SÃO PAULO

Cardeal Müller

‘Somos os anunciadores do Evangelho da graça e da dignidade humana’

Por Fernando Geronazzo
28 de abril de 2019

Em visita ao Brasil para o lançamento do primeiro volume em língua Portuguesa das Obras Completas de Joseph Ratzinger, o Prefeito Emérito da Congregação para a Doutrina da Fé presidiu missa na Catedral da Sé

(Fotos: Luciney Martins)

O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito Emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, presidiu missa na Catedral da Sé, na manhã deste domingo, 28. Ele está no Brasil para uma série de conferências realizadas no País por ocasião do lançamento do primeiro volume em língua Portuguesa das Obras Completas (Opera Omnia) do teólogo Joseph Ratzinger (Papa Emérito Bento XVI), das quais é responsável pela edição e organização em língua Alemã. 

O Cardeal Müller foi acolhido pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente da Sociedade Ratzinger do Brasil, criada em 2017 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com a finalidade de traduzir e divulgar as obras de Bento XVI e promover atividades de estudo e pesquisa sobre seu pensamento teológico. 

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IGREJA É MISSÃO

Na homilia, proferida em Português, o Cardeal Müller refletiu sobre a natureza e finalidade da Igreja. “Depois de ressuscitar dos mortos, ao mandar o Espírito Santo sobre os apóstolos e sobre toda a humanidade, Jesus concluiu a fundação da Igreja visível sobre a terra”, afirmou o Purpurado, referindo-se ao texto do Evangelho proclamado no Segundo Domingo da Páscoa. 

Müller ressaltou que a Igreja é “comunhão com a Santíssima Trindade” do mesmo modo em que ela é a continuação da missão de Cristo no mundo. “A sua tarefa é aquela de conduzir toda a humanidade à fé e através dos sacramentos, à glorificação e à adoração do Senhor”, acrescentou. 

Recordando a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, o Cardeal alemão enfatizou que comunhão e missão são dos dois “conceitos-chave” para a existência e a vida do povo de Deus. 

COM PEDRO 

Dom Gerhard continuou a reflexão destacando que, na comunidade das dioceses ao redor do mundo a Igreja romana tem uma função especial, pois ela mesma foi fundada por meio do sangue dos príncipes dos apóstolos, Pedro e Paulo. “O seu bispo é o sucessor de Pedro, o qual foi colocado à frente dos outros apóstolos e instituído ‘o princípio e fundamento perpétuo e vivível da unidade de fé e comunhão’”, explicou, citando novamente o Concílio. 

“Com Pedro e com seus sucessores, os papas, a Igreja confessa em todos os tempos que é Jesus o seu divino fundador. Ele é a palavra que se fez carne”, acrescentou, o Cardeal. 

TODOS IRMÃOS

“Na Igreja, somos todos irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai celestial em seu Filho Jesus Cristo. Os cristãos da Coreia do Norte, a nós desconhecidos, são tão membros do Corpo de Cristo quanto os nossos amigos da paróquia, conhecidos desde os tempos da infância”, afirmou o Purpurado. 

O Cardeal Müller destacou, ainda, que as solidariedade universal para com os pobres, enfermos, perseguidos e desprezados, a luta por justiça social, pela vida dos não-nascidos e pelo direito à vida de todos os idosos até a sua morte natural, é fundada no fato de os cristãos serem “os anunciadores do Evangelho da graça e da dignidade humana”.

“Em sentido teológico – e não superficialmente ideológico –, a Igreja é uma Igreja dos pobres e para o pobres”, afirmou o Cardeal, indicando que não somente a hierarquia, mas toda a Igreja, com seus fiéis e pastores, é chamada ao serviço do povo de Deus. 

NOVA EVANGELIZAÇÃO

Dom Gerhard recordou que os últimos pontífices, com frequência e veemência, advertiram sobre a necessidade de nova evangelização  nos países de antiga cultura cristã. “Isso pode ser, também, estendido a países que já há 500 anos têm sido edificados na cultura cristã”, acrescentou, referindo-se o Brasil. 

“A Igreja não é uma religião civil. E, por quanto tantas pessoas se deixam enganar por pseudo-salvadores, a verdade permanece inalterada: a humanidade e seus produtos, como a ciência, a técnica, a economia e as riquezas, formas de poder e de governo, não podem dar respostas a soluções aos desafios existenciais. Somente Deus, que na sua Palavra, em Cristo, nos falou diretamente, somente Ele é a solução para o enigma que o ser humano é em si mesmo”, reforçou Müller. 

VERDADE E LUZ 

O Cardeal Müller afirmou, ainda, que Deus não é uma verdade parcial deste mundo, mas é a verdade em si mesma, aquela que conduz a todos os conhecimentos filosóficos, científicos orientando-os à justa luz. 

O Purpurado lembrou que, como em todos os tempos, também hoje se espalham “fagulhas de falso esplendor” que querem aprisionar as pessoas no “lodo do relativismo e do materialismo”. “São vozes que dizem que não existe nenhuma verdade que nos comprometa e nos dê limites objetivos”, afirmou. 

Em contraposição a essa mentalidade, o Cardeal enfatizou que Deus não possui somente verdades, mas ele mesmo é “a verdade que liberta o ser humano do cárcere do egocentrismo”. 

SINAL DE ESPERANÇA

Por fim, o Cardeal Müller afirmou que “a missão da Igreja, dentro e fora de si mesma, no passado e no futuro, era e é algo diferente de um mero empenho caritativo”. 

“Igreja de Deus será em todas as partes inclusive no Brasil, um sinal de esperança para toda a humanidade quando Cristo brilhar nela como luz para o mundo, para que nós, através dele, tenhamos vida, e vida em abundância”, concluiu. 


Leia a reportagem completa sobre a visita do Cardeal Müller a São Paulo na próxima edição do jornal O SÃO PAULO, em 01/05/2019. 
 

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