SÃO PAULO

IGREJA PERMANENTE

Uma igreja com a porta sempre aberta

Por Fernando Geronazzo
12 de julho de 2019

Há 10 anos, a Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, no centro de São Paulo, é o único templo católico aberto 24horas

São Paulo não para nunca. Dia e noite, os paulistanos estão indo e vindo, seja para o trabalho, lazer ou mesmo para expressar a fé. Se na maior cidade do Brasil há supermercados, farmácias, lanchonetes abertas 24 horas, por que não haveria uma igreja aberta permanentemente? 
Há 10 anos, a bicentenária Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, no centro da Capital, é a única igreja de São Paulo que funciona 24 horas por dia. O templo não só fica com as portas abertas, mas permanece com o Santíssimo Sacramento exposto para adoração praticamente o tempo todo, exceto durante as celebrações das missas.
A inciativa surgiu quando os fundadores da Comunidade Aliança de Misericórdia, Padre João Henrique Porcu e Antonello Cadeddu, manifestaram ao Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, o desejo de terem um lugar na cidade aberto dia e noite para que as pessoas pudessem adorar a Jesus Sacramentado. A ideia veio ao encontro da preocupação de Dom Odilo em encontrar um grupo para confiar os cuidados da Igreja da Boa Morte, como é popularmente conhecido o templo construído em 1810, que estava fechado desde 2005 para um restauro e em breve seria reaberto. 
Foi então que, em 12 de junho de 2009, a Igreja da Boa Morte foi reaberta para os fiéis e, desde então, nunca mais fechou. Em um primeiro momento, algumas pessoas questionavam se, de fato, havia a necessidade de manter uma igreja aberta durante a noite, principalmente no centro, considerado uma região insegura e deserta. 

ADORADORES
Nos primeiros meses, apenas os missionários da Aliança de Misericórdia se revezavam em turnos de adoração ao Santíssimo. Logo, moradores e trabalhadores do bairro e mesmo pessoas de outros lugares começaram a frequentar a igreja e, aos poucos, o templo passou a ser uma referência para muitos católicos. 
Uma dessas pessoas é Solange Maria Bezerra Leite, 53. Há nove anos, ela viu, pela TV, o convite do Padre Antonello para visitar a Igreja. “Como eu trabalhava aqui perto, comecei a vir uma vez por semana, até que me convidaram para ser adoradora. Foi, então, que eu retomei a fé, a esperança e a caridade em minha vida”, relatou. 
Desde então, Solange faz adoração todos os dias, sendo que três vezes por semana ela fica durante a madrugada, em turnos de quatro horas. Ela enfatizou que a verdadeira adoração é aquela que não é feita apenas por si mesmo, mas é apresentar para Jesus a necessidade dos outros. “Se cada um de nós tirássemos um dia do ano para adorar Jesus, não faltariam adoradores no mundo”, afirmou.

ATIVIDADES
Além da adoração perpétua, a Igreja da Boa Morte tem missas diárias e outras iniciativas, como as Mil Ave-Marias, todas as segundas-feiras, encontros de espiritualidade, formação sobre o significado do mistério eucarístico e vigílias, sendo a principal delas a que acontece nas primeiras sextas-feiras do mês das 22h até as 6h do sábado. 
Durante essa vigília, no meio da noite, o sacerdote e os fiéis percorrem em procissão as ruas no entorno da Igreja com o Santíssimo Sacramento. Enquanto caminham, os missionários abordam as pessoas para evangelizar e fazer uma oração. “Muitas vezes, as pessoas que encontramos pelo caminho acabam nos acompanhando para a Igreja e ficam em vigília até o amanhecer”, relatou Padre Rodrigo Moraes Pereira, um dos missionários da Aliança de Misericórdia que colaboram na Igreja. 

REFÚGIO 
São muitas as histórias de pessoas que entraram por acaso e encontraram um lugar onde foram acolhidas e consoladas por Deus e pelos missionários. “Algumas delas nem chegam a entrar, mas ao passar em frente e avistar o Santíssimo exposto no altar, param e fazem o sinal da Cruz. Elas se recordam da presença de Deus nas suas vidas”, ressaltou a missionária Jaqueline Nunes, 33. 
Solange contou que certa vez, durante a madrugada, um homem entrou na Igreja muito aflito, pois há muito tempo não conseguia dormir. Diante do Santíssimo, Solange rezou por ele e, no dia seguinte, o homem retornou para agradecer porque finalmente tinha conseguido ter uma noite de sono. 
A missionária Camila Reis, 31, relatou que em uma ocasião, durante a noite, ouviu-se os pedidos de socorro de uma mulher que estava fugindo de um homem que tentava abusá-la quando voltava do trabalho. Ao avistar uma das missionárias acompanhada do segurança da Igreja, o homem fugiu e a mulher foi acolhida na Igreja. “Rezamos com ela e a acalmamos. Ela foi consolada e protegida pelo próprio Deus”, disse. 

CURIOSIDADES 
Uma igreja aberta 24 horas torna-se abrigo nas ocasiões mais inusitadas. Em novembro de 2009, quando um blecaute atingiu parte do Brasil, cerca de 200 pessoas passaram a noite na Igreja, pois não tinham como retornar para suas casas. Eles acabaram permanecendo em oração com os seis missionários da comunidade que já estavam no local. 
Em maio deste ano, quando um vazamento de gás causou um incêndio em um prédio nos arredores da Igreja, muitos dos moradores que tiveram suas casas interditadas se abrigaram na Igreja. Essa foi a primeira ocasião em dez anos que o templo fechou as portas por algumas horas, pois a rua foi isolada. “Tanto que o Padre não sabia onde estava chave da porta da Igreja, já que nunca havia sido fechada”, comentou a missionária Camila. 

CASA DOS POBRES 
Sem dúvida, uma igreja aberta dia e noite é referência para os muitos pobres que vivem no centro da cidade. As pessoas que procuram o templo em busca de ajuda, alimento ou mesmo um banho são encaminhadas para a casa de missão da Aliança de Misericórdia em frente à Igreja. “Nessa casa, nós fazemos um primeiro atendimento e depois encaminhamos as pessoas para o nosso centro de convivência no Brás, onde são atendidos cerca de 500 irmãos em situação de rua”, explicou o Padre Rodrigo. 

MANUTENÇÃO
Para manter a Igreja aberta permanentemente, é imprescindível a generosidade das pessoas. “Como se trata de uma igreja de passagem, contamos muito com as ofertas dos fiéis nas missas, campanhas, rifas, eventos. É um grande desafio”, afirmou o Padre, citando os gastos com energia elétrica e segurança, por exemplo. Para isso, a comunidade tem feito uma campanha em busca de dizimistas e eventos para levantar fundos. 
Um desses eventos é a festa da padroeira, que acontecerá nos dias 17 e 18 de agosto, com barracas típicas, shows e missa campal. 
 

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