SÃO PAULO

Abas primárias

Namoro

Tempo de conhecer, discernir e crescer juntos

Por Fernando Geronazzo
13 de junho de 2018

O namoro é um período valorizado pela Igreja como o tempo de conhecimento e discernimento em vista do sacramento do Matrimônio.

Fotos de Arquivos Pessoais

Em 12 de junho, os brasileiros comemoram o Dia dos Namorados, data que, embora tenha um forte apelo comercial, tem sua origem relacionada à memória de Santo Antônio de Pádua, celebrado no dia seguinte, 13, conhecido na religiosidade popular como o “Santo Casamenteiro”. No entanto, no restante do mundo, o dia dedicado aos namorados é 14 de fevereiro, na memória do mártir São Valentim, que, segundo a tradição, durante a perseguição aos cristãos no século II, arriscava a sua vida para unir os casais em Matrimônio.

O namoro é um período valorizado pela Igreja como o tempo de conhecimento e discernimento em vista do sacramento do Matrimônio. Nesse tempo, as moças e rapazes são convidados a estreitar sua relação de amizade em vista do mútuo conhecimento para juntos amadurecerem no amor a ponto de decidirem constituir uma família. 

Ao falar sobre o namoro e noivado na catequese do dia 27 de maio de 2015, o Papa Francisco enfatizou que a “aliança de amor entre o homem e a mulher, aliança para a vida, não se improvisa, não se faz de um dia para outro”. 

“Não há o Matrimônio rápido: é preciso trabalhar sobre o amor, é necessário caminhar”, afirmou. 

CONHECER

O Conselheiro Familiar espanhol José María Contreras destacou que, para os que foram chamados por Deus à vida conjugal, a felicidade humana depende, em grande parte, da escolha da pessoa com quem vão compartilhar o resto de sua vida no casamento. Para isso, é importante escolher a pessoa adequada. “Portanto, esta decisão está relacionada com dois parâmetros: conhecimento e risco; quanto maior o conhecimento menor o risco. No namoro, o conhecimento é a informação da outra pessoa”, afirmou Contreras em um de seus artigos. 

Casados há 26 anos, André Luís Kawahala e Rita Massarico Kawahala atuam na Pastoral Familiar no acompanhamento de namorados, noivos e jovens recém-casados em todo o Brasil. Em entrevista ao O SÃO PAULO, André destacou que na experiência de conhecer a outra pessoa, conhece-se a si mesmo. Para isso, é fundamental o diálogo. “A frase ‘se não der certo, separe’ é própria do namoro, não do casamento. Muitas vezes, na tentativa de fazer o namoro dar certo, a pessoa se amolda a uma coisa que não corresponde à realidade e acaba camuflando problemas que podem desencadear durante um eventual casamento. Por isso, conhecer um ao outro é a prioridade do período do namoro”, salientou André, que junto à esposa também escreve artigos formativos para jovens sobre namoro e casamento. 

Contreras confirma essa reflexão ao dizer que hoje muitos casais baseiam o namoro, e até o casamento, no sentimentalismo. “Às vezes, há atitudes de conveniência e falta de transparência, ou seja, ‘autoenganos’ que depois terminam aparecendo nos fatos. Com o passar do tempo, isto pode converter-se em causa de rupturas matrimoniais. Os namorados têm de querer construir sua relação sobre a rocha do amor verdadeiro, e não sobre a areia dos sentimentos que vão e vem”, enfatizou. 

Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco alerta, ainda, que os que se preparam para o casamento deveriam “ser incentivados e ajudados a poderem expressar o que cada um espera dum eventual Matrimônio, a sua maneira de entender o que é o amor e o compromisso, aquilo que se deseja do outro, o tipo de vida em comum que se quer projetar”.

CASTIDADE

Na perspectiva do conhecimento e da preparação para o Matrimônio, a consciência e vivência da virtude da castidade é considerada fundamental pela Igreja. Na Amoris Laetitia, o Papa Francisco define a castidade como “condição preciosa para o crescimento genuíno do amor interpessoal”. 

Na Mensagem para Jornada Mundial da Juventude de 2007, o Papa Emérito Bento XVI definiu o período do namoro como fundamental para construir o casal. “É um tempo de expectativa e de preparação, que deve ser vivido na castidade dos gestos e das palavras. Isto permite amadurecer no amor, na solicitude e nas atenções ao outro; ajuda a exercer o domínio de si, a desenvolver o respeito do outro, características do verdadeiro amor que não procura em primeiro lugar a própria satisfação nem o seu bem-estar”. Trata-se, portanto, do relacionamento de duas pessoas que se amam, mas que ainda não decidiram entregar-se totalmente ao outro em Matrimônio. 

