NACIONAL

Vocação

Vida consagrada: dom de Deus e da Igreja para o mundo

Por José Ferreira Filho
19 de agosto de 2018

Irmã Cacilda, da Missão Belém, atende pessoas em situação de rua no centro de SP

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Sentir-se chamado por Deus e consagrar-lhe a vida é uma das decisões mais importantes que alguém pode tomar. “O que fazer da minha vida? O que Deus quer de mim? ” As indagações iniciais são muitas, numa atmosfera em que enamoramento e luta crucial se entrelaçam, em busca de um ideal a ser atingido. Por fim, o tempo - esse aliado importantíssimo do discernimento - mostra que o amor, acompanhado de abnegada entrega, é sempre a melhor resposta aos questionamentos da existência de cada um. 

É isso que demonstram as histórias de vida de várias pessoas que, atentas ao divino convite que receberam, responderam-lhe positivamente e assumiram sua vocação como uma alegre vivência de fé e testemunho cristão. Trata-se dos chamados à vida consagrada e religiosa, realidade que será retratada por toda a Igreja no próximo domingo, 19, em continuidade às celebrações deste mês vocacional em todo o Brasil. 

“A iniciativa de se utilizar o mês de agosto para valorizar as distintas vocações da Igreja no Brasil foi estabelecida na 19ª Assembleia Geral da CNBB, em 1981. Estamos, portanto, na 37ª edição do mês que enaltece as vocações da Igreja em nosso país”, afirma o Padre Rubens Pedro Cabral, Oblato de Maria Imaculada, e diretor do Regional São Paulo da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), entidade que busca valorizar a vocação à vida religiosa consagrada, ativa ou contemplativa. 

Ele explica que os religiosos compreendem um grande número de pessoas dentro da Igreja Católica em todo o mundo. No Regional São Paulo da CRB, que engloba todo o Estado, são cerca de 9 mil religiosos, sendo que há 238 casas vinculadas às congregações masculinas e 932, às femininas. 

 

TESTEMUNHOS VIVOS

“Venho de uma família pobre e católica da periferia da Zona Sul de São Paulo; Fui batizada, recebi a 1ª comunhão e frequentava a missa aos domingos. Assim cresci, pensando que minha vida seria comum, como a das pessoas ao meu redor. 

Aos 15 anos tive uma forte experiência com a Palavra de Deus, que veio ao meio encontro num momento em que me sentia vazia e triste, mesmo tendo uma vida aparentemente tranquila e feliz.

Por acaso, encontrei um pequeno Evangelho que ganhei na minha 1ª Comunhão, quando tinha 7 anos. Abri na passagem das bem-aventuranças, no capítulo quinto de Mateus e, estranhamente, aquela palavra saciou o meu coração e, em meio às lágrimas, senti uma alegria indizível... Já era Deus se manifestando, mas ainda não tinha consciência disso”, relata Cacilda da Silva Leste, 45 anos, paulistana, missionária e consagrada da Comunidade Missão Belém, cujo carisma é tratar das pessoas envolvidas com drogas ou álcool e em situação de rua. 

 A experiência de Gehilda Cavalcante, de 76 anos, pertencente ao Movimento dos Focolares e da Obra de Maria, é igualmente repleta de significado: 

“Eu sempre me perguntei o que Deus queria de mim, mas não tinha nada claro. Tinha 18 anos quando eu conheci o Movimento dos Focolares e fiquei muito impressionada, desde o primeiro momento quando uma jovem foi apresentá-lo no colégio onde eu estudava. Dizia que este Movimento começou por Chiara Lubich e um grupo de jovens, durante a 2ª Guerra Mundial, na Itália, quando tudo desmoronava. Ali elas entenderam que tudo passa, só Deus permanece e decidiram escolhê -Lo como o tudo de suas vidas. 

“E para amar a Deus é preciso amar o próximo, pois ‘é um mentiroso aquele que diz que ama a Deus, a quem não vê, se não ama o próximo que vê’. Para mim, foi a maior novidade, pois eu pensava que amar a Deus era uma coisa boa, eram as pessoas que atrapalhavam. Cada palavra penetrava profundamente na minha alma: ‘o maior desejo de Jesus está expresso no mandamento novo, Ele veio trazer a unidade e deu tudo de si na cruz para que se realizasse, antes de morrer a pediu ao Pai: ‘Que todos sejam um’”.

