INTERNACIONAL

Sínodo Pan-amazônico

Sínodo buscará ‘rosto amazônico’ da Igreja

Por Fernando Geronazzo
31 de outubro de 2017

Desafios da ação envangelizadora da Igreja na Pan-Amazônia serão destaques de Assembleia do Sínodo dos Bispos, convocada pelo Papa Francisco para 2019
 

Osnilda Lima/Repam - BrasilOsnilda

A convocação da Assembleia do Sínodo dos Bispos para a região da Pan-Amazônia, que acontecerá em outubro de 2019, em Roma, é fruto de uma antiga preocupação da Igreja Católica com essa vasta região que abrange nove países da América do Sul. No próprio anúncio feito durante a oração do Ângelus, no dia 15, o Papa Francisco afirmou que o Sínodo foi convocado “atendendo o desejo de algumas conferências episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo”.

Ainda de acordo com o Pontífice, o objetivo principal desse Sínodo é “identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta”. 

Com um território de aproximadamente 6,9 milhões de quilômetros quadrados, a Pan-Amazônia compreende o Brasil (67%), Peru (13%), Bolívia (11%), Colômbia (6%), Equador (2%), Venezuela (1%), além de Suriname, Guiana e Guiana Francesa, que somam 0,15% do restante do território. Na região habitam mais de 30 milhões de pessoas, sendo 2.779.478 indígenas pertencentes a 390 povos autóctones e 137 povos “isolados” (não contatados). São pessoas que falam 240 línguas diferentes, pertencentes a 49 ramos linguísticos.

A ação evangelizadora da Igreja na Amazônia começou há 400 anos com a colonização europeia na região. Atualmente, a Igreja se organiza na região em 56 circunscrições eclesiásticas, entre arquidioceses, dioceses e prelazias. 

 

Repam

Em 2014, foi criada, em Brasília (DF), a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), organismo ligado ao Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), que reúne os países que compõem a Amazônia. A Repam, que tem como Presidente o Cardeal Cláudio Hummes, Arcebispo Emérito de São Paulo, nasceu como uma oportunidade de apoio, solidariedade e fortalecimento da ação evangelizadora no contexto amazônico. 

Em entrevista ao O SÃO PAULO , na edição 3115, Dom Cláudio explicou que entende que o Papa Francisco deseja uma Igreja que, em sua evangelização, se envolva realmente com a cultura, a história, os problemas, os sonhos e os projetos do povo amazônico, incluindo, de modo, particular o universo dos povos indígenas, que são originários da região.

 

Desafios

Dentre os desafios da evangelização na Amazônia, o Cardeal destacou o número insuficiente de missionários, que chegam a percorrer enormes distâncias para visitar povoados, o que faz que comunidades de indígenas e de ribeirinhos raramente recebam os sacramentos da Eucaristia, Reconciliação e Unção dos Enfermos. “Como pode uma comunidade católica florescer se faltam quase totalmente esses três sacramentos fundamentais do cotidiano dos católicos, somado à ausência física quase constante dos seus pastores?”, indagou. 

Ainda segundo Dom Cláudio, muitas comunidades indígenas que foram contatadas por missionários no passado e aderiram à fé católica, hoje estão migrando para seitas protestantes neopentecostais, devido à intensa atividade desses grupos e por falta de presença maior dos sacerdotes católicos. Dom Cláudio informou que há poucas dioceses na Amazônia que possuem um significativo número de clero autóctone. “Se considerarmos a evangelização específica dos índios, padres indígenas infelizmente quase não há”, ressaltou. 

Os desafios da evangelização na Amazônia não se limitam aos povos da floresta. O fluxo migratório para os centros urbanos causa um crescimento desordenado das cidades, gerando bolsões de pobreza. Paralelo a isso, existem as questões ambientais, como desmatamento e o impacto socioambiental gerado pela construção de novas usinas hidrelétricas. Essa questão foi abordada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’ (2015). “Cada vez mais nos damos conta de que a floresta em pé pode trazer muito mais riquezas a um país do que uma floresta derrubada. O desafio é como fazer a floresta produzir sem que precisemos derrubá-la. Os povos da Amazônia têm direito ao progresso e desenvolvimento, mas é preciso respeitar que eles é que devem decidir que tipo de desenvolvimento querem”, afirmou Dom Cláudio, ao apresentar o trabalho da Repam ao episcopado brasileiro durante a 55ª Assembleia Geral da CNBB, em abril.

 

Teste decisivo para a Igreja

O desejo de um sínodo para a Pan-Amazônia já havia sido manifestado há alguns meses pelo Papa em encontros com bispos sul-americanos. Em maio, ao receber o episcopado peruano, Francisco tratou do desafio da evangelização em comunidades remotas. Em setembro, durante a visita dos bispos da Conferência Episcopal do Equador, o Papa manifestou a intenção de realizar um sínodo para a Igreja na Pan-Amazônia. Em entrevista à rádio Vaticano , Dom René Coba Galarza, Secretário-Geral da conferência equatoriana, relatou que o Pontífice insistiu principalmente quanto ao respeito pela identidade desses povos e a proximidade que a Igreja deve lhes oferecer. 

Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco chamou a atenção para a evangelização na Amazônia, seguindo seus predecessores, Bento XVI, São João Paulo II e o Beato Paulo VI, que, em 1972, afirmou que “Cristo aponta para a Amazônia”.

Em seu discurso aos bispos brasileiros durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro, o Papa Francisco definiu a Amazônia como “teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade”. Ele recordou a presença dos missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos. “A Igreja está na Amazônia, não como aqueles que têm as malas na mão para partir depois de terem explorado tudo o que puderam”, disse.

Na ocasião, o Santo Padre acrescentou a necessidade de ser “mais incentivada e relançada a obra da Igreja” na Amazônia. “Fazem falta formadores qualificados, especialmente formadores e professores de Teologia, para consolidar os resultados alcançados no campo da formação de um clero autóctone, inclusive para se ter sacerdotes adaptados às condições locais e consolidar, por assim dizer, o ‘rosto amazônico’ da Igreja”.

(Com informações de CNBB, Repam, Rádio Vaticano e IHU)
 

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