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, a castidade é uma virtude moral e “um dom de Deus, uma graça, um fruto da obra espiritual”. Nesse caso, os namorados e noivos são convidados a viver a castidade por meio da continência, uma vez que o ato sexual tem o pleno sentido no Matrimônio. A doutrina da Igreja define, ainda, esse período como um “tempo de prova”, de descoberta do respeito mútuo e uma aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem ambos da parte de Deus. 

Segundo André, para falar em castidade hoje é preciso ajudar os jovens a entender que por trás da norma moral existem fundamentos que dão sentido a ela. “A experiência da castidade antes do Matrimônio ajuda o casal a lidar, por exemplo, com os períodos de continência durante a vida matrimonial, como após o parto ou por alguma questão de saúde”. 

Do ponto de vista humano, André destacou que, embora a cultura atual relativize a castidade, é preciso compreender que ter uma relação íntima com alguém implica muitas dimensões da vida, a começar a psicológica. Por isso, é preciso maturidade para tal entrega que, dentro de um namoro, pode atrapalhar no discernimento próprio desse período. “Nesse momento, o sexo turva a visão. Humanamente ele é bom, criado por Deus, mas quando acontece antes do momento propício, pode ocupar o lugar o diálogo que permite o maior conhecimento da outra pessoa. Sem contar que, em muitos casos, as relações abusivas e as manipulações se utilizam do sexo para manter uma estabilidade de uma relação que já não caminha bem”, alertou. 

TUDO A SEU TEMPO

Além da banalização do sexo, outros desafios podem prejudicar a experiência do namoro, como o consumismo, as manipulações, relações abusivas e questões sociais e econômicas que, muitas vezes, dificultam com que jovens aptos para o Matrimônio assumam esse compromisso por não terem estabilidade para constituir um lar. Nesse aspecto, André aponta a importância de integrar os agentes das pastorais familiar e juvenil em vista da preparação remota das moças e rapazes para o Matrimônio. “As soluções prontas nem sempre são eficazes atualmente. Hoje há uma necessidade cada vez maior de um acompanhamento mais personalizado. Vale a pena trabalhar com um grupo de casais, mas é importante ter um acompanhamento a partir da realidade de cada um”, disse. 

Nesse sentido, o Agente de Pastoral apontou para o risco de se “avançar o sinal” no namoro para realidades que são próprias de uma vida matrimonial, quando vivem um compromisso a dois como se já fossem casados, colocando sobre a relação um peso que ainda não pode ser suportado nessa fase. Para alguns, chega a ser cômodo viver o compromisso dessa forma, permanecendo cada um na casa de seus pais, sem a necessidade de assumirem as responsabilidades que emanam de um Matrimônio, manifestando o que o Papa Francisco chama de “cultura do provisório”. 

“Esses casais adquirem coisas como se fossem casados, frequentam lugares públicos como se fossem casados, mas não assumem a responsabilidade própria de um casamento”, completou. 

“Amizade é um grande valor dentro de um relacionamento, que ajuda a cultivar, aos poucos, a experiência de exclusividade ou de pertença de um ao outro. Isso é diferente da posse. A exclusividade é conquistada assim como a confiança. Você consegue ser exclusivo de alguém à medida em que conquista a confiança dessa pessoa e é capaz de dizer: eu quero ser dessa pessoa”, analisou André. 

UM AMOR DIFERENTE

Para ajudar os jovens e suas famílias a lidarem e compreenderem o relacionamento humano, a Mestra em Ciências da Família Maria Claudia Duran e sua filha, Maríandrea Cortés Durán, ambas colombianas residentes no Brasil, desenvolveram a iniciativa “Um amor diferente”, que tem como grande referencial a Teologia do Corpo desenvolvida por São João Paulo II, a partir de um conjunto de 129 catequeses ministradas entre 1979 e 1984. Nelas, o Pontífice meditou sobre amor humano em seus vários aspectos: a relação do homem e da mulher, o significado esponsal do corpo humano, a natureza e missão da família, o Matrimônio, o celibato, a luta espiritual do coração do homem, a linguagem profética do corpo humano, o amor conjugal, entre outros. 

“O projeto fala muito sobre a dignidade da pessoa humana, sobre sermos um presente de Deus para o mundo, vendo-nos como filhos de Deus e com os seus olhos enxergar a beleza que está dentro de cada um de nós e de todas as pessoas que estão ao nosso redor. Todas as pessoas, fisicamente belas ou não, possuem uma beleza única e irrepetível. Quando eu começo a me ver como Deus me vê e me ama, eu sou capaz de olhar e amar os outros como ele”, afirmou Maríandrea à reportagem. 

Por meio da Teologia do Corpo, a pessoa é convidada a conhecer a si mesmo e às outras pessoas, e desenvolver um relacionamento pautado na amizade que eventualmente pode se tornar um namoro e conduzir ao Matrimônio. O projeto “Um amor diferente” atua na Colômbia, Brasil e México, e não está voltado apenas para católicos, mas a todos os públicos, inclusive ateus e agnósticos. “Ajudamos as pessoas a compreender o corpo humano e a sexualidade como um meio sagrado de demostrar o amor, de tornar visível o amor invisível, de nos unir a Deus como ‘co-criadores’ e, assim, dar a vida como Ele deu-nos a vida”, completou Maríandrea.

