INTERNACIONAL

Papa Francisco

Um pontificado que começou em Aparecida?

Por Filipe Domingues
14 de novembro de 2017

Em novo livro-entrevista do argentino Hernán Reyes Alcalde, Papa Francisco analisa Igreja na América Latina dez anos após a famosa conferência dos bispos

Divulgação

Em meio a tantos livros publicados sobre Francisco, finalmente o primeiro Papa latino-americano fala exclusivamente sobre a Igreja presente na América Latina. No livro-entrevista “Latinoamérica”, que acaba de ser publicado na Argentina ( Editora Planeta ), Papa Francisco responde às perguntas do jornalista Hernán Reyes Alcalde – também argentino. O ponto de partida é a V Conferência do Episcopado Latino- Americano e do Caribe, realizada há dez anos em Aparecida (SP), que para muitos é o “início conceitual” do pontificado de Francisco. 

“Um dos aspectos distintivos de Aparecida é que foi a primeira conferência latino-americana que não se esgotou com o documento final”, afirmou o autor ao O SÃO PAULO , na segunda-feira, 6, por telefone. “Vai um passo além, com a proposta de uma missão continental. E nesse aspecto, o Papa acredita que ainda há muito o que fazer.” Segundo Reyes, a proposta era desenvolver ideias de Jorge Mario Bergoglio que estão enraizadas no Documento de Aparecida, do qual o então Arcebispo de Buenos Aires foi o principal relator. “Pensar sobre Aparecida em nível conceitual, a partir dos alinhamentos, eixos temáticos”, disse o Repórter da agência Telam . 

“Nos quatro encontros que tive com Francisco, vi um Papa preocupado, mas no sentido de ‘pré-ocuparse’, ou seja, ocupado antecipadamente com as coisas”, acrescentou. “Muitos pensamentos sobre a questão dos jovens e a questão do ambiente, que, justamente, são os próximos dois Sínodos dos Bispos que ele convocou. São dois temas que parecem preocupações, no sentido de ocupar-se, dar atenção antecipada”, disse. 

Papa Francisco deixou claro, na entrevista, que durante seu pontificado não haverá uma nova conferência dos bispos latino-americanos, pois ainda falta muito para se concretizar o que foi discutido há dez anos em Aparecida. E o que faz a Igreja missionária latino-americana ainda não ter chegado lá? Responde o pontífice: “Posso me equivocar, mas tenho uma hipótese: se chama clericalismo. O clericalismo latino-americano é muito forte”, afirma no livro. 

“A vocação do leigo na América Latina tem de ir se redescobrindo, elaborando e se fazer sentir o peso que tem a Igreja”, completa. “Porque a missionariedade, quando falamos de missão continental, não te é dada pela ordem sagrada ou pelo episcopado, mas pelo Batismo: a partir daí, tens que ser testemunho de Jesus Cristo.”

 

Ideia que surgiu há mais de um ano 

A inspiração para o livro surgiu durante o voo papal de Roma para a Armênia, em junho de 2016, no qual o Papa mencionou uma citação do pensador uruguaio Alberto “Tucho” Methol Ferré. Antes do conclave que elegeu o Papa Bento XVI, em 2005, Ferré havia declarado que “ainda não era tempo para um Papa latino-americano”. Lembrado desse tema pelo próprio Francisco, Reyes se questionou se o primeiro papa das Américas pensava o mesmo. E, de fato, no livro Francisco confirma a hipótese do jornalista. Essa informação é, para Reyes, talvez a maior novidade factual do livro.

“Sim, eu compartilhava essa postura de Tucho”, revela Papa Francisco. “Quando li isso em Buenos Aires, antes de vir para o conclave, disse ‘que intuição genial’. Além da ação do Espírito Santo que atua no conclave, neste momento da conjuntura histórica acrescentava outra coisa: o único homem que tinha a altura, a sabedoria e a experiência suficientes para ser eleito era [Joseph] Ratzinger”, responde. “Ao contrário, existia o perigo de se eleger um Papa ‘de compromisso’. E eleger um ‘Papa de compromisso’ parece que não é muito ligado ao Evangelho, digamos.”

 

América Latina para os Latino-Americanos

“Não te esqueças que o mar é lugar de riqueza, de pesca e de trabalho, mas também é lugar de ameaças. No Evangelho se usa das duas maneiras”, diz Papa Francisco, no livro, para lembrar que as periferias existenciais de que sempre fala não são somente as geográficas. “Também há periferias de pensamento: ir dialogar com os limites, dar lugar ao confronto de pensamento. Confronto no bom sentido, o desenvolvimento do pensamento, e de não ter medo de falar com uma pessoa que tem outro esquema de coisas”, completa. 

O Papa está entre os pensadores que defendem uma unidade latino-americana, ideia que remete às históricas empreitadas de heróis como Simón Bolívar e José de San Martín. Conforme explica o jornalista Hernán Reyes Alcalde, isto é algo que, desde a época de cardeal, Bergoglio expressava. “Escreveu dois prólogos em livros do uruguaio Guzmán Carriquiry, um em 2005 e outro em 2011, e aí estava com clareza a ideia latino-americanista. Usa a expressão pátria grande. Aqui também, novamente, é interessante a introdução de Ferré, um dos grandes teóricos da linha continental. Também no Documento de Aparecida há muito dessa interpretação”, analisa. 

O livro é bastante breve, tem apenas 200 páginas, e metade é uma compilação de discursos do Papa. O enfoque social de “Latinoamérica” é principalmente sobre três temas: jovens, mulheres e encarcerados, mas as conversas entre Papa Francisco e Reyes vão além, passando também pelo meio ambiente – ponto importante da Encíclica Laudato Si ’, que Francisco insiste ser uma “encíclica social” –, pelo diálogo ecumênico e inter-religioso e pelas características necessárias para um político católico latino-americano. 

“É um Papa que fala do tema das mulheres, dos encarcerados, dos jovens e da questão ambiental”, lembra Reyes. “Mas, uma preocupação constante e o fio condutor, me parece, é colocar o ser humano no centro. Todos os temas terminam com o ser humano no centro de todas as decisões.”
 

 

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