INTERNACIONAL

Entrevista

‘Testemunho de uma Igreja que sofre’

Por Marcio Martins
05 de junho de 2019

Cardeal Joseph Coutts conta a realidade dos católicos no Paquistão

O Paquistão é um país com quase 200 milhões de habitantes, sendo 95% muçulmanos. Os cristãos somam somente 2% da população. Nesta minoria, encontra-se o Arcebispo de Karachi, o Cardeal Joseph Coutts, que visitou o Brasil pela primeira vez, a convite da ACN, e participou da Assembleia Geral da CNBB. O Cardeal Coutts concedeu esta entrevista na sede da ACN Brasil, em São Paulo, e apresentou a realidade dos cristãos no Paquistão, abordando aspectos sobre preconceito e discriminação religiosa.

QUAL A REALIDADE DOS CATÓLICOS NO PAQUISTÃO?
De acordo com a Constituição, a liberdade religiosa é reconhecida, embora os altos cargos do Estado não sejam acessíveis às minorias religiosas no Paquistão. Nos últimos anos, porém, tem havido muitas mudanças na sociedade, e nós, católicos, somos chamados a ser testemunhas de uma Igreja que sofre.

O PAQUISTÃO FICOU MAIS INTOLERANTE ENTÃO?
Não o país, mas uma minoria extremista que deseja um estado muçulmano. Infelizmente, grupos islâmicos começaram a se fortalecer e pressionar os governos a introduzir leis islâmicas. Uma dessas leis, a Lei da Blasfêmia, introduzida em 1986, acabou se tornando um problema para os cristãos. De acordo com a lei, qualquer um que fale contra o Profeta Maomé ou manche seu nome por escrito ou de qualquer outra forma, deve ser sentenciado a morte. Essa lei também diz que se alguém corromper o Alcorão, deve ser condenado à prisão perpétua. Mesmo que o Corão caia acidentalmente das mãos, isso pode ser considerado uma profanação. O problema da Lei da Blasfêmia é a sua má interpretação. Até os muçulmanos moderados sofrem com acusações sobre blasfêmia. Embora esta lei tenha a intenção de proteger a honra do Profeta Maomé e do Livro Sagrado, ela pode ser facilmente usada de maneira imprópria. É muito fácil para um muçulmano acusar alguém de blasfêmia. Em muitos casos, trata-se de uma acusação infundada, mas o acusador usa a Lei da Blasfêmia como meio de vingança pessoal. Recentemente, tivemos o caso de Asia Bibi, uma pobre cristã condenada à morte por blasfêmia, que finalmente foi absolvida. 

EXISTEM MUITAS ACUSAÇÕES PELA LEI DA BLASFÊMIA?
O caso de Asia Bibi foi apenas o mais famoso, porém há muitos outros. Eu me lembro do massacre de Gojra, em 2009, quando crianças fizeram confetes com páginas de jornais que continham versos do Alcorão. Por causa disso, uma multidão irada atacou um bairro cristão e incendiou cerca de cem casas. Oito pessoas perderam a vida nas chamas. Também houve outros ataques semelhantes, por exemplo, em Lahore, em 2013. Várias pessoas foram espancadas até a morte sem que pudessem provar sua inocência. Mesmo que um tribunal declare uma pessoa inocente, o acusador tentará matá-la. Em um desses casos, um juiz muçulmano foi morto em seu escritório porque havia declarado um cristão inocente ao término de um processo.

QUAIS OUTRAS DIFICULDADES OS CRISTÃOS ENFRENTAM?
Outro problema que o governo é incapaz de impedir é o sequestro e conversão forçada ao Islã de meninas cristãs e hindus que são obrigadas a se casar com seus captores. Não há números oficiais a esse respeito, porém se acredita que todos os anos muitas meninas são arrancadas de suas famílias e forçadas a se converter.

ESSA DISCRIMINAÇÃO GERA O AUMENTO DO EXTREMISMO?
A discriminação alimenta uma sociedade cada vez mais intolerante e preconceituosa. Os extremistas enxergam o Ocidente como cristão, e esse pensamento radical do Islã não acredita na democracia, que é vista como um conceito ocidental. Eles querem que o Paquistão se torne um estado puramente islâmico e não hesitam em usar homens-bomba para atacar e matar quem quiserem. Eles representam uma ameaça real para os cristãos, pois nos consideram infiéis.

HÁ SINAIS DE ESPERANÇA?
Sempre haverá sinais de esperança quando se tem fé. Somos uma pequena minoria, mas isso não significa que somos ocultos ou silenciosos. Em nossas igrejas, escolas e instituições cristãs, realizamos um trabalho muito importante, também reconhecido por muitos muçulmanos. Tudo isso graças ao auxílio de muitas pessoas ao redor do mundo, que nos apoiam com ajuda econômica, jurídica e espiritual, por meio de orações.

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