NACIONAL

CICLISTAS ENTREGADORES

‘Você sabe quem vai entregar a comida?’

Por Daniel Gomes
07 de fevereiro de 2020

O SÃO PAULO entra no dia a dia dos entregadores ciclistas por aplicativo, atividade que se espalha pela cidade

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Pelas ciclovias, nas calçadas e em meio aos automóveis, é impossível não notar o vaivém de mochilas térmicas laranjas, verdes e vermelhas, onde estão as encomendas de comida, feitas especialmente na hora do almoço e do jantar. 
A praticidade dos serviços de delivery de alimentação e de outros itens está em toda a cidade e é viabilizada pelo trabalho dos entregadores. 
Na última semana, a reportagem do O SÃO PAULO “pegou carona” com os entregadores ciclistas por aplicativo, que, em sua maioria, são jovens, do sexo masculino, e trabalham entre nove e dez horas por dia, em média (leia detalhes na página 13).

‘É UM DINHEIRO QUE VOCÊ GANHA LIVRE’
Há sete meses, Roger Santiago, 23, pedala aproximadamente 35 minutos do Jabaquara, na zona Sul, até a região da Avenida Paulista, onde faz entregas, geralmente das 8h às 20h30. “Eu estava insatisfeito em outro emprego. O salário não era muito bom também. Então, comecei aqui. É um dinheiro que você ganha livre, não tem desconto”, afirma Roger, ao O SÃO PAULO, sentado ao lado de um dos relógios públicos da Avenida Paulista, na esquina com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, no sentido Consolação. 
A esquina é uma espécie de base dos entregadores ciclistas: ali eles aguardam pelos chamados dos aplicativos – principalmente iFood, Uber Eats e Rappi (este voltado a entregas de diferentes itens) –, analisam as rotas das entregas, fazem pequenos consertos nas bicicletas, e, após o horário mais intenso de pedidos, que ocorre das 12h às 14h30, comem um rápido lanche ou a marmita trazida de casa. 
Roger mora com a mãe. Com a remuneração das entregas, ele consegue ajudar no aluguel de casa e pagar a faculdade em Design Gráfico. “Estou terminando o curso. Vou guardar dinheiro para, depois de um tempo, fazer uma especialização nessa área”, projeta. 

RENDA EXTRA
Lucas Santos, 20, trabalha com entregas via aplicativo desde 2018. “Eu estava sem nada para fazer em casa, tinha uma bicicleta e quis trabalhar. Eu já tinha um emprego fixo, vim para fazer um extra. Hoje continuo no fixo, à noite, e no aplicativo, na hora do almoço”, detalha. 
O jovem afirma que, pedalando entre 30km e 40km por dia, consegue ganhos iguais aos que recebe em seu emprego fixo, se contabilizadas as gorjetas que ganha: “Todo dia, recebo alguma gorjeta. É um dinheiro que conta muito no fim do mês”. 

SEM CHEFE
Wesley Senna, 23, nasceu em Natal (RN) e mora no bairro da Bela Vista. Ele faz entregas na região da Paulista usando uma patinete, em dois períodos: das 11h às 15h e das 18h às 22h. “É um trabalho que eu gosto. Não preciso ficar trancado, não preciso escutar gerente todos os dias no meu ouvido”, afirma.
Com o que ganha, Wesley diz que consegue pagar o aluguel da casa onde mora com o irmão. Para isso, realiza entre 12 e 16 entregas por dia: “O tempo de cada uma depende muito, mas leva no máximo 15 minutos, geralmente”.
Não há a obrigação de que os entregadores levem o pedido ao destino dentro de um prazo específico. No entanto, muitos reclamam da exigência dos aplicativos de que cheguem ao local de retirada das encomendas até um horário específico, situação que, muitas vezes, influencia para que estejam mais suscetíveis a cometer ou sofrer acidentes com as bicicletas. 

‘DÁ PARA PLANEJAR A VIDA FINANCEIRA’
Há um ano e quatro meses, Fábio Amaral, 40, faz entregas de comida diariamente na região central. O serviço representa 50% de sua renda. O restante é obtido em um emprego fixo na área de informática. 
O entregador da Rappi conta que a empresa estimula que os profissionais se tornem microempreendedores individuais (MEI), para, assim, assegurar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e a futura aposentadoria pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). 
“Trabalhando por aplicativo dá para planejar a vida financeira. Há pessoas que trabalham com moto ou bicicleta e conseguem pagar aluguel de casa e todas as contas. Algumas começaram trabalhando de bicicleta, foram ganhando dinheiro e já migraram para a moto”, recorda. 

RISCOS PERMANENTES 
Como toda profissão, a vida com as bikes e as mochilas de entrega nas costas tem seus perigos . Fábio relata especialmente as situações de assalto em regiões consideradas de risco e afirma que tenta se precaver. 
“À noite, dependendo do local da entrega, se sabemos que é zona de risco, apagamos as luzes para poder ir, pois se chegarmos com as luzes acesas, certamente vamos ser assaltados. Quando eu vou fazer entrega em uma zona assim, sempre levo pelo menos outras duas pessoas comigo”, explica.
Outra reclamação de Fábio, comum entre os ciclistas entregadores, é sobre o tratamento que recebem no trânsito. “Muitas vezes, os motoristas de ônibus não nos respeitam, nem os taxistas. Eles veem que estamos com a bag [mochila térmica], trabalhando e, mesmo assim, jogam o ônibus ou o carro em cima. Não dão espaço, querem passar por cima”, lamenta.

INGRESSO E REMUNERAÇÃO
Não há muitos requisitos para que alguém se torne um entregador por aplicativo. Em geral, basta ser maior de idade e ter um meio de transporte para o trabalho. O cadastro é feito on-line e a resposta é dada em algumas semanas. 
O entregador não tem vínculo empregatício com a empresa de aplicativo, não recebe qualquer suporte caso tenha problemas com a bicicleta e precisa adquirir a mochila específica. Ele determina seu horário de trabalho e não há exigência de que use equipamento de proteção individual, como capacetes e uniformes. 
A remuneração varia conforme a distância percorrida em cada entrega (KMs rodados), a localização e fatores climáticos: em dias de chuva, por exemplo, as taxas de entrega geralmente são mais altas.

 

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