente nosso discernimento comum para identificar os próximos passos concretos.”

O cardeal DiNardo estava acompanhado do arcebispo de Los Angeles e vice-presidente da Conferência episcopal, Dom José Horácio Gómez; do arcebispo de Boston e presidente da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, cardeal Séan Patrick O’Malley; e do secretário geral dos bispos estadunidenses, Dom Brian Bransfield.

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O Papa receberá a presidência dos Bispos dos Estados Unidos

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12 de setembro de 2018

Diante da crise dos abusos na igreja norte-americana, o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke, respondendo a algumas perguntas aos jornalistas sobre o encontro do Papa Francisco com a Presidência Episcopal dos Estados Unidos, informou que, “no próximo dia 13 de setembro de 2018, o Santo Padre receberá no Palácio Apostólico o cardeal Daniel DiNardo, Arcebispo de Galveston-Houston, Presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos junto com o Cardeal Sean Patrick O'Malley,  Presidente da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores.

O Porta-voz comunicou que serão acompanhados por D. José Horacio Gomez, vice-presidente da mesma Conferência Episcopal, e Arcebispo de Los Angeles, e o secretário geral do órgão, Brian Bransfield da arquidiocese da Filadélfia.

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Francisco manifesta dor por abusos ‘sexuais, de poder e consciência’

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31 de agosto de 2018

Um dos aspectos mais difíceis da viagem do Papa à Irlanda foi apresentar respostas, em gestos e palavras, ao grave problema dos abusos praticados por membros do clero e pessoas ligadas à Igreja. O país foi um dos mais afetados na segunda metade do século XX. O Papa abordou o tema diversas vezes, inclusive junto às autoridades civis e eclesiásticas. E também teve um encontro privado, de mais de uma hora, com oito vítimas de abusos sexuais, no sábado, 25.

Com elas, ele produziu o texto de um “ato penitencial” para ser rezado durante a missa do domingo, 26. “Pedimos perdão pelos abusos na Irlanda, abusos de poder e de consciências, abusos sexuais por parte de membros qualificados da Igreja. De modo especial, pedimos perdão por todos os abusos cometidos em diversos tipos de instituição dirigidas por religiosos e religiosas e outros membros da Igreja. E pedimos perdão pelos casos de abuso de trabalho, ao qual foram submetidos tantos menores”, rezou em parte do ato. 

O Pontífice também reconheceu e pediu perdão, entre outros problemas, por “alguns membros da hierarquia que não se encarregaram dessas situações dolorosas e que ficaram em silêncio”. Na conclusão do ato penitencial, rezou: “Que o Senhor mantenha e faça crescer esse estado de vergonha e arrependimento e nos dê força para nos empenharmos para que nunca mais aconteçam essas coisas e para que se faça justiça. Amém.” 

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Aplicativo dá transparência e dificulta abusos no Facebook

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27 de agosto de 2018

Ao abrir uma "Linha do Tempo" do Facebook, usuários são inundados com mensagens. Uma parte importante delas é de anúncios ou conteúdos patrocinados (ou impulsionados, no jargão usado pela rede social). Desde o início da campanha eleitoral, os brasileiros passaram também a receber propaganda de candidatos e partidos, canal utilizado pela primeira vez na disputa deste ano.

Mas muitas pessoas não sabem o porquê de estarem recebendo essas publicações pagas. Outras não diferenciam esse tipo de mensagem daquelas enviadas por amigos. Um aplicativo lançado nesta semana pode ajudar usuários a lidar com essas práticas de direcionamento, ao dar mais transparência e dificultar o uso de dados para a segmentação de anúncios. O Fuzzify.me é uma extensão (plug-in) e pode ser instalada gratuitamente em navegadores Chrome e Firefox.

A ferramenta foi produzida pela organização brasileira Coding Rights, que atua com direitos humanos e tecnologias digitais. O desenvolvimento contou também com a participação de pesquisadoras de outras entidades internacionais, como Human Rights Watch.

Transparência

Depois de instalada, a extensão é mostrada na forma de um botão no canto superior direito do navegador, ao lado do menu. Ao abri-la, é possível ver os anúncios publicados na "Linha do Tempo" e o motivo de eles serem mostrados. Assim, o recurso ajuda o usuário a compreender melhor como seu perfil está sendo construído e que tipo de segmentação está sendo adotada por cada anunciante.

“A ideia é que, olhando a Linha do Tempo e porque você está sendo alvejada com anúncios, vá entendendo como o Facebook está te perfilando e te vendendo. Pensamos que seria interessante no contexto de eleições para pegar os anúncios políticos também”, explicou à Agência Brasil Joana Varon, uma das criadoras da ferramenta.

Dificultando anúncios

Mais do que apenas mostrar ao usuário como seus dados estão sendo usados, o Fuzzify.me ajuda a pessoa a “limpar” as preferências de anúncios. O controle dessas configurações já existe no Facebook, mas a extensão facilita tanto a visualização das diversas fontes de informação usadas para segmentar anúncios (como seus interesses ou os anunciantes com quem se relaciona) quanto a remoção destas da plataforma.

Essa “limpeza” das preferências ajuda a reduzir o número de anúncios publicados na sua Linha do Tempo. Além disso, expõe ao detentor da conta os “interesses” que o Facebook está atribuindo a ele. Um dos desafios é o fato de o Facebook “recolocar” as preferências rapidamente após elas serem apagadas.

Assim, apesar de a plataforma afirmar que o usuário tem o controle sobre essas configurações, para que os dados coletados não sejam usados para “vender” a pessoa a anunciantes, o usuário deve recorrer frequentemente à página de controle dessas preferências, o que dificilmente ocorre. Outra funcionalidade do Fuzzify.me é “automatizar” essa limpeza, exatamente para que a tarefa não tenha de ser feita de forma repetida.

