NACIONAL

Violência nas escolas

Um medo comum de pais, alunos e professores

Por Fernando Geronazzo
10 de outubro de 2017

Pesquisa divulgada pelo sindicato dos professores do estado de São Paulo indica sensação de insegurança nas unidades escolares; secretaria da educação relata aumento de vandalismo e busca promover a mediação de conflitos

Jovenal Pereira/O SÃO PAULO

As frequentes notícias e relatos nas redes sociais sobre episódios de agressões contra professores em sala de aula indicam apenas uma parte da complexa situação da violência nas escolas.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, a pedido da Apeoesp, sindicato que representa os professores do ensino oficial do Estado de São Paulo, indica que 51% dos professores da rede pública estadual paulista já sofreram algum tipo de violência nas escolas em que trabalham. Entre os estudantes, 39% afirmam já ter sofrido violência. 

A pesquisa, divulgada no dia 27 de setembro, ouviu 2,5 mil pessoas, em 155 municípios, incluindo pais, estudantes e professores da rede estadual de ensino. 

Os dados mostram, ainda, que 1,6 milhão de estudantes e 173 mil professores souberam de casos de violência em suas escolas estaduais no último ano. Os professores são as maiores vítimas de agressão verbal e de preconceito, enquanto os estudantes relataram terem sofrido especialmente bullying e agressão física. 

Sobre as causas da violência no ambiente escolar, a pesquisa da Apeoesp indica que a população em geral, pais e estudantes apontam as drogas, o conflito entre estudantes e a falta de policiamento como principais causas da violência. Já os professores foram os únicos a citar a “educação em casa” como causa de violência. Tanto a população quanto a comunidade escolar percebem as escolas públicas como muito mais violentas do que as escolas privadas. A maioria dos pais, estudantes e professores classifica suas escolas como violentas. Em uma pesquisa anterior, em 2013, eram 57% os professores que consideravam as escolas como violentas. Em 2017, esse percentual passou para 61%. 

Para Marina Feldman, Professora Titular da Faculdade de Educação da PUC-SP, a violência na escola está diretamente relacionada à violência na sociedade. “Precisamos entender que isso faz parte de uma sociedade que hoje vive uma violência exacerbada do ponto de vista político, social e econômico. Muitas vezes, o aluno encontra também dentro da escola uma possibilidade de se manifestar, porém de uma maneira errônea”, comentou à reportagem. 

A pesquisa destaca que os estudantes da periferia são mais vulneráveis à violência dentro das escolas estaduais. Enquanto 27% dos alunos de escolas do centro declararam já ter sofrido pessoalmente algum tipo de violência, 42% dos alunos em bairros periféricos disseram já ter sido vítima de violência.

 

Professores

Sobre a agressão a professores, o jornal O Estado de S. Paulo divulgou, em agosto, dados, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, que indicam que as escolas do Estado de São Paulo, públicas e particulares, registraram neste ano ao menos três casos de agressão física por dia. 

Os casos de violência, registrados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) são acompanhados pela Secretaria Estadual da Educação, por meio do Registro de Ocorrências Escolares (ROE).

Segundo a pesquisa, houve 249 episódios de agressão física a professores em 2016. No primeiro semestre deste ano, foram feitos 548 boletins de ocorrências de “lesão corporal” dentro de unidades de ensino fundamental e médio. O crime é o segundo mais cometido nos colégios paulistas e representa 13,4%, das 4.080 ocorrências policiais no ano. O mais comum é o furto, com 1.219 casos.

A Presidente da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha, garantiu que esses números são maiores, pois muitos professores não fazem boletim de ocorrência das agressões por temerem represálias do próprio aluno, como serem agredidos novamente ou terem seus carros danificados. “Por isso, preferem que o ocorrido fique somente dentro da escola”, disse. 

 

Casos

O jornal O SÃO PAULO conversou com um professor de uma escola estadual na zona Leste de São Paulo. Ele trabalha na rede pública desde 2013 e pediu para não ser identificado. Diz ter testemunhado vários casos de violência contra professores, especialmente psicológica e verbal, como afrontas, desrespeito, ofensas e desacato. Todos estes casos foram resolvidos por via administrativa na direção da escola, com raras punições aos alunos. 

O Professor também testemunhou casos de explosões de bombas-caseiras na escola. “Chegaram a explodir 12 em um período de três aulas. Houve, também, uma ocasião em que colocaram uma bomba caseira dentro de um copo com pregos para machucar as pessoas”, relatou. 