CAMINHO DE SANTIDADE

A experiência do namoro é também um caminho de realização do chamado universal à santidade. Conscientes disso, os jovens Micael Camargo da Luz e Victória Almeida Calado, namorados há um ano e meio, decidiram criar uma página no Facebook chamada “Você me santifica”, para partilhar reflexões a respeito desse sentido do namoro cristão. “Por diversas vezes, tínhamos algumas dúvidas e isso fez com que buscássemos livros, o que nos ajudou muito. Foi aí que em oração sentimos que Deus nos chamava a usar das redes sociais para falar mais sobre o namoro cristão, um namoro autêntico segundo o coração de Deus”, explicou Micael, que pretende se casar com Victória entre 2020 e 2021. 

“Para nós, o namoro é uma preparação para receber o sacramento do Matrimônio, pois é nessa fase que podemos conhecer o outro, seus valores como pessoa, seus sonhos, enfim, tudo aquilo que antecipa o que um dia poderá ser a família. Antes de namorar, é preciso saber o que é namoro, e para nós cristãos a meta é levar o outro ao céu, ou seja, o outro (namorado ou namorada) é o caminho para santificação”, acrescentou o jovem. 

Depois de dois anos de namoro, Rafael Lucas da Silva e Bianca Oliveira de Freitas vão se casar no dia 7 de setembro e são um dos casais acompanhados por André e Rita. Eles ressaltaram a importância do namoro como uma oportunidade não apenas para se conhecerem, mas para “alinharem expectativas” e, principalmente, para amadurecer a vida espiritual do casal. “Desde o começo, sempre fizemos questão de comungar juntos e de participar das celebrações juntos para que pudéssemos amadurecer juntos”, relatou Rafael.
 

10 FRASES DO PAPA FRANCISCO AOS NAMORADOS

  1. “O verdadeiro amor é amar e deixar-se amar.” (Encontro com os jovens, Manila, 18 de janeiro de 2015)
  2. “O amor abre-te às surpresas, o amor é sempre uma surpresa, porque supõe um diálogo entre dois: entre o que ama e o que é amado. E de Deus dizemos que é o Deus das surpresas, porque Ele nos amou sempre primeiro e espera-nos com uma surpresa.” (Encontro com os jovens, Manila, 18 de janeiro de 2015)
  3. “Peçamos ao Senhor que nos faça entender a lei do amor. Que bom é ter esta lei! Quanto bem nos faz amarmo-nos uns aos outros contra tudo!” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium)
  4.  “Para levar a diante uma família, é necessário usar três palavras. Quero repeti-lo, três palavras: ‘por favor’, ‘muito obrigado’ e ‘desculpa’.” (Palavras às famílias durante a peregrinação à tumba  de São Pedro, 26 de outubro de 2013)
  5. “O verdadeiro amor leva-te a queimar a vida, mesmo com o risco de ficares com as mãos vazias. Pensemos em São Francisco: deixou tudo, morreu com as mãos vazias, mas com o coração cheio.” (Encontro com os jovens, Manila, 18 de janeiro de 2015)
  6. “O segredo é que o amor é mais forte do que o momento em que se discute, e por isso aconselho aos esposos: não terminem o dia em que discutiram sem fazer as pazes, sempre” (Audiência Geral na Praça de São Pedro, quarta-feira, 2 de abril de 2014)
  7. “Quantas dificuldades na vida do casal se solucionam se arranjamos um espaço para o sonho. Se nos detemos e pensamos no cônjuge, na cônjuge. E sonhamos com as bondades que tem, as coisas boas que tem. Por isso, é muito importante recuperar o amor por meio do entusiasmo de todos os dias. Nunca deixem de ser namorados!” (Encontro com as famílias, Manila, 16 de janeiro de 2015)
  8. “No Pai-nosso, dizemos: ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’. Os esposos podem rezar assim: ‘Senhor, o amor de cada dia nos dai hoje... ensina-nos a amar-nos’.” (Praça de São Pedro, 14 de fevereiro de 2014)
  9. “De todas as coisas aquilo que mais pesa é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser recebidos. Pesam certos silêncios. Às vezes, também em família, entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, o esforço torna-se mais pesado, intolerável.” (Palavras às famílias durante a peregrinação à tumba  de São Pedro, 26 de outubro de 2013)
  10.  “A verdadeira alegria vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos experimentam no seu coração e que nos faz sentir a beleza de estar juntos, de se apoiar mutuamente no caminho da vida.” (Missa de encerramento da peregrinação das famílias  a Roma, 27 de outubro de 2013)
(Fonte: opusdei.org)

 

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