NACIONAL

POLÍTICA

Um país à espera de combustível

Por Daniel Gomes
29 de mai de 2018

Greve mostrou o quanto o Brasil está dependente dos transportes rodoviários

Luciney Martins/O SÃO PAULO

A greve dos caminhoneiros, iniciada no dia 21, mostrou o quanto o Brasil está dependente dos transportes rodoviários.

Nos dias seguintes à falta de entrega de combustível nos postos e ao início dos bloqueios de rodovias pelos caminhoneiros, carros pararam de circular, aulas foram suspensas, mercados ficaram desabastecidos, houve o cancelamento de cirurgias não emergenciais, voos atrasaram, os transportes públicos ficaram mais cheios do que já são normalmente, e ao menos 64 milhões de aves foram sacrificadas em uma semana por conta da falta de ração.

Muita carga na estrada

Segundo dados da Confederação Nacional do Transporte, aproximadamente 60% do transporte de cargas no Brasil é feito por rodovias.

“Acabamos sendo reféns de só um transporte e, quando há uma paralisação como a que estamos passando agora, ficamos de mãos atadas”, opinou, ao O SÃO PAULO Luiz Vicente Figueira de Melo Filho, mestre em Engenharia Automotiva, especialista em mobilidade urbana e professor na Universidade Mackenzie-Campinas.

Melo Filho disse ser indispensável investir em outros sistemas de transporte, em especial nas ferrovias. “Para se ter uma malha ferroviária efetiva, é necessário um investimento maior, mas que levará à redução no valor do frete em função da maior quantidade que se conseguirá transportar”, afirmou, opinando, ainda, que este investimento pode ser feito a partir de parcerias público privadas (PPP’s), com empresas que, segundo ele, têm maior competência e estruturação técnica que o poder público nessa área.  

Outras fontes de energia

Para Cristiane Mancini, mestre em Economia e professora das Faculdades Integradas Rio Branco, uma medida anterior à menor concentração do transporte de cargas nas rodovias deve ser o uso de outras formas de energia.

“Somos muito dependentes da matriz-suja, que é o petróleo. É algo que precisa ser repensado com a maior rapidez possível”, afirmou, exemplificando que quase não há o uso de veículos elétricos em grande escala e que os ônibus poderiam circular com outros combustíveis. “Qualquer aumento dos preços dos combustíveis tem impacto em todos os brasileiros, por afetar todas as cadeias produtivas. No fim das contas, a Petrobras sabe do poder que tem e coloca o preço que lhe convém, mas isso é extremamente prejudicial para a sociedade que precisa desse bem”, analisou.

Demandas dos caminhoneiros

Diferentemente da maioria dos movimentos grevistas no País, a mobilização dos caminhoneiros aparenta não ter uma liderança centralizada, tanto assim que mesmo após o governo acertar com as entidades representativas da categoria acordos para o fim da greve, as manifestações seguem por todo o Brasil.

O eixo-central das reivindicações é a redução dos custos operacionais para os caminhoneiros. “A grande maioria são autônomos. Se eles continuarem pagando um excesso de impostos via combustível, pedágio e conserto dos próprios caminhões, a manutenção do trabalho deles se torna inviável em relação ao que recebem das empresas que os contratam”, analisou Cristiane.

Pontos negociados

Após um fim de semana de reuniões em um gabinete de crise e com os representantes dos caminhoneiros, o Governo Federal publicou, no domingo, 27, em edição extra do Diário Oficial da União, uma série de medidas com vistas ao fim da greve.

Entre as decisões, estão a redução de R$ 0,46 no preço do litro do diesel pelos próximos 60 dias, após o qual os reajustes serão feitos a cada 30 dias, para baixo ou para cima, conforme o preço no mercado internacional e a taxa de câmbio; isenção do pagamento de pedágio para eixos suspensos de caminhões vazios em rodovias; definição de uma tabela mínima do valor de frete; e determinação de que 30% dos fretes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sejam feitos por caminhoneiros autônomos, vinculados a entidades sindicais, cooperativas ou associações.

A Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) considerou positivo o resultado do acordo assinado e disse esperar que “até dezembro deste ano, o Governo encontre soluções para que essa redução [no valor do diesel] seja permanente”, afirmou em nota. “Sendo assim, já que o objetivo foi alcançado, a Abcam pede a todos os caminhoneiros que voltem ao trabalho”, consta em outro trecho.

E quem vai pagar a conta?

Em coletiva de imprensa na segunda-feira, 28, Eduardo Guardia, ministro da Fazenda, informou que as medidas anunciadas pelo governo para pôr fim à greve dos caminhoneiros não colocarão em risco o cumprimento da meta fiscal.

A redução de R$ 0,46 por litro será viabilizada zerando a alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) – que hoje equivale a R$ 0,05 - e reduzindo em R$ 0,11 o PIS-Cofins que incide sobre o diesel. Nas contas do Governo, esse montante será reposto com a reoneração da folha de pagamento de alguns setores da economia, medida que aguarda a aprovação do Congresso Nacional.

Os R$ 0,30 restantes da redução serão pagos pelo Governo às refinarias, por meio do chamado programa de subvenção do diesel e pelo crédito extraordinário no Orçamento Geral da União, que serão criados por medida provisória, e que devem custar à União aproximadamente R$ 9,5 bilhões este ano. A equipe econômica do presidente Michel Temer (MDB) afirma que este montante será compensado com outros tributos já existentes e cortes de R$ 3,8 bilhões em gastos e investimentos.

Longe da estabilidade

A falta de uma liderança centralizada no movimento grevista faz com que o governo não tenha uma previsão sobre a volta da estabilidade no abastecimento no País.

Segundo Fábio Pina, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), o setor é um dos que sente o impacto do desabastecimento, até por conta do aumento da procura dos itens por parte de pessoas que têm medo de que tudo acabe.

Pina avaliou que o atual cenário comprova que o Brasil “ainda não aprendeu a viver numa economia de mercado, onde os preços são formados pelo mercado a partir da demanda e da oferta”, e apontou que as coisas podem ficar piores se a greve não chegar ao fim. “Em poucos dias, o combustível acaba. Depois, começam os problemas no abastecimento de alimentação, além de se afetar a mobilidade nos grandes centros. No varejo, por exemplo, com as pessoas circulando muito menos, isso acarreta prejuízos na economia”, afirmou.

Para Cristiane, somente um efetivo acordo entre o Governo e os caminhoneiros irá normalizar a situação. “Enquanto os supermercados e redes de distribuição não perceberem que vai haver uma reposição daqueles bens que são ofertados, eles não reduzirão o preço, por não saber quando vão conseguir ofertar um produto. Já existe essa situação de inflação, pois a oferta não está suprindo a demanda, então, automaticamente, para que não haja falta, os preços sobem”, concluiu.

(G1, Planalto, Agência Brasil, Associação Brasileira de Proteína Animal, BBC Brasil).

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