Experimento

Além do Fuzzify.me, a Coding Rights promoveu uma ação de usar os anúncios segmentados para alertar as pessoas sobre essa forma de direcionamento e a coleta de dados envolvida nela. Ao projeto foi dado o nome “Vocês está vendo isso porque é uma….”.

Os responsáveis pela iniciativa definiram determinados perfis e publicaram anúncios com perguntas a partir dessas informações. Um dos perfis, por exemplo foi o de mulheres que andam de moto e estão em um relacionamento a distância.

“Pensamos narrativas com essas informações pra chamar a atenção das pessoas e discutir proteção de dados e possíveis implicações de ter esse grau de segmentação tão detalhado. As pessoas ficaram perguntando que bruxaria foi essa”, relatou Joana Varon.

 

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Abusos na Igreja: a carta do Papa aos fiéis

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20 de agosto de 2018

«Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele» (1 Co 12, 26). O Papa Francisco se inspirou nas palavras do Apóstolo Paulo para divulgar esta segunda-feira, 20, uma carta a todo o Povo de Deus a respeito de denúncias de abusos cometidos por parte de clérigos e pessoas consagradas.  

Este crime, afirma o Pontífice, “gera profundas feridas de dor e impotência” nas vítimas, em suas famílias e na inteira comunidade de fiéis ou não.

“A dor das vítimas e das suas famílias é também a nossa dor, por isso é preciso reafirmar mais uma vez o nosso compromisso em garantir a proteção de menores e de adultos em situações de vulnerabilidade.”

 

Pensilvânia

Francisco cita de modo especial o relatório divulgado nos dias passados sobre os casos cometidos no Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

"Sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz”, escreve o Papa. Ele fala ainda de negligência, abandono e arrependimento e cita as palavras do então Cardeal Ratzinger quando, na Via-Sacra de 2005, denunciou a “sujeira” que há na Igreja.

Para o Pontífice, a dimensão e a gravidade dos acontecimentos obrigam a assumir esse fato de maneira global e comunitária.

 

Solidariedade

Não é suficiente tomar conhecimento do que aconteceu, mas como Povo de Deus, “somos desafiados a assumir a dor de nossos irmãos feridos na sua carne e no seu espírito. Se no passado a omissão pôde tornar-se uma forma de resposta, hoje queremos que seja a solidariedade”.

O Papa explica o que entende por solidariedade: proteger e resgatar as vítimas da sua dor; denunciar tudo o que possa comprometer a integridade de qualquer pessoa; lutar contra todas as formas de corrupção, especialmente a espiritual.

“O chamado de Paulo para sofrer com quem sofre é o melhor antídoto contra qualquer tentativa de continuar reproduzindo entre nós as palavras de Caim: «Sou, porventura, o guardião do meu irmão?» (Gn 4, 9).”

 

Reconhecimento aos esforços

Francisco reconhece “o esforço e o trabalho que são feitos em diferentes partes do mundo para garantir e gerar as mediações necessárias que proporcionem segurança e protejam a integridade de crianças e de adultos em situação de vulnerabilidade, bem como a implementação da ‘tolerância zero’ e de modos de prestar contas por parte de todos aqueles que realizem ou acobertem esses crimes”.

O Papa reconhece ainda o atraso em aplicar essas medidas e sanções tão necessárias, mas está confiante de que elas ajudarão a garantir uma maior cultura do cuidado no presente e no futuro.

 

Oração e penitência

O Pontífice faz também um convite a todos os fiéis: oração e penitência.

“Convido todo o Povo Santo fiel de Deus ao exercício penitencial da oração e do jejum, seguindo o mandato do Senhor, que desperte a nossa consciência, a nossa solidariedade e o compromisso com uma cultura do cuidado e o ‘nunca mais’ a qualquer tipo e forma de abuso. ”

Na raiz desses problemas, Francisco observa um modo anômalo de entender a autoridade na Igreja: clericalismo.

Favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, o clericalismo “gera uma ruptura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo”.

Além da oração e do jejum, o Papa chama em causa o sentimento de pertença: “Essa consciência de nos sentirmos parte de um povo e de uma história comum nos permitirá reconhecer nossos pecados e erros do passado com uma abertura penitencial capaz de se deixar renovar a partir de dentro”.

 

Atrocidades

Por fim, Francisco usa a palavra “atrocidade”.

“É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis. Peçamos perdão pelos pecados, nossos e dos outros.”

E através da atitude de oração e penitência, fazer crescer em nós o dom da compaixão, da justiça, da prevenção e da reparação.

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Vaticano endurece política de ‘tolerância zero’ a abusos

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04 de agosto de 2018

O Papa Francisco aceitou duas renúncias nos últimos dias, demonstrando endurecimento na política de ‘tolerância zero’ diante do problema dos abusos sexuais praticados por alguns membros do clero. O Arcebispo Emérito de Washington, nos Estados Unidos da América, Theodore McCarrick, renunciou ao Colégio Cardinalício, perdendo privilégios e títulos, após ser acusado de abusos a menores e adultos. Aos 88 anos, ele está obrigado a se afastar de todo ministério público e a viver em “oração e penitência” até a conclusão dos processos canônicos. É a primeira vez na história que um cardeal renuncia por tal motivo. Também foi aceita a renúncia de Dom Philip Edward Wilson ao governo da Arquidiocese de Adelaide, na Austrália. Ele é acusado de encobrir denúncias. (FD) 

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