NACIONAL

AMIZADE

Uma relação baseada em partilhar a vida

Por Jenniffer Silva
20 de julho de 2019

Neste dia do amigo, O SÃO PAULO conta a história de duas amigas, que já mantêm, há 16 anos, uma amizade fortalecida na fé e na cumplicidade

Arquivo Pessoal

Na moldura de um porta-retrato, que fica na estante da sala, está eternizado o momento em que, por um dia inteiro, as duas conversaram sobre todos os motivos que antes a afastavam. O fato de que ambas vestiam blusa azul, pode talvez evidenciar uma das tantas outras coisas que têm em comum. Na mesma fotografia, a canção do grupo Anjos de Resgate que diz: “Eu pedi pra Deus gravar o teu nome em minha mão. Deus foi muito mais além, te gravou em meu coração”

Juliana Silva e Janieli Aguiar se conheceram na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, que pertence a Paróquia Imaculado Coração de Maria, na Região Episcopal Brasilândia, quando iniciaram a formação para o sacramento da Crisma.

No início, as duas apenas sabiam da existência uma da outra, como aos risos, elas falaram ao O SÃO PAULO, pois eram apaixonadas pelo mesmo rapaz e, por isso, cultivavam uma resistência em conviver juntas.

IMPORTÂNDIA DO PERDÃO

Em um encontro comum de Crisma, Irmã Clara, religiosa das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, foi convidada para dialogar com os jovens. Na oportunidade, ela falou da importância do perdão. As palavras comoveram Juliana, que decidiu conversar, pela primeira vez, com Janieli sobre a inimizade que a afastavam:

“Eu procurei a Janieli para dizer que se tivesse acontecido qualquer coisa, eu não tinha feito por mal e achava que ela também não. Nós naquele momento nos perdoamos, apesar de ainda não termos muito claro o que havia acontecido. Já não era mais aquela coisa de um não falar com a outra”, disse Juliana.

Aos poucos, a amizade foi se fortalecendo o elas passavam cada vez mais tempo juntas, contanto até com o apoio das coincidências cotidianas: como ter o mesmo horário de trabalho e, por isso, se encontravam sempre no transporte público.

Em dado momento, Juliana indicou Janieli para trabalhar como babá da filha da gerente da empresa em que ela era funcionária. E com a proximidade da casa e empresa em que trabalhavam, elas passaram a se encontrar ainda mais e indo e voltando juntas todos os dias.

VIVENDO A AMIZADE

Dos muitos momentos que passaram juntas ao longo de 16 anos de amizade, elas recordam, da formatura do ensino médio de Janieli. Uma outra lembrança é de quando, elas passaram um dia inteiro conversando sobre a vida de ambas e que elas eternizaram com a primeira foto juntas.

As inúmeras idas à praia, com a família ou com os amigos de comunidade. Uma em especial, quando juntamente com o grupo de catequistas na volta da Praia Grande, de madrugada, a van em que elas estavam quebrou em meio a Rodovia dos Imigrantes: “Um momento triste, trágico e engraçado ao mesmo tempo”, Juliana contou gargalhando, e Janieli completou: “Nós nos vimos no meio do nada, com frio e nós vimos o desespero da Irmã Clara em estar com vários jovens. No fim deu tudo certo, mas foi uma grande aventura, uma das melhores que vivemos”.

Além desses, há ainda uma viagem para um sítio em Campo Limpo, e eventos das famílias das duas, que ao longo dos anos, se tornou uma única família. E é por estarem juntas em tantas ocasiões, que elas afirmam que as pessoas ao seu redor já não conseguem ver: “Jani sem Ju ou Ju sem Jani”.

MÃOS DADAS

A vida nunca é feita apenas de festas e viagens, mas também de situações dolorosas em que é necessário o apoio, assim, as amigas também rememoram alguns momentos turbulentos que passaram juntas ao longo destes anos.

Elas têm dificuldade em decidir quem iria começar a responder à pergunta, quando Juliana escolhe iniciar de forma cronológica: quando ela enfrentou o término de seu relacionamento que já durava seis anos.

Mesmo sendo este, a princípio, o pivô da inimizade entre as duas, Janieli a apoiou: “Eu falei para ela que estávamos juntas, que eu estava do lado dela, foi o primeiro momento que nós demos a  mão para a outra”, continuou.

Anos depois, Juliana recebeu do médico a notícia de que seu pai tinha pela frente somente mais dois meses de vida, devido ao câncer na garganta que havia avançado para uma metástase, Janiele foi uma das únicas três pessoas com que Juliana compartilhou a notícia.

Já quando o pai de Janieli faleceu na Paraíba, local em que nasceu, ela pode contar com sua amiga na compra da passagem para ida ao velório e sepultamento.

Ambas passaram também por complicações na saúde de suas mães. A mãe de Juliana desenvolveu uma doença crônica e foi desenganada pelos médicos e anos mais tarde, ainda sofreu com um tumor no cérebro.

A mãe de Janieli sofreu um acidente de carro em uma estrada de Minas Gerais. Com o trauma, ela precisou passar por uma cirurgia, que lhe deixou paraplégica. 

Em todos esses momentos, uma pode contar com a presença e cumplicidade da outra, as duas hoje celebram a vida das duas mães, mesmo após tantas dificuldades.

SEPARADAS UMA ÚNICA VEZ

Em março de 2014, apenas três meses depois de perder o pai, Juliana passou por alguns dos dias mais sofridos que se recorda.

Em um domingo, Janieli chegou a Comunidade Nossa Senhora de Fátima para a catequese, como não estava se sentindo bem, telefonou para Juliana e pediu que ela a levasse ao médico.

Ao chegar no primeiro hospital, elas não conseguiram atendimento. Janieli já havia desmaiado e não respondia a alguns estímulos. Ao chegar no Hospital do Mandaqui, ela foi diagnosticada com um grave acidente vascular cerebral, do tipo hemorrágico e levada, imediatamente, para a Unidade de Terapia Intensiva.

O profissional que a atendeu avisou a Juliana e uma irmã de Janieli, que ela corria sério risco de não sobreviver.

“Eu ia todos os dias para a porta do hospital mesmo que eu não conseguisse vê-la, era muito dolorido não pode falar com ela. Aqueles foram quase como os vinte dias mais complicados da minha vida. Esse foi o momento mais difícil da nossa amizade, pois eu precisei passar por tudo aquilo sozinha. A única pessoa que eu tinha para partilhar aquela dor era ela, e era ela que estava ali”, expressou Juliana.

SENTIDO DE AMIZADE

Elas consideram que o que mantem esta amizade fortalecida mesmo após tanto tempo é a sinceridade com que lidam com as situações, a confiança que construíram uma com a outra, o cuidado com a amizade e com a relação.

E que no caso delas, a palavra perdão fez toda a diferença e deu um novo significado as suas histórias, elas que concluem a entrevista afirmando, com exatidão, que a amizade entre as duas é eterna.

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