NACIONAL

DIA DO ATLETA PARALÍMPICO

Verônica Hipólito, exemplo de que não existe o impossível!

Por Jenniffer Silva
22 de setembro de 2018

O jornal O SÃO PAULO conta a história da mais jovem medalhista dos Jogos Parapan-americanos

Reprodução da Internet

Cerca de 75 metros a afastavam da linha de chegada. Ao correr, a distância que inicialmente parecia curta, transformou-se na sensação de que o mundo estivesse parado. Nem o grito mais alto da torcida foi capaz de superar o som da própria respiração. A velocidade era ao mesmo tempo lenta demais para que a corrida chegasse ao fim, os poucos segundos de prova pareceram durar horas.

É desta forma que Verônica Hipólito, do atletismo paralímpico, falou à reportagem sua primeira competição, além de classificá-la como a mais importante da carreira. O início na modalidade é, por ironia, resultado do primeiro desafio com a saúde enfrentado pela atleta de 22 anos.

Nascida em 2 de junho de 1996, sua trajetória começou muito antes dos importantes resultados no atletismo. Desde muito nova, seus pais buscaram no esporte uma forma de educá-la. Após passar por diversas modalidades, foi no Judô que a menina se encontrou.

Aos 12 anos, Verônica recebeu a notícia de que estava com um tumor na glândula hipófise (presente na face inferior do cérebro). Um mês após o diagnóstico, ela precisou passar pela primeira cirurgia. Ansiosa, mal podia esperar para voltar aos treinos, quando foi informada pelo médico de que não poderia sofrer fraturas da cintura para cima e, por isso, sua carreira como judoca precisaria ser interrompida.

Uma das poucas modalidades que ainda não havia experimentado era o atletismo, que só ocorreu graças ao forte incentivo dos pais. Ela salientou que as corridas que mais gosta são as que a fazem sentir o mesmo de sua primeira competição. “Foi isso que me conquistou, as minhas corridas preferidas são as que eu me sinto assim, que tudo é muito devagar e muito rápido ao mesmo tempo, que as pessoas estão gritando por você, e você escuta, mas ao mesmo tempo, só ouve sua respiração”.

RESILIÊNCIA

Verônica sofreu aos 15 anos um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que paralisou todo lado direito de seu corpo. O atletismo teve nesse momento mais que um papel competitivo, mas de recomeço, ou como ela gosta de dizer, de resiliência.

“Começaram a dizer para mim: ‘Nossa que vida bonita’, ‘Que coitadinha’, como se minha vida já tivesse acabado e que eu não fosse fazer mais nada e esse foi o principal momento que eu virei para mim mesma e decidi que só eu poderia dizer o que era impossível para mim, e que nada seria impossível. Falaram que eu não ia voltar a andar, eu voltei, que eu não iria correr, e eu fui a mais rápida do mundo”.

A palavra resiliência, diferentemente do que muitos pensam, foi descoberta não com as doenças, mas com o próprio esporte. Esse aprendizado chegou antes mesmo que ela pudesse compreender seu real significado. De todas as modalidades que disputou, sempre foi vista como alguém que apresentava baixo rendimento, e isso sempre a fez pensar em tentar quantas vezes fosse necessário.

“Quando eu fiz a primeira cirurgia, eu tinha de 12 para 13 anos. Naquele momento, eu não me senti desesperada, eu não fiquei com medo, nada disso. Eu tinha um problema, mas eu tinha a solução, que era cirurgia e que eu poderia ficar bem”.

NÃO PARA, VERÔNICA

Em 2015, às vésperas dos Jogos Parapan-americanos de Toronto e do Campeonato Mundial, enquanto tratava de uma anemia profunda, foi diagnóstica com uma síndrome rara, chamada Polipose Adenomatosa Familiar. Ela, porém, decidiu seguir com os treinos, participou da competição, conquistou três medalhas de ouro e uma de prata, além de se tornar a maior e mais nova medalhista dos Jogos Parapan-americanos. Ao retornar, precisou retirar 90% do intestino grosso e só voltou a treinar em fevereiro de 2016.

Na tentativa de evitar a volta do tumor no cérebro com uso de fortes remédios esteve nos Jogos Paralímpicos de Verão de 2016, no Rio de Janeiro, onde conquistou uma medalha de prata e outra de bronze. Na volta do mundial, descobriu que os medicamentos já não eram capazes de controlar o crescimento do tumor e mais uma cirurgia precisou ser feita.

No início deste ano, a atleta informou que mais uma vez precisaria se ausentar das pistas e passar por cirurgia. Seu retorno aos treinos, ainda de forma leve, aconteceu no fim do mês de agosto, mas Verônica não pensa em desistir “Nesse início, eu estou recuperando a coordenação, a força mínima. Estou fazendo atividade na piscina para perder o medo de correr”.

Em 2019, ela quer representar o Brasil, nos Jogos Parapan-americanos: “Eu tenho consciência que já comecei atrás, eu estou atrás desde 2013, 2015, 2016, 2017, 2018, mas se não tentamos, não sabemos o que vai acontecer. Ano que vem, eu quero estar no ‘Pan’, quero mundial, quero medalhar”.

“Eu não quero desistir. Nós vivemos uma vez só e não sabemos o que vai acontecer depois. Não quero ser aquela pessoa que vai passar o resto da vida pensando e se tivesse feito, se tivesse acontecido, se eu tentasse. Desistir nunca foi algo que esteve na minha cabeça. Eu só não quero parar”, enfatizou.

SER QUEM REALMENTE É

Mais do que o esporte Paralímpico, Verônica defende que o esporte, de forma geral, é capaz de mostrar quem de fato as pessoas são e que os atletas têm nele a oportunidade de quebrar paradigmas sobres possíveis fragilidades: “O esporte paralímpico mostra quem você é”.

Valorizando a pessoa do atleta paralímpico, ela disse ainda que a deficiência, ou necessidade especial, faz do outro, alguém com característica própria e que é preciso ter cuidado para eles não sejam menosprezados em suas capacidades. “Não é porque eu tive um AVC que eu tenho que ser taxada pelo resto da vida como manca. Eu quero ser lembrada como uma atleta campeã”, concluiu.

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