SÃO PAULO

Irmã Maria Moreira de Souza

‘Sou grata a Deus por ter caminhado comigo e por tantas alegrias no trabalho missionário’

Por Nayá Fernandes
04 de julho de 2019

Religiosa da Congregação das Mestras Pias Filippini é a entrevistada desta semana no O SÃO PAULO

Arquivo pessoal

Em 2 de maio de 1962, chegaram ao Brasil Madre Ninetta Jonata e Irmã Caterina Jonata.Provenientes de Roma, na Itália, a viagem aconteceu após se sentirem chamadas à missão na América Latina, devido a um pronunciamento de São João XXIII, feito em 1961, em que o Pontífice pediu: “Ajudaime a salvar a fé na América Latina”.

As religiosas da Congregação das Mestras Pias Filippini dirigiram-se para a Capital Paulista, onde se encontraram com o então Arcebispo de São Paulo, Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, e dele obtiveram a aprovação para abrir o noviciado.

Inspirada pelo carisma de Santa Lúcia Filippini, que se baseava, sobretudo, no amor a Deus e no cuidado com os pobres, Madre Ninetta procurou um bairro que tivesse tal característica, e foi-lhe indicada a Paróquia Santa Cruz, na Avenida Itaberaba, na Freguesia do Ó, zona Noroeste da cidade.

Cerca de seis anos depois dessa chegada, ingressava na Congregação para realizar a etapa formativa do postulado uma jovem brasileira, natural de Araçaí (MG). Conhecida pelo seu incansável trabalho, sobretudo com as crianças e jovens, Irmã Maria Moreira de Souza completa 70 anos de vida e 50 anos de consagração a Deus e serviço aos irmãos em 2019.

“Todos os dias sou grata a Deus, a Nossa Mãe Santíssima e a nossa Santa Fundadora, Lúcia Filippini, por terem caminhado comigo até hoje, fazendo-me sempre feliz e por terem me proporcionado tantas alegrias no trabalho missionário durante todos esses anos, apesar das dificuldades. Eles realmente nunca me abandonaram”, disse a Religiosa, que contribuiu, durante estas cinco décadas, com todo o trabalho desenvolvido pela Congregação, sobretudo com crianças, adolescentes e jovens, por meio de uma educação baseada em valores cristãos.

O SÃO PAULO – COMO A SENHORA DESCREVERIA SEU DESPERTAR VOCACIONAL?

Irmã Maria Moreira de Souza – Tenho certeza de que sou fruto de uma formação católica sólida, recebida de meus pais desde pequena, juntamente com meus 11 irmãos, baseada nos valores cristãos, morais e éticos. Eles nos ensinaram a amar a Deus, a respeitá-Lo e a participar da missa dominical desde a mais tenra idade. Todos esses valores colaboraram e incentivaram-me à escolha de uma vida que me levasse a servi-Lo inteiramente, por meio da Igreja e dos irmãos.

E COMO CONHECEU A CONGREGAÇÃO DAS MESTRAS PIAS FILIPPINI?

São coisas de Deus que não se explicam. Dentre tantas congregações mais conhecidas, inclusive uma em que minha tia era religiosa, Deus mostrou-me esta Congregação de Santa Lúcia Filippini, que estava no Brasil havia apenas seis anos; foi por intermédio de uma prima que pertencera à Congregação por seis meses e acabou voltando para a casa da sua família. Por meio dela, pude conhecer melhor a instituição e acabei me apaixonando pelo carisma e o modo de vida das irmãs. Então, resolvi escrever para as madres da época, inclusive à Madre Ninetta Jonata. Elas logo responderam, incentivando-me a ingressar no convento. No dia 12 de julho de 1968, elas me receberam com grande alegria na Congregação que tanto amo.

NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA, O PROCESSO FORMATIVO, SOBRETUDO O NOVICIADO, É MUITO IMPORTANTE E, AO MESMO TEMPO, PODE SER EXIGÊNCIA. COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA?

