SÃO PAULO

Fórum Nacional da Companhia das Obras

Ser humano: protagonista da mudança

Por Fernando Geronazzo
03 de julho de 2017

“É evidente que o mundo  está mudando  muito  rapidamente e nós devemos nos dar conta do que está mudando"

Luciney Martins/O SÃO PAULO

“Não uma época de mudanças, mas uma mudança de época”, foi o tema que reuniu empresários e gestores de organizações sem fins lucrativos no 6º Fórum  Nacional da  Companhia  das Obras, realizado nos dias 24 e 25, em São Paulo.

Criada em 1986, a Companhia das Obras (CdO) é uma associação ligada ao  Movimento  Católico  Comunhão e Libertação que tem como objetivo apoiar a responsabilidade e a liberdade das pessoas envolvidas no mundo do trabalho, em empresas e instituições, com ou sem fins lucrativos, e favorecer o desenvolvimento de empresas, obras sociais, atividades profissionais e associativas.

A escolha do tema foi motivada por recentes afirmações do Papa Francisco sobre a significativa mudança de época pela qual a humanidade vem passando nas últimas décadas. “É evidente que o mundo  está mudando  muito  rapidamente e nós devemos nos dar conta do que está mudando, por que está mudando e quais são as consequências. É necessário que sejamos ativos para não sofrer depois com mudanças que nos deixem dependentes ou até alienados”, afirmou, ao O SÃO PAULO, Bernhard Scholz, presidente da CdO Internacional.

Para Scholz, essa mudança de época pela qual o mundo passa tem um impacto existencial na vida do ser humano, que é chamado a ser um sujeito ativo nesse processo. “Nós, como pessoas, temos realmente uma maturidade tal de enfrentarmos essas mudanças ou arriscamos a defender velhos modelos? Essas mudanças não podem ser vividas passivamente, somos sujeitos dessa transição, fazemos parte dessas mudanças”.

 

Tecnologia a serviço do bem comum

 

O Fórum da CdO contou  com a participação de especialistas de diferentes áreas, entre os quais, Leandro de Jesus, mestre em Engenharia, consultor de tecnologia em empresas, que destacou que as novas tecnologias provocaram uma mudança de padrões de comportamento  humano  que impactam inclusive no atual modelo econômico vigente gerando o que ele chama de “pós-capitalismo”. Segundo o especialista, a sociedade em rede transforma o consumidor em protagonista ao valorizar mais o acesso à informação e à tecnologia do que a posse das coisas. “Penso que estamos lidando com um potencial que talvez o homem nunca tenha lidado. Esse progresso pode nos levar para o caminho do bem, como pode nos conduzir a maus caminhos. O papel do ser humano é direcionar esse poder para algo que seja em prol do bem coletivo e não de sua destruição”, afirmou.

 

Trabalho, educação e colaboração

 

Ao tratar do risco da substituição do trabalho humano pelas novas tecnologias, a publicitária e empresária Andrea Bisker afirma que a tecnologia poderá substituir determinados trabalhos manuais, mas não a criatividade humana. “Eu entendo que a nossa sociedade vai caminhar para trabalhos mais interessantes. O próprio trabalho está mudando completamente”.

Nesse sentido, Andrea aponta para a importância da educação nesse processo de mudança e estímulo da criatividade humana. “Precisamos educar as nossas crianças para que deixem de ser consumidores e passem a ser protagonistas da sociedade, e para que entendam que o mundo pode ser melhor quando eu consigo enxergar o valor do outro”.

Já Leandro destaca que o atual modelo de educação prepara as crianças para a competição e não para colaboração. “A disputa pela melhor nota, pela melhor vaga no vestibular, depois disputa pelo melhor emprego. A competição pressupõe individualidade. Para eu vencer o outros devem perder. Precisamos evoluir para uma nova forma de educação que tente educar as crianças para a vida e não só para o vestibular. É inevitável educar para o diálogo e para a colaboração”.

 

Papel da igreja

 

Ao falar para os participantes do Fórum, o arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, recordou que a temática sobre a mudança de época já havia sido abordada na V Conferência Geral  do  Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida (SP), em 2007, aberta pelo Papa Bento XVI e com a participação do então arcebispo de Buenos Aires, na Argentina, Cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco.

“Há grandes momentos e mudanças que assinalam uma guinada de rumo na história e nos padrões do trabalho, do emprego, da remuneração nas relações entre capital e trabalho, nas relações sociais. Sobretudo, vem a preocupação com o emprego, salário, educação, de como vamos subsistir”, afirmou Dom Odilo.

Nesse sentido,  o  Cardeal Scherer destacou qual é o papel da Igreja, não só da hierarquia, mas de todos os cristãos leigos, diante dessas questões. “Vocês, enquanto profissionais cristãos, que têm fé, estão exatamente fazendo o seu papel de leigos da Igreja, no seu lugar, na sua profissão, na sua especialização, na sua percepção e inserção no mundo. Refletir, mas também ajudar a ver para aonde as coisas vão”.

 

Centralidade da pessoa

 

Para Dom Odilo, o que permanece como referência sólida dos ensinamentos da Igreja nesse contexto de mudança é a centralidade da pessoa humana. “Os avanços das ciências são importantes e, a partir desses avanços, produzem-se novas tecnologias que são fascinantes. As novas tecnologias acabam sendo capitaneadas, em geral, para a produção de vantagens ao capital e não ao trabalho. A pessoa é mais importante que o capital e que o trabalho. Ambos estão em função da dignidade da pessoa”, afirmou.

 

Justiça e fraternidade

 

O  Arcebispo também  recordou  as relações de respeito aos princípios de justiça que, porém, precisam ser entendidos a partir de um horizonte novo. “O Papa Francisco tem insistido muito que um critério fundamental para se pensar a justiça não é simplesmente dar a cada um o que lhe pertence, mas precisamos dar a cada um o que lhe é devido a partir da sua dignidade, da sua existência como pessoa. O Papa traduz isso no critério da fraternidade, que deve estar presente também na economia e nas relações internacionais, de trabalho e nas políticas”.

 

Família humana

 

Outro princípio que precisa ser reforçado é que a humanidade é uma única grande família, e por isso, os avanços tecnológicos e decisões devem ser pensados globalmente, não apenas no bem de um grupo ou povo. “São critérios que podem parecer pouco práticos, mas são princípios iluminadores que precisam ser traduzidos em práticas de vida e de existência”.

“Não temos soluções para todas as coisas, mas é importante que nós busquemos e que estejamos atentos ao que se passa para sermos também participantes e protagonistas da construção dessa história. Não simplesmente que ela se construa por cima de nossas cabeças e que sejamos como marionetes, que vão sendo manipuladas e usadas, enquanto outros perseguem seus objetivos e metas e a grande massa da humanidade acaba sendo usada”, completou o Arcebispo.

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