SÃO PAULO

CRIANÇA

Para além da imaginação

Por JENNIFFER SILVA
06 de setembro de 2019

O hábito de os pais lerem para seus filhos, desde os primeiros anos de vida, auxilia em muitos aspectos do desenvolvimento das crianças

Ana Luiza e as filhas – Bruna, Clara e Alice – têm praticado a leitura contínua em casaA relação de Thiago Kaczuroski com os livros começou quando era bem pequeno. Em sua casa, eles estavam sempre à sua disposição e, na medida em que ele ia crescendo, descobria uma vontade de ler sempre mais. 


Formado em Jornalismo e professor da área de Publicidade desde 2009, ele é casado com a produtora de cinema, Cecília Lara da Cruz. Os pais transmitem ao filho, Bernardo, de 3 anos e 10 meses, o amor pelos livros. 


“Não foi algo forçado. Acho que é como toda criança: veem os pais fazendo e uma hora acabam imitando. A leitura sempre fez parte da nossa vida. Temos muitos livros em casa, e ele acabou se interessando por isso também”, disse ao O SÃO PAULO.


Durante a gestação de Bernardo, Thiago costumava brincar com sua esposa que, se a criança não gostasse de livros e de futebol, seriam duas grandes frustrações. Segundo ele, a primeira questão foi resolvida, pois o menino cada vez mais se interessa pela leitura e, mesmo com tão pouca idade, já consegue ler algumas palavras. Com a segunda, o pai não teve tanta sorte.

QUANTO MAIS CEDO MELHOR


A quarta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, desenvolvida pelo Instituto Pró-Livro e o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), publicada em 2016, revelou que o incentivo à leitura, já nos primeiros anos da infância, é fundamental para que as pessoas cultivem esse hábito ao longo da vida. 


Do total de brasileiros não leitores, 83% não foram incentivados quando crianças. O mesmo levantamento apontou que o grau de escolaridade influencia nesses resultados. Filhos de pais que possuem menor instrução acadêmica leem menos do que os de pais que possuem escolaridade avançada.

VIAGENS INESQUECÍVEIS     


Os pais de Bernardo têm a preocupação de que o livro seja um componente a mais de diversão, e, por isso, visitar bibliotecas e livrarias faz parte de muitos passeios em família.


Thiago recordou-se de uma viagem à cidade de Santos (SP), em que eles levaram o menino para conhecer a biblioteca do Serviço Social do Comércio (Sesc). Em meio a tantas opções, Bernardo decidiu ouvir a história da “Bruxa Salomé”. A princípio, o pai achou que o filho sentiria medo, pois a narrativa é sobre uma mãe que teve os filhos enfeitiçados por uma bruxa.


O que ocorreu foi exatamente o contrário: ao entender que não poderia levar o livro para casa, Bernardo passou todo o fim de semana pedindo para ouvir a história novamente. A insistência foi tanta que, ao retornarem a São Paulo, já à noite, a primeira coisa que os pais fizeram foi procurar o livro para presenteá-lo.

DORMIR COM UMA HISTÓRIA


O jornalista falou que mais do que a prática da leitura, ler para e com o Bernardo é importante para o desenvolvimento lúdico do filho, e que, por meio das histórias e da imaginação, todos são levados a lugares ainda não descobertos.


Por isso, Thiago acredita ser essencial o exemplo: “É muito difícil uma pessoa que não lê, de uma hora para outra implantar isso. Eu acho que ter um filho é uma oportunidade de mudar hábitos, de fazer outras coisas, e a leitura é uma delas”, continuou. 
Todas as noites, Bernardo ouve a narração da história de um livro e outra criada por seus pais, hábitos que Thiago aconselha a todas as famílias, mesmo àquelas com a vida bem dinâmica.

HÁBITO CULTIVADO EM FAMÍLIA


Segundo a psicopedagoga Juliana Vieira Costa, o entusiasmo com livros na infância não deve estar atrelado, unicamente, ao processo de aprendizagem escolar: “A leitura é importante para o crescimento pessoal de qualquer indivíduo, e é por meio dela que a criança irá se tornar um cidadão crítico, com pensamentos criativos, e mais comunicativa. O primeiro contato deve ocorrer no meio familiar”.


Esse estímulo, de acordo com a psicopedagoga, deve ser pautado no exemplo e no acompanhamento da leitura. Juliana também alertou que muitos pais têm dificuldade de iniciar esse processo devido à falta de tempo e à não priorização da leitura:  “Enquanto a leitura for vista pelas famílias como uma imposição, jamais a criança a buscará. Tudo o que é imposto não caminha, ela tem que ser vista como algo leve e prazeroso”.

LEITURA E TECNOLOGIA


O acesso excessivo à tecnologia, justamente pela falta de tempo de pais e mães, tem acarretado problemas no desenvolvimento cognitivo das crianças. Juliana reiterou que crianças que leem constantemente possuem um vocabulário mais amplo e escrevem melhor, enquanto aquelas que apenas utilizam o celular, tablet e outras tecnologias apresentam um repertório de escrita limitado.
Outro fato é que cada vez mais a escrita das crianças é parecida com a digitação, com o uso de gírias e abreviações, e assim, quando a leitura de um livro for necessária, mesmo que apenas para alguma tarefa escolar, será vista por elas como uma imposição negativa.

OPORTUNIDADE DE COMEÇAR
Ana Luiza Masi é casada com Breno Masi, com quem teve três filhas: Bruna, Clara e Alice. Por não ter sido incentivada quando criança a ler, hoje ela tem a preocupação de mudar essa realidade. A leitura entre as quatro mulheres da casa começou com os livros mais simples. 


A mãe reconheceu que toda mudança de hábito requer disciplina e disse estar atenta para não se distrair enquanto lê com as filhas.

VÍNCULO AFETIVO
A leitura entre elas é, para Ana, também a oportunidade de estreitar os vínculos familiares. O mais comum é que façam a leitura compartilhada, em que cada uma lê uma parte da história: “É um momento de mais contato, de mais vínculo, um momento nosso mesmo, de interesse do que ela está fazendo e o que eu estou fazendo junto com ela”.


Para manter a proximidade e aproveitar da melhor forma possível esse momento, é necessário, segundo ela, estar atenta às narrativas que são interessantes em cada uma das fases, pois quando o que se lê e o que se escuta passam a fazer sentido para a criança, as coisas começam a fluir. 

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