SÃO PAULO

COM A PALAVRA

‘Só é possível mensurar o drama da população de rua acompanhando-a diariamente’

Por Cleide Barbosa e Flávio Rogerio
25 de julho de 2019

Frei José Francisco de Cássia dos Santos

As baixas temperaturas nas madrugadas agravam ainda mais a situação da população de rua na cidade de São Paulo. Diante disso, o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) oferece um importante auxílio para essa população. O Sefras é formado pelo Sefras Pop Rua São Paulo, que é um espaço de acolhida, escuta e partilha, e o Serviço Franciscano de Reciclagem, o Recifran, na região do Glicério.
Frei José Francisco de Cássia dos Santos, Diretor-Presidente do Sefras, disse, em entrevista à rádio 9 de Julho, que são muitos os motivos que levam as pessoas para as ruas e que houve aumento dessa população e diminuição da quantidade de doações devido à crise econômica. O Franciscano explicou detalhes do trabalho realizado, sobretudo no Centro de São Paulo. “O Serviço Franciscano de Solidariedade visa oferecer conforto físico e espiritual para essas pessoas”, afirmou o Frei. 

 

O SÃO PAULO - QUAIS SÃO OS SERVIÇOS OFERECIDOS PELO SEFRAS ÀS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA?
Frei José Francisco dos Santos – Nós estamos, tradicionalmente, na região central da cidade, onde existe a maior concentração da população de rua. Temos dois serviços atualmente: o primeiro acolhe pessoas que estão no processo de saída do sistema de assistência social, a quem oferecemos uma oportunidade de geração de renda por meio da triagem da reciclagem. Com este trabalho e o acesso a alguma renda, ajudamos as pessoas, pouco a pouco, deixarem os equipamentos públicos, como albergues, para que possam ter acesso a uma moradia, mesmo que seja um pequeno quarto. Esse serviço atende cerca de 50 pessoas diariamente. 
Temos, contudo, um serviço de acolhida que tem atendido, em média, 800 pessoas diariamente, no Convento de São Francisco, no centro de São Paulo. As próprias pessoas em situação de rua intitularam este serviço de “Chá do Padre”, em que começamos o trabalho tradicional dos Franciscanos chamado “Pão dos Pobres de Santo Antônio”. O local foi se transformando em um ambiente de acolhimento, por oferecer, todas as tardes, um lanche composto de pão e chá. Com o tempo, conseguimos ampliar o serviço e oferecer banhos, sanitários e refeições, além de uma média de 300 almoços. 

QUAL O PERFIL DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA ACOLHIDA TODOS OS DIAS PELO SEFRAS?
Nossa experiência, nos últimos tempos, tem mostrado novas configurações e perfis de pessoas, devido à crise econômica que estamos vivendo e que tem consequência imediata na população de rua. Muitas pessoas estão nas ruas devido à crise econômica. Se, há cinco anos atrás, atendíamos 400 pessoas, esse número dobrou e o perfil dos atendimentos também se modificou. É muito difícil trabalhar com um único diagnóstico para tratar a população de rua. Também por esse motivo vemos que a gestão pública tem dificuldade e as políticas públicas são precárias. 
Para tratar a população de rua, não basta o encaminhamento simples, porque é algo complexo e a origem de uma pessoa na rua é muito diversificada. Há pessoas que vão para as ruas por causa do rompimento familiar, das drogas, da violência doméstica, do desemprego, da migração. Também há aquelas que saem de sua terra e, chegando a São Paulo, não têm onde ficar, e um grande número de egressos do sistema penitenciário, pessoas que saem sem nenhum tipo de encaminhamento e acabam ficando nas ruas.

O DESEMPREGO É O PRINCIPAL MOTIVO PARA O GRANDE NÚMERO DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA?
Nos últimos anos, com a crise econômica, vemos um número grande de pessoas que foi parar na rua porque perdeu o emprego e a condição de pagar aluguel. O problema da moradia também é algo muito sério. Desse modo, podemos afirmar que, hoje, as pessoas que estão em situação de rua, na sua maioria – entre tantas essas diversidades citadas anteriormente –, são os desempregados. Muitas pessoas trabalham informalmente, vendendo doces no semáforo, nas feiras de diversos produtos e mercadorias que acontecem na cidade, no comércio de roupas e outros objetos.
A maioria da população imagina que uma pessoa em situação de rua está nessa condição devido aos vícios. Uma parte sim, mas não todos. Pelo contrário, existem muitos que encontramos nessa condição transitando pela cidade e não possuem esse perfil. Então, muitas vezes, estamos lidando com uma nessa 
situação, mas não percebemos por não trazer aquela figura de uma pessoa decaída que, às vezes, até enfrenta uma saúde mental mais comprometida. Só é possível mensurar o drama da população de rua acompanhando-a diariamente.

COMO É MANTIDA ESSA OBRA?
Este ano, estamos passando por uma fase muito difícil e desafiadora, pois, no momento em que há uma crise, vivemos a angústia de ver a população de rua aumentar. Não só pelo ponto de vista da sociedade em geral, mas o próprio poder público tem diminuído o serviço de atendimento a essas pessoas. A política pública está cada vez menos atuante nos últimos tempos e tenho percebido a diminuição do atendimento e da disponibilidade de recursos para essas questões sociais da cidade. Como uma organização social, nós vivemos de parcerias com o poder público e empresas da iniciativa privada, que também têm seus fundos de investimento para área social.
Graças a Deus, nós temos várias pessoas que são doadores do Sefras e ajudam a manter as obras. Mas percebemos que essas pessoas de boa vontade que nos ajudam também passam por dificuldades financeiras. Todos os anos, conseguimos, durante o inverno rigoroso, fazer a pernoite para as pessoas em situação de rua no “Chá do Padre”, pois, normalmente, nós só atendemos durante o dia, mas no inverno nós procuramos atender durante a noite, para as pessoas não ficarem ao relento. Mas, para a realização desse atendimento, nós temos um custo, e este ano não conseguimos a parceria para isso acontecer e não tivemos o recurso necessário para oferecer esse pernoite. Este ano, nós estamos apenas com o trabalho durante o dia, que estamos conseguindo manter, mas com muitas dificuldades devido à escassez de recursos.

O QUE É MAIS NECESSÁRIO NESTE MOMENTO E ONDE AS DOAÇÕES PODEM SER LEVADAS?
Nós temos vários espaços na cidade que podem acolher essas doações: no próprio Sefras, na rua Riachuelo, 268, e ainda no Convento São Francisco e na Igreja Santo Antônio do Pari, na região do Brás. As pessoas também podem entrar em contato diretamente conosco para nós indicarmos a melhor forma. Às vezes, a pessoa deseja fazer a doação em dinheiro ou algum tipo de voluntariado. Nesse caso, ela pode entrar em contato por meio do número (11) 3291-4433. Nesse telefone, nós podemos orientar e acolher as pessoas de boa vontade que queiram ajudar nesse trabalho. No momento, temos maior necessidade de roupas de frio, sobretudo masculinas, como calças, blusas e cobertores.

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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