NACIONAL

Com a Palavra

Redescobrindo Bento XVI

Por Francisco Borba Ribeiro Neto
01 de março de 2019

Para falar dessa redescoberta de Joseph Ratzinger, O SÃO PAULO entrevistou Gabriel de Vitto

Quando, há seis anos, em 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou sua renúncia ao papado, muitos acreditaram que estava decretando o fim de sua vida pública, não só como papa, mas também como pensador. O sucesso midiático e o impacto imediato do Papa Francisco aumentaram ainda mais essa impressão.

Contudo, Deus, como Pai amoroso, adora surpreender-nos. O pensamento e a obra de Joseph Ratzinger continuam vivos – e cada vez mais vivos. Liberadas do inevitável peso da oficialidade decorrente do papado, suas ideias estão sendo cada vez mais revisitadas, pela contribuição que trazem à compreensão do que é ser cristão no mundo atual.

Novas gerações, que não foram marcadas pelos embates teológicos (e ideológicos) do fim do século passado, têm a chance de conhecê-lo como um dos grandes nomes do diálogo entre o pensamento cristão, a partir de suas raízes, e a cultura atual – ou, como seu discípulo, o teólogo português Henrique Noronha Galvão, o definiu: “Um místico que acredita no amor” (afinal, não é por acaso que a maioria de suas encíclicas e exortações tem a caridade, o amor, no nome).

Nessa perspectiva, o Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e “A Outra Via”, organização cultural e educacional de inspiração católica, com o apoio da Sociedade Ratzinger do Brasil, estão promovendo o Congresso “Fé, cultura e verdade, o tema da cultura em Bento XVI”.

Para falar dessa redescoberta de Joseph Ratzinger, O SÃO PAULO entrevistou Gabriel de Vitto, coordenador de “A Outra Via”.

 

O SÃO PAULO – PARA COMEÇAR, UMA PERGUNTA DE CARÁTER MAIS PESSOAL: VOCÊ É JOVEM. A MAIOR PARTE DA OBRA DE RATZINGER FOI PRODUZIDA ANTES DE ADQUIRIR INTERESSE POR TEMAS CULTURAIS E DE FÉ. DE ONDE VEM SEU INTERESSE PELO PENSAMENTO DO PAPA EMÉRITO?

Gabriel de Vitto - Atualmente todos os católicos que estão na universidade – especialmente nos cursos da área de Humanas – são como que obrigados a refletir ao menos um pouco sobre os temas relevantes à fé e, por conseguinte, o estudo da doutrina católica, da ética, da antropologia e da cultura acaba sendo indispensável para que se possa viver o catolicismo de maneira autêntica. Eu percebi essa demanda muito jovem, ainda quando não era um católico praticante. Assim que iniciei meus estudos nesses temas, na época do final do pontificado de Bento XVI, a obra do Papa-teólogo me chamou a atenção por sua originalidade. Ele parecia trazer uma resposta sólida e atual às questões que afligiam a mim e aos meus amigos. Com o tempo, essa impressão inicial se confirmou, evidentemente.

 

DIANTE DO CONTEXTO ATUAL, QUAIS ASPECTOS DO PENSAMENTO DE BENTO XVI LHE PARECEM MAIS IMPORTANTES DE SEREM RESGATADOS E APROFUNDADOS? POR QUÊ?

Dois aspectos do pensamento de Bento XVI me parecem essenciais para o debate contemporâneo: sua interpretação da teologia da história de São Boaventura e sua constante afirmação de que a religião cristã não é um conjunto de regras e preceitos, mas, sim, o encontro com a pessoa de Cristo, pessoa da qual emana toda a doutrina.

A meu ver, tanto a teologia da história quanto o encontro pessoal estão intimamente ligados. O homem do século XXI carece de sentido. Precisamos recordá-lo de que ele não está sozinho em um mundo que foi se construindo em meio ao caos das tentativas de sucesso dos homens que o precederam. Antes, há uma unidade na história conferida pela Providência Divina, Providência essa que é governada pelo olhar atento da pessoa de Cristo.

 

E QUAIS SERIAM OS MAIORES DESAFIOS PARA UMA ADEQUADA COMPREENSÃO DA OBRA DE JOSEPH RATZINGER ENTRE NÓS?

Os desafios são inúmeros. O primeiro é a barreira da língua. Boa parte da obra de Bento XVI como teólogo ainda não foi traduzida para o Português, e, portanto, é de difícil acesso ao público não especializado. Ainda há também o problema do estereótipo construído por parte da mídia de que Bento XVI seria uma figura gélida que beira ao tradicionalismo. Muitas pessoas se fecham para a obra do Papa Emérito porque pensam que será impossível para elas compreender o que ele diz. Um dos principais motivos do nosso esforço de divulgação das ideias de Ratzinger é justamente minar um pouco essa “cortina de ferro” que foi construída em torno da sua figura pública. Outro problema que encontro para a boa compreensão da obra de Bento XVI entre nós é a escassez de bons comentadores que introduzam de maneira leve e sistemática os principais temas da pesquisa ratzingueriana. Ou seja, o trabalho a ser feito me parece sobretudo editorial e midiático.

 

A PROVOCAÇÃO PARA A REALIZAÇÃO DESSE CONGRESSO PARTIU DE VOCÊS. COMO FOI A SUA ACOLHIDA PELO NÚCLEO FÉ E CULTURA DA PUC-SP?

Quando levamos a proposta, a coordenação do Núcleo Fé e Cultura ficou entusiasmada com o projeto. Duas coisas lhes chamaram a atenção. A primeira foi a de que a ideia não vinha de um contexto teológico, acadêmico, mas sim de leigos interessados em aprofundar seu diálogo entre a fé e a cultura (que é justamente o nome do Núcleo). Depois, o fato de que os palestrantes convidados são em sua maioria filósofos, ainda que com grande formação teológica. Isso naturalmente direciona a reflexão para o diálogo com as concepções e as correntes filosóficas mais frequentes em nossa sociedade.

 

COMO ESTÁ ESTRUTURADO O CONGRESSO? QUE TEMAS SERÃO ABORDADOS E QUAIS SERÃO OS EXPOSITORES?

O Congresso será dividido em duas partes: na sexta-feira, 8 de março às 19h30, haverá uma mesa-redonda que contará com a presença de Diego Klautau (professor da FEI e profundo admirador de Bento XVI), Henrique Elfes (filósofo e editor da editora Quadrante), Joel Gracioso (professor da Faculdade de São Bento em São Paulo e estudioso dos temas ratzinguerianos), Luiz Felipe Pondé (que, além de tudo que já sabemos, é um grande entusiasta da obra de Ratzinger) e Rudy Albino de Assunção (um dos maiores especialistas brasileiros no pensamento do Papa Emérito). O tema da mesa-redonda será a crise da cultura moderna. No sábado, 9 de março, as atividades começam às 9h com a palestra de Rudy Albino de Assunção sobre “Qual é a ‘Opção Beneditina’ de Joseph Ratzinger?: Cristianismo e Cultura em nosso tempo”; seguido por Diego Klautau, que falará sobre a relação de Joseph Ratzinger e a Modernidade. Na parte da tarde, voltamos às 13h com Henrique Elfes, que falará sobre o importante tema “Memória e Esperança: diretrizes para uma cultura com sentido. Uma análise da Encíclica Spe Salvi”. E, por fim, Joel Gracioso abordará a discussão entre Fé e Razão.

As inscrições para o evento são gratuitas e podem ser feitas no site.

 

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.