 

DISCERNIMENTO

Após um período de insegurança (naturalmente humana) diante do chamado feito por Deus e das contrariedades que a vida apresenta, percorre-se ainda um caminho para discernir o que, de fato, Ele nos pede, como conta Cacilda: 

“O tempo passou, e aos 19 anos perdi meu pai num atropelamento, o que me fez deixar de lado os sonhos e me dedicar à família... Aos 22 anos conheci o grupo de oração ‘Deus Salva’. Nunca tinha visto tantas pessoas felizes juntas, louvando a Deus numa igreja, e O senti mais uma vez falar comigo. Durante a Santa Missa, no momento da comunhão, senti novamente aquela alegria indizível que me atraia profundamente... Comecei a me doar como serva no grupo, recebi a Crisma, começamos a trabalhar na recuperação de jovens drogados e de suas famílias, participava das formações, enfim tudo o que era possível, além do meu trabalho normal e dos cuidados da minha família...”

O mesmo aconteceu na vida de Gehilda, que teve de enfrentar momentos trágicos no âmbito familiar para então perceber a mão de Deus em tudo: dois de seus tios assassinaram um senhor e, em consequência disso, os filhos desse senhor, não encontrando os tios assassinos, que ficaram foragidos, por vingança mataram o seu pai (que na época tinha 36 anos e 7 filhos, sendo ela a mais velha, de apenas 12 anos) e outro tio, ambos inocentes.

“Entendi que minha vida deveria ser pautada no Evangelho, sobretudo na sua essência que é o amor, a ser vivido em família e com cada próximo. No Movimento tive oportunidade de encontrar duas irmãs e um irmão daquela família inimiga, fiz as pazes com eles e continuamos tendo um bom relacionamento. Senti na alma uma grande liberdade e o desejo de doar a minha vida como uma resposta ao amor de Jesus por mim, expresso especialmente na cruz, e de viver pela unidade, a fim de levá-la a toda parte. ”

 

TUDO VALE A PENA!

Cacilda continua a relatar o que seu coração sentia a cada momento: 

“Após o tempo de discernimento, continuei a sentir o forte apelo de Deus em mim. Sentia uma profunda paz interior que me fazia superar todo e qualquer medo ou dúvida que surgia. Em 24 de setembro do ano 2000, comecei minha experiência numa comunidade de vida. Fui para ficar um mês, mas não consegui mais voltar para casa. A vida doada a Deus, aos irmãos e aos pobres me encheu daquela alegria que vi nos irmãos do grupo de oração, que vi nos missionários que conheci, que vi na história de São Francisco: finalmente havia entendido, havia encontrado o sentido da minha existência. Não há nada que pague o sorriso de um pobre! Não existe alegria maior! ” 

Gehilda, por sua vez, partilha da mesma opinião: 

“Eu me sinto feliz, realizada naquele lugar que Deus pensou para mim e experimento o que Jesus prometeu àqueles que deixam tudo por Ele: o cêntuplo nesta terra e a esperança da vida eterna. Encontro em Jesus na cruz a resposta para todos os sofrimentos e experimento a plenitude da alegria que Ele prometeu a quem vive na unidade. A maior alegria é viver num ambiente onde Jesus possa realizar a Sua promessa: ‘Onde dois ou mais estão unidos no meu nome, eu estou no meio deles’. É Jesus, presente espiritualmente entre nós, que dá sentido a toda nossa vida. Por isso, o meu empenho é viver para ser uma resposta ao amor de Jesus na cruz e amar cada um a ponto de o outro se sentir amado e me amar também, existindo assim o amor recíproco, que atrai a presença espiritual de Jesus na comunidade. ”

 

CONSELHOS 

Gehilda, com a certeza de ter feito a opção correta, se dirige àqueles que ainda têm dúvidas em relação à vocação: 

“Eu diria o que Jesus diz no Evangelho: ‘A quem me ama eu me manifestarei’. Quando amamos cada próximo que passa ao nosso lado, sentimos depois a união com Deus e ouvimos melhor a Sua voz que fala no nosso íntimo e diz o que Ele quer de nós. ” 

A opinião de Cacilda não é diferente: “Quando terminou o tempo do meu discernimento, pensei: ‘Se todo jovem tivesse a oportunidade de entender o chamado de Deus e experimentar a alegria que hoje estou sentindo, seria a pessoa mais feliz do mundo! Rezo a Deus para que todo jovem que sente esse apelo interior, tenha a disposição e a coragem de lhe dizer sim. Um sim generoso, como aquele de Maria, a esse Deus de amor, apaixonado por sua criatura e que nada mais deseja a não ser fazê-la feliz! ”

 

(Colaborou Naya Fernandes)
 
Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.