O caso mais grave, no entanto, foi quando o pai de um aluno agrediu fisicamente uma coordenadora pedagógica da escola. “O motivo? O aluno do ensino fundamental foi encaminhado ao programa ‘Mais Educação’ para reforço de Língua Portuguesa, e o pai alegou que a professora estava cha
mando o seu filho de analfabeto”. Casos como esse são encaminhados aos policiais da Ronda Escolar para a realização de boletim de ocorrência e encaminhamento judicial. “Mas, infelizmente, por parecer do Ministério Público, as escolas não podem fazer nada para punir os alunos”, completou. 

 

Soluções

Todos os perfis de pessoas ouvidas pela pesquisa da Apeoesp apontam investimentos em cultura e lazer, além de maior policiamento, como soluções para a violência nas escolas. Professores destacam a necessidade de realizar “debates sobre o tema” no ambiente escolar e na comunidade. 

Marina Feldman defende que haja uma ampla reflexão a respeito dos valores que o projeto pedagógico desenvolve com os alunos: “O fim da violência é uma tarefa de todos: dos pais, da escola, dos professores, é da sociedade como um todo”. Ela também acredita que a mediação de conflitos pode ser uma das alternativas para amenizar e restaurar o diálogo nas escolas. 

O que diz o Estado 

A Secretaria Estadual da Educação de São Paulo disse que não teve acesso ao conteúdo da pesquisa, mas que um levantamento feito por seu Sistema de Proteção Escolar com 2.200 instituições de ensino fundamental e médio mostrou que, nos últimos três anos, diminuíram em 70% os episódios de violência e incidentes, incluindo bullying , agressões e indisciplina. 

Em nota, a Secretaria da Educação informou que vai ampliar o programa de mediação de conflitos, capacitando educadores para prevenir desentendimentos nas escolas estaduais. Atualmente, os vice-diretores de 2,3 mil escolas já são os responsáveis pela mediação. A partir de outubro, a Secretaria irá formar os de todas as 5 mil unidades. Os outros 1.795 mediadores serão professores, a ser igualmente treinados. Atualmente, a rede conta com 1,2 mil professores-mediadores. 

Conforme informações disponíveis no site da Secretaria da Educação, a ação integra um termo de cooperação que aproxima promotores de Justiça das escolas estaduais e reforça o Sistema de Proteção Escolar, criado em 2009 pela Secretaria da Educação. O programa visa ainda integrar a escola e a comunidade e promover a garantia dos direitos da criança e do adolescente. 

Foram cruzados dados do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social e do Registro de Ocorrência Escolar. Esse último é uma ferramenta criada pela pasta para que as unidades notifiquem qualquer tipo de caso de violência em escola estadual, desde indisciplina e bullying à agressão física, e, por consequência, serve para a Secretaria dar suporte às unidades e comunidades. 

 

Vandalismo e depredações 

Aos casos de violência no ambiente escolar, somam-se os episódios de vandalismo e depredações em escolas. De acordo com dados extraídos dos Registros de Ocorrências Escolares (ROE), em 2016 ocorreram 2.596 casos e no primeiro semestre de 2017 já foram registrados 974. 

Segundo a Secretaria da Educação, a estimativa de prejuízos com depredações e vandalismos, entre 2014 e junho de 2017, é de R$ 19,6 milhões. A maior parte desse dinheiro foi investido em intervenções relacionadas a incêndios provocados em escolas e na reposição de cabos, além de outros equipamentos furtados. Com esse valor, poderiam ser construídas 13 creches e quatro escolas. Por outro lado, a Secretaria informou que nesse mesmo período o Estado de São Paulo gastou R$ 1,3 milhão com a inauguração de escolas.

Em agosto, duas escolas estaduais na zona Norte da Capital Paulista foram invadidas e depredadas. Em uma delas, os invasores chegaram a quebrar a caixa d’água. Na outra, monitores e computadores foram furtados. Em ambos os casos, a Polícia foi acionada para realizar as investigações. 

A Secretaria da Educação tem pedido a colaboração dos pais e da sociedade para preservar o patrimônio. Dentre as medidas preventivas, a pasta destaca o “Programa Escola da Família”, criado em 2003, que reúne professores, universitários e voluntários para a promoção da integração entre escola, família e comunidade. 

Em artigo publicado em seu blog pessoal na internet, o Secretário Estadual da Educação, José Renato Nalini, destacou que nas instituições que implantaram o “Escola da Família”, os casos de vandalismo diminuíram e houve maior vínculo entre professores, alunos e pais. “A mudança do clima escolar vem mediante cooperação mútua, o trabalho em comum, o compartilhamento, o diálogo, a percepção de que há muitas formas de ver as coisas e que todos os pontos de vista devem ser acatados e discutidos”, opinou Nalini. 

 
(Colaborou: Flavio Rogério Lopes)
(Com informações do jornal O Estado de S. Paulo, Agência Brasil e G1)
Arte: Jovenal Pereira/O SÃO PAULO

 

 

 

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