NACIONAL

Ana Flora Anderson

Uma vida dedicada à Palavra: Ana Flora Anderson

Por Nayá Fernandes
05 de março de 2019

Aos 22 anos, Florence veio para o Brasil para estudar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL)

Arquivo pessoal

Em frente à casa de Ana Flora Anderson, um pé de café transplantado de Cristina (MG) exibe cachos carregados de frutos que devem amadurecer em junho. Mesmo mês em que, em 1935, nascia Florence Mary Anderson, em Nova York, nos Estados Unidos. Aos 22 anos, Florence veio para o Brasil para estudar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), da USP, que ela soube, ainda nos Estados Unidos, ser uma das melhores universidades da América Latina. Ana teve aulas com, entre outros, Sérgio Buarque de Holanda, historiador.

A imagem do pé de café é uma metáfora da vida de Florence, que no Brasil mudou, não somente de nome, mas a orientação da própria vida. “Eu senti que as pessoas, sobretudo os jovens daqui, contavam comigo. Que havia um movimento muito bonito se formando. Eles tinham um sonho para o Brasil e me envolveram neste sonho. Então, escrevi à minha mãe dizendo que ia ficar, porque precisava ajudar a construir este sonho”, disse Ana Flora.

Quando terminou, após dois anos, sua pós-graduação na USP, Ana foi convidada a estudar Teologia Bíblica e, alguns anos depois, ganhou uma bolsa na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa, em Jerusalém (Israel), mediante intermédio da Ordem dos Pregadores de São Domingos e uma carta de apresentação do Cardeal Agnelo Rossi, então Arcebispo de São Paulo. O mesmo Cardeal Rossi nomearia, anos mais tarde, Ana Flora como a primeira mulher a dar aulas de Teologia no Seminário Central do Estado de São Paulo, que à época reunia estudantes de todo o Estado.

 

REGRESSO

Quando regressou ao Brasil, na década de 1970, o País estava sob a ditadura civilmilitar e muitas pessoas que estudaram ou trabalharam com Ana Flora tinham deixado a nação ou viam-se frente a um regime sob o qual muitos dos projetos anteriores pareciam ruir. Por outro lado, diante de um contexto pós-Concílio Vaticano II, a Arquidiocese de São Paulo pensava em projetos de formação bíblica para as comunidades e, assim, ao lado de Frei Gilberto da Silva Gorgulho, OP, com quem Ana Flora já havia realizado cursos antes de partir para Jerusalém, ela começou um projeto de formação bíblica em São Paulo.

“A experiência nas comunidades mudou novamente minha vida. Eu compreendi que precisava ensinar a Bíblia de uma forma nova, e até mesmo minha metodologia para lecionar na faculdade se transformou”, contou Ana Flora.

Filha de Eleonor e Francis Anderson, Ana Flora viu-se imersa numa experiência que, como ela mesma disse, não imaginava que fosse durar 60 anos: a de pesquisar, escrever e ensinar a Bíblia. Foram mais de 30 anos no magistério, tendo sido professora de muitos seminaristas, padres e leigos, além de ter sido responsável por cursos bíblicos e palestras em todo o Brasil.

“No início, quando eu lecionava no Seminário Central de São Paulo, recebíamos somente uma ajuda de custo. Só depois, quando se fundou as Faculdades Associadas Ipiranga (FAI) – hoje Centro Universitário Assunção (Unifai), comecei a receber salário”, contou Ana Flora, que, devido à falta de recursos financeiros, ficou muitos anos sem rever os pais, até que universidades e instituições dos Estados Unidos começaram a convidá-la para palestras e conferências e, assim, ela aproveitava as viagens para visitar a família. “Costumo dizer que, por meio da ação do Espírito Santo, estive presente quando morreram tanto meu pai quanto minha mãe, e isso considero um presente, uma graça de Deus”, disse.

 

MISSIONÁRIA DA PALAVRA

Ana Flora afirma que aprendeu muito com outros professores que tiveram grande influência em sua trajetória. Frei Carlos Josaphat, OP, foi um deles. Mas, acima de tudo, Ana destaca a força do povo e das pessoas que, ainda hoje, continuam um trabalho de evangelização e de estudo da Palavra de Deus nas comunidades. “Quando Dom Paulo Evaristo Arns completou 90 anos, eu fui à Catedral da Sé para participar da celebração e cheguei bem cedo. Um jovem veio me dizer que uma senhora, grande missionária de Osasco (SP), que participava dos cursos bíblicos, havia morrido aos 90 anos de idade. Comecei a chorar. Então, Maria Angela Borsoi [que foi por muitos anos secretária de Dom Paulo, amiga e companheira de Ana Flora] chegou e perguntou-me porque eu estava chorando se era um dia de festa. Foi um momento forte para mim, de celebração, alegria e despedida”, recordou.

“Lembro-me de que Santo Dias da Silva participava ativamente de um curso bíblico na Região Metropolitana de São Paulo. Na ocasião, cada participante ficou responsável por apresentar um tema. Santo Dias iria falar sobre a oração do Pai-Nosso e estava muitíssimo nervoso. Durante toda a sua fala, eu fiquei sorrindo e acenando com a cabeça para que ele sentisse segurança. Algum tempo depois, ele morreu, e aquela experiência também me fez refletir muito. Eu o ajudei a compreender melhor a Palavra e ele, por sua vez, me ensinou o que significa dar a vida por uma causa”, contou Ana Flora, que é autora de muitos livros, entre eles os comentários dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e do Livro do Apocalipse, publicados pelas Paulinas.

Além disso, Ana Flora assinou, por mais de 40 anos, com Frei Gorgulho, os comentários bíblicos do O SÃO PAULO, semanário da Arquidiocese. Em 2017, Ana Flora foi contemplada com a Medalha São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo, por sua ação missionária.

A tradução da Bíblia de Jerusalém, publicada pela Paulus em 1981, também é fruto do trabalho de Ana Flora e Frei Gorgulho, com a contribuição de um grupo de biblistas, exegetas e teólogos que se reuniam frequentemente no Rio de Janeiro ou em São Paulo.

 

FORÇA FEMININA

Em sua biblioteca, que fica no escritório anexo à casa em que mora, na zona Oeste de São Paulo, Ana Flora conserva um grande acervo com livros sobre estudos bíblicos e teológicos, grande parte em Inglês. Recentemente, ela doou cerca de 2 mil livros para as bibliotecas de São Paulo.

Feita de palavras, experiências e memórias, Ana Flora, que chegou ao Brasil no dia 16 de fevereiro de 1959, conserva em sua casa fotografias de pessoas queridas, de lembranças e lugares pelos quais passou. Na mesinha de madeira, na entrada da casa, um quadro com uma letra hebraica pintada em azul chama atenção de quem chega.

“Durante um curso em Belo Horizonte (MG), quando eu falava sobre o livro do Cântico dos Cânticos e a expressão ‘ahavá’, que significa ‘o amor é forte como a morte’ (Ct 8,6); os participantes mandaram fazer um pingente dourado e me deram de presente no último dia. Então, sempre que eu ia falar sobre o tema, mostrava o presente. Um dia, um aluno que voltou de Jerusalém trouxe-me este quadro e, recentemente, numa palestra de que participei na PUC-SP, alguém quis me apresentar uma religiosa da Congregação de Sion, que também estudou em Jerusalém. Eu mostrei a ela a minha medalha e foi a primeira vez que alguém soube me dizer o significado. Fiquei feliz e a abracei. Cheguei à minha casa e pensei: agora já posso me aposentar”, disse, sorrindo Ana Flora Anderson.

 

 

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