A minha formação, por ter acontecido em tempos mais remotos, não foi longa. Fui postulante por apenas sete meses, ingressando no noviciado que durou um ano. Após esse período, fiz a minha oblação temporária a Deus e os votos de pobreza, castidade e obediência por três anos. Depois, preparei-me para consagrar minha vida definitivamente a Deus, sem olhar para trás. Em fevereiro de 1973, emiti a oblação perpétua, muito feliz por me doar a Jesus Cristo e ao seu Reino, na certeza de que Ele tinha planos maravilhosos para a minha vida consagrada, apesar de saber dos muitos desafios que viriam e que seriam ultrapassados com a sua graça e força. Naquele dia, a Santa Missa foi presidida pelo saudoso Dom Agnello Rossi – Arcebispo de São Paulo na época –, que era muito amigo das madres da Congregação. Posso dizer, com certeza, que foi o dia mais feliz da minha vida.

COMO VIVE ATUALMENTE A MISSÃO NA CONGREGAÇÃO E POR QUAIS LUGARES JÁ PASSOU?

Ainda bem jovem, trabalhei no Colégio Santa Lúcia Filippini, na Freguesia do Ó, de 1974 a 1980. Em seguida, morei na sede da vice-província, onde trabalhei como ecônoma por 12 anos. Morei na Inglaterra, País em que mantemos ações destinadas a idosos e na educação infantil, por um ano e seis meses. Trabalhei também em nosso Colégio de Peruíbe, no litoral paulista, por seis anos. Na Obra Social em Miracatu, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo, permaneci por um ano, e, em nosso Colégio em Vilhena, no Estado de Rondônia, por nove anos e seis meses. Desde agosto de 2016, exerço a função de Diretora no Colégio Santa Lúcia Filippini, aqui em São Paulo.

MUITAS MUDANÇAS ACONTECERAM NESTES 50 ANOS: NA SOCIEDADE, NA IGREJA E NAVIDA RELIGIOSA CONSAGRADA. QUAIS DESAFIOS OS CONSAGRADOS E CONSAGRADAS ENFRENTAM HOJE?

Vejo a Vida Religiosa Consagrada com os olhos da fé, convicta de que ela continua sendo muito importante na Igreja e na sociedade. A consagração é sinal da presença de Deus no mundo e de doação às pessoas que vivem em trevas, angústias e tristezas. Apesar dos desafios, como a falta de novas vocações nas congregações, tenho esperança de que florescerão jovens generosas para continuar o carisma de nossos fundadores. A Vida Religiosa faz parte da vida, profecia, santidade e missão da Igreja no mundo. Vemos também, como aconteceu nos pontificados anteriores, que Francisco é um grande incentivador dos religiosos para que perseverem e continuem firmes na fé, na oração e na fraternidade. O Papa nos anima a ser fecundos na missão e no anúncio do Evangelho. Devemos ir ao encontro dos irmãos que sofrem e dos que não conhecem a Deus, desinstalando-nos de nós mesmos e de nossos comodismos.

O QUE DIRIA AOS JOVENS QUE SE SENTEM CHAMADOS PARA SEGUIR JESUS COMO SACERDOTES, RELIGIOSOS OU RELIGIOSAS?

Que tenham coragem de renunciar ao mundo e suas vaidades e se entreguem ao caminho do Senhor que os chama a uma vida fecunda de bênçãos e de amor. Doar-se totalmente a Deus e a seu serviço nos faz felizes, realizados e livres. Vale a pena entregar-se ao nosso bem maior, o Senhor, que nunca nos abandona e caminha conosco, sempre.

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NOTA DA REDAÇÃO

Esta entrevista foi publicada na página 15 da edição 3255 com uma foto incorreta. A freira da imagem na versão impressa é a Irmã Geralda D´Assunção Coelho e não a Irmã Maria Moreira de Souza. Pedimos desculpas pela falha. Na próxima edição, publicaremos uma errata a respeito. 

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