VATICANO

Sínodo dos Jovens

Primeiros dias no Sínodo tocam na necessidade de ‘escutar os jovens’

Por Filipe Domingues
10 de outubro de 2018

Falando-se muito sobre a necessidade de se “escutar os jovens”, abriu-se o diálogo sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”

Vatican Media

“Nós, jovens de hoje, estamos em busca. Em busca do sentido da vida, em busca de trabalho, em busca de nossa estrada ou vocação, em busca de nossa identidade”, disse a Irmã Briana Santiago, 27, na primeira sessão plenária do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, no dia 3. Ela é norte-americana e membro da congregação das Apóstolas da Vida Interior.

No mesmo dia, o Papa Francisco declarou aos padres sinodais: “Devemos prestar atenção especial ao risco de falar sobre jovens a partir de categorias e esquemas mentais já ultrapassados. Se soubermos evitar esse perigo, ajudaremos a tornar possível uma aliança entre gerações.” 

Falando-se muito sobre a necessidade de se “escutar os jovens”, abriu-se o diálogo sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, tema da XV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, que vai até dia 28. Como o tema central é bastante amplo, o chamado Instrumentum Laboris, documento de trabalho que guia as atividades do Sínodo, abrange, na verdade, uma série de assuntos paralelos. 

Entre eles, por exemplo, a participação dos jovens nas comunidades paroquiais, a formação para a vida consagrada e o sacerdócio, os desafios da migração, a proposta cristã para a sexualidade, a educação católica e a pastoral universitária, o problema dos abusos sexuais e de poder na Igreja, a complementariedade entre homem e mulher, e o valor da família na transmissão da fé e na iniciação cristã.

Mais do que colocar essas questões em debate, neste momento os padres sinodais procuram fazer um diagnóstico da situação dos jovens de hoje, para chegar, no fim do Sínodo, a algumas novas propostas de linguagem, método e abordagem na evangelização dos jovens. 

São mais de 267 padres sinodais de todo o mundo – inclusive dois bispos chineses, pela primeira vez na história, em virtude de um acordo provisório entre a China e a Santa Sé. Além deles, participam 49 auditores e 23 especialistas em matérias ligadas à Igreja, à pastoral juvenil e às questões sociológicas, morais e antropológicas sobre os jovens.

 

ESCUTAR COM EMPATIA

A consciência dos líderes da Igreja sobre a necessidade de se escutar os jovens já vem de muitos anos – basta lembrar da Jornada Mundial da Juventude, instituída por São João Paulo II. Mas esse ponto apareceu com intensidade na preparação para o Sínodo, tanto nos questionários enviados a diversas partes do mundo quanto na reunião pré-sinodal, na qual estiveram cerca de 300 jovens em Roma, em março deste ano. 

“É muito fácil falar dos jovens ‘por ouvir dizer’, fazer referências a estereótipos, que muitas vezes fazem referências a modelos que já não existem mais”, disse o Cardeal Sergio da Rocha, relator-geral do Sínodo, em seu discurso inaugural. “É preciso que toda intervenção nossa sobre os jovens parta sempre de um realismo contextual, e não de teorias abstratas e distantes do cotidiano”, acrescentou o Arcebispo de Brasília e Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Segundo ele, a maior solicitação dos jovens de hoje é de serem “acompanhados”, e isso exige uma Igreja mais “autêntica, relacional e comprometida com a justiça”. 

De acordo com a Irmã Briana, os jovens reconhecem que existem tantas exigências no mundo e tantos temas sobre os quais é necessário refletir e dialogar. “Portanto, somos gratos que, neste momento histórico, a Igreja esteja colocando a atenção sobre nós e a tudo o que se refere a nós”, afirmou. “Nós, jovens, desejamos diálogo, autenticidade, participação”, disse ela.

 

TESTEMUNHOS DE VIDA

O Papa Francisco quis realizar, durante o Sínodo, um grande encontro com jovens no Vaticano, no sábado, 6. Cerca de 6 mil participantes foram à Sala Paulo VI para dar testemunhos de vida e deixar algumas perguntas aos padres sinodais. Entre os jovens que falaram, estavam migrantes, pessoas que foram viciadas em tecnologias, em pornografia, em drogas, e também um ex-presidiário, um jovem profissional de Engenharia, um jovem padre que era ateu, e muitos músicos e dançarinos. Os testemunhos contaram histórias de superação e de motivação. 

Diante deles, o Papa Francisco disse que os jovens de hoje devem “encontrar a si mesmos fazendo coisas”, e não parados diante do espelho. “Olhem sempre adiante, em caminho, façam o bem, e não fiquem sentados no sofá”, afirmou. “Devo fazer um caminho, mas com coerência de vida. E quando vocês veem uma Igreja incoerente, que lê as Bem-aventuranças e depois cai no clericalismo mais principesco e escandaloso, eu entendo, eu entendo”, lamentou o Pontífice. “Mas se você quer ser bom cristão, tome as Bem-aventuranças e coloque-as em prática.”

Francisco alertou os jovens, ainda, para os riscos de radicalização nas ideias que se espalham entre a juventude de hoje. Procurou lembrá-los que um jovem “não tem preço” e, portanto, não deve se tornar escravo de ideologias: “Pensem sempre assim: eu não estou à venda, sou livre! Apaixonem-se por essa liberdade, aquela que só Jesus oferece.”

 

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