NACIONAL

Refugiados

‘Queríamos ir até a Venezuela, mas a Venezuela veio até nós’

Por Filipe Domingues/ Especial O SÃO PAULO
12 de março de 2019

Vice-presidente da Aliança de Misericórdia fala sobre missão destinada a refugiados em Boa Vista, no estado de Roraima

A foto de uma menina venezuelana que sorri e chora enquanto come um sanduíche ganhou as redes sociais nos últimos dias. A imagem transmite comoção e esperança: foi tirada no contexto de uma missão da Aliança de Misericórdia em Boa Vista, Roraima, numa iniciativa que se soma às inúmeras atividades evangelizadoras temporárias e permanentes da Igreja no Norte do Brasil.

Agravou-se nas últimas semanas a crise política, econômica e humanitária na Venezuela. A legitimidade do governo de Nicolás Maduro vem sendo questionada tanto internamente quanto em âmbito internacional. Desde as eleições realizadas em maio do ano passado, cujo resultado foi a vitória de Maduro, questionada pela oposição e por observadores externos, a situação, que já era difícil, tornou-se insustentável.

A inflação na Venezuela está nas alturas, a pobreza aumenta, faltam remédios e comida. Em 23 de janeiro, centenas de milhares de venezuelanos foram às ruas em protestos contra Maduro, e o líder de oposição, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Legislativa, autodeclarou-se presidente interino do País. Diversos países, entre eles os Estados Unidos e o Brasil, reconheceram Guaidó como presidente da Venezuela e exigem que Maduro renuncie. Porém, o sucessor de Hugo Chávez ainda tem o suporte das Forças Armadas e de potências como a Rússia e a China.

 

MAIS IMIGRANTES

Esse complexo contexto político impulsionou o fluxo de imigrantes venezuelanos para o Brasil. O impacto da crise sobre a população é cada vez maior. De acordo com a Organização das Nações Unidas, o número de venezuelanos que abandonam o País deve chegar a 5,3 milhões no fim de 2019, configurando o maior êxodo na história da América Latina. Cerca de 3 milhões já imigraram para a Colômbia, o Peru, o Equador e o Brasil desde o início da crise.

Maduro fechou as fronteiras da Venezuela com o Brasil e a Colômbia e impediu a entrada de ajuda humanitária internacional, alegando ser um risco à soberania de seu País. Entre os venezuelanos, o apoio a Maduro é cada vez menor, mas, ao mesmo tempo, poucos veem na oposição uma solução viável – são políticos de oligarquias pouco afeitas aos problemas sociais do País com a maior reserva de petróleo do mundo.

 

EM ÁGUAS MAIS PROFUNDAS

O Padre Evandro Henrique Torlai, Vice-presidente da Aliança de Misericórdia, contou ao O SÃO PAULO sobre a experiência de missão vivida com imigrantes venezuelanos em Boa Vista. Por dez dias, 33 membros da Aliança, entre eles cinco padres, partiram na missão Duc in Altum, com o objetivo de alcançar “águas mais profundas”, inclusive durante o carnaval. O destino final era Ciudad Bolívar, na Venezuela, onde possuem uma comunidade permanente. Entretanto, o bloqueio de Nicolás Maduro na fronteira com o Brasil os impediu de prosseguir viagem.

“Justamente no dia 22, quando chegamos lá, a fronteira foi fechada”, disse. “Naquela situação, sem saber se iam reabri-la, resolvemos fazer um momento de oração. Ali, debaixo do sol, com jejum e oração, intercedemos pela Venezuela, e muitas pessoas se uniram a nós.”

 

ALÉM DA FRONTEIRA

O imprevisto fez com que se dirigissem a Boa Vista com a ajuda de famílias e amigos. “Procuramos saber onde estavam os venezuelanos e fomos até eles, como no terminal rodoviário, em que há um acampamento onde são acolhidos e assistidos pelas Forças Armadas na Operação Acolhida”, explicou Padre Evandro.

Cerca de 1,1 mil venezuelanos são assistidos por essa operação militar, principalmente em campos de refugiainstituições trabalham desta forma: recebem o dinheiro de doações e compram as coisas por aqui”, explicou. Também a Aliança de Misericórdia abriu uma campanha chamada “Estenda a Mão”, metáfora que se refere tanto ao gesto da oração quanto ao da ação humanitária. A foto da menina com o sanduíche mostra um dos momentos de encontro com os imigrantes, no qual ela reage alegre e emocionada por ter algo que comer. “Precisamos estender as mãos para orar e abençoar a Venezuela, mas também para dar e ajudar o seu povo. São duas dimensões inseparáveis: a espiritual-evangelizadora com a caritativa-social”, disse o Padre. dos. “Fomos tocados pela situação. Decidimos permanecer em Boa Vista. Nós temos uma Venezuela aqui. Queríamos ir até a Venezuela, mas a Venezuela veio até nós”, afirma. O grupo iniciou um processo de evangelização de jovens afastados da Igreja e se uniu ao esforço de instituições de caridade, pastorais sociais e paróquias locais.

“Mergulhando nessa realidade, deparamo-nos com uma situação de muita pobreza e sofrimento. Pessoas sem comer, que passam fome, crianças com fome e problemas de respiração, pois no acampamento estão em barracas oferecidas pelo Exército que têm muito pó, no chão batido”, relatou. “E, infelizmente, há também muita exploração por parte de brasileiros, que fazem os venezuelanos trabalhar quase como escravos, ganhando pouquíssimo”, complementou.

 

PRÁTICA PASTORAL

O auxílio aos imigrantes venezuelanos se dá principalmente com uma acolhida de emergência, mas é necessário, ainda, auxiliá-los na preparação dos documentos e no seu restabelecimento. Por meio de programas organizados pelo Governo Federal, pela Cáritas e outras instituições, muitos são deslocados para outros estados do País, para tirar a sobrecarga do Estado de Roraima.

Segundo Padre Evandro, muitos dos venezuelanos que entram no Brasil esperam, a princípio, ficar próximos à fronteira, na esperança de poder retornar ou de facilitar o acesso de outros familiares e amigos. Porém, diante de uma situação difícil em Boa Vista, acabam partindo para outras regiões. “É uma decepção grande para eles o governo atual da Venezuela. Muitas famílias ficam incompletas, há uma separação drástica, não é uma ruptura planejada”, contou.

“Há também uma decepção quando chegam ao Brasil, pois eles vêm esperando algo melhor e vivem na rua, sem alimentos e sendo explorados”, afirmou. Diante do impasse político na Venezuela, “o número de imigrantes pode ainda aumentar”, avaliou o Padre.

 

ORAÇÃO

Ao mesmo tempo, o impacto dos imigrantes na economia local tende a ser positivo, pois a maioria das instituições de caridade compra produtos locais. “Muitas instituições trabalham desta forma: recebem o dinheiro de doações e compram as coisas por aqui”, explicou.

Também a Aliança de Misericórdia abriu uma campanha chamada “Estenda a Mão”, metáfora que se refere tanto ao gesto da oração quanto ao da ação humanitária. A foto da menina com o sanduíche mostra um dos momentos de encontro com os imigrantes, no qual ela reage alegre e emocionada por ter algo que comer. “Precisamos estender as mãos para orar e abençoar a Venezuela, mas também para dar e ajudar o seu povo. São duas dimensões inseparáveis: a espiritual-evangelizadora com a caritativa-social”, disse o Padre.

 

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