NACIONAL

ADVENTO

‘Vem, Senhor Jesus’

Por Fernando Geronazzo
04 de dezembro de 2019

O Advento não é um momento de preparação para a festa do “aniversário” do nascimento de Jesus, mas é uma expectativa pela realização do mistério da salvação
 

No domingo, 1º de dezembro, a Igreja Católica inicia um novo ano litúrgico com o Tempo do Advento, período de preparação para a celebração do Natal do Senhor. Durante quatro semanas, os cristãos são inseridos na espera Daquele que veio para salvar a humanidade.
O Catecismo da Igreja Católica destaca que, ao celebrar a cada ano a liturgia do Advento, “a Igreja atualiza esta espera do Messias: comungando com a longa preparação da primeira vinda do Salvador, os fiéis renovam o ardente desejo de sua segunda vinda”. 
Nesse sentido, o Advento não é um momento de preparação para a festa do “aniversário” do nascimento de Jesus, mas é uma expectativa pela realização do mistério da salvação. 

MISTÉRIO 
Padre Helmo Cesar Faccioli, Assessor da Comissão de Liturgia da Arquidiocese de São Paulo, explica que esse tempo litúrgico celebra o “já” e o “ainda não”, da salvação, quando o presente e o futuro se entrelaçam. 
O Advento celebra as três misteriosas etapas da história da salvação. “A primeira é a antiga expectativa dos patriarcas, relacionada com a vinda do Messias, que se encerra com a encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. A segunda etapa diz respeito ao presente da salvação em Cristo, realizada no mundo, mas ainda não complementada. Por fim, o futuro da salvação, que se revelará na transformação do mundo no fim dos tempos”, destaca o Sacerdote. 

COROA
O tempo litúrgico é rico de símbolos que ajudam o cristão a se aprofundar nessa espera. Um deles é a coroa do Advento, que consiste em quatro velas entrelaçadas por ramos no formato de uma coroa, que são acesas a cada domingo. 
“A coroa é um meio pedagógico e litúrgico da vivência das quatro semanas do Advento, também tem relação com o mistério da salvação e alcança os quatro pontos cardeais”, afirma Padre Helmo. 
As velas acesas a cada domingo simbolizam, ainda, a luz que ilumina as trevas com a aproximação da vinda do Salvador. Essa escuridão e expectativa são sinalizadas pela cor roxa usada nos paramentos dos ministros. 

PRESÉPIO 
É também deste período o símbolo que alcança de forma especial os lares católicos no Advento e no Natal: o presépio, representação artística da cena da natividade do Senhor. 
O primeiro presépio de que se tem notícia foi feito por São Francisco de Assis, em 1223, numa gruta, com o objetivo de facilitar a compreensão do povo sobre o sentido do Natal. No entanto, as tradições bizantinas do Oriente cristão já destacavam ícones que retratavam a cena da Natividade do Senhor na gruta de Belém. 
O termo vem do latim praesepe, que significa “estrebaria ou curral”. Geralmente, contém as imagens da Sagrada Família, cercada de animais, pastores, anjos e os reis magos. Contudo, é possível representar o presépio apenas com as imagens da Virgem Maria, São José e o Menino Jesus. 
O presépio costuma ser montado nas casas e igrejas no início do Advento e, geralmente, é desmontado após a celebração da Epifania do Senhor, que recorda a visita dos reis magos a Jesus. 

EM CASA
No ambiente familiar, o presépio tem um valor importante e pedagógico, sobretudo para inserir as crianças no mistério do Natal cristão. “É um sinal externo que nos conduz a uma realidade histórica e espiritual”, completou o Padre, frisando que o ato de rezar diante da cena do presépio ajuda o fiel a viver com mais profundidade a experiência da espera do Senhor.
Na casa de Vinícius e Karina de Andrade, em Brasília (DF), o Advento tem um significado especial para seus filhos, João Paulo, 3, e Maria, 2. No ano passado, a família separou um lugar no rack localizado em um espaço central da sala. Em seguida, o presépio foi montado uma parte a cada domingo. 
“Começamos pelos animais. Nós contamos quem já tinha chegado para receber o Menino Jesus que ia nascer. No outro domingo, chegam os outros personagens, até que, no dia do Natal, fazemos uma grande festa com a chegada do Menino Jesus. Música, velas, mesa muito bem arrumada etc.”, conta Karina. 

PEQUENOS SINAIS 
Quem visitava a família nesta época estranhava o pisca-pisca colocado em torno do presépio aceso durante o dia. Contudo, a mãe explicou que o fazia no horário em que as crianças estavam acordadas para que percebessem o destaque para o símbolo natalino. “As crianças pequenas precisam de sinais, de repetição”, acrescentou Karina.
Para João Paulo, que compreendia um pouco mais que a irmã, foi feito um calendário do Advento em forma de varal e, a cada dia, havia uma atividade voltada para a sua idade. “Cada vez que ele fazia a atividade do dia, nós colocávamos palha em uma cestinha. Eu explicava que era o bercinho do Menino Jesus que ia nascer, que tínhamos que deixar bem fofinho e arrumadinho para ele”, contou Karina, acrescentando que o filho gosta tanto do símbolo natalino que costuma pegar seus bonecos e animais de brinquedo para montar seu próprio presépio.

NOVENA DE NATAL 
Outra tradição antiga da Igreja é a celebração da novena de Natal, que faz alusão aos nove meses de gestação de Jesus no ventre da Virgem Maria. Liturgicamente, essa novena é celebrada de 16 a 24 de dezembro. Nesse período, recita-se no Ofício Divino as sete famosas antífonas da expectação da Mãe de Jesus, que, pelo fato de se iniciarem com a exclamação “Ó”, deram origem ao título mariano de Nossa Senhora do Ó. 
No Brasil, é popular o costume de se realizar a novena de Natal ao longo do Advento em grupos que se reúnem entre famílias, em condomínios, nas escolas, hospitais, asilos e até nos cárceres. Hoje, existem subsídios, como o elaborado anualmente pela Arquidiocese de São Paulo, para orientar a reflexão dos encontros, geralmente iluminando a realidade local com a mística desse tempo litúrgico. 
Padre Helmo ressaltou o valor pastoral e catequético dessas experiências familiares de vivência do Advento. Contudo, chamou a atenção para a importância do âmbito litúrgico e comunitário desse tempo da Igreja. “A liturgia não só contextualiza, como torna presente tal mistério salvífico”, afirmou.

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